Notas iniciais
Curtinha, momento drama e one-shot. Serve?

Ele sabia que o para sempre tem fim.

Ele sabia que as coisas nunca são como esperava que fosse, que nunca poderiam ser exatamente como ele havia traçado – desde o início até o fim.

E a ausência do outro apenas lhe consumia o interior a cada dia que passava, dando à ele a infelicidade e a dor que conhecia tão de perto, ali, diante de si, naquele túmulo em mármore, com o nome do único que amou por toda a vida.

Não queria entender o porque da solidão ser o sentimento mais insólito e inexplicável, perdendo apenas para a morte quando se referia a essas características. Não queria entender e não podia; sua vida não lhe deixava mais nada que pudesse usar como argumento para compreender a solidão à que estava fadado a viver.

E, como num dia de sol que rompe as nuvens cinzentas e tristes da chuva, seu sorriso apareceu gentilmente e tão tímido no canto dos lábios ao tocar levemente as rosas brancas sobre a placa de mármore, suspirando.

Tantos dias em claro, pensando no porque de estarem separados... Tantos meses sem conseguir sair de casa, sentindo a mesma dor de abandono que sentiu ao saber da notícia... Tantos anos... Contemplados com a incerteza do significado daquilo tudo, a morbidez da vida sem sentido, a divagação suave que percorria suas noites mal dormidas e seu rosto marcado por silenciosas lágrimas que lhe machucavam interiormente a pele.

Ah, tanta dor e tanta memória lhe passando pela cabeça, mal podia colocar tudo na ordem, lembrar corretamente a data de cada acontecimento... Só lembrava-se na noite em que fora chamado para ir a casa dele, onde ele morava com a esposa e o filho menor, que não tinham nem noção da proximidade deles...

Sim, seu amor era escondido, mas era quente e reconfortante como uma tarde bela de primavera que chega tranqüilamente às vésperas do verão; seu amor era tal qual um belo jardim florido, em que, cada dia mais, sentiam vontade de cultivar suas flores e suas cores, cuidando de cada tonalidade, principalmente do vermelho – a cor preferida do casal.

O homem abaixou levemente a cabeça e manteve seu sorriso – estar ali significava muito mais do que apenas trazer flores, era a representação perfeita do amor que partilhavam -, seus olhos cerrando-se por um instante e um suspiro morno, calmo, fugindo de seus lábios.

Lembrava-se bem de uma coisa: no velório, quando chegou, sem dizer uma única palavra e identificar-se... Só aproximou-se do caixão, sorriu e murmurou “eu te amo para sempre, como nós prometemos...”. Suas lágrimas não caíram, seu rosto continuava sereno e suas mãos sequer tremiam.

Não era muito, mas a promessa que fizeram naquele inverno (em que ele dissera a esposa que ia viajar a trabalho) já valia por tudo mais que poderia fazer ao vê-lo lá, sem vida, preso àquele negócio de madeira fechada... Ele sempre dissera que não gostaria de ser enterrado, ficar enclausurado até o fim dos tempos dentro de um artifício de madeira projetado especialmente para seu corpo, mas seu amante não teve nem tempo de pronunciar-se...

Se ao menos tivesse morrido próximo à ele...

O homem levantou do chão e sorriu abertamente, abraçando a si mesmo e dizendo claramente “Onde você estiver, meu amor... Eu te amo de qualquer forma... E me espere, que logo me juntarei a ti...”, como se estivesse sendo parte da encenação de Romeu e Julieta, preparando-se para beijar os lábios do amado antes de matar-se com a adaga.

Olhou em volta uma ultima vez e, onde quer que aquele moreno estivesse, ele sabia que estaria aguardando-o.

Leva-me contigo, amor...

Leva-me e deixa-me prosseguir à seu lado...

Notas finais
Bom, eu não escutei nenhuma música, e, se vocês lerem no vazio do silêncio, começa a fazer mais sentido a cada uma das palavras contidas aqui (que, na verdade, expressam uma parte do meu interior.), então... é uma sugestão.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!