Notas iniciais
"Bom dia, boa tarde, boa noite. Seja bem vindo a minha pensão-pousada, quantos dias deseja ficar?" - É a frase que mais falo, exceto quando não estou conversando com os meus hóspedes. Não, não pensem que eu sou uma fofoqueira... Eu sou sozinha, gosto de conversar e, a maioria dos meu clientes acabam encontrando em mim praticamente uma psicóloga. Meu nome é Teresa, tenho 43 anos e vou contar a minha história pra vocês (antes de espalhar as histórias dos outros).

A estudante mais frustrada que você conhece, até certo ponto. Me formei no ensino médio, lá no interior de São Paulo aonde eu morava. Odiava aquele lugar e decidi caçar algo no centro... Aí me formei em canto, abandonei o bacharelado na faculdade na mesma área, cursei só um ano de filosofia e me formei num curso rápido de gastronomia... Não só um mas, uns 15 eu consegui pagar. Eu sempre gostei mais dessas coisas rápidas, que duram no máximo um ano e meio e já é muito. Infelizmente, esta parecia ser a regra da minha vida: nada durava mais que dois anos.

Neste meio termo, me casei, tive dois filhos e me divorciei por detestar a vida de casada. Ser moldada pra lavar-passar-cozinhar e ficar trancada em casa cuidando de criança, me tirava o sono e me afundou numa depressão desgraçada. Cuidando dos pequenos, com diferença de 3 anos pra cada, era uma luta muito pesada e, acredito que divorciada, me saí muito bem pra uma mãe solteira. O pai era presente, eu é que não fazia questão dele na vida dos meninos. Mandava o dinheiro, eu retornava com as notas fiscais de leite, fraldas, roupas, lenços e toda a tralha necessária... Fazia questão de provar que eu era uma mãe incrível, que eles eram saudáveis e limpos, que eu não usava dinheiro pra nada fora disso.

Deu que o tempo passou e eu fiquei sozinha, de verdade, de uma vez por todas. Ser mãe aos 23 me deu um senso de maturidade maior, mesmo deprimida por não poder mais sair, beber muito, me ausentar e ter paz. Não, nunca mais. Eles tem 20 e 18 anos... Imaginem! Eu com essa idade dava mais que chuchu na cerca, bebia feito uma condenada alcoólatra caindo nas calçadas, fazendo bagunça. Se eu, mulher, fazendo tudo isso já penso que seria preocupante para os meus pais, imaginem esses rapazes, com essa liberdade machista que ninguém cogita e faz pior, incentiva!

O mais velho até que é mais tranquilo, seguiu os passos da trilha que eu abandonei como musicista, e toca violão, baixo, canta, escreve... Meu orgulho. O mais novo é serelepe, gosta de cozinhar mas não tem aqueeeela dedicação, nem sabe ainda o que quer fazer da vida, e eu não o pressiono. É uma covardia deixar um adolescente recém abandonado da escola deixar escolher por algo que decide a vida inteira dele... Eu que o diga.

Certo, pensem "Teresa, você é gastrônoma e está aqui nessa pensão?" — Correto. Cansei dos restaurantes, da correria do inferno de quente que é uma cozinha, as pessoas gritando por pedidos, por louças, por algo errado e por algo certo. Como investi muito em mim, recebi com muito esforço (não fale de sorte perto de mim, não acredito nisso) tudo de volta e ainda mais. Suficiente pra, junto com o pai dos meus filhos, sustentá-los, ter casa, comida e roupa lavada com conforto mínimo. Eles tem as roupinhas deles, os instrumentos, livros, cds, celulares, video-game, os jovens não mudaram muita coisa em questão material — e graças a mim, estão longe de serem fúteis ou ignorante como a maioria. Eles já saem, são donos do nariz, eu quis dar essa independência logo pra me ver livre da maternidade. Vou falar a verdade, meus filhos são tudo na minha vida, mas ser mãe, desculpa o palavrão, é uma merda.

Eu ainda não terminei, não é? Já que eu cansei dos restaurantes, decidi hospedar gente. Aprendi a gostar de pessoas, da diversidade delas, dos gêneros, histórias! É tudo fascinante pra mim. Comprei esse prédio, uma pechincha só porque não tinha escritura. Esperei uma boa oportunidade e a fiz por um preço acessível... Demorou mas, essa oportunidade veio e ainda tive de reformar, chamar avaliação sabe, de vigilância sanitária e essas burocracias inúmeras. Abri a pensão-pousada e meti um preço acessível... Aqui não é nenhum cinco estrelas mas dá pra morar tranquilamente. Aceito criança, cachorro, gato, poxa vida... Quando eu procurava lugar pra morar, ninguém queria os meninos, tem cabimento? Nunca concordei com isso. Confesso que já ajudei ótimas pessoas, abriguei gente que não podia pagar, já tomei calote, já fui assaltada... Essas coisas acontecem, é inevitável.

Eu sempre fui uma mulher muito apaixonada, mesmo com a frente fria que congelou meu coração e me fez ficar azeda quando os meninos eram bem pequenos. Nunca maltratei, nunca bati e nem xinguei nenhum dos dois, mas haviam dias que os dois choravam juntos, esperneavam, quebrava o brinquedinho do outro, era um inferno. Era a mãe brava que, quando os amiguinhos viam na rua, se encolhiam. Contudo, quando cresceram e tomaram suas decisões sobre o que vestir e o que comer no café da manhã, se tornaram parceiros inseparáveis da mamãe. É muito mais leve, sou grata por ter meninos. Morria de medo de ter menina porque não sabia se iria ensiná-la direito a se proteger da maioria dos canalhas malditos que existem no mundo... E eu não iria aguentar vê-la chorando, querendo morrer, sendo influenciada, deprimida, por causa de homem, como eu fiquei durante muito tempo.

Assim que fiz os trinta e poucos, já deixava os meninos com a vizinha, dava um troco pra eles e claro, a ela. Eu voltei a ser aquela adolescente retardada de dezoito anos, bebendo, curtindo balada, só que mais refinada, com caras mais velhos ainda... Tinha trauma de garotão, já que o pai do meu filho tem a mesma idade que eu. As vezes pintava um aqui e ali, esses que curtem as mais velhas. Que situação, jamais imaginava essa de ser sugar mama. E falando em pai dos meus filhos, ele está muito bem. A gente quase nunca se vê, além dos aniversários dos meninos e formaturas, apresentações, essas coisas. Nem contrato na justiça a gente tem, de divórcio, casamento, guarda dos filhos, nada! Sempre confiei nele, apesar de muito tempo tê-lo acusado de arrasar minha vida ilogicamente. Não mantive mais contato direto desde que uma das recaídas fez o favor de mandar mais uma criança pra minha vida. E antes que vocês perguntem, não, eu não sinto mais nada além de respeito e certa gratidão a ele.

Hoje, meus meninos Miguel e Zacarias, estão bem também. Incrível como sobreviveram há vinte anos comigo! Eu pensei que não ia dar conta mas, estão aí, de bom caráter e bom coração. Miguel, o mais velho, divide um apartamento muito bonito com a namorada lá no Rio... É ele quem vem mais me visitar aqui, geralmente só vou lá nos finais de ano ou almoçar com a família da minha nora, Rafaela, que moram na zona sul de São Paulo. O Zacarias, que eu chamo de Zac, vocês não vão acreditar. Na época todo mundo mais velho estranhou um bebê com esse nome e achou que eu era fã de um personagem humorístico, de sei lá, quando, mas de bem antes d'eu nascer. Mas na verdade era por causa de um personagem de uma novela que eu acompanhei na gravidez todinha do Miguel! Zac era um músico, por ironia, e vivia no Rio, acreditam? No final, Miguel quem é meu músico e residente carioca, enquanto o meu Zac mora num alojamento para estudantes da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo!!! Um orgulho só! Ainda bem que meus filhos foram estudar, diferente de mim, eles tem disciplina pra terminar as coisas longas.

Os dois não me visitam muito, mas tudo bem, eu também não era grudada com os meus pais. Não que eu seja chata como a minha mãe era, mas eles sabem que podem vir quando quiserem, e quando puderem... Muito ocupados. Aí eu fico aqui, no prédio, limpando tudo, cozinhando um pouco pros hóspedes, sabe, os almoços e jantares especiais lucram bem. Só é especial porque não faço todo dia... Mas eu capricho! Sempre tem muito o que fazer, então não tenho tempo pra tristeza, solidão. Uma que, eu gosto de ficar sozinha.

Espero que essa sua estadia seja muito prazerosa, que goste de ouvir as histórias marcantes que eu dessas pessoas e deste lugar. "Se precisar de alguma coisa, é só me interfonar na recepção ou bater no quarto 6, que estarei lá", certo? Mais uma vez, seja bem vindo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.