Inquieto

1 Capítulo 1


Está chovendo...

Deve ser novembro ou dezembro de algum ano que não me recordo.

Sei lá.

Isso já não importa mais.

Já deixei de contar e acompanhar meus dias há muito tempo.

Ou será que foi recentemente?

Sei lá.

Isso já não importa mais.

Eu acordo desorientado por um forte barulho vindo de um pouco mais a minha frente, o barulho é alto demais, como se ecoasse cada vez mais por esse beco, e mais ainda por minha cabeça vazia, mas espera um minuto, o que estou fazendo nesse beco essa hora da madrugada, e por que estou deitado aqui?

Um homem corre em minha direção, aparentemente assustado com o barulho de sua arma e o estrago que ela traça em seu caminho. O beco está muito escuro, como se as luzes da cidade e o brilho da lua não alcançassem aquela pequena parte obscura da cidade. Estou mais que escondido nessas sombras que me rodeiam, está tão escuro que não sou capaz de ver minhas mãos a minha frente, mas esse homem também não vê nada, tropeçando em mim e caindo no chão.

Ainda anestesiado e pouco lúcido nessa hora, vejo esse homem correndo desse beco e desaparecendo de minha vista, mas não antes do mesmo me chutar e me chamar de estupido e que não deveria ter aparecido àquela hora.

Ergo meu braço para ter uma noção de que horas são, mas o simples levantar de meu braço dói, olho meu relógio, são 11:15, me levanto devagar pois estou muito dolorido, gostaria de saber o porquê. Mas a minha vista uma arma de grosso calibre esta jogada perto de uma lixeira, meio escondida, suspeito que o homem possa ter derrubado ela enquanto tropeçava em meu corpo jogado nesse beco. Decido pegá-la para me proteger caso ele volte e perceba que esqueceu algo um pouco importante.

Resolvo procurar mais objetos caídos, tais como uma carteira, documentos, ou qualquer outra coisa que fosse importante naquele momento. Minha busca não resulta em nada, visto que não enxergo nada e minha cabeça não esta no momento perfeito para eu fazer qualquer coisa que preste, pois ela dói demais, como se alguém tivesse batido nela repetidas vezes, e ainda continua a fazer isso, e me parece que ela não vai parar tão cedo de doer.

Desisto de procurar alguma coisa útil, e percebo que a melhor coisa que posso fazer agora, é chamar alguém que realmente saiba procurar algo, tipo polícia e essas coisas.

Mas uma mulher gemendo de dor me chama a atenção, eu corro até ela, mas fico tonto e me apoio na parede, pois meu corpo não consegue correr em linha reta, devido a algum motivo que não sei porque.

Caminhando rapidamente ate a mulher, mas prestando mais atenção no meu corpo para não desmaiar, tento falar com ela.

—O que houve? — Pergunto eu.

Aquele barulho que escutei a alguns minutos atrás, descobri finalmente de onde viera. Se tratava do barulho da arma disparada contra o peito da mulher que vazava sangue sem parar, tento manter a calma por ela, pois é visível que ela teme pela sua vida.

Devo ligar para a ambulância. Verifico se meu telefone se encontra em algum bolso meu, mas faço isso em vão, pois meu celular não está comigo.

—Você tem algum celular? – Pergunto a ela.

Assustada, seus olhos não param de se arregalar olhando para mim, mas nenhuma palavra é dita. Mas ela aponta para sua bolsa, começo a pensar como um homem atira em outra pessoa e visto que o crime já foi cometido, não leva a bolsa já que todo o transtorno já estava feito. A mulher me aperta e volto a realidade. Seu celular estava meio trincado devido a queda, mas foi o suficiente para eu ligar para a emergência. O celular chama, e ao primeiro toque uma mulher me atende e me pergunta onde eu estou.

—Emergência, onde o senhor ou senhora se encontra? – O outro lado me pergunta.

—Moça, tem uma mulher caida no chão, com um tiro no peito e com muito sangramento, você pode chegar aqui rápido?

—Endereço senhor.

—Eu estou em um beco, ele é escuro, eu não sei onde estou.

—Eu quero te ajudar senhor, mas preciso de um endereço para enviar o corpo de bombeiros.

—Eu não sei onde eu estou, só tem um beco e uma mulher sangrando aqui, só me envia alguém para ajudar ela.

—Me diga algum ponto de referencia então, algum mercado, igreja ou mesmo alguma coisa que me ajude senhor.

—Entendi, me deixa ver se acho alguma coisa. – Tento me afastar da mulher que me aperta e se agarra ao meu braço como alguém se agarra a vida, seu aperto é muito forte, se esse aperto for tanto quando a dor que ela está sentindo, a emergência deve chegar muito rápido. Tento retirar suas mãos de mim calmamente, mas ela não me solta. Eu puxo meu braço de uma vez com tudo e ela deixa suas marcas de unha em meu braço.

Percebo perto da esquina em que ela está, uma luz vermelha brilhante, sigo ate ela o mais rápido que posso. Ao chegar até a luz, olho para cima e percebo que esta luz se trata de um neon de um hotel. “Hotel Bela Vista”. Perfeito. Achei o que queria.

—Alô, moça, ainda na linha?

—Sim senhor. Descobriu o nome da rua?

—Da rua não, mas estou na frente de um hotel. “Bela Vista” seu nome. Isso ajuda?

—Sim, muito. Estou enviando dois carros para onde o senhor está.

—Obrigado moça. Muito obrigado. Mas por favor, cheguem logo.

Desligo o telefone, e volto ao lado da moça caída em seu próprio banho de sangue para esperar junto a ela sua emergência. Me sento ao lado dela, ela está tremendo muito e fica cada vez mais pálida, que cena horrível, vou tentar colocar sua cabeça em meu colo, para alguma tentativa de comunicação.

Coloco sua cabeça em meu colo, e seguro sua mão. Ela aperta minha mão muito forte, e eu só consigo pensar onde está o socorro. Lhe digo que o socorro já está vindo, mas também pergunto a ela se ela não consegue falar alguma coisa. Sua resposta não é nada agradável pois só gemidos de dor são escutados por mim. Ela não para de ficar pálida, e sua força vai diminuindo, ela vai soltando sua mão da minha, até que ela me solta de uma vez.

—Fica comigo. – Tento dialogar com ela. – Fica comigo.

A mulher não me responde. A mulher não aperta mais minha mão. Ela nem sequer mais meche seus olhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.