Notas iniciais
Chegamos à metade do Inquérito, e as coisas prometem ficar ainda mais pretas de agora em diante.

Era pelo visor de seu laptop que Kyoma observava os investigadores relatando sua nova descoberta para Luana, sua colega e atual suspeita. A adolescente permanecia de pé, parada na frente da mesa do diretor, onde o policial permanecia sentado, com uma expressão assustada e um nervosismo evidente. O diretor, ao lado dela, lançava um olhar chocado e compadecido ao mesmo tempo. Era visível o medo da garota, que estava controlando sua respiração e também suas lágrimas.

Aos poucos, Luana recobrou seus sentidos e respirou fundo, olhando de relance para todos na sala e voltando a encarar o investigador.

– Não.

– Mas suas digitais estavam lá. Como acha que pode me explicar isso?

– Eu não sei. — a adolescente tentou justificar, com a voz embargada e o rosto coberto por lágrimas. — Eu peguei naquela garrafa, mas eu não matei ninguém, eu juro!

– E tentou?

– Não. Quer dizer... não, eu não tentei.

– A senhorita não está sendo clara.

– Eu peguei a garrafa, eu quebrei ela na cabeça dele. Mas eu juro que eu não queria matar ele.

– Você não queria. Mas matou?

– Não! Ele só desmaiou, eu vi. Depois eu subi correndo para o meu quarto e ouvi uns barulhos estranhos. Achei que ele tivesse acordado, então eu me tranquei lá dentro e só.

– Por que você agrediu seu padrasto?

– Eu não quero falar sobre isso. Não agora.

– Muito bem. E o que você quer?

– Eu quero ir para casa. Por favor.

– Seu horário de aula ainda não acabou. Vá tomar uma água e não saia do perímetro escolar. Eu mando lhe chamar de novo quando precisar.

Luana, ainda catatônica, saiu de lá de imediato e correu para o banheiro, aproveitando o vazio para terminar de descarregar suas lágrimas inundadas de medo.

...

"Investigador: Sr. Cadori, eu vou lhe fazer uma pergunta bem específica: a irmã de Verônica tinha algum motivo para querer o dr. Olavo morto?

Diego: Eu nunca falei com a Luana, não sei.

Investigador: Vou mudar a pergunta, então. Na análise das unhas da vítima, nós encontramos fragmentos da pele da sua amiga, o que significa que ele a arranhou. Sr. Cadori, eu teria motivos para acreditar que você mentiu em um de seus depoimentos?

Diego: Eu... eu só não achei que deveria falar nada.

Investigador: E como era realmente a relação dos dois?

Diego: Desculpa, eu não posso falar sobre isso.

Investigador: É um assunto delicado, não é?

Diego: O que?...

Investigador: Nós ouvimos o depoimento da antiga empregada dos Albertoni, e ela afirma ter visto o padrasto de Verônica abusando da garota quando ela saía do banho. Quando descobriu que a empregada havia os visto, segundo ela, ele a demitiu e ameaçou sua vida. Se você me disser que ela mentiu, eu mando uma viatura agora mesmo atrás dela. E então?

Diego: Ela... ela não mentiu. Eu vi o que ele fez.

Investigador: A agressão?

Diego: É claro que não! A Verônica me mostrou umas... umas marcas que ele deixou na... nela. E os hematomas que o Breno viu no braço dela, também foi o Olavo quem fez.

Investigador: Foi bom você tocar no assunto do sr. Avelar. Ele disse em depoimento que viu Renan discutindo com Verônica no mesmo dia em que ele viu a marca no braço dela. Por quê?

Diego: Quando o Breno falou com o Renan, ele ficou achando que a Verônica tinha ficado com outro cara. Ele me perguntou, e aí eu quase falei sobre o Olavo. Ele entendeu tudo errado, por isso os dois brigaram.

Investigador: E ele soube sobre o dr. Olavo?

Diego: Soube. Mas, antes que o senhor pense qualquer coisa, ele não matou o padrasto da Verônica. Ele ficou com muita raiva, eu também, mas ele não faria nada que prejudicasse a Verônica. Nem ele e nem a irmã dela."

Enquanto Luana permanecia apática no banheiro, Kyoma já havia publicado o vídeo com frações de cada depoimento, com Alice Practice, do Crystal Castles, de fundo e se encerrando com a descoberta da polícia sobre a colega. Valentina, ao receber a notificação do vídeo e perceber que todos os outros estudantes também recebiam, mandou uma mensagem para Luana imediatamente, com o link do vídeo e um recado compadecido. Era uma pena já ser tarde.

No tempo em que a adolescente, de dentro do banheiro vazio, assistia ao vídeo intrigante que, além de sua confissão, continha também imagens como o trecho da conversa de Ingrid e Isabele, a escola inteira já havia o visto e tirava suas próprias conclusões. Recomposta, Luana saiu do banheiro e a primeira pessoa com quem se deparou foi Ingrid, que já não era sua figura predileta. Esta lançava um sorriso maldoso para a garota que, sem muito o que fazer, acabou tendo que ouvir os comentários grotescos da inimiga menosprezada de sua irmã.

– Ei! Eu assisti ao vídeo. Então quer dizer que sua irmã não é a única psicótica na família Albertoni?

– Não estou te entendendo, e nem faço questão.

– Ah, mas eu faço. Eu estou falando sobre, primeiro, a sua irmã ter surtado e fugido de casa e, depois, você ter matado o marido da sua mãe. Realmente, pelo histórico mental das duas, acho que já posso esperar qualquer coisa dessa família.

– Nunca mais fala da Verônica...

– Ou vai fazer o que? Me matar? Afinal, por trás desses olhinhos verdes e dessa cara pálida, isso é o que você é.

Luana se calou, reprimida ao ouvir o pensamento de Ingrid que, muito provavelmente, era compartilhado por muitos outros estudantes. Diego acabava de sair da diretoria e, ao olhar para o lado, viu apenas a expressão cínica de Ingrid contra o olhar repreendido de Luana. Ciente da inconveniência da colega, ele foi até as duas, mas tarde. A adolescente se desviou de Ingrid e saiu correndo pelo corredor, desaparecendo da vista de ambos instantaneamente. Diego, após um tempo tentando acompanhar o trajeto de Luana, se virou para a colega e lançou uma expressão frustrada para ela, que reagiu com extremo cinismo.

– O que foi que você disse pra ela, sua maluca?

– Eu? Nada. Só comentei sobre aquele vídeo, não sabia que ela ia ter essa reação tão exagerada.

Diego revirou os olhos e, imaginando as besteiras que Ingrid poderia ter dito, correu pelo corredor, decidido a encontrar a irmã de sua amiga em algum lugar.

...

Sem investigadores. Esse era o estado da escola no restante daquela aula. Depois de ouvir Diego, a polícia se retirou para estudar suas novas evidências e a sala de Alfredo finalmente estava livre. Após ligar mais uma vez para Branca, a mulher finalmente ouviu suas súplicas e foi até o colégio, sem fazer conexões e indo diretamente para a diretoria.

Kyoma, atento, assistia a tudo. Branca e Alfredo mal conversaram antes de demonstrar, em frente à microcâmera implantada pelo adolescente, o que eles realmente eram. Amantes ardentes, em poucas palavras. O garoto, de dentro da cabine do banheiro, ficou vermelho e suou só ao ver o encontro dos dois, mal conseguindo piscar. Era até estranho imaginar Branca Albertoni e Alfredo Pascoal, uma empresária bem-sucedida e um diretor de escola desinteressante, como um casal. Mas, quando eram apenas os dois, era isso o que eles eram. Mesmo sendo improvável, os dois se amavam do jeito mais honesto.

As lentes de Kyoma acompanharam cada instante do encontro tórrido dos dois, sem conseguir acreditar no que reproduzia. E esse prometia ser mais um de seus furos de reportagem, com recorde de exibições certo.

Nos fundos da escola, encolhida e escorada na parede bordô desbotada, Diego finalmente encontrou Luana. A garota abraçava suas pernas encolhidas e chorava, talvez mais do que desejasse. Ele se aproximou lentamente, tentando não a assustar.

– Achei que não fosse te encontrar. — ele se pronunciou, a despertando.

– Era a ideia.

Diego se sentou ao lado da adolescente e tentou a encarar, enquanto ela, por sua vez, permanecia fitando o nada.

– Eu não sei o que a Ingrid disse, mas sei que ela está errada. E, sobre aquele vídeo, não significa nada. Esse Espantalho Jack é só um idiota, mais um.

– Eu sei. Não é com isso que eu estou preocupada.

– E é com o que?

Receosa, Luana se virou para Diego e colocou seus cabelos castanhos escuros para trás, o fitando fixamente.

– Minha irmã confia em você, né?

– Acho que até mais do que eu gostaria. — ele confirmou, com um pequeno riso. — Por que?

Luana colocou sua mão no bolso do blazer escolar e tirou de lá o bilhete que Verônica havia deixado, o entregando a Diego.

"Lua,...

Se estiver lendo isso, provavelmente já estou longe. Me desculpa por não falar com você antes, ou te enfiar no fundo da minha mochila, mas eu não podia mais ficar. Prometo tentar reverter esse erro em breve.

Se você ainda não tiver desistido de mim, me encontre no dia do aniversário da sua primeira tartaruga, a Frida, na casa da vovó. De qualquer forma, me prometa que vai se comportar.

Com amor e saudades precipitadas,

V."

Diego estava um pouco sem reação, olhando para o bilhete e pensando. Luana notou a viagem mental do garoto e permaneceu o encarando, com certa curiosidade.

– Tudo bem?

– Sua avó mora na Moema? — ele perguntou, pegando seu celular.

– Sim, no Jardim Pensilvânia. Por que?

Diego, com a mente iluminada, abriu uma mensagem que havia recebido duas madrugadas atrás, quando Verônica desaparecera. "12/9, casa amarela no Jardim Pensilvânia. Minha irmã saberá onde ir."

– O número é desconhecido, mas eu acho que pode ser da Verônica.

– 12 de setembro. É o dia do aniversário da Frida.

Um silêncio invadiu a conversa e os dois se encararam, sem saber ao certo o que dizer. Luana, ao pensar que em breve reencontraria a irmã, sorriu, contagiando Diego instantaneamente. Afinal, por que não?

...

Viral. Esse era o nome que melhor definia o vídeo postado no site do Espantalho Jack, às 14:50, dez minutos antes do fim da aula. Este foi espalhado ainda mais rápido do que o primeiro, exclusivamente sobre a morte de Olavo. O assunto da vez continuava a ser os Albertoni, mais especificamente Branca. Outro que passava a ocupar a guilhotina, aos olhos dos estudantes e da polícia, era Alfredo. Levando em consideração os fatos novos, o diretor poderia muito bem ter se livrado do único obstáculo entre ele e a amada.

Na diretoria, os investigadores mantinham seus olhares fixados em Alfredo, o pressionando psicologicamente como estratégia para obter alguma informação relevante.

"Investigador: Há quanto tempo o senhor mantem relações com a sra. Albertoni?

Alfredo: Pouco mais de um ano.

Investigador: E o marido dela suspeitava?

Alfredo: O dr. Olavo sabia, sim, sobre nós, mas nunca se ocupou em fazer nada. Na verdade, ele também tinha lá suas puladas de cerca.

Investigador: É assim que o senhor define sua relação com a esposa do sr. Albertoni?

Alfredo: Não. Eu amo a Branca, independente de quem seja o marido dela. O companheiro ainda sou eu.

Investigador: E, agora que o marido dela está morto, presumo que vocês terão um obstáculo a menos para os perturbar. Estou certo?

Alfredo: Eu não usaria essas palavras, mas sim.

Investigador: Sem peso, sem culpa?

Alfredo: A viúva é ela, e não eu."

"Investigador: Sra. Albertoni, me perdoe a colocação ofensiva, mas a senhora sabe que você e seu amante teriam todos os motivos para ter matado o dr. Olavo, principalmente a senhora.

Branca: Sim, eu sei.

Investigador: E algum dos dois o fez, ou cogitou?

Branca: Não. Se eu tivesse estômago, talvez teria feito. Mas, honestamente? Meu marido era o tipo de pessoa que te dá nojo até de matar.

Investigador: Suas digitais foram encontradas no corpo da vítima e, na análise das roupas que o sr. Pascoal estava usando na noite do crime, foram encontradas digitais do dr. Olavo. Não é muita coincidência?

Branca: Não. Como eu já lhe expliquei, eu passei as roupas dele naquela noite. Algumas horas antes, ele encontrou com o Alfredo na rua e o atacou.

Investigador: Por quê?

Branca: Pelo mesmo motivo pelo qual eu estou aqui agora. Você assistiu ao vídeo, não me obrigue a dizer. Agora, se não for pedir demais, eu gostaria de saber sobre a minha filha.

Investigador: Algum problema em falarmos sobre a morte do seu marido?

Branca: Com a minha filha desaparecida? É claro. Eu não estou preocupada em saber quem matou o Olavo. Eu só quero encontrar a minha filha."

...

Ao chegar em casa, depois de um depoimento cansativo e perturbador, Branca se sentia finalmente em paz. O silêncio em seu quarto deixava a ela uma brecha para respirar e colocar sua cabeça em ordem. As imagens de seu marido morto, querendo ou não, permaneciam em sua mente, a enlouquecendo aos poucos. Anos antes, ela teria o colo aconchegante de sua mãe para acalmar sua angústia. Agora ela não tinha nada.

Foram menos de dez minutos estirada na cama. Menos de dez minutos até que Luana, com uma expressão atordoada e nitidamente frustrada, aparecesse em sua visão, a encarando duramente.

– Não quer me explicar nada?

– Não acho que eu deva qualquer tipo de explicação para a minha filha.

– Tem certeza?

– Luana, o que você quer que eu diga? — Branca indagou, se levantando e respirando fundo antes de encarar a adolescente.

– Bom, você poderia começar me explicando o que eu vi.

– E o que você viu?

– O que eu vi? O que todo mundo viu! — a garota gritou, alterando também o estado emocional da mãe. — O vídeo em que a minha mãe aparece transando com o diretor do meu colégio!...

– Veja bem como você fala comigo, menina! Eu ainda sou sua mãe, caso tenha se esquecido.

– Quem me dera.

– Você acha que sou só eu quem deve respostas aqui? E o que os investigadores me disseram, sobre você ter agredido o Olavo?

– O que você vai me dizer, que eu estava errada? Sabe qual é a pior parte? Você já sabia. Você sabia que o seu marido estava transformando a vida da sua filha em um inferno e não fez nada!

– O que eu podia fazer? Se eu denunciasse o Olavo, ele iria para a cadeia e nós, para a rua. A casa está no nome dele, o dinheiro também, você sabe!

– A gente poderia ir para a casa da vovó.

– Você sabe que não.

– Pode ser. Mas eu ainda acho que a Verônica preferiria morar na rua a ter que passar por aquilo.

– O que você acha? Que eu estava feliz com isso tudo? A cada vez que eu pensava na sua irmã, no que ela estava sentindo, parte de mim ia morrendo. O único motivo para eu não ter desistido de tudo de uma vez foi porque ela me fez prometer.

– Ou por que você só pensa em dinheiro, igualzinho a ele. — Luana palpitou, com um tom de voz baixo e reprimido.

– Luana, dinheiro nenhum é mais importante do que você e a sua irmã. Eu sei que o que eu fiz foi errado, mas os motivos foram os melhores possíveis.

– Mas vocês tinham que ter me falado a verdade. — a adolescente disse, com os olhos brilhantes que sensibilizavam ainda mais Branca. — Eu preferia ter descoberto o monstro que o seu marido era por você do que do jeito que aconteceu.

– Eu sei. — Branca a acalmou, envolvendo a filha em seus braços e beijando o topo de sua cabeça. — Mas eu e a Verônica só queríamos te proteger. Se ele encostasse em você... eu nem sei o que faria.

Mãe e filha permaneceram ali, abraçadas no meio da suíte que, há poucos dias, era de um casal.

...

"Investigador: Na última análise de evidências, além das digitais de Branca e Luana Albertoni e do material da pele de Verônica, nós encontramos fios de cabelo castanho-chocolate entre os botões e a costura da camisa da vítima. Eram seus cabelos, que estavam espalhados no corpo de um homem morto. Qual é a explicação para isso, srta. Isabele Vianna?"

...

Notas finais
Espero que tenham gostado, muchachos!! Não se esqueçam de comentar qualquer coisa que vier na cabeça de vocês. Kiss