Inominável
13 O Passado

– Eu não sei quando eu acordei. Eu realmente não me lembro a data exata. Acredito que a primeira coisa que fiz foi andar por aquela floresta. É muito difícil me lembrar, eu não sabia como era falar então não sou capaz de recordar meus pensamentos, as ações, apenas as emoções...
Elle contava para Sam e Dean o que tinha acontecido. Dona de um tom era doloroso e esforçado em partes iguais. Ela franzia o cenho e por vezes fugia os olhos para o chão ou para o céu.
– Eu não entendo — confessou um Dean confuso.
– Já percebeu que nós pensamos em uma língua exata? Quando está recitando algo em latim, por exemplo, seu cérebro não passa a traduzir a frase para o inglês para que você a entenda e se concentre o feitiço? A fala funciona assim. Precisamos da linguagem para pensar. É como somos capazes de raciocinar, porque dominamos a linguagem. Animais não raciocinam porque os sons que fazem são simplesmente sons de emoção. Como quando gritamos por dor ou prazer. Não é preciso existir uma língua exata para entender isso. É claro que a capacidade de falar também é fruto da capacidade de raciocinar, mas o que a Elle quer dizer é que ela não pode ser capaz de se lembrar de algo que ela não sabia como explicar na época em que sentiu.
– É... Eu acho que é isso. – Elle concordou com cabeça na direção de Sam. Apesar de parecer agradecida pelos esclarecimento sua expressão de atenção revelava que nunca tinha ido a tantos detalhes sobre.
– Eu me lembro de sentir fome. Me lembro que aprender a comer e a beber agua, mesmo dormir e caminhar, foram processos muito rápidos para serem aprendidos, mas ainda sim eu não sabia como fazer, tive que tentar para descobrir. Eu não sei explicar os impulsos que me levaram a tentar. Acredito que seja algo tão intrínseco e selvagem quanto a necessidade de um vampiro de tomar sangue ou um lobisomem de comer carne.
Ela mordeu os lábios em sinal de nervosismo. Entrelaçou os dedos nas próprias mãos. Pelo menos não usava mais luvas.
– Eu andei até quando pude. Pelo o que me disseram no hospital, sobre o estado do meu corpo e principalmente dos meus pés eu devo ter ficado na floresta por quase dois meses. Eles não podiam contar com... Bem... Eu não fico muito tempo machucada então o calculo deles devia estar terrivelmente arredondado para baixo. Pelos meus cálculos, confusos, mas o mais perto que posso chegar de cálculos, eu acredito que os dois meses sejam algo como, dois anos, desde quando acordei.
– Hospital? – questionou Dean em busca de resposta mais concretas.
– Ah sim. O hospital. Em determinado ponto da minha caminhada eu me lembro de ter encontrado uma estrada. O barulho, a nova formula de solo, as máquinas, o movimento, tudo isso me chamou a atenção. A estrada estava em Los Angeles. Fiquei ali olhando até um cara parar o carro. Ele estava tão desesperado, tão incomodado comigo e eu só me lembro de pensar, ou algo próximo de pensar, que ele precisava se acalmar. As palavras, as ações para me convencer a entrada no carro, a irritação dele me deixava desalinhada e eu só estava acostumada ao alinhamento que a floresta me dava. Ele me convenceu a entrar no carro é claro que ele levou uma mulher nua, suja, sem ser capaz de falar, com um olhar perdido e com medo de buzina para o hospital.
Sam e Dean continuavam prestando atenção no assunto de maneira paciente. Elle por sua vez não demonstrava tanta segurança. Seus olhos fugiam dos dele com frequência.
– No hospital eles fizeram todos os tipos de exames possíveis. É claro deram queixa aos policiais, mas nada foi encontrado sobre mim. Nenhuma garota tinha sumido dois meses atrás. De qualquer maneira mais tarde eu também procurei por garotas desaparecidas dois anos atrás. Nada. Nenhuma peça de roupa ou qualquer outro tipo de utensilio humano estava nas proximidades do lugar onde eu teoricamente teria acordado. Meu DNA era humano, antes que perguntem.
Ao mesmo tempo os três começavam a juntar as peças de um jogo estranho e misterioso. Elle repensando o que a assombrava todas as noites antes de dormir. Dean e Sam começando a entender eles mesmos como parte daquilo, ainda que o último pensamento não fosse racionalizado.
– Mas eu não estava nos cadastros. Minha digital, meu rosto, não existia em lugar nenhum. Aparentemente eu simplesmente surgi na floresta. Eles não tinham mais o que fazer. Não tinham nem porque tentar mais. Eu os entendo. Eu não era problema. Não até os primeiros ataques. Vivi por três meses naquele hospital. Aprendi a falar muito rápido, na primeira semana já era capaz de me comunicar, na segunda falava tudo o que eu precisava e em um mês eu conhecia tantas palavras e raciocínios quanto alguém da idade que eu aparentava deveria conhecer.
Sam enfiou a mão dentro do bolso apressado. Enquanto a garota falava colocou o celular para gravar o áudio e usou o mesmo para digitar alguns pontos que o chamavam a atenção. A ira já tinha ido embora dele, mas podia sentir algo de energia de impulsão permanecer, algo que fazia com que ele se incomodasse em ajuda-la.
– O hospital ia me dar alta. Mas me prenderam lá por mais uma semana, o tempo que demorou para me arrumarem um emprego na cidade. Na noite anterior ao dia em que eu ia embora o hospital foi invadido.
Elle apertou os olhos mais uma vez, mordeu a boca também mais uma vez. O rosto contraído fez com que ela se esquecesse de respirar. Suspirou profundamente antes de continuar.
– Vampiros estavam buscando por sangue. Eles tinham a intenção de fazer o arrombamento parecer apenas um roubo estranho de adolescentes ou algo do tipo. Mas eles sentiram meu cheiro.
Dean, atento a cada detalhe que vinha dela, pode perceber que seus ombros estremeceram quando ela disse aquilo.
– O rosto do Dimitri... Vocês se assustariam mesmo sendo mais velhos na estrada do que eu. A forma como ele me olhava... Um pedófilo observando a hora do banho num jardim de infância não transpareceria tanta perversidade.
Elle puxou as pernas para perto do corpo, colando os joelhos aos ombros ao abraçar as panturrilhas. Fez isso sem parar de falar, como se nem ao menos tivesse percebido que parecia querer se defender das próprias lembranças.
– Primeiro ele se adiantou, me mordeu com a mesma fome que eu senti quando comi a primeira fruta naquela floresta.
Ela engoliu em seco abrindo os olhos.
– Sugou meu sangue e eu era capaz de sentir perfeitamente as prezas dele mastigando minha carne. Indo mais ao fundo, subindo e descendo, sem precisar sair da ferida, apenas abrindo mais espaço, encontrando mais sangue. Provavelmente foi a primeira vez que eu entendi o que era dor.
Precisou de alguns segundos para continuar a frase. O final da anterior morreu em sua garganta. O que era muita dor.
– Eu tive o reflexo de me defender. Tentei empurra-lo, tentei sair da cama. Mas ele era rápido e forte. Parou apenas quando percebeu que minutos depois todos os outros vampiros estavam no meu quarto, dois deles sugando-me pelas pernas, um deles pela virilha. Acredito que minha pressão sanguínea tenha diminuido e eles pararam com medo de me matar.
As frases a partir daí começaram a se engasgar na garganta.
– As caras deles... A expressão de todos eles... Eles estavam drogadamente apaixonados por mim. Pelo meu sangue. Era tão claro perceber essa dependência neles. Era mesmo a expressão de alguém fora de si, louco por algum tipo de substância alucinógena. Eles me levaram. E por meses literalmente me beberam.
A voz começava a ficar mais rouca e embargada, apesar dos olhos abertos e alertas não demonstrarem sinal de choro.
– Só tinha um problema. Eles perceberam que eu era capaz de me curar, que meu sangue voltava por mais que me tomassem, que bastava esperar algumas horas entre uma bebida e outra, eles se tornaram reis do próprio castelo. Eu era o ponto que os livrava da caça obrigatória. Eu era a lavoura eterna entregue pelos deuses.
Ele tentava se concentrar. Tentava não pensar nos detalhes de sua vida com Dimitri, Elisios, Koah e os outros. Se esforçava em não transparecer que cada palavra fazia seu corpo reagir acuado de medo. Só as palavras dela mesma a deixavam com medo.
– Dimitri se apaixonou por mim. – ela deixou escapar durante a maré de pensamentos — Os demais também teriam se apaixonado se sua dedicação ao pai deles não fosse tão grande. Eu era o alimento bom que o pai fornece. Obviamente eles me mantinham presa. Primeiro com correntes e depois em um quarto e depois apenas na casa. Eu não lutava mais contra eles. Eu não me negava mais a apenas ficar parada quando quisessem comer.
Teve de fechar os olhos mais uma vez quando uma assombração de si mesma lhe veio a mente. Viu perfeitamente uma bela mulher de longos cabelos negros vagar por uma casa gótica. O vestido longo e branco criando uma linha vermelha ao lado da cocha enquanto andava. O sangue que acabava de ser tirado lutando para fechar o buraco profundo.
– Não me julguem... – pediu falando mais para si que para eles — É claro que meu primeiro impulso foi me defender, mas eu não tinha noção do que era errado ao certo. Depois de algum tempo eu me acostumei com a dor. Não importa o quanto se cure rápido depois. Vai sempre doer.
Com um esforço abriu os olhos e passou então a alternar o olhar entre um Sam compenetrado e um Dean envolvido. Escorreu a mão sobre o rosto, pescoço e colo em meio a um novo suspiro antes de continuar.
–Chegou um ponto em que eles também se acostumaram com o efeito alucinógeno do sangue. Ficavam tão excitados com meu fluido que tornavam a sessão prazerosa... Eles queriam sentir mais coisas e eu não me importava em ter a dor disfarçada com prazer.
Quando seus olhos encontraram os Dean ele não parecia mais tão sério, parecia irritado. Virou o rosto para não encara-la. Ela continuou mesmo assim.
– Eu me acostumei com a minha prisão. Floresta, hospital. Convenhamos, eu não sabia direito o que era ter uma vida. O problema com eles é que qualquer coisa fácil de mais se torna uma bagunça. Eles perceberam que eu estava ficando fraca. Que a frequência não me permitia me recuperar com tanta velocidade. E eles sentiam ainda mais fome conforme se acostumavam ao efeito. Eu tinha acordado algo ainda mais perturbador dentro deles.
– Vampiros já são perturbados por natureza! – exclamou Dean com a voz rouca irritada. Ainda não olhava para Elle.
– Foi pior. As discussões começaram dentro da casa. Eu não era capaz de faze-los entrar em um acordo. Certa noite houve um massacre. Dimitri pediu que eu fugisse da casa que ele cuidaria de todos e depois me encontraria. Eu corri tanto quanto eu podia. Eu não sei explicar o porquê, eu podia ter parado por perto e esperado que ele sentiria meu cheiro ou algo assim. Mas eu queria correr. Mesmo tendo me acostumado a minha família de vampiros eu queria correr. Corri tanto que nunca descobri o que aconteceu ao Dimitri.
Aquela mulher de branco, aquela mesma mulher de branco. Ela queria correr para longe, queria ser capaz de correr em linha reta pela primeira vez em anos. A sensação de liberdade vencia o medo do desapego. Não foram poucas as vezes que olhou para trás, que parou de correr pensando em dar meia volta e voltar para casa. Para o que era a sua casa.
– E então eu estava sozinha mais uma vez. E mais uma vez eu fui encontrada. Por muitas coisas em pouquíssimo tempo. De alguma maneira a casa me mantinha segura de tudo o que eu atraia. Em um mês eu descobri que não era meu sangue. Era eu por inteiro.
Olhou para Dean, mas apesar do outro estar prestando a atenção ainda não olhava para ela. Sam levantou o olhar esperando que ela continuasse.
– Todos os monstros sentiam-se atraídos por mim a sua maneira. Metamorfos acreditavam que eu seria a mãe perfeita para o filho deles ao mesmo tempo que tinham a bizarra mania de se transformar em mim. Eu quase fui estuprada por uma versão travesti de mim mesma. Eu fui mastigada por lobisomens, fui seduzida por sereias, recebi praga de toda bruxa as quais eu dei o azar de cruzar o caminho. Sinceramente vocês não devem fazer ideia da quantidade de deuses menores que existem no mundo.
Sam quis interromper e perguntar porque então a Ira não a tinha tomado. Porque ele tinha sido o escolhido e porque ela tinha conseguido manter a calma de uma maneira tão estranha na igreja. Mas deixou que ela continuasse, apenas anotando “efeito da Ira” no celular.
– Mas do mesmo jeito que eu era capaz de atraí-los eu era capaz de acabar com eles. – a resposta inocentemente dita não foi o suficiente para ele — Aprendi rápido que o desejo deles por mim era justamente a fraqueza de qualquer um deles. Bastava eu ficar parada e eles chegariam até a mim.
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