Inominável

4 Dois X-Burgueres Triplos


– Temos que começar do começo. Vamos olhar a casa de Erick, depois a do Harry e depois vamos entrevistando os que sofreram com os acontecimentos e ainda estão vivos. – Sam torceu a boca, não se sentia confortável com o fato de não ter ideias menos óbvias, algo que na verdade era normal, mas que daquela vez o estava irritando aos poucos. — Se começou com Harry...

– Deve ter começado com Harry. – Dean concluiu a frase de Sam, apesar de estar mais preocupado em bater o pé no capacho da igreja, mais um par de sapatos estava arruinado com tanta lama. Logo viria mais. O céu cinzento anunciava uma nova tempestade para o começo da noite. — Vamos logo para a pensão. Estou faminto. Esses doidos que aguentem mais uma noite sem heróis.

– Dean, você comeu há duas horas... – a impaciência foi o resultado daquele incomodo saindo pela boca.

– Um hambúrguer. – o outro respondeu já dando as costas, sem se importar com o tom autoritário tão normal vindo de Sammy.

Sam tentava se lembrar de Dean passando fome quando criança, uma maneira que explicasse aquele jeito. Fome de verdade e não apenas quando o pai saia e os deixava com salgadinhos.

Ao sentar-se no balcão da pensam, que também era o único bar que servia jantar por ali, chegou a conclusão que não era a falta de comida e sim a grande exposição aquele tipo de comida. O plano dos Leviatãs para a dominação mundial parecia ainda mais genial ao ter Dean como amostra de sociedade para estudos de comportamento.

– Dois x-burgueres triplos com fritas grandes e uma coca-cola refil jumbo. – anunciou a garotinha preguiçosa atrás do balcão. Ela tinha cara de quem só fazia aquilo porque a mãe mandava. O rabo de cavalo de lado, a camisa larga de mais para os seus meio quilos fazendo a fitinha bordo de compadecimento aos mortos ficar torta... Ela era tão o oposto da outra. A garota que metia a mão no seu lanche.

–Hey! – Dean tentou puxar a bandeja, mas não conseguiu, a ladra de comida também tinha as mãos rápidas. Ela não se deu ao trabalho de o olhar nos olhos – Pedido errado docinho. Esse é o meu.

A garota apenas rolou os olhos negros demonstrando toda a sua impaciência, devotando atenção a sua refeição. Mesmo que a palavra certa fosse um belo e sonoro foda-se ela não a disse, apenas saiu andando de volta para a sua mesa, onde puxou a cadeira da frente e esticou as pernas, tomando cuidado para apoiar apenas as panturrilhas e não sujar o acento com lama.

Sam obervou Dean se perdendo na visão. O mais novo soltou um riso fraco. Definitivamente Dean tinha passado tempo de mais olhando para a parte de trás da calça colada da menina, porque agora estava ali, literalmente parado no meio do bar, com os olhos no decote da camiseta branca colada que ela usava, enquanto a magricela feiosa do balcão gritava pela terceira vez o seu pedido.

– Dois x-burgueres triplos com fritas grandes, uma coca-cola refil jumbo e uma salada Ceaser com bacon.

Bacon. Foi a palavra que o fez acordar da analise severa que ele realizava sobre os lábios dela. Perfeitamente desenhados e simétricos com o formato do queixo. Percebendo seus segundos de transe meteu a mão na bandeja, agora a certa, e voltou para a mesa onde Sam o esperava.

– Achou tão interessante assim? – enquanto falava Sam tomou a salada e separou os talheres.

– Que garota come dois hambúrgueres e uma batata grande com uma coca-cola jumbo e ainda pede refil? – tentou disfarçar um Dean gaguejante, mas com o canto do olho procurando um novo vislumbre do seu alvo.

– Eu diria o seu tipo, mas... – começou Sam com mais uma garfada.

Se ela não estivesse tão preocupada em devorar a terceira mordida em vinte segundos perceberia que três mesas atrás uma dupla de garotos a observava sem muitas cerimonias.

– Cara... Eu só... Meu lanche... – titubeou até encontrar a frase que realmente lhe interessava, focando pela primeira vez os olhos no debochado e impaciente Sam – Acha que eu devia tentar? Digo... Com o caso rolando e tudo mais...

– Mas... – continuou Sam dando ênfase a última palavra que tinha dito, o semblante fechado como quem não queria precisar explicar. Apenas suspirou e explicou – Ela provavelmente é um problema, ela pode ser quem estamos procurando.

A coca-cola quase caiu na virada que Dean deu para voltar a olhar para a garota. Os dois pés da frente da cadeira chegaram a sair do chão e apenas quando eles voltaram a estabilizar a cadeira com um baque Dean conseguiu focar Sam outra vez.

– Como assim? Não temos nada ainda...

– Os pés dela. – explicou Sam — O coturno dela é de camurça e aqui vai um detalhe, além de lama, tem folhas na bota dela, ela andou andando pelo bosque atrás das casas. Com certeza ela não é dessa cidade. Quero dizer, o Professor Black disse que sempre chove nessa época do ano por aqui e até o Padre estava usando galocha. Olhe pelo salão, vai perceber que todos também estão usando galochas, até aquela velhinha meio careca ali do lado. – Dean arregalou os olhos percebendo que a velhinha era realmente careca –E o Padre Ledger disse que a cidade não recebe visitantes e... Ela não está usando o lacinho de luto. A casa de do Professor Black fica exatamente na entrada da cidade, com a quantidade de perguntas que ele fez, com os atuais acontecimentos... Eu acredito que ela entrou sem avisar que estava chegando.

– Você está assistindo aquela série de detive inglês com episódios imensos de madrugada de novo? – com uma mordida gigante Dean deu um soco na mesa — É por isso que eu sonho com o príncipe Charles toda noite!

– Dean... A garota... Estamos falando sobre a garota – desconversou Sam torcendo a boca tentando não parecer culpado.

– Ah claro, a garota – mais uma grande mordida no hambúrguer antes de continuar a frase — Tudo isso porque a garota está com o sapato errado e sem a maldita fitinha? Ela não pode ser uma parente preocupada que veio ver o que está acontecendo na cidade? Pode ser... Uma viajante... Fazendo uma parada...

– Ou ela pode ser o problema. Um monstro, uma deusa louca, uma feiticeira... Ela pode ser até uma caçadora. – por cima do ombro deu mais uma olhada na morena, que por sua vez estava mais preocupada com a janela próxima do que com eles.

– Caçadora? – a voz de Dean ganhou um tom sexy que em qualquer relação normal teria deixado o irmão sem graça.

– Eu particularmente vejo mais sentido na primeira versão. Ela é o problema. Se ela fosse uma caçadora... Eu não sei. Ela não tem o estilo sabe. Ela se destaca muito, para quem entrou na cidade pelo bosque. Legging de couro, coturno quase até os joelhos, blusa rasgada para fazer uma regata, jaqueta com spikes, luvas de couro... Ninguém que usa luvas me parece ser confiável...

– Como você sabe o que é uma legging? – o tom de julgamento fugiu de sua boca mais rápido do que poderia prever. Entendia que Sam estava preocupado com o caso, mas não entendia tanto o porque tão preocupado com ela. Pensamento esse que o levou para um segundo momento, porque ele mesmo não conseguia se concentrar nas mortes e se deixava levar pela vontade incontrolável de olhar na direção dela. Ela nem era tão bonita assim. Okay, ela era.

– Dean, por favor... – pediu Sam soltando o som das palavras por entre os dentes, tentando se manter calmo.

– Quer saber, eu acho que ela é uma caçadora. E das gostosas. – o tom de acusação de Sam estava dando no saco, assim vindo tão de repente e tão sem motivos. Geralmente era ele o acusador, o malzão.

Deixando a metade restante do hambúrguer ao lado das batatas Dean pegou um dos celulares. Mastigou enquanto digitava e engoliu enquanto esperava atenderem. Ia dar um jeito naquela chatice e ia fazer isso rápido.

– Garth? – esperou o magricelo responder do outro lado — Fala cara... Veja se consegue nos ajudar. Estamos em um caso e achamos que pode ter outro caçador por aqui também e... Sabe como são as coisas, podem ficar meio bagunçadas. Sabe se tem alguém pela área de Sant Andrea, Virginia... Não? Ham... Só mais uma coisa. Você conhece alguma caçadora que cace sozinha? Deve ser novata. Vinte e cinco, vinte e seis anos... Cabelo preto bem comprido, meio com... Ondas... Peituda... Cinturinha... Uma boca deli....

– Dean! – dessa vez Sam tinha motivos para estar sendo chato e mais uma vez Dean se pegou pensando como que aquilo estava saindo de sua boca. Era até divertido, por isso, riu de canto de boca.

– Pele branca, peso mediano, 1,70 no máximo. – obviamente as últimas informações saíram mais rápido para cortar o assunto. Dean acabou com seu refrigerante enquanto ouvia o outro lado da linha. Depois de uma despedida com um estranho: Eu também estou com saudades cara... – ele desligou o telefone. – Garth disse que se souber de algo liga, mas nunca viu uma caçadora assim... E... Eu tentei ser bem detalhista sabe... Bem... De qualquer jeito ela deve ser nova.

Sam rangeu os dentes impaciente antes de responder.

– Mesmo que ela não seja o vilão do caso e seja... Uma caçadora novata, ela ainda vai ser um problema. Caçadores novatos sempre são problemas.

– Nós nem sabemos com o que estamos lidando ainda. Talvez seja uma coisa simples. A gente ajuda a garota, ela fica agradecida. Eu mostro uns truques para ela... – o sorriso dessa vez não teve vergonha.

– Seria mais sensato se você não se apagasse tanto a um par de... Dean! – anunciou Sam quando olhou mais uma vez para trás.

– Ela está indo embora. – Dean por sua vez estava bem mais preocupado em perde-la — Está pagando a conta.

E a garota realmente estava, parada no caixa, com uma mochila de lona apoiada em um dos ombros.

– Ela não vai dormir aqui e pelo o que a gente sabe só tem aqui para dormir. – já de pé Dean limpava o rosto com um guardanapo – Você sobe, faz suas coisas pesquisas de nerd, digita no seu notebook, encontra o melhor caminho para amanhã e eu vou ficar de olho nela.

– Dean, eu realmente não acho que seja uma boa ideia você falar com ela. – Sam se viu precisando respirar fundo para continuar falando com um tom que não chamasse atenção — Seja sensato. Nós realmente não sabemos o que ela é. Se apresentar pode piorar tudo e...

– Calma, eu só vou segui-la. Não é como se eu fosse chama-la para dormir em nosso quarto... Temos que pensar em quartos separados às vezes sabe...

– Ela está já está na porta!