A consolidação de Renesmee em Forks deu um passo definitivo nos meses seguintes. Além da propriedade imponente na cidade, ela comprou um prédio histórico no centro e o transformou em uma livraria elegante e acolhedora, combinada com a sede de sua própria editora independente dedicada a revelar novos talentos da literatura. A inauguração do espaço tornou-se o assunto da cidade, atraindo jovens escritores e moradores locais.

​Naquela manhã, Nessie estava em seu escritório no segundo andar da livraria, ajustando os detalhes do contrato de um novo autor, quando batidas sutis na porta de vidro interromperam seu foco.

​Ao erguer os olhos, encontrou Edward. O pai vestia um sobretudo escuro bem cortado e trazia um olhar visivelmente abatido, despido da pose de autoridade inabalável que sempre ostentara.

​— Posso entrar, Renesmee? — perguntou ele, a voz contida.

​Nessie pousou a caneta sobre a mesa de madeira e encostou-se na cadeira, mantendo uma expressão absolutamente neutra.

​— Você já está dentro, Edward. Diga o que quer. Estou no meio do meu expediente.

​Edward deu alguns passos para dentro do escritório, olhando com certo pesar para as estantes repletas de publicações e para a estrutura que a filha erguera sem a ajuda dele.

​— Eu vi a notícia sobre o lançamento da editora — disse ele, parando diante da mesa. — Sua mãe e eu ficamos muito orgulhosos. É um feito extraordinário para a sua idade.

​— Se veio aqui para fazer elogios vazios, pode poupar o seu tempo — cortou Nessie, com a voz gélida. — Eu sei perfeitamente que você não aprova a minha permanência em Forks e muito menos a minha independência.

​— Eu só quero poder conversar com a minha filha sem essa barreira de gelo entre nós! — desabafou Edward, a voz subindo de tom pela primeira vez. — Eu sei que errei na forma como conduzi as coisas no passado, Renesmee. Mas tudo o que fiz foi pensando em proteger você de um caminho incerto! Será que você nunca vai ser capaz de me perdoar?

​Nessie levantou-se devagar, apoiando as mãos espalmadas sobre a mesa e encarando o pai com um olhar firme e cortante.

​— Perdoar? — perguntou ela, a voz baixa e carregada de uma firmeza implacável. — Você usou chantagem e ameaças para me arrancar da minha vida, me obrigou a rasgar o meu próprio coração e destruir o homem que eu amava para salvá-lo da sua ganância e do seu poder. Você não tentou me proteger, Edward. Você tentou me dominar. A diferença é que hoje eu não sou mais refém das suas ameaças. A minha vida profissional e a minha história não têm um único dedo seu. E o nosso relacionamento será estritamente este: o silêncio e o respeito à distância.

​Edward deu um passo para trás, como se tivesse levado um golpe físico. A frieza inabalável da filha deixava claro que a ponte entre eles jamais seria reconstruída.

​— Se é assim que você deseja... — disse ele, a voz falha, virando-se de costas e caminhando devagar para a saída.

​— É exatamente assim que será — concluiu Nessie, voltando a se sentar e pegando os papéis sem olhar para trás enquanto o pai cruzava a porta.

​Tarde daquela mesma semana, a chuva fina começou a cair sobre o estacionamento do principal supermercado do centro de Forks. Renesmee caminhava em direção ao seu carro carregando duas sacolas de compras, envolta em um sobretudo Bege elegante e botas de salto.

​Distraída ao procurar as chaves na bolsa, ela acabou trombando com força contra a figura alta e robusta de um homem que vinha no sentido oposto. Uma das sacolas de Nessie escorregou e caiu no asfalto molhado.

​— Preste atenção por onde anda... — começou o homem, mas a voz travou na garganta.

​Nessie ergueu os olhos e deu de cara com Jacob. Ele vestia uma jaqueta de couro e jeans escuro, e o impacto de rever o olhar dele fez a respiração de ambos falhar por um segundo.

​— Jacob... — murmurou ela, recuperando a postura. — Desculpe, eu estava distraída.

​Jacob soltou uma risada amarga e sarcástica, abaixando-se para pegar a sacola do chão e entregando a ela com uma frieza ostensiva.

​— Claro. A grande empresária e autora de sucesso está ocupada demais para reparar nas pessoas comuns no estacionamento, não é? — alfinetou ele, encarando-a de cima a baixo. — Como vai a vida de dona da cidade, Renesmee? A livraria nova já deu os lucros milionários que você esperava?

​Nessie pegou a sacola, sentindo a raiva e a frustração acumuladas queimarem em seu peito. Ela deu um passo à frente, encarando-o sem recuar.

​— Por que você sempre precisa ser tão desagradável e sarcástico comigo, Jacob? Eu estou trabalhando, estou tocando a minha vida. Você não pode simplesmente me tratar com o mínimo de civilidade?

​— Civilidade? — debochou ele, aproximando-se mais um passo, encurralando-a levemente contra a porta do carro dela. — Você quer civilidade depois de tudo o que fez? Depois de ter pisado em mim, ter me chamado de atraso na sua vida e voltar para cá agindo como se fosse uma rainha intocável?

​— Você não sabe de nada! — disparou ela, a voz embargada pela dor retida, a respiração ficando curta diante da proximidade avassaladora do corpo dele. — Você não sabe absolutamente nada sobre o que eu passei ou o que eu precisei fazer!

​— Então me conta! — exigiu Jacob, a voz subindo para um tom grave e desesperado. Ele segurou os ombros dela com firmeza, o olhar preto queimando de fúria e uma paixão reprimida que quatro anos de raiva não conseguiram apagar. — Me conta a verdade, Renesmee! Porque eu olho para você e só vejo a mulher que destruiu a minha vida e que continua me tirando o juízo toda vez que chega perto!

​A tensão entre eles explodiu no ar úmido do estacionamento. Renesmee encarou os lábios dele, o peito subindo e descendo desordenadamente. O ódio, o ressentimento e o amor absoluto que guardavam um pelo outro fundiram-se em um único impulso.

​Jacob baixou o olhar para a boca de Nessie. Ele a puxou com força pela cintura, colando o corpo quente dele ao dela sob a garoa. Nessie ergueu as mãos, segurando o colarinho da jaqueta dele. A respiração quente de Jacob roçou na pele do rosto dela, e os lábios de ambos ficaram a milímetros de se selarem em um beijo desesperado e faminto.

​— Jacob?

​A voz feminina e doce cortou o momento como uma lâmina de vidro.

​Jacob travou instantaneamente. Ele abriu os olhos e soltou a cintura de Nessie com um movimento brusco, recuando dois passos enquanto arfava pesadamente.

​Renesmee piscou, tonta e com o rosto queimando de vergonha, ajeitando o sobretudo com as mãos trêmulas ao olhar para o lado.

​Claire Young caminhava em direção aos dois sob um guarda-chuva, segurando uma pequena chave de carro e olhava para ambos com uma expressão de leve estranheza, embora mantivesse o sorriso educado.

​— Amor, eu estava te procurando. A gente precisa ir para a imobiliária — disse Claire, aproximando-se e passando a mão carinhosamente pelo braço de Jacob, antes de encarar Nessie. — Oi, Renesmee. Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

​Jacob engoliu em seco, passando a mão pelo rosto para esconder o descontrole e assumindo a máscara rígida de indiferença.

​— Não foi nada, Claire — disse Jacob, a voz saindo seca e profunda. — A Renesmee só deixou uma sacola cair e eu estava ajudando. Já estávamos de saída.

​Nessie segurou as sacolas com força, mantendo o queixo erguido para esconder as lágrimas que ameaçavam transbordar de seus olhos.

​— É verdade, Claire. Foi apenas um pequeno incidente — disse Nessie, a voz perfeitamente controlada e elegante. — Com licença. Tenham um bom dia.

​Sem olhar para Jacob por mais um segundo, Nessie abriu a porta do seu carro, entrou e deu a partida, afastando-se do estacionamento enquanto o coração martelava violentamente em seu peito, ciente de que a chama entre ela e Jacob Black continuava mais perigosa e viva do que nunca.