Inocência e Desejo
21 Capitulo 21
A noite caíra pesada sobre o centro de Forks. A garoa constante transformara as calçadas em espelhos molhados sob a luz dos postes. No interior da livraria, Renesmee organizava os últimos exemplares sobre o balcão de madeira e desligava as luzes principais, deixando apenas o brilho amarelado das luminárias de leitura no fundo do estabelecimento.
Ela caminhou até a porta de entrada para virar a placa de "Aberto" para "Fechado", mas no exato segundo em que segurou a maçaneta, a porta foi empurrada com força para dentro.
Nessie deu dois passos para trás, surpresa, quando a figura alta e imponente de Jacob cruzou o umbral. Ele vestia a jaqueta de couro molhada pela chuva, os cabelos negros gotejando e o olhar fixo nela, carregado de uma intensidade perigosa. Sem dizer uma palavra, Jacob girou a chave na fechadura e passou a tranca de ferro, isolando os dois do mundo exterior no silêncio da livraria penumbrosa.
— O que você pensa que está fazendo, Jacob? — exigiu Nessie, o peito acelerando instantaneamente, a voz mantendo uma firmeza defensiva. — A livraria está fechada. Destranque essa porta agora.
— Eu não aguento mais, Renesmee — disse Jacob, a voz grave e áspera cortando o silêncio do ambiente. Ele deu dois passos lentos na direção dela, encurtando a distância entre os dois. — Eu passei os últimos dois dias tentando engolir o jeito que você desligou aquele telefone na minha cara. Tentando me convencer de que você é essa mulher fria e distante que finge ser.
— Eu não estou fingindo nada! — rebateu Nessie, recuando até que suas costas encontrassem a quina de uma das grandes estantes de livros. — Eu te pedi para não me procurar mais! Você está noivo, Jacob! Tem uma vida, tem a Claire, e continua vindo atrás de mim para me acusar de coisas que você não entende!
— Então me faz entender! — esbravejou ele, parando a centímetros dela e apoiando as duas mãos na estante, prendendo-a entre seus braços. O calor que emanava do corpo dele era quase insuportável no ar frio do ambiente. — Me faz entender por que você me olha como se ainda me amasse, mas fala comigo como se eu fosse um estranho! Me faz entender por que cada vez que eu chego perto de você, a minha vida inteira parece de ponta-cabeça!
— Porque você é um covarde, Jacob! — disparou Nessie, as lágrimas de dor e raiva queimando em seus olhos enquanto encarava o rosto dele tão próximo ao seu. — É muito mais fácil para você me culpar por tudo do que admitir que nós não podemos voltar no tempo! É mais fácil me odiar do que aceitar que a nossa história acabou!
— Acabou? — repetiu Jacob, o tom de voz caindo para um sussurro perigoso, a respiração afobada roçando os lábios dela. — Você realmente acha que isso acabou?
— Acho! — mentiu Nessie, o peito subindo e descendo desordenadamente. — Eu quero que você vá embora da minha vida!
— Mentirosa — rosnou Jacob.
Antes que Nessie pudesse pronunciar mais uma palavra, Jacob encurtou o último milímetro entre eles e selou seus lábios nos dela em um beijo urgente, desesperado e faminto.
A resistência de Renesmee ruíra no mesmo segundo. O fardo de quatro anos de silêncio, dor e sacrifício desmoronou sob o impacto daquele contato. Ela soltou um gemido abafado contra a boca dele e enlaçou os braços ao redor do pescoço de Jacob, puxando-o para mais perto enquanto os dedos dela se prendiam nos cabelos úmidos dele. Jacob a puxou pela cintura com força, colando o corpo dela ao seu, aprofundando o beijo com uma paixão avassaladora que devorava a raiva e revelava a saudade brutal que mantiveram sufocada por tanto tempo.
Era um beijo carregado de história, dor e um amor que nunca morrera. Por longos segundos, o mundo lá fora deixou de existir.
Até que o som estridente e insistente do celular de Jacob ecoou no bolso da jaqueta dele.
O toque quebrou o transe como um balde de água fria. Jacob diminuiu o ritmo do beijo lentamente, encostando a testa na de Nessie, ambos arfando pesadamente, com os lábios avermelhados e os olhos entreabertos. O celular continuou tocando sem parar.
Com as mãos trêmulas, Jacob afastou-se alguns centímetros e tirou o aparelho do bolso. O nome Claire brilhava na tela.
Nessie piscou, a realidade retornando como um golpe doloroso no peito. Ela deu dois passos para trás, ajeitando o sobretudo com as mãos instáveis e virando o rosto para a escuridão da livraria, horrorizada com o momento de fraqueza.
Jacob atendeu a ligação, a voz saindo falha e rouca.
— Alô... Claire?
— Jacob! Onde você está? — a voz de Claire do outro lado da linha vinha carregada de uma empolgação quase histérica, eufórica. — Você precisa vir para casa agora! Por favor, vem rápido! Aconteceu uma coisa maravilhosa!
— O que foi, Claire? Está tudo bem? — perguntou ele, tentando recuperar o hálito e desviando o olhar para Nessie, que permanecia de costas para ele.
— Está tudo mais do que bem! É o dia mais feliz da minha vida! Só vem logo, por favor! Estou te esperando!
— Tá... eu estou indo — respondeu Jacob, desligando o telefone em seguida.
O silêncio na livraria tornou-se pesado e sufocante. Jacob guardou o aparelho, encarando as costas de Renesmee. Ele deu um passo na direção dela, a mão estendida no ar, a voz carregada de uma confusão dolorosa.
— Nessie... — chamou ele, com extremo custo.
— Vai embora, Jacob — pediu ela, a voz saindo baixa, gélida e embargada, sem se virar para olhá-lo. — A sua noiva está te esperando. Vai embora e nunca mais faz isso comigo.
Jacob hesitou por longos e angustiantes segundos. A vontade de puxá-la novamente e encarar aquela verdade era enorme, mas a responsabilidade e o remorso o travaram. Ele caminhou até a porta, destrancou a tranca de ferro e olhou para ela uma última vez antes de sair para a chuva da noite.
Minutos depois, Jacob estacionou o carro em frente à casa de Claire. Seu peito ainda queimava. A sensação dos lábios de Nessie, o perfume dela e a certeza aterrorizante de que ainda a amava com cada fibra de seu ser dominavam sua mente em um caos absoluto.
Ao abrir a porta da sala, ele encontrou Claire em pé no meio do cômodo. Ela usava um vestido leve, tinha as bochechas coradas e os olhos brilhando em lágrimas de pura emoção.
— Jacob! Você chegou! — disse ela, correndo na direção dele.
— Claire, o que aconteceu? Você me deixou preocupado... — começou Jacob, tentando disfarçar a perturbação em seu rosto.
Sem dizer nada, Claire pegou as duas mãos dele e colocou sobre elas um pequeno envelope branco com o papel de um exame laboratorial.
— Eu não estava me sentindo muito bem esta semana, lembra? — disse ela, a voz trêmula de felicidade. — Fui ao médico hoje cedo para fazer o sangue... e o resultado acabou de sair.
Jacob olhou para o papel em suas mãos. Seus olhos percorreram o cabeçalho técnico até encontrarem o resultado em destaque: TESTE HCG — POSITIVO (GRAVIDEZ CONFIRMADA).
O ar sumiu dos pulmões de Jacob.
— Nós vamos ter um bebê, Jacob! — exclamou Claire, jogando os braços ao redor do pescoço dele e chorando de emoção. — Eu estou grávida! Nós vamos ser pais!
Jacob envolveu a cintura de Claire em um abraço automático, sentindo o impacto devastador daquela notícia. Por um lado, uma onda de proteção e afeto genuíno por aquele filho que nascia transbordou em seu peito, fazendo um sorriso emocionado surgir em seus lábios ao encarar a felicidade radiante de sua noiva.
Mas, por outro lado, no fundo de sua alma, o desespero e a angústia o consumiam por dentro. Ele segurou Claire apertado, fechando os olhos, enquanto a imagem daquela ruiva na livraria e a lembrança daquele beijo proibido queimavam em sua mente — agora, dolorosamente mais inalcançável do que nunca.
Fale com o autor