Inocência e Caos os Primeiros Passos no Abismo
8 Capítulo 8 – Alegria e dor, a queda final da pantera
Notas iniciais
- Garlock! Vem ver!
Corri pelo quarto e pude chegar a tempo de ver meu filho dando uns passos entre a cama e a cômoda para pegar um brinquedo. Sorri e me apoiei no umbral do banheiro. Xenarib estava deitada na cama sorrindo e olhando para nosso filho. Desde que ele nascera já haviam se passado dois anos completos. Eu me enchia de orgulho ao vê-lo brincar pelo meu quarto, com as poucas coisas que tínhamos para agradá-lo. Naquela época, nem me lembrava das palavras de Carrau e Thanatos, só queria curtir meu filho. Depois de o ver sentado no chão por uns minutos, me aproximei de Xenarib e a beijei apaixonadamente. Nosso filho nos olhou e soltou uma risada. Eu e ela olhamos para ele e rimos também. Me levantei e me transformei em híbrido. Já ia saindo quando ela me chamou.
- Ei! Não esquece, não quero que meu filho perca o pai tão cedo, então volte vivo, ok?
- Sim senhora! – disse eu sorrindo, o que a acalmou um pouco e a fez sorrir.
Saí e fechei a porta do quarto. Era estranho, já me acostumara àquele castelo de tal forma que era como se tivesse crescido e nascido ali. Era uma quase sensação de lar. Ao andar pelos corredores, era saudado por alguns guerreiros e sempre que saía em missões, era com alegria que retornava ao meu quarto.
Sempre me encontrava com Hades, Loki e Rafar a biblioteca. Eram sempre conversas agradáveis e alegres. Até mesmo Thanatos me tratava melhor do que nunca. Nesse dia algo me dizia que seria algo mais... seria uma missão inesquecível. Fui chamado por Thanatos, junto com outros guerreiros de elite e fomos mandados para uma cidade arruinada a leste da fortaleza. Diziam que uma unidade inimiga estava se preparando para nos atacar e tínhamos que investigar isso. Saí do castelo pensando na razão pela qual os guerreiros da luz ainda não tinham nos atacado novamente depois daquele dia. Talvez estivessem recrutando novos guerreiros... talvez...
Saí logo pela manhã para me encontrar com meus colegas de missão no portão norte da fortaleza. E lá estavam eles. Sailog, o gigante. Tinha quase seis metros de altura e vestia uma armadura de urso negro. Ele me assustava um pouco, mas era também um bom guerreiro para proteger a retaguarda ou abrir caminho para fugas. Razack, era menor que eu, tinha apenas um e quarenta de altura, mas sua mente era das mais brilhantes do exército das trevas e suas estratégias sempre davam certo. Lilith, uma sedutora guerreira de cabelos ruivos da minha altura. Sua pele era bronzeada e não usava armadura. Ela podia se esconder nas sombras e era exímia assassina. Contando comigo, éramos quatro guerreiros e eu iria liderar esse grupo. Quando os vi, sorri e me aproximei.
- Olá. Todos prontos?
- Sempre meu senhor. – respondeu Lilith se curvando graciosamente.
A olhei por uns instantes. Ela sempre tentou algo comigo desde que Albion nasceu. Olhei para os outros, todos acenaram com as cabeças. Sorri e empunhei a lança. Com um aceno de cabeça indiquei o caminho e logo Sailog se transformou num enorme urso negro e acenou com a cabeça para que subíssemos. E foi nos ombros dele que chegamos à cidade onde estavam os guerreiros da luz. Sailog ficou para trás, no caso de haver algum problema, afinal, ele era percebido de longe. Ao chegar a alguns metros da cidade, olhei para Lilith.
- Sua deixa madame.
Ela sorriu e acenou com a cabeça para Razack. No segundo seguinte, ela tomou três socos dele. Tentei impedí-lo segurando-o, mas ela me afastou dele e olhou pra mim. Seu rosto estava inchado em alguns lugares e ela parecia péssima. Mas o olhar dela era assassino.
- Esse é meu disfarce senhor. Não o estrague.
Fiquei paralisado enquanto Razack estapeou e rasgou boa parte da roupa dela. Ela saiu meio cambaleante até a cidade e praticamente caiu nos braços do guerreiro que estava de guarda. Aflito, ele chamou outros companheiros e, juntos, a levaram pra dentro. Era a nossa deixa agora. Aproximamo-nos pelas sombras até a casa mais próxima, entramos e nos escondemos num dos andares superiores, onde poderíamos ver sem ser vistos. Mas então veio a surpresa, eram poucos, muito poucos. Em comparação aos que nos tinham atacado antes eram quase nada, apenas uns cem guerreiros. Será que pensavam em nos atacar apenas com essas forças?
- Veja Razack. – sussurrei – São poucos. Se Sailog tivesse vindo, estariam todos mortos agora. Não entendi essa... Será que pensam em nos atacar apenas com isso?
- Hmm. Isso não me cheira bem... Eles sabem que nós temos Rafar e os outros conosco... mas acho que eles tem um informante no castelo. Suas principais forças já devem ter se deslocado.
- Como assim?
- Os generais saíram hoje para uma missão nível “S” — disse ele olhando para mim – nem Zarana está no castelo hoje. Então... se formos atacados... Poderemos sim, perder essa batalha.
Pensei apenas em Xenarib. Em Albion. Fiz menção de me virar, mas uma lâmina encostava-se a minha nuca. Não vi Razack ao meu lado e percebi tudo.
- Traidor!
- Na verdade não. – disse ele rindo um pouco – Eu simplesmente escolhi o lado vencedor. Agora, Tenente Garlock, entregue a lança.
- Como quiser.
No segundo seguinte, Razack estava encravado na parede e eu pegava sua espada. Era curta, mas ágil. E eu precisaria disso. Saltei da janela bem em frente aos guerreiros da luz e cortei dois deles com a espada de Razack. Ao longe pude ouvir o grito de Lilith, ela já estava morta. Me virei e percebi que estava cercado. Saquei a espada e comecei minha carnificina, os guerreiros da luz caíam como moscas em minhas lâminas, pois usava a espada de Razack em uma das mãos e a minha lança na outra. Em determinado momento ouvi as trombetas de guerra de Karum. Arregalei os olhos, estavam atacando e destruiriam todos, bem sabia disso. Apenas guerreiros medianos e fracos haviam ficado pelo que me disse Razack, e não podia arriscar a vida de Xenarib daquela maneira.Destruí mais dois e comecei a correr, tinha que alcançar Sailog, mas quando cheguei, ele também estava morto. Rilhando os dentes, corri o máximo que pude, transformado em híbrido, em direção ao castelo. Flechas voavam em todas as direções e vários guerreiros caíam, mas ainda havia muitos. Me assustei com o número, eram milhares, pelo menos uns seis mil guerreiros, e alguns já dominavam as muralhas, teria que ser rápido. Corri pelo meio deles, assassinando tantos quanto pude com minhas lâminas, principalmente com a espada de Razack. Fui me aproximando e pude perceber uma arqueira no topo de uma das torres de vigia. Era a Scyla. Não podia acertar contas com ela agora, o que me deixou extremamente nervoso e redobrou minha fúria contra os guerreiros da luz. Alcancei os portões despedaçados e percebi que a cidadela estava tomada quase que completamente e alguns chegavam ao castelo, comecei a pular de casa em casa, de telhado em telhado até chegar perto do castelo e levar uma flechada no tornozelo. Caí rolando e logo um guerreiro caiu em cima de mim com um tridente apontado pra minha cabeça. Rolei pro lado escapando do ataque dele e arranquei a flecha da minha perna, não podia demorar, ou poderia ser tarde demais. Pulei sobre outra casa e pude ouvir o urro de fúria do guerreiro. Continuei e pulei para a sacada do segundo andar do castelo. Aí começou realmente a minha corrida contra o tempo. A cada esquina dos corredores labirínticos daquele castelo eu me defrontava com guerreiros da luz e em cada esquina eles caíam sob minha espada. Cheguei finalmente ao meu quarto e vi quatro guerreiros arrebentando a porta e um urro de fúria. Corri e, quando estava perto, vi um dos guerreiros atravessando a porta com o pescoço quebrado, olhei e vi Xenarib liquidando os outros três de uma vez. Ela sangrava muito e sua armadura estava destruída em várias partes. Mas ainda assim ela estava de pé e correu para mim, me abraçando e chorando.
- Achei que não te veria mais.
- E eu achei que chegaria muito tarde.
- O que aconteceu?
- Razack nos traiu e informou o dia da missão dos generais. Só os guerreiros menores estão aqui Xenarib, nenhum dos generais está no castelo ou na cidadela.
- Merda! Temos que fugir Garlock!
- Mas Xenarib...
- Se não fugirmos eles nos encontram e matam a gente e o nosso filho. Por ele Garlock, nós temos que viver...
Baixei a cabeça. Concordei com ela, que sorriu e se aproximou do berço de Albion. Mas quando parou de frente para a janela, uma flecha entrou quebrando o vidro e atravessou seu peito, se enterrando tão profundamente que apenas as penas de bronze do final ficaram para fora de seu corpo. Eu gritei e a vi cair sobre a cama. Eu corri até ela, que sorriu e acariciou meu rosto, embora estivesse gravemente ferida. Estava à beira das lágrimas, mas me contive.
- Xenarib! Meu amor, eu estou aqui, por favor resista um pouco eu vou te curar! – segurei a flecha para retirá-la, ela, porém segurou minha mão, olhou dentro dos meus olhos e disse:
- Salve nosso filho... [cof]... Eu... eu não vou resistir.... muito tempo...[cof-cof]... salve... Albion...
Ela sorriu e me beijou. Mas um instante depois, ela desfalecia em meus braços. Sua vida se fora e sua pele esfriava gradativamente, enquanto eu gritava em desespero para que ela acordasse, em vão. Alguns guerreiros da luz entraram tentando me pegar por trás, mas foram estraçalhados pela minha aura maligna. Eu a deitei na cama vagarosamente e a beijei na testa. Seu sorriso não se desfizera e eu não tive coragem de concertar isso. Olhei para o lado e me dirigi ao berço onde Albion estava. Ele chorava muito, o abracei para confortá-lo e ele imediatamente parou de chorar. Pulei a janela, pois seria suicídio tentar sair pela porta da frente do castelo. Comecei a correr pelos telhados. Não sei se por ser o último das trevas, ou por estar fugindo, mas as flechas da luz vinham ao meu encontro em número e velocidade absurdos. Continuei a correr em direção ao portão. Estava quase chegando, podia sentir o coração querer sair pela boca e uma alegria por estar conseguindo salvar meu filho. Os batimentos se acentuavam tanto que parecia um tambor de fanfarra sendo tocado furiosamente.
=TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU- TU-TU=
Eu estava fora, ria, chorava... então...
=TU-TU- TU... TCHOF =
Parei imediatamente... algo estava errado...
Eu não sentira a flecha de bronze penetrar em meu ombro... não sentira a ponta de bronze rasgar minha pele e a carne, separar o osso e atravessar pelo outro lado... mas senti ela atravessar minha mão direita... A mesma mão que segurava a cabeça de meu filho....
O mundo pareceu ruir... Minhas pernas se dobraram e meus joelhos tocaram o chão. Ouvi um urro de vitória em algum lugar, uma voz feminina gritava em louvor à luz. Ouvi uma voz bem atrás de mim:
- Belo tiro Scyla! Agora é comigo!!
Desejei ardentemente que fosse rápido, que me cortasse a cabeça em meio segundo para que pudesse encontrar Xenarib e Albion no outro mundo... Foi quando vi a face de Xenarib na minha frente. Meus olhos se tornaram negros. Como se nada houvesse em minhas órbitas além de um espaço vazio. O guerreiro puxou a espada e se postou de frente pra mim, e parou. Olhou para meu filho, que sangrava pelo ferimento causado pela flecha maldita de Scyla... Baixou a espada enquanto eu me erguia. Me virei pra ele e disse:
- Tira isso daqui.
Ele segurou a flecha que se desfez em uma fumaça branca. Eu então entreguei o corpo de meu filho para ele e disse:
- Poupou minha vida, pouparei a sua, mas cuide de meu filho até a minha volta.
Me virei e uma aura negra densa podia ser vista se desprendendo de mim. Em meus olhos lágrimas de sangue pingavam pelo chão. Comecei a subir pela parede da muralha até onde estava Scyla. Ela se assustou quando eu cheguei e tentou me acertar uma flecha na cabeça, que foi destruída por minha aura. Eu a segurei pelo pescoço, olhei bem dentro dos olhos dela, e acertei a lança e cada um de seus joelhos e em seus ombros, forçando-a a se ajoelhar. Eu a virei para a cidade e então disse:
- Matou as duas pessoas mais importantes para mim... você hoje destruiu a minha vida... é justo que eu destrua a sua também...
Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, uni as mãos e disparei um tiro negro que atingiu o castelo e se espalhou por toda a cidadela como uma redoma negra. Fechei os olhos lembrando do rosto de Xenarib, do sorriso de Albion. Sem conter as lágrimas, gritei:
- TENEBRA FUROR!!!!
Uma explosão negra aconteceu e os guerreiros da luz começaram a morrer dentro da redoma. Scyla via isso ajoelhada à minha frente. Chorava copiosamente. Então olhou pra mim:
- Você é um monstro!
=STAP=
Estapeei a face dela com tanta força que ela quase caiu. Então me ajoelhei e mostrei a mão ferida. Ela olhava sem entender.
- Essa mão, segurava a cabeça do meu filho... A flecha que me atravessou era a sua... Quem é o monstro? Eu que estava tentado salvar meu filho ou você que o matou?
Ela arregalou os olhos. Não acreditava, mas o outro guerreiro apareceu na torre carregando meu filho nos braços. Olhou pra ela, olhou pra mim e depositou seu frágil corpinho no chão. Então, virando as costas, disse:
- Adeus... nunca mais atacaremos esse castelo. — e com uma nota de tristeza na voz disse - Lamento pelo seu filho.
Ele se foi, enquanto Scyla gritava para que ele voltasse, me matasse e que a salvasse. Mas a sentença havia sido proferida, assim que ele virou as costas para ela. Fora um tiro imprudente, e eu não significava risco, mas ela assim mesmo atirou. Ela assumiu os riscos, fossem eles quais fossem. Minha lança agiu rapidamente, cravando a cabeça dela no chão e espalhando o sangue imundo dela por todo o lado. Avancei para o corpo de meu filho e o recolhi cuidadosamente. No fim da tarde, junto com a pira dele, ardia também a pira de Xenarib. Quando os generais chegaram, apenas eu restara para dar-lhes as boas vindas... Naquela mesma noite me apresentei a Thanatos. Ainda estava abalado com o que acontecera... queria paz...
- O que o traz aqui tão tarde Garlock? Veio aqui apenas me importunar?
- Não senhor... eu... quero que apague minha memória...
- Como assim?
- Quero esquecer o que houve antes de agora... antes disso tudo... Queroesquecer de tudo milorde.
Ele sorriu. Apontou a mão para mim e então... vazio... escuridão... e me lembro de acordar em meu quarto um mês depois. Bem disposto, sorrindo e cumprindo missões, como se nada houvesse acontecido... como se nada mais houvesse antes daquele dia... Mas o vazio em minha alma havia aumentado... minha solidão havia aumentado.
Notas finais
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N.A. Obrigado a todos vocês que estão lendo e postando seus reviews. Estou mesmo muito animado de escrever essa fic^^! Muitíssimo obrigado mesmo!
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