Eu estava treinando no pátio do castelo. Depois que ganhei meus poderes, treinei dia e noite para decorá-los e fortalecê-los. Cada dia que se passava eu me fortalecia cada vez mais. Me acostumei a ficar transformado em um ser meio pantera meio homem. Isso me garantia mais força e agilidade em meus ataques. Hipnus começou a me acompanhar em meus treinamentos. Treinávamos juntos, nossa breve rixa já fora resolvida. Nós estávamos no mesmo nível agora. Mas Hipnus em breve seria levado. Nós sabíamos disso. No dia seguinte ele iria para a base de Algheron, onde apenas os mais poderosos poderiam treinar. Lá, ele se tornaria um deus. Nos sentamos e observamos o céu nublado pela última vez juntos. Ele olhou para mim.

- Já imaginou o dia que isso chover? Vai inundar tudo aqui em baixo.

- Pelo menos refresca. – respondi rindo – Isso aqui ta um calor.

- É. Pior que está mesmo. – Ele riu e voltou a fitar as nuvens – Irmão...

- Sim?

- Acha que vamos nos encontrar novamente?

- Tenho certeza que sim. – disse sorrindo e olhei para ele – Mas da próxima vez serei um General!

- Ah nem vem! – ele sorria também e olhava pra mim – Você penou pra se sair bem naquela luta e só venceu por apelação.

- Olha só quem fala! Quase arrancou a minha cabeça aquela espada viu?

- Ficou preocupado hein? – ele riu.

- É. Deve ser meio desconfortável perder a cabeça literalmente. – respondi num gracejo.

Olhamos um para o outro e caímos na gargalhada. Quem poderia imaginar a dor que sentíamos por esta ser nossa despedida. Quando nos erguemos para ir para nossos quartos ele me chamou. Eu já estava no outro lado do pátio, me virei pra trás.

- Não se esquece. É por nossa mãe que estamos aqui.

Eu olhei bem dentro dos olhos dele e sorri. Toquei meu peito, bem em cima do coração.

- Nunca vou me esquecer.

Ele sorriu e, com o punho esquerdo fechado sobre o lado direito do peito, disse:

- Vida e honra meu irmão.

Eu também fiz a saudação das trevas e respondi.

- Morte e glória pra você.

Nos viramos. Em nossas mentes ecoavam ainda as últimas palavras do nosso mote:

“Nossa vida é nossa honra, tua morte nossa glória. Vida e honra, morte e glória. Eis o mote das trevas.”

Baixei a cabeça. Realmente, era isso que nos esperava.

No outro dia acordei sabendo que meu irmão já estava em Algheron. Me levantei e comecei treinar no pátio, mesmo antes do café. Mas nesse dia algo ocorreu. Uma garota passou por mim afobada e me deu um encontrão. Nós dois caímos e eu fiquei furioso com isso. Me levantei xingando.

- Porra! Não tem olho na cara não disgrama??? Vai atropelar aaaa....aai meu Deus. – Havia visto quem trombara em mim. Me ajoelhei e curvei a cabeça – Perdão Generala Xenarib. Desculpe o modo como lhe tratei.

Xenarib olhou para mim. Seus olhos eram azuis como o mar, e junto com seus cabelos, platinados, contrastavam enormemente com sua pele morena chocolate. Sua armadura era uma harpia negra, mas seu estilo era tão diferente que chegava a ser sensual vê-la naqueles trajes. Era como se vestisse um maiô de metal com ombreiras, o que deixava de fora suas coxas e seus braços. Não havia, em todo o castelo, um único homem que não babasse à passagem dela. Mas hoje eu a havia enfurecido, não havia como negar o brilho assassino no olhar dela. Felizmente, pra mim, ela estava apressada. Mas ainda assim me olhou e disse:

- Seu castigo fica para outra hora Galahad. Agora estou muito ocupada para dar atenção a vermes como você.

Ela se foi correndo. Meu coração batia acelerado. Escapara por pouco. Me levantei e ainda pude observar seu cabelo platinado balançando ao vento. Impressionantemente, eu era o único que não a via como mulher, mas sim como uma superior. Minha mente estava tão voltada para a minha vingança que não admitia interrupções, fosse de quem fosse. Era também impressionante que não sentira falta do meu irmão. Era como se ele não existisse mais para mim... ou como se nunca tivesse existido...

Com o passar dos dias, minha mente foi se tornando cada vez mais centrada na vingança. Esqueci meu pai, esqueci Ryuuku e Layla, esqueci Hipnus... Todos. Toda a minha família era apenas uma lembrança vaga e disforme. Cada dia mais minha forma híbrida era a que eu mais usava, para treinar melhor. E finalmente chegou. Um dia, Lorde Thanatos se aproximou de mim e sorriu. Fez sinal para que eu o acompanhasse e abriu um portal na nossa frente. Passou por ele e me chamou, mas advertiu que eu usasse minha forma humana. Meio intrigado, me tornei humano. Meus cabelos roxos batiam já na metade das minhas costas e meus olhos estavam ainda mais vermelhos. Não acostumado a usar aquela forma, senti falta de minha cauda e do pelo. Começamos a andar, eu meio esquisito, mas logo me acostumei. Ele sorriu e eu percebi estarmos num subúrbio.

- Desculpe mestre. Mas por quê estamos aqui?

- Uma família de caçadores de vampiros destruiu sua mãe Garlock. Eu sei quem são... Eles alugaram os elfos e posso lhe dar sua vingança. Mas terá que destruir todos eles. A mãe, o pai, o irmão mais velho e a menorzinha. Todos!

- Então foram humanos?

- Sim Garlock. E esses humanos moram aqui. Interessante não?

Minha fúria se acendeu mas Lorde Thanatos me mandou me acalmar.

- Me mostre onde moram Thanatos Mi lorde.

- Calma Galahad. Paciência. Essa noite eles serão seus. – Ele riu.

- Mestre?

- Sim.

- Os humanos são mesmo tão fracos quanto dizem?

- A maioria. Mas os guerreiros humanos, que em geral lutam pela luz, são muito poderosos. Mas há sempre um meio de explorar seus pontos fracos.

- E quais são?

- É apenas um. A vontade de proteger alguém. Nesse quesito, os guerreiros da luz são fracos Garlock. Sua força é sua principal fraqueza. Aqueles que lutam por alguém, são facilmente influenciados pelas imagens dessa mesma pessoa sofrendo.

- Entendi milorde.

- Fazer com que a mente de um guerreiro veja seu maior medo incansavelmente, é simplesmente a forma mais fácil para derrotá-lo. Por isso criamos o AUGURIA TRIUMPHANT. Isso reduz o mais poderoso guerreiro num ser patético e chorão. Como um cão ajoelhado diante de seu mestre. Sua mente é reduzida a pó.

- Gostei disso. – disse sorrindo.

- Mas muito cuidado Garlock. Se não conseguir executar o Auguria com perfeição, ou não conseguir executá-lo, esse guerreiro pode até setuplicar a força que existe dentro dele. E mesmo o mais reles dos guerreiros pode se tornar um ser invencível.

- Então estamos empatados milorde. – disse eu rilhando os dentes – Só o que vejo em meus sonhos é a morte de minha mãe. Nada pode me dar mais fúria para lutar.

Ele sorriu. Continuamos andando até que ele disse:

- Agora Garlock. Olhe para a esquerda.

- Hein? – estava distraído e não entendi. Ele então ordenou com voz mais grave:

- Olhe para a esquerda agora.

Olhei. E vi uma casa branca, simples. Uma cruz de prata adornava a porta e as cortinas das janelas eram azuis. Uma casa como qualquer outra.

- É aqui que eles moram. É aqui que devem morrer.

Essas palavras me encheram de expectativa. Sim. Seriam todos destruídos pelas minhas garras. Mas... Foi quando os vi. Os mesmos olhos chorosos que vi em meus sonhos há tanto tempo atrás. Arregalei os olhos e a encarei. Ela me viu. Seus olhos se arregalaram também. Mas ela sustentou meu olhar. O mundo pareceu se desvanecer. Havia apenas eu e ela. Pela primeira vez eu senti meu coração bater.

= TU-TUM=

Cada vez mais forte, cada vez mais rápido.

= TU-TUM! TU-TUM! TU-TUM! =

Como se fosse um tambor de guerra ele martelava meu peito. Chegava a doer. E apenas havia aqueles olhos castanhos brilhando para mim. Aquela face angelical. Aquela menina, pouco mais nova que eu...

= TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU-TU =

- Garlock!

Dolorosamente voltei à realidade. A casa era visível novamente. Ela ainda estava lá. Voltei meu rosto para Lorde Thanatos.

- Vamos. É hora.

Me virei novamente para ela. Ela sorriu e acenou para mim. Sorri e acenei me despedindo. Sentia algo em meu peito. Algo bom. Me virei e corri até Thanatos. Quando encarei seus olhos, compreendi... Eu teria que matá-la. Um gelo glacial se instalou em minha barriga. Retornei para Darkoron. O céu na Terra se nublava. Prenúnciava uma chuva daquelas. Nada comi naquela noite. Nada queria. Me apresentei a Thanatos e ele me apontou uma cadeira. Me sentei e ele começou:

- É chegada a hora Garlock. Deve cumprir seu destino. – ele fez um gesto e uma foto apareceu. Era um homem de cabelos negros e olhos azuis. Seu semblante demonstrava alguém que seria seguido por qualquer um, em qualquer lugar – Esse é Thyr. Chefe da família e líder dos Caçadores de Vampiros do Norte. Ele é ágil e muito preciso com sua lança. – continuei observando. A foto mudou e uma mulher loira de olhos verdes se mostrou. Era linda, sua face mostrava uma selvageria feminina quase bestial. Era uma lutadora – Essa é Anita. – pulei ao ouvir isso e olhei de novo para ela. Thanatos continuou – Sim Garlock. Infelizmente essa humana tem o mesmo nome de sua mãe. Mas lembre-se, ela contratou os assassinos de sua mãe. Então deve morrer. Não se iluda. Apesar de ser mulher ela luta muito bem. – a foto mudou novamente. Um rapaz de cabelos negros e olhos verdes mostrava um semblante descuidado e alegre. Devia ter no máximo uns 18 anos. – Esse é Tenshi. Subtenente da infantaria. Ele é mais ágil e forte que Thyr, mas é mais fraco em sua mente. Explore esse ponto. – já me incomodava. Logo a próxima foto apareceu e torci para que não fosse o rosto da menina que eu havia visto. Mas era... Os mesmos olhos. Castanhos claros... O mesmo rosto... o mesmo cabelo. Thanatos falou – E essa é Yumi. Pelo que me disseram é uma mística. O poder dela é muito grande então tome cuidado. Agora vá.

Eu me ergui. De olhos baixos. Eu os mataria. Sim... Mas não a todos. Thanatos se aproximou.

- Então. Está pronto Garlock?

- Não vou matá-la Mi lorde.

- O que? Mas ela apenas tem o nome de sua mãe!

- Não! – olhei para Thanatos — A menor! A pequena Yumi não será tocada por mim!

- Desobedece minhas ordens Fedelho?

Não gostei desse tratamento e me afastei olhando Thanatos. Uma aura negra me cobria. Ele avançou para mim e pude sentir sua fúria. Meus olhos então brilharam vermelhos. Me transformei, mas não em pantera. Em Lobisomem. Isso o desnorteou e eu ataquei. Minhas garras o feriram no peito. Pela primeira vez vi o sangue de Thanatos. Um vapor negro escorria pelos ferimentos. A raiva ardia em mim.

- Não vou matá-la Thanatos! Jamais!

Ele se ergueu. Sua fúria crescia. Apontou dois dedos para mim. O indicador e o mínimo. Ofegava. Então...

- Anima Tenebra Control!!!

Escuridão... É tudo que me lembro... escuridão.... Uma dor muito grande em meu peito. Sinto a chuva desabar sobre mim. Estava faminto, queria algo. Sentia sede. Mas não de água. Abri os olhos e estava em uma floresta. Havia gritos, horror. Três pessoas lutavam contra vampiros. Me aproximei cauteloso de um deles, sempre pela orla da floresta. Estava quase lá...

O pulo...

Um grito...

O primeiro gole de sangue... Fresco... quente... Senti-o transbordando em minha garganta e meu corpo suplicando por mais. Vi uma muher. Não vi seu rosto, mas ela me atacava. Avancei e um novo pulo. Mais gritos e sangue. Dessa vez mais suave, mais... leve. Como um vinho de uma boa safra... embriagante... Devorei sua carne para satisfazer minha fome. Olhei o outro. O último... ronronei e percebi que era uma pantera. Ele se ergueu em vôo. Mas eu sabia onde ele ia. Corri. Uma casinha branca foi crescendo no horizonte. O mundo parecia distorcido. Urrei. Alcancei a casa. E ouvi:

- Yumi! Saia daqui! Esconda-se!

Uma voz de menina respondeu:

- Mas por quê? Tenshi! Cadê a mamãe e o papai? Por quê você quer que eu me esconda?

Urrei e me lancei contra a porta. Machuquei o ombro e ela não cedeu. Ouvi um grito e isso me impulsionou. Me afastei e investi novamente. A porta cedeu dessa vez e vi o rapaz. Ele me observava. Foi quando falei:

- Pagará caro a morte de minha mãe caçador de vampiros!

O tolo não entendia... Nem podia... Ia morrer logo. Sua espada chamejante brilhava em suas mãos. Mas de nada adiantaria. Seu ódio brilhou em seus olhos. Ele disse:

- E você pela minha família demônio Pantera!

Eu ri. Ele avançou contra mim e, quando chegava perto foi parando, arregalando os olhos. Lentamente eu crescia, me transformava. As patas se transformando em braços e mãos, uma calça jeans tapando minhas pernas. Meu pelo negro me cobria por inteiro, mas numa explosão de fumaça minha lança apareceu em minha mão e eu o desarmei facilmente. O segurei pelo colarinho e ri, enterrando minha lança em seu estômago. Ele fez uma careta de dor enquanto o seu sangue se espalhava pelo chão. Foi quando olhou em meus olhos. Então...

- Impossível...

Ele me abraçou. Pude sentir minha lâmina o atravessar. Mas senti sua mão em meu ombro. E um sussurro em meu ouvido...

- Lux Puritas.

Na mesma hora uma dor e uma queimação muito grande em meu ombro esquerdo. Urrei de dor e tentei me desvencilhar. Mas ele estava agarrado a mim. Sua mão me queimava mais. Pude ouvir ele dizendo:

- Se lembrará de tudo no tempo certo... Guardião...

Num urro de dor me transformei. Era minha forma humana, mas meus caninos se alongaram, meus olhos vermelhos brilhavam na escuridão. Mordi seu pescoço. O sangue dele jorrou em minha garganta. Em sua dor ele me mordeu também, no ombro, como uma vingança. Caí desmaiado no chão. Ele me largou. Quando fechei os olhos apenas pude sussurrar:

- Yumi Sama.........

Escuridão.... Então... O rosto de Yumi... Ela olhava para mim. Tentei me erguer e percebi que não podia. Olhei de novo e não vi Yumi... Era apenas uma nuvem. Acordei completamente e me vi amarrado numa maca. Uma ambulância uivava atrás de mim. Ouvi alguém dizer que eu era um assassino. Uma pedra atingiu minha cabeça e senti meu sangue escorrendo. Ouvi uma voz dizendo que eu estava machucado. Depois a justiça se encarregaria de mim. Me ergui arrebentando as correias, olhei para o lado e vi o sangue escorrendo da casa. Vi o corpo de Tenshi e, sorrindo, pulei. Um portal se formou e pude ouvir ainda os gritos de algumas mulheres. Aterrissei no pátio do castelo assustando uma mulher. Era Xenarib. Comecei a correr. Ela explodiu.

- Que que é hein Galahad!?!?!?!? Tá me marcando??

- A bronca fica pra outra hora Xenarib Sama! Tenho que dar contas do meu trabalho a Lorde Thanatos.

- GALAHAD VOLTA AQUI!!!!

Rindo, me dirigi aos aposentos de Thanatos. Ele estava sentado em seu trono. Me observou de alto á baixo.

- Então?

- Missão cumprida.

Ele sorriu. Estreitou os olhos e deu uma gargalhada. Eu ria. Era realmente uma comemoração. Fui feito Tenente Maior das Tropas de Infantaria. Apenas Thanatos e os outros generais eram maiores que eu. Me acostumei a isso. Andava apenas transformado em híbrido pantera para exibir minha força. Era um máximo. Três anos se passaram depois disso. Eu, agora com doze anos, já estava mais robusto. E olhava para as mulheres com outros olhos. Mas ainda era um solitário. Sentia em mim um vazio, mas não encontrava a razão... nem iria encontrá-la até voltar à Terra... Pois ainda sonhava às vezes nos olhos castanhos chorosos na janela de uma casinha branca... E dormindo, as mesmas palavras saía de meus lábios, sussurradas na noite:

- Yumi Sama...

Notas finais
A missão fora cumprida. O sangue já manchava minha vida. Mas ainda havia um vazio. Um vazio que nada poderia aplacar... ou poderia?

Próximo capítulo: O Início de um novo coração