A chuva que caía lá fora parecia acompanhar a tempestade que estava prestes a desabar dentro da casa dos Cullen. Renesmee girou a chave da porta de entrada devagar, tentando manter a mesma postura calma das outras tardes. O cheiro de chuva e terra molhada ainda impregnava seu casaco, mas o calor que trazia na pele, fruto das horas que passara no sofá do apartamento de Jacob, ainda fazia seu peito pulsar.

​Assim que deu dois passos para dentro da sala, a luz fraca da lareira revelou a figura de Edward. Ele não estava lendo, não ouvia música e nem conversava com Bella. Estava de pé, junto à janela, de costas para a entrada, com as mãos cruzadas atrás do corpo em uma postura rigidamente tensa.

​— Boa noite, pai — disse Nessie, a voz falhando ligeiramente ao tentar soar casual enquanto deixava a bolsa sobre o aparador.

​Edward virou-se devagar. O semblante do pai não carregava raiva explícita, mas sim uma gravidade gélida e decepcionada que cortou o ar da sala como uma lâmina.

​— Chegou tarde, Renesmee — disse ele, o tom de voz terrivelmente calmo e controlado. — O grupo de estudos da faculdade costuma se estender até depois do pôr do sol na cobertura do centro da cidade?

​O chão pareceu sumir sob os pés de Nessie. O sangue fugiu do seu rosto instantaneamente, e suas mãos congelaram ao lado do corpo.

​— Pai... eu... — ela tentou formular uma desculpa, mas as palavras engasgaram na sua garganta.

​— Não precisa mentir. Não mais — interrompeu Edward, dando passos lentos e medidos em direção a ela. — Eu sei de tudo, Renesmee. Sei dos horários que você inventa, sei das visitas ao apartamento dele e sei exatamente o que tem acontecido entre vocês dois. Acha mesmo que conseguiria esconder algo dessa gravidade de mim por tanto tempo?

​Nessie sentiu as lágrimas queimarem atrás dos olhos, mas a frustração e o amor por Jacob acenderam uma faísca de coragem em seu peito. Ela ergueu o queixo, encarando o pai.

​— Se você sabe, então sabe também que eu amo o Jacob! Eu não sou mais uma criança, pai. Tenho dezenove anos, estou na faculdade e tenho o direito de escolher com quem quero estar!

​— Você é ingênua, Renesmee! — a voz de Edward finalmente se ergueu, firme e imperiosa, ecoando pelas paredes da casa. — Você está se deixando levar por impulsos e por um homem quase dez anos mais velho, que se aproveita da sua inexperiência e da sua confiança! Isso precisa parar. Agora.

​— Ele não está se aproveitando de mim! — protestou ela, as primeiras lágrimas escorrendo quentes pelas bochechas coradas. — O Jacob me respeita, ele cuida de mim como ninguém! Você não tem o direito de interferir na minha vida dessa forma!

​— Eu sou seu pai e tenho a obrigação de proteger você, mesmo que você não consiga enxergar o perigo! — rebateu Edward, dando um passo a mais e encarando a filha com um olhar implacável. — Preste muita atenção no que vou te dizer, Renesmee. Essa palhaçada acaba hoje. Se você não terminar essa história com o Jacob imediatamente, eu mesmo vou resolver essa situação do meu jeito.

​Nessie franziu a testa, assustada com a ameaça implícita na voz do pai.

​— O que você quer dizer com isso?

​— A família Cullen tem recursos, influência e conexões em Forks e em todo o estado que vão muito além do que a família Black jamais sonhou em ter — disparou Edward, o tom frio e pragmático. — O Jacob construiu uma carreira como diretor na filial, mas bastam algumas chamadas certas para os investidores e para a diretoria executiva para que a reputação dele seja completamente destruída. Um escândalo administrativo, uma acusação de má conduta... eu posso fazer com que ele perca o cargo, o apartamento e qualquer credibilidade no mercado antes do fim da semana.

​O impacto daquelas palavras atingiu Nessie no fundo da alma. Ela sabia perfeitamente que o pai não estava blefando. Os Cullen eram aristocráticos, extremamente ricos, respeitados e influentes na região. Se Edward quisesse destruir a imagem e a carreira que Jacob batalhara tanto para construir, ele o faria sem hesitation.

​— Você... você não teria coragem de fazer isso... — sussurrou Nessie, o tom de voz transbordando horror e desespero. — Isso destruiria a vida dele!

​— Experimente me testar, Renesmee — respondeu Edward, encarando-a sem piscar, a firmeza inabalável. — Escolha se prefere afastar-se dele por conta própria ou ver o nome do Jacob arruinado na cidade inteira. A decisão é sua.

​Impossibilitada de responder diante de chantagem tão devastadora, Nessie soltou um solluço sufocado, virou-se de costas e subiu as escadas correndo.

​Ela bateu a porta do seu quarto e girou a chave, desabando de joelhos contra o tapete ao lado da cama. O choro alto e descontrolado lavou seu rosto enquanto ela abraçava os próprios joelhos. A dor da ameaça e a sensação de impotência eram sufocantes.

​Sobre a mesa de cabeceira, o celular começou a vibrar.

​Notificação: Jacob.

Notificação: Jacob (2 chamadas perdidas).

​"Chegou bem em casa, meu amor? Já estou com saudades de hoje..." — dizia a mensagem na tela iluminada.

​Nessie olhou para o telefone com o coração despedaçado. Seus dedos tremeram sobre a tela, mas ela não respondeu. Não conseguiu digitar uma única letra.

​Ela se deitou na cama, encolhendo-se debaixo das cobertas enquanto o aparelho continuava a vibrar na penumbra do quarto. Olhando para o teto, ouvindo o som da chuva lá fora, Renesmee sabia que estava presa em um beco sem saída: ceder ao controle do pai e quebrar o coração do homem que amava, ou arriscar ver a vida de Jacob destruída pela força impiedosa dos Cullen.