Já um ano havia se passado. Eu, com oito anos, já me destacava pela ousadia e preferia ficar treinando a brincar. Ryuuku e Hipnus me acompanhavam. Eram meus melhores companheiros de ação. Sempre íamos caçar nas florestas com Woldemberg ou com Althor, os generais lobos, ou à noite, treinávamos nossa percepção e o controle de nossas emoções com Lorde Tepes ou com Ariel, uma de nossas tutoras mais poderosas. Um dia, quando acordamos, meu pai falou que já era hora de ele nos treinar pessoalmente. Ficamos apreensivos, afinal, ele era o mais poderoso de Imperia. Naquela semana, ele ficou com Ryuuku na floresta. Eu e Hipnus, ansiosos, mal dormíamos à noite. Quando voltou, Ryu trazia no rosto a expressão de vitória de quem venceu uma guerra. Era a vez de Hipnus. Eu já nem dormia. Ryu, no entanto, ressonava alegremente. Mais uma semana de treinos básicos e eu já quase não podia esperar. Mas ainda havia os afazeres de casa. E isso me mantinha com a mente ocupada. Passei as duas semanas dentro da biblioteca, lendo e relendo diversos livros de magia e encantamento. Li as biografias dos Lobisomens e dos Vampiros. E acabei descobrindo mais do que devia. Um certo dia, faltando apenas dois dias para que eu fosse caçar com meu pai, encontrei um livro. O estranho era que ele estava em cima de uma das estantes. Quase imperceptível, só o vi por que havia um pouco mais de um centímetro de sua capa pra fora da estante. Quando o peguei percebi que era algo realmente valioso e antigo. Sua capa estava desgastada. Seu título estava apagado com o tempo e descascado em vários lugares. Decidi abrir o livro, ao menos para saber o que era. Ao abrir, li, logo na primeira página um poema que dizia assim:

“Oh! Grande lua sangrenta!

Oh! Lua da morte!

Envie seu escolhido, e nos entregue a nosso salvador,

Pois virá o tempo da dor, o tempo da agonia e nada poderá nos ajudar...

Oh! Lua do sangue! Ajudai-nos!

Envie para nós o que anda nas sombras!

Envie para nós o que anda na luz!

Envie para nós o Guardião!”

Meu coração bateu rápido. Meus olhos se arregalaram. Lembrei das palavras de meu pai naquela noite de tempestade:

- Garlock é um guardião!

- O que você disse Wotan?

- O que você ouviu. Ele tem a marca Anita, eu vi, está crescendo nele. Ele e Ryu também.

- Achei que... apenas...

- Não. Eles são guardiões. Mas o que eles protegem, nem mesmo os mais sábios espíritos puderam me dizer.

- Wotan, se isso for verdade... sabe o que pode significar... não sabe?

- Estou disposto a correr esse risco. Minha vida não vale nada se não puder proteger minha família.

Finalmente entenderia o que isso significava. Passei mais uma página e o título se abriu lob meus olhos, que se arregalaram mais ainda.

“O GUARDIÃO MÍSTICO – O QUE ANDA NAS SOMBRAS E NA LUZ”

Percebi meu nome no meio do título... “O que anda nas sombras....” O que isso tudo significava? Continuei lendo. Algumas página depois, lendo já a metade do primeiro capítulo, encontrei o que mais me surpreendeu:

“... O Guardião é conhecido por ser uma raça diferenciada. Mesmo que nasça nas sombras, filhos de seres da noite, pode e, certamente, irá se tornar um ser bondoso e alegre. Sua capacidade de se misturar à raça humana, de onde originalmente se originam, é a maior de todas. Os Guardiões são divididos em:

* Guardiões da luz = Seres que guardam templos, deusas e artefatos místicos. Sua capacidade de dobrar a luz é tão forte que eles podem mesmo se esconder num raio de sol para atacar seus oponentes. Nascem muito em famílias de paladinos.

* Guardiões das Trevas = Esses guardam catacumbas, e templos negros. Guardam também as entradas para o mundo dos espíritos. Geralmente, nascem lobisomens para facilitar a vigilância. Sua principal habilidade é a de se esconder nos rasgos do véu e atacar do mundo dos espíritos.

* Guardiões Místicos = Esses são os mais difíceis de localizar e os mais nobres entre todos. São também os mais poderosos. Ainda não se sabe exatamente o que eles protegem, mas ao que tudo indica, esse tipo de guardião só nasce quando há uma pessoa muito importante a ser protegida. E geralmente essa pessoa nem é nobre, mas possui um grande poder.

Os guardiões são identificados por uma marca. Essa marca é uma mancha de nascença, no formato de um olho aberto na nuca, perto da base do crânio. Dizem que significa que um guardião deve sempre estar alerta.”

Fiquei estarrecido. Que tipo de guardião eu seria? Talvez um Guardião das Trevas? Ouvi passos e, mais que depressa, saí dali carregando o livro. Passei toda a noite aprendendo tudo sobre os guardiões. Quando dei por mim, já amanhecia. Me levantei para tomar café e voltei pro quarto. Ninguém entendeu. Eu era geralmente o primeiro a chegar nos campos de treinamento. Ryu foi até o quarto e me encontrou lendo.

- Que é isso?

- Nada Ryu. – respondi sem tirar os olhos do livro – Pode ir treinar e avisa pro pessoal que não vou hoje.

Ele estranhou mas não disse nada. Eu estava investigando o que era e não queria ser incomodado. Mas chegou o dia de partir com meu pai. Não podia levar o livro e o escondi dentro no meu colchão. Partimos.

Num primeiro momento, foi o mesmo que enfrentar uma luta contra um gigante. Meu pai não aliviava a barra um minuto e, sempre que podia me atacava de surpresa. Seus poderes eram muito superiores aos meus, que eu havia descoberto há pouco tempo. Nada poderia ter me preparado para aquela semana. No segundo dia porém eu surpreendi meu pai. Estava acendendo a fogueira para nossa refeição quando senti um odor estranho. Meu pai havia ido ao rio pegar água e eu me preparava para um ataque dele. Mas o odor não era o dele. Minha aura se ergueu pela primeira vez em minha vida. Meus pelos começaram a crescer e meus olhos começaram a distinguir as sombras da floresta. De quatro, ma minha pequena forma lupina, comecei a farejar o cheiro e cheguei à beira do rio. Meu pai estava tomando um banho. Mas meus olhos foram atraídos por uma outra coisa. Uma sombra caminhava na margem oposta do rio. Corri, não sei como fiz, mas, ao pular, lembro de ter feito contato com a cabeça de meu pai e, depois, estava na margem oposta. Aquela criatura, fosse o que fosse, exalava uma odor pestilento. Um odor de morte. Isso me deixava mais furioso ainda e meus olhos começaram a brilhar num vermelho vivo. A criatura não recuava. Nem eu. Começamos a nos rodear para o ataque. Que aconteceu ao mesmo tempo em que meu pai emergiu das águas, bem a tempo de ver a manticora me atacar. Ele me contou depois que, na hora, pensou que eu iria morrer. Mas ele viu. Viu o ataque frustrado da manticora e, logo depois, o meu contragolpe. Saltando de lado, me esquivei de seu ataque e ataquei mordendo seu pescoço. Minha aura negra se ergueu novamente e, sem hesitar, despejei uma rajada negra bem no pescoço do monstro. Ele caiu morto e eu retornei à minha forma humana. Quando meu pai chegou eu olhei para ele, sorri, e caí desmaiado.

- Acorda filho.

- Pai?... O que houve?

- Nada... nada... Agora acorda... Você dormiu o dia todo.

Ao ouvir isso, me levantei de um salto. A lua estava nascendo e eu podia perceber ainda algum calor que emanava do chão. Havia pouco tempo que o sol havia se posto. Droga! Ryu e Hipnus haviam me falado que quase não dormiram. E agora eu fiquei o dia todo dormindo? Estava furioso. Chorava de raiva. Mas meu pai apontou alguma coisa perto da fogueira. Quando vi tomei um susto. Era uma espécie de leão. Mas de um tom avermelhado, como o metal, e a ponta de sua cauda era composta por várias pontas afiadas, como flechas. Olhei mais e pude ver uma marca no pescoço dele. Uma queimadura que havia arrancado quase metade do pescoço.

- Pai! O que é isso?

- Isso? É o que você matou ontem. E se não tivesse agido, eu provavelmente teria morrido. Sabe. – Ele sorriu – Esse Manticora é um ser que só é percebido por quem está em terra. Embora ele possa entrar na água, seu odor apenas pode ser sentido por quem está em terra. – Ele olhou para mim e fez um sinal para que eu o seguisse. Ele se aproximou do bicho e olhou pra mim – Sabe... Mesmo para um lupino adulto, enfrentar um Manticora pode ser o fim. Seus ataques são rápidos e concentrados. – Seu olhar ficou sério – E você matou esse aqui sem nem pestanejar. Com apenas um golpe.

Engoli seco. Ele voltou a falar.

- Por isso te deixei dormir. Além do mais, você se transformou ontem. Nem seus irmãos conseguiram isso. E na sua idade eu nem conseguia fazer meus pêlos crescer. – ele sorriu e fez um carinho em minha cabeça – Você é muito especial meu filho. Agora, vamos caçar que estou com fome.

Me alegrei. Então havia feito algo impressionante? Havia feito algo que meus irmãos não conseguiram? Estava radiante e a caçada daquela noite foram dois cervos. Um abatido por meu pai e o outro por mim. Assamos ambos e comemos um e metade do outro. Mas o dia seguinte nos revelava tenebrosas surpresas. Estávamos treinando quando senti um cheiro diferente. Um cheiro de ameaça.

- Sentiu isso pai?

- Senti. Tem alguma coisa errada...

Uma explosão. E eu fui lançado pra frente sem ver o que me atingira. Meu pai estava sobre mim.

- CORRE GARLOCK!

- PAI! O QUE...?!

- CORRE! SÓ FAZ ISSO!!!! COOORRE!!!!! SALVA TEUS IRMÃOS!!! CORRE!

Eu corri. Como um louco numa tempestade. Pude ouvir os uivos de guerra de meu pai e vários gritos dos que eram vencidos. Ao me ver correndo em direção ao portão, os guardas me deixaram entrar. Ao passar falei:

- CUIDADO! ESTÃO ATACANDO!! NÃO DEIXEM NINGUÉM ENTRAR A NÃO SER MEU PAI!!!

Eles entenderam e soaram o alarme. Corri pra dentro de casa e gritei pelos outros. Foi quando ouvi um novo uivo e meu pai pulava o portão correndo pra casa. No seu encalço, uma esfera de energia arrebentou o portão. Pude ver os caçadores, sedentos pelo nosso sangue, entrando pela ponte. Corri ainda mais. Mas já era tarde. Eu comecei a procurar minha mãe e a vi, na sala do trono. Em seus braços, uma de minhas irmãs... morta.

- Mãe??

- Eles entraram Garlock... quando vocês estavam fora... – ela olhou pra mim. Suas lágrimas eram sangue – Salve-se... seus irmãos estão escondidos no subsolo. Vá Garlock.

- Não vou sem você mãe!

Eles entraram na sala. Me virei e ataquei o primeiro com um mordida no pescoço. Seu sangue jorrou em minha garganta quando perfurei sua jugular. Os outros, impressionados por isso, recuaram um passo. Minha mãe sufocou um soluço. Me ergui. A boca cheia de sangue. Meus olhos brilhavam vermelhos.

- Quem é o próximo?

Esse desafio, vindo de uma criança, que havia acabado de matar sem hesitar, os abalou. Tempo o suficiente para que as forças de meu pai entrassem por trás deles e os rechaçassem. Mas ainda eram poucos... e estavam feridos. ME virei para minha mãe e ela me implorou para que eu fosse embora e procurasse Ryu e Hipnus e me juntasse a eles. Não pude dar a resposta que queria. Mais caçadores entraram e, dessa vez, a força dos guerreiros de meu pai não foi suficiente. Todos foram mortos. Pensei em avançar contra eles, mas uma esfera de energia negra me acertou na barriga. Vi o mundo rodopiar e caí no chão perto da parede. Minha mãe se ergueu e se colocou entre mim e eles.

- Ele é apenas uma criança. – ela chorava – Não o matem... é apenas uma criança...

Risadas soaram e um dos caçadores avançou. Reconheci, pelas orelhas dele, que era um elfo dos bosques. Senti um ódio dessa raça tão profundo que minha aura cresceu. Mas uma nova rajada me forçou a ficar deitado e apenas assistir. EU não fui forte o suficiente. O mesmo elfo que se aproximou a segurou com as mãos pra trás. Ela se debatia tentando se soltar, mas a força daquele desgraçado era muito grande. Um segundo elfo se aproximou de mim e me ergueu do chão. Ele me segurava a cabeça e apontava pra minha mãe.

- Olhe bem garoto. Será o próximo.

Minha mãe se contorcia mais. Olhava pra mim e implorava para que não me deixassem ver. Mas era tarde. Um terceiro elfo, com um bracelete com uma lâmina curva acoplado a ele, se aproximou e desferiu um golpe na barriga de minha mãe. EU gritei e me debati, mas as mãos do elfo era firmes como rocha. Eu o vi subir a lâmina até o meio do peito dela e a vi cuspir sangue nas vestes do assassino. Ele riu e puxou a lâmina. Com um som de algo se quebrando, vi as costelas dela saindo do corpo e ele enfiou a mão dentro de seu corpo. Quando a retirou, o coração de minha mãe saiu em sua mão. Então o primeiro a jogou no chão e fez um sinal. O que me segurava me soltou e corri para ela. Abracei eu corpo. Chorei. O ódio em mim era um vulcão explodindo em todas as direções. Mas minha mente estava em cacos. Eles se aproximavam. Meus olhos de perderam no vazio. A última coisa que me lembro é que eles estavam me suspendendo. Vi a lâmina do assassino vindo em minha direção. Então escuridão... vazio... e um uivo ecoando em minha mente.

Quando acordei, estava em uma caverna. Ryu estava ao meu lado, dormindo, ferido na boca e com uma faixa nas costelas. Hipnus estava na entrada da caverna, percebi uma faixa em sua mão. Do meu outro lado, Layla ressonava, intacta. Tentei me sentar, mas sentia muita dor. Senti a mão de alguém pousar em meu peito gentilmente. Olhei e vi meu pai. Reconheci um certo alívio em seu olhar ao me ver acordado. Ele ainda segurava meu peito. Percebi que estava com o tórax enfaixado e com as pernas imobilizadas. Logo percebi que estavam quebradas.

- Pai... o quê...

- Eles nos atacaram de surpresa. Eram caçadores. Não precisa saber mais que isso agora. Durma. Precisa descansar pra se recuperar.

- Onde está minha mãe?

Uma tristeza tão grande tomou conta de seu semblante, que achei que ele ia chorar. Meu irmão, Hipnus, baixou a cabeça e soluçou. Meu pai olhou pra mim.

- Não podemos voltar mais Garlock... Imperia... Imperia caiu.... – novamente uma tristeza muito grande tomou conta de seu olhar.

- Onde estão os outros?

Ele abriu a boca pra responder, mas foi Hipnus que falou. Sem sair da boca da caverna. Sem se virar. Sem sequer olhar pra mim, ele disse:

- Só restamos nós Garlock... Somos tudo que resta.

Notas finais
O choque da revelação foi grande demais. Desmaiei. Semanas depois saíamos da caverna. Sem destino, sem rumo. Sabíamos que éramos perseguidos e isso nos dava forças pra continuar... Mas lembrar que tudo que tínhamos estava arruinado.... tudo estava perdido.... Baixei a cabeça. Uma lágrima caiu no chão da floresta. Uma lágrima de ódio. Jurei vingar minha mãe... custasse o que custasse, sem me importar com nada nem ninguém... Mataria todos. Todos.

Próximo capítulo: A primeira derrota