- Garlock.

Essa foi a primeira vez que escutei meu nome. Uma voz feminina me chamava, mas eu não sabia que era comigo que falavam. Mas ela, eu aprendi a chamar de mãe.

- É um nome bem apropriado. “O que anda nas sombras”. rsrs Será um grande guerreiro.

Uma nova voz. Um homem dessa vez. Aprendi a chamá-lo de pai.

Esses foram os primeiros momentos que eu passei nessa vida. Assim como foi me contado, assim eu conto. Nasci no vigésimo dia do décimo segundo mês. Ali começavam minhas dores.

Foi um árduo caminho crescer em meio a tantos híbridos. Principalmente, por que meu pai me incutia a ferocidade dos lobisomens e minha mãe, a aristocracia vampírica. Cresci sendo observado de perto pelos melhores. Treinei com Vlad, o poderoso vampiro guerreiro, e com Woldenberg, general das tropas de meu pai. Ele, Wotan Galahad, era senhor de um pequeno paraíso chamado “Imperia”. Seu maior orgulho no entanto, eram seus filhos. Contando comigo, éramos ao todo quinze irmãos, todos filhos dele. Mas eu tinha mais seis irmãs, e um irmão, resultado do antigo casamento de minha mãe. Uma grande família unida. Tanto, que treinávamos juntos e, juntos, formaríamos a maior força de ataque de Imperia. Ao nosso pai, mostrávamos respeito. À nossa mãe, gratidão e amor. Sempre brincávamos nos bosques que circundavam o castelo e, à tardinha, íamos nadar nas águas claras e cristalinas das lagoas ao redor. Era rindo que nos encontrávamos todas as noites para comer. E rindo nos dirigíamos aos quartos, onde cada um dormia tranqüilo, pois sabíamos: Estávamos seguros.

Mas eu sabia que não... Era uma sexta-feira. Foi a noite em que um temporal me acordou e, com medo, ainda nos meus sete anos, saí da cama em direção à cama de meus pais. Sabia que levaria uma surra por isso de manhã. Mas naquele momento só queria proteção. Porém, ao me aproximar do quarto, notei a luz acesa e estranhei. Pé ante pé, me esgueirei até a porta e pude entreouvir a conversa de meu pai com minha mãe.

- Tem certeza Wotan? É sério o que dizem?

- Tenho Anita. Laguna foi devastada e Babylon não existe mais. Há caçadores atacando os refúgios dos híbridos. E segundo minhas fontes, é apenas uma questão de tempo até chegarem aqui.

- Meu Deus... Então teremos que fugir Wotan! Não podemos nos dar ao luxo de entregarmos nossos filhos nas mãos dos assassinos! Se podemos fugir, vamos agora!

Ouvi um barulho, como se minha mãe estivesse indo em direção à porta. Pensei em recuar, mas ouvi meu pai.

- Pare Anita! De que adianta? Logo nos acharão de novo! Esse grupo é liderado por um ser negro. Não sei quem é, mas seu grupo, apesar de forte, é pequeno. Aqui, não nos derrotarão.

- Mas Wotan... Se Destruíram Laguna e Babylon, as duas fortalezas mais bem equipadas, o que o faz pensar que nós poderemos resistir?

Novamente ouvi passos. Agora meu pai caminhava e, pelo que pude ouvir, abrira a janela. Uma brisa fria passou por debaixo da porta. Ele então falou:

- Eu li nas estrelas Anita. E como sabe, posso conversar com os espíritos. E isso tudo me diz apenas uma coisa:Imperia não cairá! Dou-lhe minha palavra de honra! Como senhor dessa terra, que Imperia será herança de nossos filhos! Temos uma arma que poderá nos salvar deles!

Minha mãe riu. Ouvi seus passos pelo quarto e as luzes apagaram. Percebi que era hora de voltar ao meu quarto, mas quando me virei ouvi novamente a voz dela.

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- E que arma é essa, posso saber?

Ele riu. Pude ouvi-lo.

- Ryuuku e Garlock. Eles são nossa proteção.

- O QUÊÊÊ!??!!??!!????!!!

O grito que minha mãe deu, machucou até meu ouvido do lado de fora do quarto, que dirá para meu pai, ao lado dela. Ouvi um barulho e algo se espatifou na parede.

- Calma Anita! Calma amor!

- Como pode pensar em mandar Garlock ou Ryuuku para lutar!? Será que não percebe?! São apenas crianças!!!!!

Novo barulho e um rosnado de meu pai, seguido por alguma coisa se encravando na parede. Percebi que faríamos compras no dia seguinte. Meu pai uivou e escutei um baque. A porta tremeu e pensei que ela fosse escancarar. Mas ela agüentou firme.

- Anita me escuta!

- Não! Me escuta você! Como ousa...

- Garlock é um guardião!

Silêncio. Foi como se, de repente, todo o mundo estivesse sem som. Ouvia apenas a respiração de ambos. Finalmente ela falou... mas parecia preocupada.

- O que você disse Wotan?

- O que você ouviu. Ele tem a marca Anita, eu vi, está crescendo nele. Ele e Ryu também.

- Achei que... apenas...

- Não. Eles são guardiões. Mas o que eles protegem, nem mesmo os mais sábios espíritos puderam me dizer.

- Wotan, se isso for verdade... sabe o que pode significar... não sabe?

Novamente o silêncio... Vi um pouco de sangue, que escorria lentamente por debaixo da porta e percebi que meu pai havia sido ferido por alguma coisa que minha mãe atirou. Ele falou.

- Estou disposto a correr esse risco. Minha vida não vale nada se não puder proteger minha família.

Um estrondo me assustou e percebi que ainda chovia. Percebi também, pelo silêncio renovado, e pelo som da porta se trancando, que eu não entraria no quarto deles essa noite. Voltei ao meu quarto atordoado. Sentei na cama e, só então, percebi que Hypnus me olhava da cama dele.

- Você ta horrível mano...

- É por quê não me aliviei totalmente. Vamos dormir Hypnus.

- Ok. Amanhã você me conta o que houve no quarto dos nossos pais.

Sorri. Me deitei na cama e olhei para o lado. Ali estava Ryuuku. Dormindo tranqüilo e com a mesma expressão desafiadora no rosto que tem hoje. EU tratei de dormir logo. Mas sonhei com o que meus pais falaram... Guardião do quê? E no sonho eu guardava tesouros e castelos, era guarda-costas de reis e princesas... até que, pouco antes de acordar, eu vi uma janela... uma janela branca de uma casa simples... e nessa janela, uma menina com olhos choroso e expressão triste...

Assim que acordei, não me lembrei direito do sonho, e nem queria, queria mais saber o que minha mãe jogou contra meu pai naquela noite. Ela, por ser uma vampira mística, podia agüentar a luz do sol. Então, todas as manhãs ela saía do quarto e ia para o “SOLARIUM” que era onde ela gostava de ver o nascer do sol. Saí da cama e fui até seu quarto, ela já havia saído e deixara a porta aberta. Me esgueirei pra dentro do quarto e pude ver algo que me assombrou por semanas... Na parede, exatamente no encontro de duas pedras da construção, estava a lança de meu pai, ainda com um pouco de sangue seco nela. Percebi imediatamente o que o atingira. Saí correndo.

Logo, as brincadeiras do dia deram lugar ao treinamento, que deu lugar a novas brincadeiras. E assim, rindo, me esqueci dos diálogos noturnos de minha mãe e meu pai. ME esqueci da lança sombria na parede(embora ela fosse me visitar todas as noites em sonhos), me esqueci de tudo em meio ao dia festivo e às noites quentes. Em outras palavras, aproveitei minha vida ao máximo. E tudo era perfeito.

Naquela noite, me sentei no chão da sacada para ver a lua nascer. Quando me virei para o lado, vi meu pai debruçado no umbral de sua sacada para ver o mesmo espetáculo. Sorri. Ele olhou para mim e sorriu também. Então uma luz prateada nos iluminou e a lua cheia saiu de trás dos morros. Ao vê-la assim, deslumbrante, brilhante, prateada. Não resisti. Enchi os pulmões de ar e soltei o primeiro de muito uivos que ainda daria para celebrar a lua. Um uivo fraco, como um filhote de lobo. Mas quando terminei, olhei para meu pai. Ele sorriu para mim e fez um gesto com a cabeça para que eu prestasse atenção. Então ele uivou. E seu uivo fendeu o céu e ecoou pelo vale. Foi tão poderoso que eu arregalei os olhos. Quando ele terminou, olhou para mim e acenou novamente com a cabeça, para que eu uivasse. Percebi que ele me treinava. Sorri, e uivei de novo. A noite toda nós passamos assim, a uivar pra lua. E no dia seguinte, nenhum dos dois conseguia falar. Sorrimos um para o outro, cúmplices de nosso instinto. E começamos um novo dia.

E os dias se passaram. E as noites de lua se repetiram... E assim se passou aquele ano. Em meio a festas, banquetes, treinos e brincadeiras, vivemos e nos divertimos. Em tudo fomos felizes. E em tudo, nos unimos.

Se naquela época eu já soubesse do que sei hoje, perceberia que, quando tudo está muito bom... é melhor se preparar para o pior. Pois quando se chega ao topo, o único caminho restante é para baixo...

Notas finais
Sim, minha vida era um paraíso. Mas quanto tempo duram os paraísos? Quanto tempo até que, folha por folha, o outono venha e desmanche todo o bosque e tudo que resta, são apenas os troncos vazios e desnudos das árvores? Quanto tempo, até que tudo sejam apenas cinzas e pó?

Próximo capítulo: Caçadores