Innocent Questions

3 Capítulo III - Perfeição num tom esverdeado


Capítulo III – Perfeição num tom esverdeado



Markham, Canadá.

Mansão Nebrawsk – 11/11/2009



Cansaço... Dor... Fome... Sede...

Era tudo o que eu sentia naquele momento. E também, uma vontade insuportável de ir no banheiro. Parece que se passaram dias, senão uma semana inteira... Uma eternidade.

Devo admitir que já dormi umas duas ou três vezes. Foi um dos piores momentos da minha vida. Não, foi o pior, com certeza.

Meus olhos doíam, meus lábios secos imploravam por água.

“Eu não sei o que fiz para merecer isso... Eu estudo, ajudo meus pais, tenho amigos ótimos, e um namorado perfeito...” — Pensava,.

Percebi que os gritos começaram a se cessar. Obviamente, tinha mais capturados como eu. Mas, gritar não ia ajudar em nada. Ou será que ajudaria? Não... Não ajudaria não.


Não conseguia parar de pensar em Jeff... Nossos momentos juntos, aqueles momentos felizes, e gostosos. Sinto falta desses momentos.

Arrependia-me de ter brigado com ele. A discussão girava em torno de uma suposição, a suposição de que eu estava grávida dele. Eu não via aquilo como algo ruim, mas seu desejo era nunca ter filhos...

Nunca me esqueço. Estávamos indo para uma clínica de aborto – eu estava chorando, e Jeff estava sério demais. Foi aí que os policiais nos pararam, mandaram-nos descer do carro. A rua estava vazia, a pista estava com neblina e não se podia ver os outros carros. Foi aí, que os policiais nos golpearam com uma arma, e desmaiamos. Pelo menos a última coisa que vi foi Jeff caindo no chão.


“Sinto falta daqueles dias que ele me chamava de linda a todo o momento... Elogiava o meu jeito de sorrir, e até mesmo de andar. Saudades também quando ele me olhava nos olhos e acariciava meu cabelo. Ele costumava ser tão romântico mas... Mas, não sei o que aconteceu... Não deve ser minha culpa.” — Pensava.

“Aqueles olhos escuros, que todo mundo achava sem graça, me encantavam de tal forma... Que eu fiquei noiva dele. E agora todos esses problemas... Minha mãe nunca o aprovou mas... Ela não pode estar certa”.


Interrompendo meus pensamentos, a porta se abriu. Levei um susto. Se não fosse pelas cordas, eu teria pulado da cadeira, ou caído dela. A luz amarela do lado de fora entrava no que parecia ser um quarto, onde eu estava, iluminando o chão. A silhueta de um homem de estatura alta apareceu, e ele estava entrando lentamente no quarto.

A porta se fechou, e tudo ficou escuro. Ouvia os passos bem baixinho. Repentinamente, comecei a respirar forte – sem eu mesma querer. Era tão alto, que nem a minha mais longa corrida eu fiquei tão cansada como naquele momento.

Subitamente, uma luz se acendeu diretamente no meu rosto. Tentei desviar, mas era muito intensa. Meus olhos doeram. Por fim, a intensidade foi diminuída, e eu pude olhar para a luz.

Pude ver a silhueta do homem, e uma parte de seu braço sendo iluminada por parte da luz. Porém, seu rosto ainda era desconhecido para mim.

Eu tinha chorado muito antes disso, acho que ele ficou impressionado com meu rosto ridículo. Provavelmente, meus olhos estavam brilhantes e inchados, e meu rosto vermelho, mas isso não importava tanto...

Depois de um tempo, ele disse:

“Olá...”


– – — — — — — — — -



Joseph se aproximou da moça, e começou a falar:



– Olá...

– … – Ela ficou em silêncio, olhando para o lado.

– Está com sede? — Perguntou.

– Sim...

“A voz dela é tão meiga...” — Certo, buscarei um copo da água para você. E, fome?

– Também... — Os olhos inchados dela começavam a se completar com lágrimas.

– Tá...



Joseph saiu do quarto, e fechou a porta. Colocou a mão sobre a testa, e passou-a até o cabelo, jogando-o para trás. Suspirou, olhando para baixo, deu um passo a frente, e começou a andar para a cozinha. A cozinha fica no segundo andar, depois de uma das poucas grandes portas.

Abriu-a, e entrou. Percebeu que, como havia requisitado, o cozinheiro fez vários tipos diferentes de pratos – alguns iguais. Esses estavam num prato, porém, com uma fina camada de plástico por cima, para proteger. Pegou um garfo e uma faca sem ponta, e colocou no bolso.

Joseph então colocou um desses no micro-ondas, e apertou o botão para esquentar durante 2 minutos. Depois do barulho, que seguiu do baixo barulho do prato virando dentro do aparelho, o homem encheu um copo com água.

“Deus, ela é perfeita demais...” — Pensava ele. Na verdade, ele estava confuso se estava apaixonado, ou totalmente inspirado e surpreso com sua beleza inconfundível e única. Porém, a intenção não era achar um amor, ou um amigo.

Não esperou o tempo necessário. Tirou a comida do micro-ondas faltando 15 segundos para acabar. Ele tinha essa mania inútil – como quase todas as manias que as pessoas tem.

Segurou o prato, e o copo, saiu da cozinha e desceu as escadas. Segurando o prato com o copo por baixo, ele abriu a porta com a mão esquerda, entrou, e fechou com a mesma mão. Já no quarto, foi a direita e colocou o prato quente em cima de uma cômoda, com roupas dentro das gavetas. Com o copo na mão, andou em direção a mulher.

A mulher olhava pra ele, mas não conseguia identificar seu rosto – estava tudo negro. A iluminação não chegava ao seu rosto. Perto dela, ele aproximou o copo de seus lábios, e foi levemente virando em direção a sua boca. Ela desesperadamente tomava a água, quase se engasgando com ela. O copo de 500ml foi literalmente seco.

Joseph andou até a cômoda e colocou o copo lá. Voltou, ajeitou sua cadeira do lado do projetor, em frente a cadeira da mulher, e sentou-se. Apoiou seus cotovelos nas duas pernas, e apoiou seu queixo usando as duas mãos entrelaçadas, bem perto da boca também.

A moça tentava olhar para seu rosto, porém o mesmo estava escuro.



– E a sede, passou? — Perguntou Joseph.

– Sim... — Ela respirava ofegante, com medo.

– Qual é o seu nome?

– Quem é você? — Ela olhou diretamente para o rosto irreconhecível dele.

– Isso é o de menos. Se você colaborar, eu respondo tudo o que você quiser. Você tem minha palavra de que não vou lhe fazer mais nenhum mal.

– Não confio em um cara que sequestra os outros.

– Não sequestrei ninguém, eu salvei vocês. Um dia você vão ver isso.

– Salvou!? — O olhar de irritação e indignação dela ela claro – Como assim, salvou!? Está louco??

– Sophia...

– C-Como... Sabe meu nome? — Perguntou a moça, de boca aberta.

– Todos aqui foram trazidos por um propósito. Não escolhi vocês aleatoriamente – como muitos deveriam achar, se soubessem disso. Enfim, eu tenho planos para todos vocês. Sei que não entende mas...

– Hm...

– E outra, admita: Sua vida estava uma droga antes de você vir para cá.

– O que você sabe sobre minha vida? — Perguntou num tom agressivo.

– Todo o necessário. Tudo o que você sabe também. Até mesmo sobre Jeff.



Seu olhar de espanto conseguiu ser mais aprofundado depois que Joseph mencionou o nome de seu namorado – Jeff. Sophia debulhou-se em lágrimas, enquanto respirava ofegante e olhava para baixo.



– Desculpe-me – Disse Joseph, prestando atenção em cada reação de Sophia.

– Não, é que... — Sophia tentava se conter – Está tudo muito complicado...

– Eu sei... Deve estar sendo difícil pra você, mas... Tenho certeza, que tudo vai melhorar. Eu vou fazer tudo melhorar.

– Ah... — Suspirou – O que você quer comigo...?

– Disso nem eu sei. Na verdade, quero respostas para perguntas variadas. E respostas, vindas de pessoas variadas e aleatórias.

– Mas... Tipo, um teste? — As lágrimas pararam.

– Mais ou menos isso. É um pouco mais complicado... Digamos que nem eu sei ao certo. Vamos ver.

– Quando eu vou poder ir pra casa? Quando eu vou poder ver Jeff novamente? Ele deve estar preocupado comigo, deve estar correndo cidade afora me procurando...

– Jeff... Ele, ele realmente te ama? — Perguntou Joseph, mudando o tom de voz.

– Claro! Ele me ama imensamente, somos noivos e... Bem, você já deve saber disso, de alguma maneira.

– Sim, eu sei. Mas será mesmo que ele realmente te ama?

– Sim!

– Pense a respeito. E depois me responda novamente, ok?

– Que ridículo. Quero sair daqui! Voltar pros meus pais, meus estudos.

– Relaxa, isso vai ser bem em breve, ok? Bem... Desculpe por você estar com todos esses problemas, e nessa situação agora, cansada... Enfim, tem uma cama aqui, uma cômoda com roupas, e um banheiro ao lado. Esse será seu novo quarto por alguns dias – de teste.

– Hm?

– Eu vou cortar uma de suas cordas que prendem suas mãos, e te darei a faca para fazer o resto. Nesse tempo, eu vou sair do quarto e trancar a porta. Você vai levantar, acender a luz, e desligar o projetor. Em cima da cômoda, está sua comida.

– Mas por que...

– Avisarei-te de que você acordará na cadeira, amarrada novamente. E quando isso acontecer, não tema e nem desespere-se. Eu chegarei em breve.

– …

– Quanto ao seu namorado, e à pergunta... Pense em ambos. É a única coisa que lhe peço.

– Isso é totalmente, ridículo.

– Mas faça.



Joseph se levantou da cadeira, tirou o garfo e faca do bolso. Colocou os dois do lado do prato. Do seu outro bolso, tirou uma faca com pontas médias. Se aproximou de Sophia, e cortou uma das cordas – a corda da mão direita. E deu para ela.

Andou em direção à porta, abriu-a, saiu do quarto, e trancou.

Foi até a cozinha, tomou um copo da água, e sentou-se para pensar um pouco. Colocou outro prato de comida para ser esquentado enquanto fazia isso.

Dois minutos depois, levantou-se, pegou o prato, pegou um copo com água, e desceu as escadas. Foi pelo corredor, e olhou para o Quarto 05, o quarto de Sophia. Encarou-o por alguns instantes, e continuou a andar. Por fim, entrou no Quarto 06. Deu três toques, entrou, e fechou a porta.

“Ah!! Quem é você!?” — O Homem ali sentado na cadeira começou a gritar, com medo. Joseph calmamente se aproximou de uma cômoda e colocou o prato lá. Garfo e faca foram posicionados do lado do preto da mesma maneira. Todos os quartos eram iguais.

Se aproximou do projetor, e ligou a luz. Diminuiu a intensidade, pois a mesma estava fazendo os olhos do homem latejarem de dor. “Desliga, desliga!!” — Gritava loucamente.

Joseph colocou a cadeira em sua frente, sentou-se segurando o copo e encarou o homem.

Encarava o homem loiro de olhos negros. Sua pele era clara, não possuía nenhuma barba. Seus lábios eram finos, e seus dentes eram brancos. Com um olhar agressivo, encarava a silhueta de Joseph.



– Está com sede? — Perguntou.

– Quem é você!? O que fez comigo!?

– Está com sede ou não?

– Me responde logo, seu filho da puta!! Quem é você!?



Joseph segurou o copo, e com um movimento, jogou a água no homem. Ele ficou encharcado, começou a tossir pois se engasgou com a água entrando diretamente em sua narinas. Abriu os olhos, e começou a mexer rapidamente a cabeça, tentando tirar o excesso de água.



– Idiota!! Quando eu sair daqui, eu vou te matar!

– Voltarei quando você se acalmar... — Joseph abriu a porta.

– Ei! Volte aqui, babaca! Não terminei!!

– … Jeff – Joseph completou a frase.

– Ahn? Como sabe meu nome!? Hein!? Como sabe?!?



Joseph fechou a porta.