Innocent Distraction
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Nas duas semanas seguintes, apesar do cansaço, os pesadelos eram constantes nas noites do gerente. Se nem mesmo á noite ele conseguia descansar, de dia o descanso era algo completamente impossível.
Malfoy andava por todo o navio, gritando ordens, verificando cada canto, examinando milimetricamente a embarcação. Ele estava ficando neurótico. Chegou ao ponto de limpar por conta própria algumas sujeirinhas que achou durante sua “ronda” diária, coisa que nunca faria não fosse uma situação de extrema emergência.
Draco tinha a péssima mania de se achar superior aos outros, de dizer que nunca se rebaixaria a ponto de pegar em uma vassoura. E ali estava ele, vestindo bermuda e regata e calçando um chinelo, ajudando a esfregar o convés no último dia antes da chegada dos turistas, somente por causa de um inspetor estúpido que resolvera estragar seus dias de descanso.
Os funcionários até mesmo organizaram um dia inteiro para a prova do cardápio do navio, no final de semana antes da partida. Uma mesa enorme foi colocada no salão principal com tudo a que os clientes tinham direito, desde a lista do café da manhã até o jantar e as comidas servidas em eventos especiais. Digamos que, de todos os dias de preparação, este foi o melhor. Malfoy podia até dizer que relaxou um pouco, porque acabou consumindo com bastante exagero um certo whisky chamado Firewhiskey. Ele virara os copos com a bebida ao som de seus funcionários gritando em uníssono “Vira! Vira! Vira!”, enquanto o líquido descia queimando por sua garganta.
Não é preciso dizer que no dia seguinte o gerente acordou desejando nunca mais tomar uma gota de álcool e se jogar no mar de tanta dor de cabeça. Porém, apesar da festa, a tripulação do navio continuou estressada com as preparações até o último segundo. Draco estava uma pilha de nervos e sem paciência para qualquer coisa.
Ele nem mesmo conhecia o tal inspetor, mas já podia dizer que o odiava.
Pelo menos o navio parecia brilhar de tão perfeitamente limpo, o que fez Draco acordar com um sorriso no rosto no tão não esperado dia. O inspetor poderia revirar o navio inteiro, que não encontraria sequer uma poeirinha.
E foi com esse pensamento que Malfoy caminhou com passos firmes até a entrada da embarcação. Uma faixa colorida de vermelho e verde dava as boas vindas aos turistas que chegavam ao deque principal e os funcionários formavam uma enorme fileira, todos em pose formal e vestindo roupas brancas.
Bem no meio da fila encontravam-se Draco, o comandante do navio Blaise Zabini, e seu imediato, Theodore Nott. Os três vestiam fardas brancas como as usadas na marinha e o famoso chapéu, que completava o uniforme.
Dizer que a tripulação estava ansiosa era pouco. Todos estavam inquietos e comentavam entre si os palpites sobre quem seria o inspetor.
Os milhares de turistas entravam devagar, admirando o tamanho do navio e puxando suas enormes e pesadas malas. Famílias, casais mais velhos ou na lua-de-mel, e até mesmo hóspedes individuais não paravam de chegar. Esses eram o alvo dos três homens no meio da fila de funcionários, que tentavam encontrar indícios do inspetor.
— Olhem aquele homem ali. Ele parece querer examinar demais as coisas. –Nott disse ao notar um senhor de meia idade que andava de cara fechada, fixando o olhar em cada parte da embarcação.
— Sem chance! Não acho que o inspetor viria com uma mala florida e meias listradas de azul e amarelo. –Blaise notou, e Theo soltou uma sonora gargalhada.- Mas aquela moça parece suspeita, com seu bloquinho de anotações. Ah, espere. Ela está usando um chapéu em forma de cachorro. Esqueçam.
— Não acho que descobriremos algo hoje. O inspetor com certeza está bem disfarçado para garantir que não será reconhecido. –Malfoy pensou em voz alta.
— Fica quieto, cabeçudo. –Blaise disse, em som de reprovação.- Está divertido procurar. Tem muita gente doida entrando aqui.
Draco balançou a cabeça em negação. Seus olhos paravam e examinavam completamente cada pessoa que se dirigia sozinha ao navio. Homens e mulheres, nenhum parecia ter a postura de um inspetor, apesar de todos repararem de boca aberta na estrutura incrível do navio. Paravam, observavam por um tempo e ainda assim continuavam a dar passos lentos olhando em volta, parecia mais uma regra: que todos os hóspedes observassem o máximo que pudessem.
A única exceção a essa regra era uma mulher que passou correndo, empurrando sem querer a maioria dos que embarcavam. Ela usava um short jeans e uma blusa larga de alcinhas e cor azul. Os cabelos castanhos balançavam soltos de um lado para o outro conforme ela corria e Malfoy não podia entender o motivo da pressa. A mulher tinha uma bolsa enorme pendurada em um dos ombros e parecia não ter dificuldade nenhuma em puxar a mala cheia com uma mão só. Ela caminhava determinada e sem sequer direcionar o olhar para outras partes do navio além de seu destino final.
Draco olhou intrigado para ela. Era a primeira vez que via um turista passar e não parar para observar a enorme estrutura do Magic of the Seas, com suas milhares janelas.
E então viu-a virar a cabeça para trás e acenar emburrada para um casal mais velho, que pulava e balançava freneticamente as mãos, com um sorriso enorme no rosto. Provavelmente eram os pais da moça. Ela voltou a cabeça para o navio e continuou a andar determinada. Malfoy descartou-a de suas suspeitas na mesma hora. Se houvesse uma lista dos hóspedes menos prováveis de ser o inspetor, aquela mulher seria a número 1. Afinal, um inspetor estaria ali para avaliar o navio, observando tudo minuciosamente.
Draco continuou observando-a enquanto ela puxava a mala, já dentro do deque principal do navio. Em nenhum momento ela diminuiu o ritmo, arrastando a mala de uma forma determinada. Então ela passou por um ressalto no piso, o qual não havia visto, e tropeçou, quase indo ao chão. Logo depois de se equilibrar novamente, ela continuou no seu ritmo frenético, agora xingando baixinho no caminho. Malfoy se segurou para não rir, mas, quando olhou para o ressalto, viu um objeto azul escuro no chão.
Franzindo a testa, o gerente se adiantou até o meio do deque, no mesmo lugar no qual a moça havia acabado de tropeçar, e apanhou o objeto. Era uma carteira, e ao abri-la ele achou dinheiro, vários cartões de crédito, algumas fotos da moça sorrindo alegremente com as mesmas pessoas que acenaram para ela na entrada do navio e a carteira de identidade dela.
Ele olhou para o deque e não viu nem sinal da mulher de cabelos castanhos, então decidiu que, mais tarde, após o término da entrada dos turistas no cruzeiro, iria procurá-la e entregar a carteira. Para descobrir em qual quarto ela estava hospedada, Malfoy só precisava do nome dela, então jogaria tudo no sistema e os dados de sua inscrição apareceriam na tela.
Ao se virar para voltar ao navio, distraído, quase derrubou um homem que estava de pé atrás dele.
— Me desculpe, senhor, não foi minha intenção.
— Mais cuidado, rapaz. Quase jogou minha câmera no chão. –O homem ruivo disse. Era carrancudo e bastante ignorante. — Se todos os funcionários forem desastrados igual a você eu não aguentarei ficar neste lugar. Enfim, eu estava parado aqui porque supus que você seria alguém importante neste navio e queria saber se os hóspedes podem visitar a ponte de comando.
— Não, não podem. É uma área exclusiva. –Após a resposta de Draco, o homem se virou e foi embora sem ao menos agradecê-lo. E pronto, Draco tinha um suspeito número 1. Era quase óbvio: ele tinha uma máquina em mãos, estava sério e queria conhecer a principal área de controle do navio. O gerente tinha quase certeza que tinha encontrado o inspetor.
Após a confusão, Malfoy voltou suas atenções para a carteira perdida. Abriu-a novamente e pegou a identidade da moça, lendo todos os dados e parando no nome dela, o qual ele teve a impressão de que conhecia de algum lugar. Draco fez esforço para se lembrar, mas acabou por balançar a cabeça e se convencer de que fora somente uma impressão.
Quando chegasse a sua cabine, não iria se esquecer de procurar pelo quarto da moça de cabelos castanhos que parecia não querer estar naquele cruzeiro: Hermione Granger.
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