Innocence NejixTenten
2 Lua Prateada
Notas iniciais
Acordou cedo àquela manhã. Desceu as escadas pensando ser o único desperto na antiga mansão. Porém, logo ouviu algo atrás de si. Virou-se e apenas deixou-se envolver pelas dóceis mãos da Hyuuga de cabelos longos e olhos úmidos. Hinata Hyuuga, quase irreconhecível, serenamente despreocupada e com um reluzente sorriso como esboço principal de seu rosto.
– P-Por que me fez esperar? – indagou timidamente.
– Nem sempre conseguimos tudo o que se quer... Você cresceu também. Fico feliz em revê-la, Hinata-sama. A princípio, perdoe-me.
Deu-lhe um leve beijo na testa. Nem sequer percebeu o quão grande era a falta que aquele local fazia. Agora parecia estranho também; alguns móveis foram trocados de lugar e a harmonização do ambiente estava mais leve. Parecia ter sido decorado por aquela gente especializada que faz uso de incenso e yin-yang até na hora de se deitar. Analisou o cômodo, estranhando parecer tão familiar e tão distante num mesmo período.
– A Sakura-chan veio aqui... – ela disse – Arrumou a casa para Hiashi-san sentir-se mais confortável.
– Ele sabe que estou aqui?
– Chegou a ver Hanabi entrar e conversou com ela, mas não o viu ainda. Ele ficará surpreso com você, Neji-san — falou-lhe com um sorriso.
– Sem mais formalidades, está bem? – respondeu numa tonalidade apreensiva.
Passou pela prima e dirigiu-se à cozinha. Foi seguido por ela e ao chegar ao local em questão apanhou as poucas coisas que havia trazido: uma mochila de alça única e uma espécie de saco de dormir. Desistiu do último pertence e colocou-o num canto próximo a um velho recuo aberto na parede com algumas prateleiras.
A prima permanecia calada, apenas observando cada pequena coisa que fazia. Só em tê-lo de volta em casa já a deixava mais serena que de costume. Serenidade que logo se despedaçou quando ele saiu e alcançou o vão de entrada. Estava abrindo a porta principal quando suas mãos agarraram-se a dele com força. Encarou-a.
– Prometa-me que voltará ainda hoje! – mostrou-se com uma expressão preocupada, e, pela primeira vez referindo-se a ele, num tom mais autoritário.
Era certo que Hiashi pensava muito mais na esposa agora, visto que Hinata tinha os mesmos traços físicos da mãe – ainda mais com as roupas tradicionais do clã Hyuuga combinadas com sua gentiliza e beleza características.
Neji sorriu. Quem estaria no momento mais descrente dos próprios olhos: ele pela notável maturidade da jovem ou ela por tão nobre cortejo vindo de alguém que antes mal conhecia a ternura?
– Você consegue ser uma flor mais bela e prudente a cada dia, Hinata-sama – falou-a deixando sua mão deslizar e ir embora, com um novo sorriso brotando na delicadeza da adorável face feminina.
*~*~*~*
Passou por um mercado agradavelmente limpo e pequeno. Comprou algumas coisas que precisava e negociou outras que não lhe serviam mais.
Seguiu por um caminho que levava às proximidades do centro da vila. O comércio já estava abrindo as portas e algumas pessoas já circulavam pelas ruas quando chegou ao prédio desejado.
Bateu na última porta do corredor curvilíneo. Outra vez. E mais uma. Antes de outra tentativa, a pessoa que procurava, ou melhor, sua assistente mais próxima o atendeu. Esta quase deixa cair o bichinho de estimação que carregava em seus braços, uma simpática porquinha que Tsunade amava mais que a própria vida.
– S-Senhor Hyuuga Neji! – gaguejou boquiaberta – Tsunade-sama ficará muito contente agora que finalmente está de volta! Por favor, entre. Irei chamá-la – concluiu com um tom convidativo.
– Agradeço muito, Shizune-san. Espero não estar incomodando – respondeu séria e tranquilamente, de repente pensando em como ela soubera de sua chegada.
Ouviu um barulho no corredor ao seu lado; não havia ninguém. Relutante e desconfiado, adentrou a sala da Hokage fechando a porta.
– A única coisa que me incomoda é essa sua formalidade desnecessária. Portanto não devo culpá-lo, é um Hyuuga – falou em meio a leves risos descontraídos enquanto puxava uma longa cortina, deixando transparecer uma figura cansada e sonolenta sob os fortes raios de sol que entravam pelas janelas.
– É uma surpresa tê-lo conosco novamente. Por um longo tempo pensamos ter perdido uma de nossas mentes mais brilhantes, não é mesmo, Tsunade-sam... – pausou ela ao perceber que a chefia estava dormindo e banhando a mesa em saliva. Pigarreou e aproximou-se da figura cutucando-a – Não é mesmo... Tsunade-sama?
– Ãnn... É, é isso mesmo... Quarenta e dois mil ienes[1] gastos em apostas falhas e outros oito mil[2] no barzinho de dangos...
– Tsunade-sama, controle-se!! – berrou Shizune dando uma forte tapa na mesa – Temos visitas – explicou, recompondo-se.
A loira relaxada em sua cadeira despertou com o coração aos saltos. Afastou uma pilha de bilhetes de loteria para um canto e escondeu uma garrafa de sakê embaixo da mesa rapidamente. Focalizou bem e depois de alguns bocejos conseguiu falar sobriamente.
– Hum, olhe só o que temos aqui. Nosso recruta foragido veio nos visitar... A que devo essa honra? – disse num tom zombeteiro, porém animado.
– Tenho que reaver alguns documentos antes de entrar na vila, correto?
– Bem, como já quebrou regras, vindo até aqui sem fazê-lo, e... – pausa para conferir um relógio de pulso que não mais funcionava — A essa hora da manhã...
– Já são quase nove horas, Tsunade-sama – sussurrou Shizune deixando-a preocupada. “Sakê é uma arma perigosa”, pensou ela.
– Err... Sim, mas... Ora, Shizune! Não vê que estou ocupada?! Parede trazer a tona detalhes confidenciais, quero dizer, não tão importantes, está bem? E quanto ao senhor! – gritou apontando para ele, encarando os orbes arregalados, antes de suspirar demoradamente e continuar – Pode deixar seu registro aqui e à noite já estará atualizado.
Repousou o velho cartão sobre o gabinete da Godaime agradecendo-a e retirando-se com uma breve despedida. Ela apanhou o objeto, pensativa – Neji Hyuuga, hum... – disse enquanto olhava o documento sem fotografia em suas mãos.
*~*~*~*
A loja em si cheirava a ferrugem, porém o dono era um dos melhores do país. Sobrevivia oferecendo serviço a nobres patriarcas e tinha uma habilidade descomunal naquilo que fabricava. Era um senhor simples que utilizava um yukata[3] largo e acinzentado. Na verdade, suas mercadorias eram fabricadas em sua própria residência e o espaço onde estavam servia apenas como ponto de encomenda e negociações.
Havia três pequenas bandeiras em tecido grosso logo acima da entrada, que se estendiam até a metade vertical da passagem, indicando os ideogramas 手裏剣 (SHURIKEN)[4].
– Poderia me informar quando ficará pronto? – perguntou.
– Difícil estimar uma data certa, mas creio que em poucas semanas, senhor... — disse em tom interrogativo.
– Hyuuga – respondeu rapidamente.
– Ah, sim. Sorte! Sua encomenda já tinha sido feita há poucos dias por um dos seus que me visitou.
– Um dos meus? Refere-se ao atual dono da Mansão Hyuuga?
– Exatamente, err... Hiashi! Era esse o nome, Hiashi – repetiu mais vagarosamente para confirmar sua lembrança.
– Então, quando?
– Exatamente daqui a uma semana, senhor. O endereço de entrega é o mesmo?
– Modifique o destinatário e isso bastará – disse como um adeus afastando os tecidos na entrada e indo embora.
Finas gotículas encharcavam o chão e a noite começava a cair. Apressou-se.
*~*~*~*
A chuva aumentava gradativamente. Apenas uma esquina o separava de casa e o céu estava completamente escuro.
Fitava a chave do portão principal; pensara em jogar fora certa vez, mas por alguma boa razão, um sentimento de nostalgia fê-lo desistir. “Fez-se útil, afinal”, pensou. Aproximou-se do portão e, antes que a chave e a fechadura se encontrassem, uma silhueta conhecida surgia cautelosamente da mesma esquina de onde tinha vindo. Quando os olhares se cruzaram assustaram-se ambos. Seus orbes acompanharam o ponto de fuga da ágil raposa e deparou-se com a lua prateada, denunciada pelas nuvens que se desfaziam e pelo destaque de uma torre arraigada entre outras casas menores.
[1] 42000¥, na taxa de câmbio recente, seriam aproximadamente R$1002,38.
[2] 8000¥, na taxa de câmbio recente, seriam aproximadamente R$190,95.
[3] Kimono informal de algodão, sem forro. Pode ser usado para ficar em casa ou em festivais.
[4] Literalmente, “dardo”. Também é o nome dado a lâminas de arremesso em formato de estrela.
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