Innocence
3 Capítulo 3 - Passado
Notas iniciais
“As apertadas entradas do armário deixavam pouca luz entrar, seu interior era úmido e o espaço era reduzido.
Do lado de fora uma mulher de ar aflito, seus olhos transpareciam medo e sua face delicada estava tomada por horror.
Bruscas batidas, as juntas da porta acabam cedendo, madeira vem abaixo. Uma silhueta corpulenta se aproxima.
- Deixe-nos em paz, meu marido chegará logo! – gritava a mulher.
- Não conte com isso. – diz o homem de sorriso grotesco atirando um relógio de bolso prateado ao chão.
- O relógio dele... O que você fez? Seu MONSTRO! – vociferou a mulher de cabelos ruivos, agora o medo dava lugar a tristeza e raiva.
Foi respondida com um violento tapa, que a deixou no chão. Lágrimas escorriam, temia por ela e por seus entes queridos, escuridão medonha.
Mãos que a tocavam sem permissão, a boca suja e fedorenta que encostava sua pele, o suor mal cheiroso se misturando a seu corpo. Sem escolha era usada como fonte de prazer. Violada em seus direitos, privada de qualquer alternativa, não tinha forças para lutar. Dominada por um homem cruel e desumano, blasfêmias sussurradas ao ouvido, palavras baixas.
O ar tornava-se escasso, duas palmas apertadas em seu pescoço, a mulher exausta não movia sequer um músculo. Resistir não mais valia a pena, é como se estivesse morta desde o inicio. Fato, a Ceifadora de vidas levara mais uma.”
Jake acorda assustado, era madrugada, ele transpirava como nunca. E dizia a si mesmo:
- Foi só um sonho, foi só um sonho...
Por mais que repetisse aquilo, a lembrança rondava sua mente, há anos não tinha aquele sonho, o pesadelo real de sua vida. Gotas de sofrimento em seus olhos, algo que guardava apenas para si, uma avalanche de lágrimas. O rapaz chorava desesperadamente, parecia uma criança, exatamente como o dia em que viu sua mãe morrer pelas brechas de um armário sujo e escuro.
Passaram-se as horas e aquelas imagens terríveis permaneciam em sua cabeça, persistiam em atormentá-lo. A parte negra de suas memórias despertara, o clima de mistério e sombras se agrava cada vez mais.
Por algum tempo Jake apenas ficou sentado, refletindo talvez. Olhava para o nada de forma tão intensa e quando percebeu sua clausura já tinha ultrapassado a madrugada. O amanhecer trouxe certo conforto, mas foi o relógio de seu pai que lhe devolveu o brilho no olhar. Tinha nas mãos seu tesouro mais valioso, a lembrança de sua família. Ele estava de volta.
Era mais um dia “comum” no Vale das Orquídeas, os habitantes conversavam e seguiam seus afazeres. De volta a livraria lá estava Jake, surpreso ao vê-la abandonada, nenhum sinal do Sr. Andrew. O sina da porta toca, Annie mais uma vez, parecia que visitava a livraria assiduamente.
- O-Olá... – gaguejou a menina.
- Annie, parece que Sr. Andrew não se encontra. – Jake diz evitando olhar para a garota.
- Vou e-esperar... – Annie estava de cabeça baixa segurando sua cesta.
- Bem, eu tenho que ir. – Consentia o rapaz com um balançar de cabeça e logo depois se retirando do local.
Um perfume de flores é sentido ao passar por Annie, embora fosse um aroma muito agradável estranhamente o estômago de Jake embrulhou. As peças pareciam não se encaixar, guiado por seu instinto o jovem investigador retornou a livraria e logo ouviu um grito agudo, rapidamente o seguiu até os fundos do local.
Uma cena de horror inenarrável. Livros espalhados e manchas rubras por toda a parte, via-se um corpo dependurado pelo pescoço no centro do cômodo. Era Sr. Andrew, o velho teve suas mãos perfuradas e havia um vazio onde deveriam estar seus olhos, sangue escorria e pingava formando uma poça abaixo dele.
Era uma abominação total. Jake demorou a perceber Annie desmaiada, provavelmente a autora do grito. Logo foi socorrê-la, tinha alguns treinamentos médicos, chegou seu pulso e constatou estar tudo bem. Tratou de tirá-la rápido dali, um outro choque poderia abalá-la ainda mais.
- O-onde... estou? – diz Annie um pouco atordoada.
- No meu quarto, na Estalagem do Vale, desculpe te trazer aqui mas não sei onde você mora. – responde Jake.
Annie fica corada por estar a sós com Jake, ela se encolhe em um canto da cama, enquanto o rapaz se aproximava. Estava quase entrando em desespero de tanta vergonha.
- Fique calma, não vou fazer nada com você. – tentando tranqüilizar Annie.
- Sr. Andrew... Preciso... ir embora! – diz a menina num tom rouco quase inaudível.
- Não, espere, você está bem? – insiste Jake segurando o braço de Annie.
- Me deixe em paz!
SLAP. O rapaz leva nada mais nada menos que um tapa no meio da face, Annie, por sua vez, sai apressada dali. A recepcionista sequer repara no afobamento da garota em ir embora, como sempre mantinha seu sorriso que a este ponto já era medonho.
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