Inner Outer Space
7 Outra Visita Forçada
Notas iniciais
A aula realmente correu como se nada tivesse acontecido. Parece que o SPIPA pode, também, apagar a memória das pessoas. Na saída, me ocorreu um pensamento: e se ela apagasse a minha memória? Ela pode fazer isso quando quiser. E se ela já me resetou e eu nem faço idéia? O que eu perdi?!
- Não se preocupe, você ainda não foi formatado. Eu não tenho motivo pra fazer isso – ela disse, adivinhando meu pensamento. Provavelmente, por causa da minha cara de paranóico.
- Ah, ufa!... Ei, por que “ainda”?
- Hihi, tô brincando!
- Tá... Você não vai voltar pra casa comigo, vai?
- Por quê? Eu já estou lá.
- Por isso, mesmo.
- E, além do mais, nós não vamos “pra casa”.
- Não?!... Ah, não, não me diga que você ainda quer seguir seu plano doido de invasão de privacidade. Sem chance, eu não vou fazer isso!
- Mas então o que você vai fazer?
Confesso que eu não tinha idéia. A pancada que o Ben me deu ainda latejava. A única coisa que aliviava a dor era saber que, dessa vez, ele não vai se gabar. Ainda assim, eu não conseguia pensar direito sem que minha cabeça doesse.
- Eu vou voltar pra casa, ligar pra ela e explicar que foi tudo um mal-entendido.
- Ela não vai acreditar em você pelo xilofone. Ah, telefone!
- Por que não? Ela sabe que eu sou sincero.
- Mas nem sempre. Ninguém conta só a verdade, Me-kun. E vai ser difícil ela acreditar no estado em que ela supostamente se encontra.
- Tem razão... Como assim, supostamente? Ela está péssima!
- Você chegou a ver isso? Ela tá sumida desde o recreio passado.
- É, e a culpa é sua, se você já esqueceu!
- É mesmo? – por que ela estava debochando?
- Antes mesmo de você vir, ela já estava triste.
- E o que isso tem a ver com você?
- Tudo!
- ...Ou nada. Eu acho que o Me-kun é mais paranóico que parece.
- Você não me conhece – eu já estava ficando revoltado.
- Conheço sim, graças ao SPIPA. – ah, droga, é verdade!
- Mas você não conhece a Ana.
- Você também não.
- Conheço, sim!
- Conhece, não! – ela mantinha a expressão de deboche, mas estava falando sério.
- ...
- Não tem como conhecer a Ana e o que ela pensa. Você não conhece nem a si mesmo.
- ...
- E você não tem um SPIPA! – ela riu.
- ... Você não está pensando em coletar informações dela, está?
- Passou pela minha mente, sim.
“Não pensa nessa cena, Matt, pelo amor de Deus!”
- ...mas eu não posso fazer isso, o C.E.M. só me permite examinar você – ufa! – É por isso que você vai comigo até lá!
- Hã? Quê?
Foi muito rápido. Num momento, eu estava no caminho de casa e, num piscar de olhos (literalmente), eu e a Kasumi aparecemos na porta da casa da Ana. Soltei um “Waa!!” de apavoro e tapei a boca, instintivamente.
- O que você fez?! Por que a gente tá aqui? – perguntei, sussurrando.
- Ué, não é óbvio?
Pensei em tudo o que ela disse até ali.
- Você não quer que eu...?
- Sim – ela disse, com um sorriso ansioso no rosto.
- ...Não, eu não vou fazer isso. Eu não quero forçar a Ana a ser “examinada”!
- Calma, seu bobo, você só vai usar isso como último recurso!
Kasumi fez um movimento como se estivesse tirando um capacete da cabeça, e o capacete apareceu, ao mesmo tempo em que a forma humana desapareceu do corpo dela. Quase tinha me esquecido da sua forma real. Era mais agradável sem o SPIPA, já que deu pra ver que ela tinha, realmente, um rosto. Sem muita expressividade, mas tinha dois olhos e um nariz, o que já era um alívio.
- *($#*%#*%$#@.
- Hã? Sem o SPIPA, não dá pra te entender. Achei que você que “aprendia” a nossa língua, não o capacete.
Ela fez uma expressão esquisita que eu interpretei como decepção. Antes que eu percebesse, ela estava colocando o SPIPA na minha cabeça. Sons eletrônicos inicialmente quase me deixaram surdo, então se seguiu uma mensagem na minha mente.
- Bem vindo ao Sistema de Processamento de Informações de Planetas Alheios, versão 7.42T. Foi detectado um indivíduo classe 42 do planeta Terra. Adaptando... – e desapareceu.
- [Melhor agora]? – Kasumi falava ainda na sua língua, mas o capacete interpretava ao mesmo tempo. Quando fui responder, ele alterou até mesmo o movimento dos meus lábios.
- [Agora, sim].
- [Então, vai fundo]! – e me empurrou na direção da porta.
- [Ei, calma aí! O que você acha que eu vou fazer lá dentro]?!
- [Você é quem sabe! Siga seu coração]!
- [Pára de copiar frases feitas]!
Sem que eu pudesse impedir, ela tocou a campainha e se escondeu.
Ok...
- Sim? Ah, oi, Matt! – era a mãe da Ana.
- Ah, é, uh, bom dia, Sra. Mandy.
- Veio ver a Ana?
- Ehh, *gasp*, ela não tá muito mal, tá?
- Ela já esteve melhor. Engraçado, você se preocupar com ela agora – um calafrio percorreu minha espinha quando ela disse isso.
- Ah, é, pois é, né! – tentei forçar um sorriso, mas imagino que tenha saído uma expressão parecida com nojo.
- Vamos, entre! – ela continuou, me trazendo para dentro – O almoço ainda não está pronto, mas se quiser ficar até lá, eu aviso sua mãe.
Já era tarde demais para recusar o convite.
- Obrigado... – disse, relutante, entrando na sala de estar.
- A Ana está no quarto dela. Boa sorte! – outro calafrio.
Passei ainda algum tempo na sala, pensando no que fazer a partir dali. Não tem volta, nem outra oportunidade, eu preciso falar com ela, esclarecer toda essa confusão aqui e agora. Mas aquela maldita repulsão psicológica ainda atuava, e com uma intensidade maior do que nunca. Fechei os olhos: “Vamos, Matt, seja forte, você precisa ir até lá”!
- Comando recebido: ir até lá.
Tive a impressão que, por alguns segundos, o mundo se desligou. Eu não sentia nada ao meu redor, nem mesmo meus braços ou pernas. Quando já estava entrando em pânico, a luz atingiu meus olhos com uma pontada e eu não estava mais na sala de estar.
Meu corpo estava em pé, parado à frente de uma porta aberta e olhando para uma menina sentada à frente do computador.
- Matt? O que você tá fazendo aqui?
Ao mesmo tempo em que eu pensava “Ih, ferrou”, queria abraçá-la e pedir desculpas por tudo.
- ...oi, Ana.
Notas finais
xD
O próximo capítulo trará a conclusão desse dilema. Esperem algo bom! (do capitulo, não da situação)
=3
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