Inn

3 Eros Dion x Lars Ray


Lembro de olhar pela janela da sala, segurando a caneca do café, e imaginando como ia ser a partir de agora. O que fazer, como eles se sentiam. Só escutava ele chorando na sala, era cedo da manhã, o resto da casa dormia. E eu não sabia o que fazer.

Acordei ainda escuro, com uma sensação ruim no peito, o sol começava a sair, sentei na cama lentamente e olhei pela janela. O ar frio da noite ainda estava presente e o lençol só cobria abaixo da minha cintura. Esse apartamento é legal, pelo menos é melhor do que os quartos lixo para onde estavam me levando. Melhor eu me mandar, tenho aula. E antes que esse cara acorde.

E tenho que passar na pensão. Não sei por que ainda moro lá, mal passo as minhas noites naquele lugar, mas eu preciso de um lugar só meu e, embora tentem se meter muito na minha vida, eu gosto do quarto. Levantei daquela cama com cuidado para não acordar o cara ao meu lado.

– Ei... – a tentativa falhou, ele disse segurando meu braço, com aquela voz arrastada de sono. – Já está indo?

– Já.

– Fique mais um pouco...

– Não.

– Qual é, Eros... eu te pago um café.

– Já tenho compromisso. – fui até onde estavam minhas roupas e me vesti rapidamente.

Ele veio até mim, nu ainda, com a pele se arrepiando pelo frio do quarto, encurtando a nossa distancia. Deve ter cansado de ficar só olhando.

– Não precisa ser tão frio. – disse tentando um beijo que eu evitei, deixei um leve sorriso se formar nos meus lábios e comecei a empurra-lo de leve para longe de mim. Que saco. Mas ele insistiu em abrir de novo a minha calça. Apenas levei minha mão ao seu queixo e fiz os olhos dele desviarem a atenção da minha calça para o meu rosto.

– Você não entendeu o que eu disse?!

– Não vai negar agora, vai?!

– Adeusinho. – peguei meu casaco e comecei a sair do quarto.

– Então tá certo... – disse suspirando incomodado. — Mas vamos nos encontrar de novo depois?!

– Não acho que vá acontecer.

Ele se pôs entre mim e a porta, me olhando com uma cara de poucos amigos. Me avaliando.

– Me avisaram sobre você.

– Vá por uma roupa.

– Disseram que com você é só uma noite.

– Se já sabe... por que ainda está parado na minha frente? – tentei removê-lo da frente da porta.

– Porque eu sei que você sentiu também. – lá vai...

– O que...

– Qual é Eros!

– Vocês todos tem o mesmo discurso.

– Mas eu falo a verdade.

– É incrível, vocês devem combinar as falas...

– Não está me tratando com respeito, não pense que você...

– Olha. – eu disse me aproximando dele e tocando o rosto agora bem atento a mim. – Eu te disse que depois de ontem teríamos alguma coisa?

– Não, mas...

– Que teria a possibilidade de alguma coisa?

– Não se pode saber antes de conhecer...

– Que eu queria algo sério?!

– Pare e me escute!

– Não vá procurar algo sério em uma boate.

– Eros!

– Só vai encontrar gente como eu... ou pior.

– CHEGA! – eu realmente parei. – Não me trate como criança ou um adolescente iludido... eu não sou.

– Eu sei. E você tem todo o meu respeito. Não menti para você... eu só quero ir embora. Mantenha essa noite maravilhosa em suas doces lembranças. Com licença, realmente tenho compromisso.

Finalmente toquei a porta.

– Você se acha o máximo, não?! Pois deixe-me dizer uma coisa. Sua beleza não vai durar muito...

– É por isso que estou aproveitando agora...

– E essa forma de agir...

– Como eu ajo?!

– Como um vadio sem sentimentos.

– Ótimo. Não vai querer se envolver com um vadio sem sentimentos, é... seu nome?!

– Dê o fora daqui.

– Era isso que eu queria já fazia um tempo.

Já tinha um movimento lá fora. Peguei um táxi e me dirigi direto a pensão. Entrei devagar e silenciosamente, não me ouviram porque estavam conversando alto na cozinha, apenas Edgar vinha descendo as escadas, mas ele me ignora, então beleza, não ia comentar com ninguém que cheguei, muito menos com Andrei, não gosta da forma como o trato. Aquele ruivo vive querendo saber da minha vida!

Fui tomar um banho, a água do chuveiro descia corrente e constante, uma água morna que parecia relaxar, vi uma maldita marca avermelhada no meu pescoço! Que seja. Me vesti e desci.

Péssima hora para descer. Estavam todos na sala. Edgar e Andrei conversavam em um canto, Andrei ajudava Edgar a colocar o casaco. Léo estava exercendo seu novo papel de babá da criança que vive aqui agora, o gêniozinho sem expressão. E.... Alex acabou de passar correndo por mim. Provavelmente atrasado, esse garoto deve fazer as coisas muito bem pra esse velho bancar ele.

– Estou atrasado! – eu sabia. Alex saiu gritando para quem estivesse entre ele e a porta, um caminho se abriu.

– Bom dia, Eros. – Andrei me disse quando me notou na escada.

– Hm... Bom dia.

– Já tomou café da manhã?!

– Já. – ficar aqui só eu e ele, tomando café da manhã... nem morto.

– Não te vi chegar...

– Edgar viu. – comecei a ir em direção à porta e Edgar me lançou uma cara feia.

– Ele não me disse. – Andrei lançou um olhar bem significante ao moreno. – Precisa de alguma coisa?!

– Não... sim, me deixe em paz. E você também. – disse me referindo ao Léo também que já ia abrir a boca pra me atacar. Provavelmente ia defender a “mãe” dele.

Só saí, lá fora estava o menino do primeiro quarto, não sei o nome dele, não o vejo muito, e o Alex. Estudam no mesmo colégio e o Alex vai se aproveitar da boa vontade da carona do loirinho ali.

Aquele carro caríssimo parou na porta e o loirinho falou com o rapaz dentro do carro. A essa altura Léo e o gêniozinho já estavam fora também. Depois de uma cara de poucos amigos do dono do carro, os dois colegiais entraram no veículo.

– Diga o que quiser, Léo, mas esse primo do... do...

– Téo?

– É, é mais antipático que eu. – não que eu me considere antipático.

– Acho que não posso discordar.

Comecei a caminhar em direção ao metrô com os dois atrás de mim. Léo puxava o saco do menino que só respondia monossílabas. O garotinho tinha que aguentar ouvir aquele cara falar de toda a vida dele... pobre gêniozinho, seu cérebro vai perder uns pontos de QI depois disso.

– E amanhã eu te levo para aquela livraria que você se interessou em trabalhar. – ele disse ao menino.

– Vai leva-lo para aquela favela, Léo?! – não consegui me manter calado.

– Para começo de conversa, “naquela favela”, tem muita gente legal, como a Dona Brigita e...

– E muita gente perigosa.

– Mas ele vai estar seguro, e só vai trabalhar durante o dia. Ninguém nunca mexeu comigo enquanto eu trabalhava lá. – o metrô se aproximava e a quantidade de pessoas a nossa volta aumentava a cada passo.

– Olhe para você e para ele. Fora que você vivia dizendo que o salário era uma bosta.

– Uma mixaria! Mas era o que podiam me pagar e nunca atrasaram! E além disso é pouco serviço e o dinheiro vai ajuda-lo a se manter.

– Hum... os pais dele não o bancam?!

– Bancam, mas ao contrário de você, ele prefere se manter com os esforços dele ao invés de ser um desocupado que passa a noite inteira dando por aí e destratando os outros! Ah, Cody, não escute isso, sim?!

– O que? – menino disse já no meio dos barulhos das buzinas. Ele não perde a chance de me atacar. Agora ele conseguiu que eu o encarasse.

– Era algo que você adoraria fazer, mas está ocupado demais afundando nas próprias lamentações de pobreza. “Os outros” seria, Andrei?!

– Talvez se eu... fizesse o que você faz, estaria podre de rico. Não só ele, mas qualquer pessoa que faça o favor de falar com você.

– Se eu cobrasse pelo que faço, com certeza estaria rico com isso... talvez se você começasse ganhasse mais e pararia de contar pobreza.

– Acho que aquele é o nosso... – o menino disse se referindo ao nosso transporte.

– Como pode ter orgulho de dizer isso?! E eu não conto pobreza. Meus avós...

– Seus avós precisam da sua ajuda e bla bla bla... já sei. O emprego que sugeri também iria ajuda-los.

– Ridículo, Eros! – disse indignado. — No dia que eu ficar igual a você prefiro estar morto.

– Não se preocupe, você NUNCA será igual a mim. Em nenhum dos sentidos.

Começou o empurra-empurra para entrar pelas portas pequenas e estreitas. Alguém falou comigo, mas eu não reconheci, depois eu vejo quem era. Estava muito cheio, como sempre, lotado na verdade, estava difícil de se mexer, será que a criança que veio com a gente tá conseguindo respirar ali por baixo. Não importa. Fiquei próximo ao fim do vagão, encostado em uma das paredes de lataria e de frente para a janela. O breu passava pelo vidro agora, como se estivesse com pressa.

Léo ficou meio longe de mim com uma cara emburrada, mas não deu dois minutos e ele estava sorrindo e brincando com uma senhora que segurava um bebe na frente dele. Estou acostumado com a aversão do Léo a mim, pelo menos ele fala na cara.

Não que o que ele pensa me interesse... opa, pegaram na minha bunda. Enfim, mais algumas aulas, depois casa, depois estudar... transar, dormir, acordar, faculdade... casa, estudar, dormir, acordar... faculdade... e eu que tentei não cair numa rotina. Só queria dormir sossegado quando eu colocasse a cabeça no travesseiro.

Percebi que alguém se aproximou excessivamente de mim. Estava apertado, certo, mas aquilo já era próximo demais. Com o movimento do vagão e, com certeza, com uma certa vontade, o corpo dele começou a tocar o meu. No início, ele começou a se esfregar em mim discretamente, mas a medida que sua calça ia ganhando volume, ele ia se desinibindo mais e o contato ficava ainda mais evidente.

A mão alheia seguiu subindo pela minha coxa, apertando-a de vez em quando, a respiração dele já estava no meu pescoço, bem ofegante, e eu resolvi ajudar o rapaz. Virei para encará-lo e ele meio que escondeu o rosto, me aproximei procurando o mesmo contato que estava antes.

– Se você não se apressar eu vou descer. Minha estação é a próxima. — minha coxa pressionou seu membro já duro, minha mão desceu até lá e abriu o zíper devagar, em seguida passou pela abertura da calça. – Posso?! – perguntei tocando de leve o membro que já começava a pulsar, ele só assentiu com a cabeça.

Então tentei retirá-lo discretamente para fora da calça. Ele apoiou ainda mais cabeça próximo ao meu pescoço, tentava alcançar minha orelha, sentia a respiração pesada enquanto ele sussurrava sacanagem. Apenas comecei uma massagem rápida em sua ereção que já estava meio úmida.

Já perceberam que quando alguém te olha você sente? Pois é, sou profissional nisso. Um cara estava sentado em uma das cadeiras, na minha diagonal, tinha um mísero espaço por onde ele observava sério a situação. Ele me encarou, mas ao invés de desviar como uma pessoa normal faria, continuou me encarando, com os olhos de um castanho bem claro e um olhar penetrante.

Também não deixei de encará-lo, preferia que fosse ele no lugar desse cara, mas homens como ele não se prestam a isso. A gente ficou assim um tempo, se encarando no meio daquela multidão.

Até o homem gozar na minha mão, eu só sorri e o cara desviou o olhar finalmente. O homem a minha frente estava bem ofegante e começou a se afastar um pouco para se recompor, depois puxou o cós da minha calça mais para perto e tentou invadi-la com a mão. Mas já era hora de descer, que pena.

Cheguei a minha estação e metade dos passageiros desceu ali, uma multidão. Esperei a maioria sair, inclusive o cara que me observou todo aquele tempo.

Andei mais um quarteirão e cheguei ao meu destino. Léo e a criança iam lá na frente, mas de alguma maneira apareceram ao meu lado do nada. Léo só revirou os olhos.

– Te vejo no refeitório. – falei bem simpático.

– Me poupe do seu sarcasmo. – ele se dirigiu a entrada dos funcionários e a criança seguiu seu caminho.

O que me incomoda é subir essas escadas. Minha sala já estava parcialmente cheia, essa é a de administração tinha uns quarenta alunos. Sentei em uma das cadeiras perto das grandes janelas de vidro.

Vi o primo do Téo entrar na sala, O Arrogante, como dizem. A família dele é dona de uma das maiores empresas de publicidade do País, mas ela não se contenta com “uma das maiores empresas” ela tem que ser a maior. E o herdeiro é a cara da prepotência.

– Eros. – ouvi aquela voz que vem me incomodando há anos da minha vida.

– Olivier. – Olivier é um cara muito bonito e tem um sex appeal natural, tem aquele sorriso torto charmoso e um corpo perfeito e desejável, foi o primeiro cara com quem eu dormi na faculdade. Porém, me arrependo amargamente até hoje.

– Como passou o fim de semana?!

– Muito bem.

– Te vi saindo com um cara ontem... – disse tocando a gola da minha camisa e observando a marca vermelha.

– E daí?!

– Quem era?!

– Um cara que eu conheci. – ele só balançou negativamente a cabeça e voltou a me encarar com os olhos castanhos e profundos.

– Lembra que você disse que eu era o único com quem você dormiria de novo?!

– Lembra à quanto tempo eu disse isso?!

– Na verdade não. Eu ainda estou disposto.

– Foi há uns dois anos... e eu sei que você ainda está disposto. Você me lembra todos os dias.

Todos se sentaram e um professor novato entrou na sala. Era o cara que tinha me encarado no metrô, talvez ele nem lembre do meu rosto... ou talvez lembre, ele me olhou e depois ignorou, depois olhou novamente para mim e uma expressão de nojo tomou seu rosto. Espero que isso não atrapalhe minhas notas.

Ele chegou e a sala ficou completamente em silêncio, já achei estranho porque professor novato não tem moral aqui, mas todos estavam respeitando muito aquele cara.

– Bom, sou Lars Ray, e vou começar substituindo o professor Albert, que teve uns probleminhas pessoais...

– Me disseram que ele está em um hospício. – um dos meus colegas comentou... ele era um cara estranho mesmo.

– Realmente não sei. – o professor respondeu respeitosamente. Mas esse cara é muito novo para ensinar aqui. – Bom, não tolerarei brincadeira infantis de alunos universitários. Exijo respeito. E sintam-se a vontade para falar sobre qualquer assunto comigo, dentro da minha matéria, naturalmente.

Ele tem uma voz muito bonita, e um corpo bem cuidado, provavelmente é daqueles caras bem metódicos, não aproveita a juventude, deve ter uns vinte e seis anos, tem um cabelo preto bonito, um corte diferente e os olhos de um mel brilhante que são escondidos por uns óculos que valorizam os traços do rosto, é alto e esguio. Ele tem uma beleza diferente.

– Está aberto a relacionamentos, professor? – Olivier perguntou a ele quando o cara já ia começar a aula. Jurei que ele ia ignorar a pergunta ou algo assim.

– Não com meus alunos, senhor...

– Pode me chamar de Olivier... então deveria ter cuidado professor. – ele sempre faz esse tipo de coisa, eu podia sentir os olhos dele em mim, vindos do fundo da sala, não só os dele, mas de outras pessoas dali também. Provavelmente percebeu que eu avaliava o novato. Esse cara me assusta às vezes.

Mas o professor não fez questão de me encarar, apenas assentiu e foi à lousa.

– Garanto que já sou bem grandinho para evitar esse tipo de problema, senhor. Começaremos nossa aula, a partir do capítulo que Albert terminou...

O intervalo chegou depressa, a aula dele passava rápido. Os corredores estavam lotados de alunos dos mais diversos cursos. Inclusive, lá vem a criança da pensão, vem segurando um livro e olhando para os pés enquanto anda, acho que pensava consigo mesmo porque gesticulava discretamente com a mão, como se estivesse pensando em algo muito sério.

Apareceram três rapazes atrás dele, cochicharam alguma coisa, mas quando o menino percebeu já era tarde. Um deles abriu a porta da sala de limpeza do zelador e Cody foi posto lá dentro. Trancado.

A maioria ali tinha pena dele, outros riam junto com o grupo lá e eu segui para o meu almoço. Estava com fome e o resto da universidade também, ali estava lotado.

A fila da comida se arrastava e o meu conhecido já estava no caixa.

– Léo. – ele me olhou já meio incomodado, com aquela toca e avental. – Já pode se passar por filho do Andrei.

– Seguindo, Eros, seguindo... olha a fila. – ele meio que se debruçou em cima do balcão para ver as pessoas se servindo. – Viu Cody?

– Não. – já já ele aparece de qualquer forma.

– Ah, separei a comida dele, vai esfriar. – ele disse olhando um prato lá dentro, com direto a “rosto de comida”. Boca, nariz e aquele cabelo de alface. Ridículo.

– Porque o menino já não sofre de bullying né, Léo.

– Fiz com carinho... se ele não chegar logo não vai dar tempo de comer. – e eu saí, deixei ele tagarelando só. – Eros, pode ir atrás dele?!

– Não. – ele só franziu o cenho e voltou a atender os outros alunos.

Sentei em uma das mesas pequenas e vagas que havia no refeitório. Logo Olivier veio sentar-se comigo para conversar, na verdade falar sozinho. No início eu até saía e tudo mais, ele ficava com muita raiva, mas aí começou a me perseguir e tudo mais, me deu medo e então decidi deixa-lo as minhas vistas.

– Gostou desse professor?! – ele me disse olhando a fila do refeitório onde o moreno estava.

– A aula dele é boa.

– Não nesse sentido, Eros.

Olhei para ele, ele começou a pagar e do nada Léo meio que surtou e ficou conversando com ele. Pareceu que o professor já conhecia ele e fazia tempo que não se viam, pela primeira vez, hoje, vi esse professor sorrir. Tem um sorriso bonito também, é um bom partido, quem sabe um dia desses...

– Ei, professor! – Olivier o chamou quando ele procurava um lugar para sentar. O sorriso foi embora quando nos viu e aquela cara de nojo surgiu quando ele olhou para mim. Não, não me incomodei, tive vontade de rir na verdade e foi o que eu fiz, mas não descaradamente, sorri para minha comida quando baixei a cabeça. – Pode sentar aqui. — e foi o que ele fez depois de procurar desesperadamente outra mesa. – Está gostando da escola?!

– Estou, é bem agradável. – notei que ele ficava observando o Léo de vez em quando e respondendo as perguntas frequentes do Olivier. Quando percebi que o pobre homem queria bater no cara a minha frente eu intervi.

– Conhece o Léo? – ele me olhou rapidamente.

– Conheço. Você também?!

– Moro com ele. – foi como dar um soco nele eu acho. Ele me olhou espantado e tentou recuperar a compostura.

– Mora com ele?!

– Isso.

– Você?! – ele disse isso de um jeito tão pejorativo que me magoou.

– Isso.

– Não sabia que você fazia o tipo dele.

– Não... credo, nunca. – ele me olhou de novo. – Ele mora na mesma pensão que eu. – me fuzilou com os olhos. Foi divertido enquanto durou.

– Eros gosta desses joguinhos. Não?! – Olivier comentou olhando o Léo.

– Vou indo. – eu disse e levantei, a sala de aula é o lugar mais tranquilo daqui e é para lá que eu vou.

Percebi que os dois continuaram conversando, provavelmente Olivier deve estar inventando mil histórias a meu respeito, que eu faço parte de seitas e que eu participo de orgias e coisas do tipo. Depois do que ele viu, não duvido que acredite.

Os corredores já estavam ficando vazios, já é quase hora de voltarmos à sala para mais aulas, mais tempo perdido... e eu escutei alguém bater na porta... do zelador. Não acredito.

– Cody?! – ninguém abriu a porta pra ele?! Então eu abri. Ele estava lá, no chão de joelhos, respirando como se tivesse subido uns cinco lances de escada. – Pronto, já pode ir. – ele continuou lá. – Tem claustrofobia?! – ele negou. Colocou a mão no rosto. – Léo quer que vá comer. Você está bem?

Ele estava suando frio. Ah, droga, não quero problema pra cima de mim.

– Preciso comer.

– Então vá ao refeitório.

– É longe... tem chocolate?!

– Não tenho comida.

– Não tem jeito. – ele disse levantando com ajuda da parede.

– Vá com cuidado. – eu disse e comecei a seguir. Ele andava meio cambaleante... não estava em linha reta.

Por que só acontece comigo?!

Dei meia volta e fui acompanhando o menino. Ele não vai conseguir descer as escadas desse jeito.

– Cody... nunca mais vai acontecer, entendeu?! – ele me olhou confuso. – Sobe. – ele subiu nas minhas costas. – E é bom você estar mesmo passando mal, garoto. Vamos à enfermaria.

– Não... só preciso comer. – ele estava mesmo suando frio e respirando pesado. Por onde eu passava os meus colegas observavam a cena. Maldito moleque doente!

Quando eu cheguei coloquei aquele corpo mole sentado perto no balcão. Léo corria de um lado para o outro e os, provavelmente, novos amigos que ele tinha feito, tentavam ajuda-lo. Logo um belo prato foi posto na frente do Cody.

– Come, come, come. – Léo disse ao menino que pegava o talher meio sem jeito.

– Menino esquisito. – eu disse já me preparando para voltar à sala.

– Ele tem um tipo raro de hipoglicemia. A glicose é digerida muito rápido. – Léo me explicou observando o menino comer. – Precisa comer várias vezes ao dia, certo Cody?!

– Obrigado. – ele me disse. – Eu ia demorar um pouco para acordar se eu tivesse desmaiado... já acordei em cantos totalmente estranhos. Hospital, restaurante, casa de prostituição, no porto, no metrô... não sei como fui parar por lá.

– Hum. – como deixam ele viver só?!

– Tome cuidado, por que não veio na hora certa?! – Léo preguntou a ele.

– Ficou preso no armário do zelador... aqueles delinquentes, sabe?! – respondi quando o menino o ignorou.

– O que?

– Não é nada demais, já é normal. – ele falou como se fosse realmente algo que acontecesse numa rotina, como escovar os dentes ou comer.

– Não, não é. – Léo começou a discutir com ele e eu saí pela tangente.

Claro que minha aula já havia começado. Era ele de novo, esse novato. Entre e sentei em silêncio interrompendo o discurso bem elaborado.

– Pode se esforça e chegar na hora, senhor, tenho certeza.

– Ok. – eu sussurrei e fiquei a olhar a janela.

– No mínimo, prestar atenção a minha aula. – vai pegar no meu pé agora? E por que não para de me olhar com esse nojo?!

Passei a aula inteira olhando para ele. Sem desviar os olhos um instante. Ao ponto de incomodá-lo e deixa-lo tenso.

Assim que nos liberaram eu desci e comecei meu caminho de volta para casa. É um tédio extremo.

– Espero que tenha entendido alguma coisa da aula, senhor. – ele veio ao meu lado caminhando. Ótimo! Que companhia maravilhosa para terminar meu dia! Saco.

– Eros, senhor. E sim, entendi. Posso perguntar uma coisa?! – eu disse quando viramos a esquina.

– Claro.

Fiz com que ele parasse de andar e o encostei nas grades do muro de ferro, o movimento era pouco, o sol já tinha praticamente se posto no horizonte. Ele me olhou de cima, era uns poucos centímetros mais alto que eu, mas tinha aquele olhar superior.

– Por que me olha assim?!

– Por que você me lembra meu irmão, só que pirralho.

– Tem nojo do seu irmão?

– Um pouco, sim.

– Não sou seu irmão. – encarei fundo aqueles olhos brilhantes, mas eu não via nada, misterioso. Gosto dos misteriosos. – Sou melhor que isso, sou apenas um estudante. – eu levei minha mão por dentro do paletó já aberto, apenas sentindo o corpo sem músculos, mas bem cuidado, dentro do tecido. – Quem sabe não perde o nojo de mim... e de brinde, o do seu irmão também.

Ele segurou meu pulso, de um jeito firme, e me encarou, wow, é forte, e estava bem sério. Nossa, sexy.

– Não mantenho relações com meus estudantes, principalmente com seu tipo.

– Meu tipo?!

– Assim, digamos... bem receptivo.

– “Bem receptivo?” Essa é a primeira vez que alguém me chama de bem receptivo. Geralmente é vadio, filho de uma puta, gostoso e coisas assim...

– Ridículo.

– Chame do que quiser. Mas sempre leva à diversão. Não quer?! Você tem cara de que precisa relaxar urgentemente. – ele franziu o cenho. – Tão novo e já tão frio e morto.

– Não preciso viver a vida como você vive para ter “vida” ou “calor”. – percebi que ele meio que se alterou, se não convencê-lo hoje, convenço-o outro dia, será minha meta e vai ajudar nos dias de tédio. Meus dias já estão acabando mesmo. Você não vai resistir a mim, professor, ninguém resiste.

Um carro parou atrás de nós, na rua, deve ser para pedir informações.

– Eros? – ou é um conhecido, um rapaz disse de dentro do carro. Tentei reconhece-lo, o rosto me é familiar.

– Iaí. – eu disse debilmente. O rapaz riu um pouco.

– Quer carona?

– Para onde vai?

– Para onde você quiser ir.

É, eu fui, o metrô a essa hora é lotado.

– Não disse que presava viver como eu, professor. – disse ao homem atrás de mim que observava o dono do carro. – Mas pode começar me dando uma chance. – pisquei para ele para ver se ele entendia, parecia meio lerdo.

– Conhece ele? – me perguntou quando eu abri a porta do carro.

– Sim. – não o convenci. – Até amanhã, professor.

Ele só revirou os olhos e seguiu caminho. Fiquei observando pelo retrovisor do carro enquanto nos afastávamos eu e o...

– Tem gostos estranhos, Eros. – ele disse.

– Foi você quem não viu direito.



“Esses jovens estão sem um pingo de escrúpulos! Nossa! Vou apresentar esse para o meu irmão, são iguais! Esse tem o nome ‘problema’ na testa... como alguém pode fazer aquilo dentro de um metrô! Local público, cheio de gente. E se alguém os pegasse?! Se alguém os pegasse aquele rostinho bonito ia oferecer um sorriso e pronto, quem resistiria aquilo?! Quem?! Eu! Eu resistiria! E o que Léo fazia no refeitório, disse que tinha haver com uma mudança de vida... E como ele pôde sair com um completo estranho?! Entrou no carro e foi embora! E eu tenho mais com o que ocupar minha mente...”

Lars Ray


Notas finais
~ O que você pensa sobre Eros:
Alex: arrogante e galinha u.u
Andrei: ele só é mal compreendido, e deve ter muitos problemas... se ele quisesse conversar.
Cody: ele foi legal.
Edgar: Andrei, mal compreendido?! Ele é só um moleque mimado e mal educado.
Léo: acho que minha opinião já está clara. E Alex... achei que você apreciasse essas qualidades. ^^
Alex: o que quer dizer?!
Mei: bom saber o que os outros pensam de você eim?!
Eros: uhum... ¬¬
Téo: faltou minha opinião...
Mei: ah, sim ^^, desculpe.
Téo: mal converso com ele... mas me parece antipático.
Eros: então fique quieto. ¬¬
--//--