Inimizade
4 Capítulo 4
— Já se divertiu o suficiente, Matt? Está satisfeito? Espero que esteja, ou eu vou arrancar esse seu sorriso besta com as minhas próprias mãos.
Vendo a marca de cinco dedos estampada no rosto de Mihael, Matt explodiu em mais um acesso de risadas. Matt sabia que as ameaças de seu amigo eram quase sempre genuínas, porém, naquela situação, aquilo soava até meio engraçado.
— Vai, é? Ou vai chamar uma garotinha pra fazer isso por você, Mello? — debochou Matt.
Mihael "Mello" Keehl, apelidado "Mello" por obra de Matt (embora nenhum dos dois se lembrasse de onde viera a alcunha), soltou um grunhido revoltado.
Por mais que estivesse se adaptando bem à cultura local e tivesse, de alguma forma, tornado-se o nakama [1] favorito dos garotos de sua classe, não conseguia entender muito bem a cabeça dos orientais. Na verdade, a cabeça das orientais.
Muito tímidas e respeitosas, Mello aprendera naquele dia a tomar mais cuidado com o que dizia ou fazia na presença das japonesas. Não que as ocidentais fossem o extremo oposto delas — afinal, "garotas são garotas em qualquer parte do globo" —, mas as orientais que conhecera eram definitivamente mais... "delicadas".
Durante o intervalo, o inglês fora fazer uma brincadeirinha inocente com uma das colegas de classe que, ao seu ver, estava interessada nele — o que não era de se espantar; Mello sempre conseguira fazer muito sucesso com as garotas. Estavam rindo de alguma bobagem que um dos dois dissera, e, então, Mello (apesar de agora não se lembrar muito bem como as coisas se sucederam) dera um selinho nela.
Ah!, mas a retribuição viera na mesma hora! Um "plaft!" bem estalado e uma torrente aborrecida de palavras que ele não entendeu bem, mas que fizeram todos ao seu redor pararem para olhar a briga. Depois de ficar parado no mesmo lugar tentando colocar as ideias em ordem, Mello saíra de cena bufando de raiva sob os olhares dos espectadores.
E bufando de raiva permanecera até agora, como o esperado de Mello.
E o fato de Matt, que não tinha nada para fazer agora — pois, após quase ser expulso de sala, tivera seus tão amados jogos eletrônicos confiscados por um professor —, lembrar-lhe o ocorrido também não ajudava em nada.
— Matt, cale a boca. Eu estou falando sério.
— Tudo bem, tudo bem — ele ponderou, tentando recompor-se da crise de risos. — Mas isso foi castigo divino por sair mais cedo de casa sem me avisar. Aliás, você anda meio diferente ultimamente.
— Diferente... Diferente como?
— Diferente. Só isso. Você nunca esteve assim tão... dedicado. Chegar mais cedo no colégio nunca foi a sua cara. Na hora, sim, mas mais cedo, não.
— Eu estava ajudando a arrumar a sala, antes da aula começar.
O ruivo soltou uma exclamação indignada e um súbito silêncio se fez entre os dois. Com os olhos esbugalhados, Matt parecia consternado.
— Matt. Matt...? O que você...?
— O que você tem? Algo está errado. Eu posso sentir as vibrações. O que é? Pode me contar, você sabe que pode confiar em mim.
— Deixe de besteiras, Matt. Não há nada de errado comigo.
— Você que sabe. — Com essas palavras, ele voltou a se concentrar nos rabiscos que fazia em uma parte em branco do seu caderno.
Mello tinha a impressão de que ele ficava um pouco nervoso quando não tinha eletrônicos em mãos. O ruivo até pensou em usar o celular, mas, por medo de acabar perdendo-o também, estava tentando voltar sua atenção para outra coisa.
O loiro riu, vendo-o soltar resmungos frustrados. Matt era, para ele, um amigo precioso, e Mello ficava feliz por ter ele ao seu lado.
Mello nunca fora alguém com quem as pessoas conseguiam lidar facilmente, no entanto Matt sempre conseguira transpor facilmente essa barreira. Talvez porque os dois fossem "farinha do mesmo saco", como eles gostavam de dizer. Perdera as contas de quantas vezes aprontaram juntos (e em quanta enrascadas já se meteram).
Mas, realmente, Mello mudara um tanto. Respirar novos ares o fizera muito bem; nunca se sentira tão em paz.
No entanto, ainda havia algo que o incomodava.
Como que por impulso, Mello lançou um olhar para o fundo da sala. Para sua infelicidade, seus olhos cruzaram com os de seu alvo. Olhos frios, inabaláveis e, o que mais lhe causava raiva, desinteressados.
Os mesmos que, desde seu ingresso na Wammy's House — internato para onde Mello fora mandado após o falecimento de seu pai, e que até então lhe servira como lar — sem muito esforço mostravam-lhe arrogância e sagacidade, além de uma terrível superioridade, e os mesmo que agora, mesmo após tanto tempo, pareciam segui-lo como fantasmas.
Após alguns momentos de tensão entre os dois, Mello voltou-se bruscamente para frente, prestando mais uma vez atenção na aula.
Para fantasma também não faltava muito. Talvez fosse possível confundi-lo com um, pensava o loiro. Era tão pálido e tão branco que chegava até a chamar a atenção de quem passasse por ele: cabelos brancos, pele branca, olhos escuros. A aparência de Nate era inconfundível.
"Pobrezinho do Nate, sempre tão frágil". As atenções sempre estiveram voltadas para Nate, fosse por seu intelecto, fosse por sua saúde frágil. Era albino e, por isso, era privado de certas coisas. Não podia ficar muito tempo debaixo de sol e precisava até mesmo usar lentes especiais que diminuíssem o efeito de sua fotossensibilidade (Mello desconhecia a real cor dos olhos de Nate, mas tinha quase certeza de que não eram castanhos de nascença).
As pessoas tomavam sempre muito cuidado quando tratavam de Nate, como se ele fosse porcelana ou algo que pudesse quebrar-se facilmente.
Mello detestava aquilo.
Mas agora se sentia vitorioso. Por mais cruel que fosse, sentia-se satisfeito em vê-lo isolado daquela forma. Nate não conseguia se adaptar, diferentemente de Mello. Nate era agora tão comum quanto qualquer um.
Era a primeira vitória de Mello em muitos anos.
Mesmo que fosse obrigado a conviver com Nate, aquilo era suficiente para deixá-lo alegre.
E, para ele, não havia nada mais precioso do que ver o olhar atordoado do albino quando o sinal tocava e ele desajeitadamente arrumava seu material, como se não soubesse muito bem para onde ir ou o que fazer.
Não sabia exatamente quando começou aquela antipatia que tinha pelo outro, afinal, não havia muitos motivos. Nate nunca o provocou diretamente, nem deu valia para as provocações de Mello ou nada parecido. Talvez fosse isso. Isso, e o fato de que pensar que Nate pudesse ser melhor que ele fosse um pouco doloroso para o seu ego.
"Vamos com ele ou não?" — Matt perguntou-lhe ao final da aula, chamando a atenção do garoto distraído e absorto em pensamentos, vendo Nate olhá-los de longe. Ele realmente gostava de Mello e também não achava Nate a pessoa mais carismática do mundo, mas não achava lá muito certo deixar este último para trás, sendo que moravam na mesma casa.
"Ele se vira."
Como se Matt houvesse dito algo que lhe ofendeu, Mello deixou a sala de aula sem esperar por seu amigo.
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— Ei, você! É, você mesmo, loirinho!
O dia de Mello não podia ser melhor.
Pego de surpresa no meio de corredor por um sorridente japonês, o loiro não viu outra escolha se não parar.
— Já escolheu um clube pra participar nesse ano? — ele perguntou, parecendo aliviado por Mello ter lhe dado atenção.
Mello, porém, mirou-o com um olhar que o fez estremecer (apesar de ser mais velho que ele).
— Não. Não escolhi, nem faço questão de escolher.
Sem se deixar abalar, o mais alto resolveu insistir mais um pouco:
— Qual é, loirinho? — Ele deu umas batidinhas amigáveis nas costas de Mello, que o repeliu instantaneamente. — Pode ser divertido. O clube de fotografia está aberto pra novos membros.
— Se eu tivesse de participar de algum clube, não seria o de fotografia. Muito menos seria algum onde você estivesse.
Mello pensou ter visto o sorriso do moreno se apagar por alguns segundos (se não tivesse sido uma ilusão de ótica).
— Pegue pelo menos um panfleto para o caso de mudar de ideia.
Será que ele não desistia nunca?
Mello franziu o cenho.
— Panfleto? Você quer que eu pegue o seu panfleto? Veja bem o que acho sobre o seu panfleto — dizendo isso, ele estendeu um dos dedos da mão para o japonês, em um gesto obsceno.
Mello sorriu consigo mesmo — parece que aquilo havia feito o mais velho finalmente perder seu entusiasmo. Na verdade, perdeu até as palavras.
Vendo a situação de seu amigo, um segundo japonês que estivera observando a cena resolvera se manifestar.
— Matsuda? — chamou ele.
— Quié, Ide? — bufou o que estava com os panfletos, e que agora fazia uma careta revoltada.
— Desiste — Ide disse, com um sorriso de canto de boca.
Num tom obstinado de determinação, Matsuda logo replicou:
— Nunca.
Ide riu, como se já esperasse a resposta. Tomou de Matsuda metade dos folhetos e disse que não fariam nenhum progresso (apesar de não acreditar que fosse haver algum) se ficassem parados.
"As crianças de hoje em dia são assustadoras" foi o que Matsuda pensou. E pensou também, por um momento, que era como se, em algum lugar, houvesse alguém se divertindo com a cara dele e rindo de seu fracasso.
Mas devia ser só impressão.
Matsuda não desistiria. Arranjar membros para um clube não podia ser tão difícil assim, afinal, devia haver alguém normal naquela escola que quisesse participar do clube de fotografia.
Não é?
... Não é...?
Notas finais
Aqui vai um obrigada bem grande pra lgirlclub o/ Ela me ajudou bastante com a estruturação da história, além de ter suportado os mimimis da Sleepy. Ela é uma pessoa incrível, sério mesmo ;;
Um agradecimento bem grandão pra Kareta-hasu também! Ela me ajudou bastante com opiniões sobre o capítulo.
Hm... Reviews? Alguém...?
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