Inimizade
2 Capítulo 2
— Ei, você! É, você mesmo! Já escolheu um clube pra participar nesse ano?
Nate sentiu uma mão pousar em seu ombro e, vendo que não havia escapatória, parou para ouvir o que o mais velho tinha a dizer.
— Clube...?
— Ah, você é novo na escola, né? Bem, aqui você pode escolher um clube que queira participar. Nós temos vários, mas eu aconselho o de fotografia. — Deu uma piscada divertida para Nate. — Pegue um panfleto e chame seus amigos, serão muito bem-vindos!
Enquanto mexia em um dos próprios cachos de cabelo, Nate pegou o panfleto e o olhou por um momento.
— Amigos, é...? Desculpe, mas acho que não tenho nenhum.
Nate virou as costas e deixou o estranho para trás. Se tivesse virado mais uma vez, veria que ele ficou com um sorriso amarelo e um tanto desconcertado, percebendo o quão difícil era a tarefa de conseguir membros para um clube.
“Ânimo! Ânimo”, disse para si mesmo o integrante mais empolgado do clube de fotografia, com um suspiro.
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Misa Amane era uma dessas pessoas que facilmente conquistam a simpatia dos outros: loirinha, energética e radiante, ela espalhava alegria e admiração por onde quer que passasse — ainda que, por outro lado, fosse considerada por alguns “irritante” e “falastrona”, o que também não era lá uma mentira.
Inegável é que Misa chamava atenção (não era à toa que a agência de talentos que a contratou dizia que ela era uma promessa e rapidamente se tornaria a próxima idol de sucesso do Japão. Misa mal poderia esperar por esse dia) e, por conseguinte, sabia muito bem que tipos de consequência o fato poderia ter.
Mas, ainda assim, havia algo que Misa achava imperdoável.
Pessoas se aproximando de Raito.
Pessoas se aproximando de seu Raito.
Claro, ele também era popular e tudo o mais, e ela não podia simplesmente fingir que não sentia ciúmes das pessoas ao seu redor. Na verdade, conseguia até se manter despreocupada em relação às garotas que davam em cima do moreno, porque, afinal, ela confiava em seu namorado. Sabia que ele não olharia para outras que não fossem ela, sem dúvidas.
O problema é que existiam pessoas que conseguiam incomodá-la em especial. Pareciam que não realizavam que Raito era da Misa e de mais ninguém.
E duas delas eram as que estavam conversando com seu Raito sobre algo que não conseguia escutar, pois estava muito longe e, escondida atrás de uma coluna, não podia se aproximar mais do que aquilo.
O esconderijo que a primeiranista arranjara, porém, não podia ser considerado o "lugar mais discreto" que poderia ter conseguido: ela não podia ser vista de um dos lados do corredor, mas boa parte dos transeuntes que passavam do outro lado a olhava com curiosidade e estranheza.
Ah, mas nada disso importava para a adolescente! Com os olhos cegos de ciúmes, não via nada mais que não fosse o trio que conversava e volta e meia dava risinhos.
Com o cenho franzido, a boquinha rubra de batom retorcida em uma crescente raiva, a loira já começava a considerar aquilo uma traição. Ou será que estavam falando dela?
Ela só não sabia é que, por Raito ser o presidente do grêmio estudantil, os outros dois, que por um acaso eram a presidente do clube de jornalismo e o representante de classe do nono ano, estavam tratando do festival primaveril que se aproximava. Daquela vez, os risinhos eram meramente cordiais.
“Aqueles miseráveis.”
Decidiu então que a melhor forma de acabar com aquilo era atacando.
— Raito-kuuuuun!
Tomou impulso e correu em direção ao seu amado, atingindo-o com um abraço que quase levou os dois ao chão.
— Ah... Misa... Bom dia — balbuciou o moreno, ainda um pouco abalado com a intensidade do abraço.
— Bom dia! Eu nem sabia que você tinha chegado.
É claro que sabia — espreitava os portões do colégio todos os dias até ter a certeza de que Raito passaria ou não por eles.
Nesse momento, dois olhares reprovadores miraram a loira.
— Ah, Kiyomi-chan, Teru-chan! Bom dia, flores do dia! Mal reparei que vocês estavam aí. Misa tá tão desligada hoje! — riu ela, ainda com os braços envoltos no pescoço do rapaz que tentava, discretamente e sem muito sucesso, se desvencilhar deles.
— Isso é tão típico de você, meu amor, que nós não nos importamos.
A loira encarou a morena que se pronunciou. Se pudesse, estrangulá-la-ia ali mesmo.
E o sentimento era mútuo: a rivalidade entre Kiyomi Takada e Misa era conhecimento comum a todos, ainda que ninguém de fato soubesse como a situação das duas chegara a tal extremo (mas todos tinham certeza de que aquilo era de alguma forma relacionado com Raito).
O outro rapaz, percebendo o clima pesar, tomou a palavra.
— Bom dia, Amane-san. Estávamos discutindo sobre algo importante até você chegar.
Teru Mikami também nutria pela loira certo desagrado (embora fosse um nem tão devastador quanto o de Takada), mas evitava confrontos diretos: ouvir as asneiras de Misa era uma das coisas que mais odiava, depois de confrontos propriamente ditos.
— Importante? Se contar pra Misa, Misa promete não contar pra ninguém! — Ela então se aproximou de Mikami com um pulo e, incomodamente perto de seu rosto, fê-lo afastar-se com um passo para trás.
Misa também não gostava dele. Não sabia exatamente quem ele era ou o que queria, mas ficava particularmente perturbada com a estranha devoção que tinha por Raito. E sempre que falava alguma coisa, era “Yagami-san isso”, “Yagami-san aquilo”. Será que não via que aquilo era esquisito e que já era hora de parar?
— Ora, Misa, não leve as coisas tão a sério. E vamos precisar da sua ajuda também, certo? — Sorriu Raito, recebendo da loira um olhar tão alegre que já não saberia dizer se lhe conferia medo ou satisfação. — Já é quase hora da aula começar, podemos continuar outra hora, está bem?
“Como preferir”, respondeu Mikami, enquanto Takada confirmou com um sorriso e um aceno de cabeça.
Raito aproveitou o momento para acenar para um colega de classe do outro lado do corredor e despedir-se dos três.
Não era que não gostasse deles — na verdade, até tinha alguma espécie estranha de afeto por cada um, e realmente gostava de ter alguém que escutasse com sinceridade o que tinha a dizer, além de gostar também de ser elogiado do modo como eles o elogiavam —, o problema era que eles eram um pouco... pegajosos. Gostaria de ter uma palavra melhor para descrevê-los, mas “pegajosos” era a que se encaixava perfeitamente.
Takada tinha um modo interessante de pensar, seus pontos de vista muitas vezes batiam com os de Raito, e ambos já se conheciam dos tempos em que eram vizinhos. Ao contrário de Misa, Takada era mais séria, até mesmo em aparência. Mesmo sem usar apetrechos ou maquiagens para parecer mais bonita (o que lhe rendeu o apelido de “Senhorita Refinada”), a moça conseguia balançar muitos corações masculinos.
Mesmo assim, Raito sentia que não podia baixar a guarda quando estava perto dela, como se ela fosse usar algo que disse contra ele mesmo quando fosse necessário. Afinal, Takada era desse tipo — podia se fazer de difícil, mas gostava do posto de “Refinada” e faria de tudo se algo ameaçasse tirá-la do posto.
E havia Mikami. Esse lhe era leal e concordava com tudo o que Raito dizia sem questionar. Sabujo fiel, porque, de certo, aquela era a figura que ele tinha de Mikami. Conheceram-se havia algum tempo atrás, quando Raito havia lhe livrado de tomar umas boas surras (e, volta e meia, ainda o salvava) e, desde então, o garoto não parecia mais sair de seu pé.
Quando não estava com Raito, estava com Takada: os dois pareciam ter se afeiçoado e se tornado amigos. Ou pelo menos andavam juntos, o que dava a Raito essa ideia.
Misa era um caso mais complicado. Declarara-lhe amor à primeira vista e, de uma hora para a outra, tomou Raito como namorado, de um modo que ninguém lhe tirava a tresloucada ideia da cabeça. Por mais que lhe dissesse coisas como “Me desculpe, mas não posso corresponder aos seus sentimentos” ou “Realmente aprecio sua consideração por mim, mas não quero que se decepcione no futuro”, a loira continuava a demonstrar-lhe seu amor e admiração de todas as formas que podia.
O pior de tudo é que Misa estudava na mesma classe que Raito, dando-lhe mais tempo para persegui-lo.
Por esses e outros motivos, Raito não gostava nem um pouco de quando aqueles três se esbarravam por aí. E menos ainda quando estava presente. Às vezes chegava a ter a impressão de que os três um dia iam acabar matando um ao outro.
Antes de escapar, Raito ainda ouviu Misa dizer “Misa já vai se encontrar já, já com Raito! Misa também tem coisas a tratar com os amigos dela!” numa voz estridente, ao que ela abraçava seus “amigos” com os braços passados por cima de seus ombros.
Ah, sim, eles iam se matar. E Raito não fazia muita questão de ver como seria.
Já longe dos olhos de seu Raito, Misa transformou seu sorriso em uma expressão enraivecida (que, no entanto, estava no limiar entre o sério e o cômico).
— É o seguinte: vocês são um pé no saco e tão atrapalhando meu relacionamento com o Raito. E isso deixa Misa muuuito furiosa. Então, caiam fora e vão brincar de outra coisa, ok?
— Não vejo qual a relação isso poderia ter com a gente — replicou Mikami.
Takada completou:
— E, além de tudo, ele não é propriedade sua, Misa querida.
Sonsos.
Misa, que ainda tinha os braços enlaçados nos pescoços dos dois, apertou o abraço e arrastou-os para mais perto de si (o que não lhe era difícil: Misa frequentava academia para manter seu emprego na agência de talentos; Takada era baixinha, e Mikami, embora fosse alto e homem, era do tipo magricela).
— Vocês entenderam muito bem o que eu quis dizer — sibilou a loira. — Mas agora Misa vai ter que se despedir dos pirralhos, porque Raito deve estar esperando por ela.
A loira largou os dois e retomou seu sorriso costumeiro, cumprimentando alegremente um grupo de alunos que passava pelo local.
— Ela é só um ano mais velha — resmungou Takada.
— Fisicamente, talvez. Mentalmente, duvido muito — rebateu o outro, fazendo a loira empertigar-se.
Takada riu. Embora fosse sério, Mikami de vez em quando tinha umas tiradas daquelas, coisa que a divertia muito.
— Ei, eu ouvi isso! Se Teru-chan ficar tirando com a cara de Misa, ela vai pegar o maior salto agulha que ela tiver e enfiar num lugar que Teru-chan não vai gostar nada, nada. E isso serve pra Kiyomi-chan também!
Os dois a ignoraram, fazendo uma Misa revoltada se retirar.
A loira, porém, sorriu um pouco satisfeita.
Mais tarde, Mikami levou três ou quatro pontapés antes de se dar conta de um "Me chute" escrito em um papel colado em suas costas. Havia também uma carinha muito simpática fazendo careta garranchada nele. Adorável.
Fato similar aconteceu com Takada, mas, em vez de um "Me chute", era um "Vadia" que atraía risadinhas e burburinhos, até que uma alma caridosa resolveu avisá-la, fazendo-a corar como um tomate.
Os dois, é claro, já sabiam quem fora o culpado.
Ah!, o que era de Misa estaria guardado, com toda a certeza.
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— Bom dia, Raito. Você... está ofegante. Parece-me que você estava correndo até agora há pouco.
Raito suspirou meio aborrecido e sentou-se em sua carteira.
— Bom dia, Ryuzaki-san. Não exatamente correndo, mas...
Ryuzaki soltou um “Ah” e balançou a cabeça, em afirmativa. Quando Raito chegou à sala, Misa adentrou-a logo em seguida, confirmando sua teoria. Ele não conhecia muito bem a loira, mas já conseguira captar qual tipo de relação Raito tinha com ela.
Raito, por sua vez, se via aliviado por saber que lugar onde Misa sentava não era perto do seu, contudo, foi mesmo um azar muito grande pegar um lugar perto daquele sujeito.
A loira ainda chegou a olhar na direção do moreno, mas, por sorte, o professor chegou na hora certa.
O professor Shingo Mido cumprimentou rapidamente a turma e mandou que seus alunos se sentassem, partindo logo para a matéria prevista para ser dada naquele dia.
Mais novo do que a maioria em sua área, Mido era altamente qualificado em ciências contábeis e agora exercia o cargo de professor de matemática do Colégio Saitama (escola pública referência em ensino no Japão, o Saitama lhe oferecia um ótimo salário, além de outros benefícios).
Filho de um figurão da política japonesa, Mido já havia ocupado um cadeira de importância dentro da diretoria de uma grande empresa, mas resolveu largar a empresa por uma vida mais simples quando se desentendeu com o pai.
Ainda tinha alguns arrependimentos, porém, podia dizer com certeza que se sentia mais feliz. Era melhor do que ouvir a todo momento sobre “o quanto deveria ser grato a seu pai”.
E os alunos lhe tinham bastante respeito também — aquilo era realmente satisfatório para Mido.
Ainda tinha algumas poucas dificuldades sobre como lidar com alguns alunos. Exemplo disso era os dois do primeiro ano, que, coincidentemente, eram Raito e Ryuzaki.
Os dois tinham um desempenho memorável, bem acima da média dos alunos comuns. A “fama” deles era assunto recorrente entre os professores (na verdade, era mais algo que comentavam quando não havia nada de novo para se falar, mas não deixava de ser recorrente). Chegava a ser até meio impressionante.
Mesmo agora, que havia passado uma série de exercícios para serem feito em aula, os dois haviam terminado-os em um piscar de olhos. Pensou em cumprimentá-los pelo esforço e bom trabalho, mas pensou mais uma vez e acabou desistindo diante da seriedade deles.
Diria que era uma seriedade quase atemorizadora — e, de fato, o era.
Raito, que queria evitar conversas com seu vizinho de carteira, se concentrava na leitura de um livro, mas isso não parecia conseguir afastar seu desagradável colega de classe: não via com clareza, entretanto, tinha a certeza de que Ryuzaki estava encarando-o.
Raito fechou o livro e mirou Ryuzaki.
— Algum problema, Ryuzaki?
— Não é nada. É que... você não me parece ser do tipo que lê Nietzsche.
Raito suspirou, tentando manter a cordialidade.
— Bem observado, Ryuzaki. Não concordo mesmo com muita coisa que ele diz.
Raito voltou à sua leitura, mas Ryuzaki continuou lendo o livro por cima de seu ombro.
— Ryuzaki — chamou ele.
— O que foi? Estou te incomodando?
— Sim, está, sim.
— Desculpe. Pode me emprestar depois que terminar?
—... Claro.
Ryuzaki tirou um saquinho de balas de sua mochila e começou a comê-las enquanto o professor não estava por perto. Foi a vez de Raito encará-lo.
— Quer algumas? — ofereceu Ryuzaki, estendendo duas balas para Raito.
—... Não, muito obrigado. Seria bem ruim se alguém te pegar com elas em sala de aula, sabe...?
— Sei, sim, mas não consigo esperar. Quer dizer, elas me ajudam a raciocinar melhor. E consigo ser bem discreto, quando quero.
Raito franziu as sobrancelhas. Não, Ryuzaki, você não consegue, não. Nem em um milhão de anos.
Mais silêncio se fez por algum tempo, até que Ryuzaki o chamou de novo.
— O que foi?! — ralhou Raito, alto o suficiente para chamar atenção. O professor então o encarou (na verdade, era um olhar mais curioso do que reprovador), assim como outros alunos. — Desculpe, professor.
Um rubor de raiva subiu às faces de Raito, que encarou Ryuzaki com olhos furiosos.
Algum tempo depois, Ryuzaki o chamou de novo.
— Ryuzaki, será que você poderia manter-se calado pelo menos até o final da aula?
—... Desculpe-me, é que me pediram pra te passar isso aqui. — Ryuzaki jogou um papelzinho rosa em cima da carteira de Raito.
Raito desenrolou o papelzinho e, enfurecendo-se mais um pouco, leu um “Te amo!” escrito com uma caligrafia feminina e coraçõezinhos em volta.
Fique calmo, Raito, fique calmo. Você aguenta.
Mas, se ouvisse Ryuzaki chamá-lo mais uma vez, não se responsabilizaria mais por seus atos. Na certa.
Notas finais
Desculpem pela demora, esse capítulo já era pra ter saído antes, mas minha semana foi um pouco atribulada e não deu tempo pra olhar nada com atenção (em compensação, me diverti à beça escrevendo esse capítulo aqui).
Ah! Obrigada a todos que estão acompanhando e aos que deixaram reviews, de coração.
Até a próxima o/
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