Inimigos Íntimos
9 Vingança (revisado)
Kaiser Pov
O bater das asas de uma borboleta num extremo do globo terrestre, pode provocar uma tormenta no outro extremo no espaço de tempo de semanas… Citando Edward Lorenz e sua famosa teoria do caos. Apesar de ouvir horas de debate sobre essa questão, ela nunca fez tanto sentido em minha vida como fazia agora.
Foi cientificamente provado que o ser humano comete as maiores tolices quando se deixa ser levado por desejo de vingança. Pois bem, eu deveria concordar. Todavia, foi esse desejo infame que me abriu os olhos para as infindáveis possibilidades de vitória. Uma pequena ocorrência no mundo real, resultou em um pequeno arranhão em meu brio, além da humilhação no maldito jogo amistoso, ainda me corroía o fato de saber que passei anos no escuro a respeito da possibilidade de levar Digimons para a realidade.
Devido a esse desejo de vingança, montei um plano que julguei ser perfeito. Ponderando bem, seria mesmo, pois a armadilha de Wendimon era algo bem complexo de se escapar. Parece que anos lidando com o inimigo e eu ainda os subestimava. Este era um grande erro, subestimar um inimigo! Eu poderia ter vencido? Sim, na verdade eu tive tempo de sobra, mas optei por gastá-lo me deliciando ao ver o Motomiya se humilhar.
O que me angustiava era saber que o maior culpado por não ter me livrado de vez desses estorvos, era eu. Minha humanidade tola me atrapalhava. Cada vez que traçava um plano perfeito, como fora naquela vez com Inoue sozinha na cachoeira, uma situação inusitada me tirava do foco. Tinha em nota pessoal, começar a me policiar sobre estes impulsos irracionais. Contudo, quando vi a oportunidade de tripudiar sobre o Pela-Saco e saborear a sensação, mais uma vez burlei meu foco para me divertir, como uma criança.
Aqueles minutos de divertimento me custou o sucesso de mais um plano e quando percebi os digiescolhidos chegaram para socorrer seu líder e estragaram o disfarce dos Bakemons. Confesso que me surpreendi com a fúria de Motomiya recaindo desgovernado sobre mim. Apenas por tal surpresa foi que o inseto conseguiu me derrubar e desfrutar de uma momentânea vantagem.
Não reprimi os impulsos primitivos, sobressaindo-me muito bem sobre aquele desajeitado. Anos lutando judô e vencendo inúmeros campeonatos me deram muita vantagem na briga. De certa forma, vi naquela barbárie mais oportunidade de revanche. Modéstia à parte eu estava fazendo o Pela-Saco-Motomiya de tapete e ousei dizer que estava extravasando minha ira e até tendo algum divertimento em tirar sangue daquele desprezível.
Intempestivo, fora a pancada que recebi na cabeça a me tontear. No momento não apercebi-me da dor, somente o baque a me desnortear. A visão embaçou e o corpo amoleceu. Fiz o possível para me sustentar de pé. Tentei entender o que se passava. E tudo se misturou em um borrão disforme e aos poucos a percepção da dor me atingia acentuadamente. Repentinamente minhas costas chocaram-se contra o chão e senti um peso sobre o estômago, desacreditado do que minha visão me mostrava. Mais uma vez era ela…
Inoue Miyako, novamente. Parecia inacreditável que ela se colocasse em meu caminho mais uma vez. Sentou sobre meu estômago e estapeou-me a face incontáveis vezes e… Eu? Eu não consegui reagir, simplesmente paralisei! Me pareceu que a noção de tempo, espaço abandonou-me e a mente travou. Demorei algum tempo para compreender a conjuntura toda. Inoue ousou me acertar com pedras na cabeça, pelas costas e atrapalhar minha briga com o seu “líder”.
Ela gritou palavras que não compreendi. Meu orgulho estava na lama enquanto os digiescolhidos a retiravam de cima de mim. Ainda permaneci naquele chão, incrédulo. Depois de tudo, essa garota ousava me subestimar e me rebaixar a um monte de merda, usou-me como um espetáculo para divertir seus amigos. Enquanto as vozes da detestável equipe ficavam mais longe, eu repetia internamente que a faria pagar caro por isso!
(...)
Maquiagem? Eu não tinha nenhum conhecimento sobre o assunto, mas tive que procurar na internet e conseguir algumas bases e corretivos faciais. Mesmo assim, não consegui um bom resultado. Eu não estava pensando fora da caixa. Agora eu sabia que poderia usar meus escravos no Mundo Real. Era um território onde as Torres Negras não teriam efeito, de certo eu teria que fazer algo a respeito, então não tive escolhas a não ser me arriscar com a maquiagem por hora. Mas já tinha planos de criar um aplicativo que desse um suposto benefício aos usuários e levasse o mesmo efeito das Torres Negras para o mundo real, era só desenvolver com calma.
A cabeça estava dolorida, só não mais que o orgulho. O ódio queimava dentro de mim, mas eu sabia que precisava de um tempo para estudar bem os inimigos e arquitetar um plano bem elaborado. Se de fato a “amizade mágica” deles tinha o combustível para fazer com que seu parceiros saíssem vitoriosos de muitas batalhas, o que eu precisaria fazer era diminuir a qualidade deste combustível. Ao meu entender, o estado emocional de um digiescolhido afetava inteiramente na evolução de seu Digimon.
Eu já sabia o que deveria ser feito. Durante todos estes anos negligenciei a informação que estava bem em frente ao meu nariz! Isso porque não queria perder meu tempo com esses lixos! Chegamos a um ponto que essa coexistência se tornou insustentável! Se eu perdesse meu tempo bolando emboscadas, armadilhas e batalhas neste mundo, eles serviriam como fontes de combustíveis. Então eu devia atacar direto a fonte. Deveria atacar onde seus Digimons não podiam defendê-los. Atacaria no social, moral e emocional. Há anos eles chegavam aqui para me afrontar no meu território, mas creio que poderia mudar este jogo...
(...)
Uma vez tendo decidido o que fazer, me mantive quieto. Há anos vinha pondo em prática um plano de nerfar os Digimons que evoluíssem acima de nível adulto, os que ainda não podia controlar. Criei um radar especial para identificá-los e assim atraí-los para meus domínios, onde eram atacados por grupos de poderosos e bem treinados escravos. Eu não podia ficar governando tranquilamente e deixar seres que fugissem ao meu controle, livres para se unir contra mim. Essas duas tarefas; construir Torres Negras, caçar e eliminar os megas, supremos e etc... me tomava muito tempo, mas se eu me esforçasse mais, poderia sim conseguir um tempo a mais para arquitetar um esquema que derrubasse cada digi-patético.
Durante mais de um mês, concentrei minhas energias e pesquisas naqueles inúteis. Invadi cada sistema, cada rede social, estudei conversas, videos, fotos, anexos e principalmente mergulhei nas informações sobre Inoue Miyako. Para ela eu estava preparando a melhor das armadilhas. Deliciei-me em descobrir tantos podres sobre todos eles, mas Inoue? Ah… Coincidentemente, Inoue era uma daquelas fãs loucas. A desmiolada escrevia as chamadas “Fanfictions” a meu respeito. Confesso que fiquei confuso entre deboche, asco ou vergonha alheia, quando li o conteúdo de tais textos. Ela tinha um vasto grupo de amigas virtuais onde todas escreviam suas insanas ficções sobre mim e muitas eram eróticas.
Confesso que até cheguei a devanear com uma ou outra asneira escrita por ela. A personagem principal era uma clara retratação de si mesma. Não me orgulhei de ter me deixado levar por palavras tão absurdas e ridículas mesmo que o ódio que nutria por aquela vadia queimasse cada dia mais em minhas veias. Quando lembrava-me de sua ousadia em me ferir, tinha anseios de lhe quebrar o pescoço, contudo, não é assim que eu trabalho. Desconsiderei temporariamente a importância daquele material e continuei a seguir com a investigação. Pelo que li nas mensagens do celular, e-mails e conversas em redes sociais, o namoro com Izumi tinha se consolidado a ponto de envolver as famílias. Ótimo, quanto maior o voo, mais dolorosa seria a queda. Era questão de tempo para que sua vida cor-de-rosa fosse tingida com tons de desespero e agonia.
(...)
Ciente do tal festival beneficente que a faculdade dos digi-energúmenos iria realizar, decretei que seria data excelente para pegá-los desprevenidos, em clima de comemorações e festividades. Enquanto passavam o dia se divertindo com os preparativos, designei alguns subordinados de classe planta e os enviei para capturar a parceira de Tachikawa Mimi. Organizei todo o “tabuleiro do jogo,” com mais informações do que as débeis mentalidades de todos eles juntos fossem capazes de processar. Esperaria o momento em que estivessem exauridos e deixaria Palmon atrapalhar o precioso sono, com pedidos de socorro.
Antes do grandioso espetáculo, decidi me infiltrar no território inimigo e ver bem de perto como procedem no mundo real, apesar de já ter tido breves amostras durante a partida de futebol. Não tive trabalho em alugar um kimono simplório e uma máscara de Tanuki. Não me aprazia a ideia de estar em meio a multidão, mas passar por um desconhecido e espreitar o inimigo bem embaixo de seu nariz, isso sim era muito instigante.
Quando o aguardado dia chegou, não hesitei em me misturar com aquele copulado de adolescentes, jovens e famílias que pulavam como micos no picadeiro, fortalecendo a cinesia do sistema comercial, ostentando promover e propagar a cultura do país. Tolos! Duvido que um terço do dinheiro arrecadado aqui iria mesmo para a caridade. Que se fodam! Todos viviam um conto de fadas, uma mentira, os poderosos fingiam que se importavam, o povo fingia que acreditava e os benevolentes brincavam de altruísmo. Era tudo uma grande encenação.
E lá estavam os Digi-ignóbeis, mesmo com a aglomeração extensa, não foi difícil de identificar os alvos. A Gralha-escolhida protagonizava uma discussão infantil com o Pela-saco Motomiya e a Pata-choca da Luz tentava apartar. Como pessoas que estão iniciando a vida adulta podem ter um comportamento tão infantil? Quanto desperdício de tempo e energia. Continuei a navegar por entre aquele mar de mediocridade, estudando bem o que seria um novo campo de batalha em poucos dias. Percebi quando o grupo inteiro se reuniu para ajudar a primeira guardiã do brasão do amor, Takenouchi Sora.
E mais uma vez aquele grupo nojento e bizarro me causou mais asco com a cena bizarra dos rapazes vestidos como gueixas a se apresentarem em um desfile no palco. Pelo que pesquisei Takenouchi estudava estilismo e pretendia ser especialista em kimonos, de certo as suas modelos baratas acidentalmente receberam o endereço errado e foram mandadas para outra cidade. Talvez eu não tenha resistido e dei uma palinha da tempestade que estava por vir na vida de todos eles. Queria ver se a “Amizade Mágica” iria prevalecer.
Observei até o ponto em que se iniciou uma patética dança em volta da fogueira, uma tradição para firmar o amor entre os casais. Foi o limite do que pude suportar. Quando os casais começaram a se posicionar, procurei uma rota de fuga daquele hospício, mas me perdi em meio aos curiosos e os amantes apressados para tomar posto. Fatidicamente minha máscara acabou escorregando e quase caindo, a peguei em um reflexo rápido e parei em meio a confusão para ajeitá-la no rosto antes que fosse reconhecido por alguma fã louca.
Eu odiava estar em meio a multidões, sentia vertigens e o ar ficava escasso. Por um momento era como se eu pudesse ver o grupo de digi-perdedores nos rostos de todas as pessoas que me cercavam, ouvindo seu risos e o quanto pareciam querer salientar seus laços de amizade, celebrando e esfregando-a em meu nariz... Como se eu me importasse! Cerrei os punhos, estralando-os. O gosto do ódio amargava minha boca e aquelas gargalhadas, o cheiro das variadas guloseimas, perfumes e suor revirava meu estômago. Eu queria gritar, queria correr, queria ter meu exército de escravos para ordenar que esmagassem a todos e causassem à eles o desconforto que me causavam.
Não me importava aquela celebração ordinária, os amigos, as famílias, os casais. Todos estavam apenas se enganando. Eles gargalhavam, mas quem tinha motivos para tal, era eu, sempre fui eu. Fui tirado do transe quando alguém esbarrou em mim e quase fez a máscara novamente cair, mas a segurei prontamente. Estremeci com a surpresa ao encarar a pessoa que se desculpou ligeiramente, mas sem esperar pela resposta. Era ela… Inoue Miyako! Dessa vez vestida em um kimono bonito, com os cabelos presos em um coque com belos adornos. Ela arrastava Izumi pela mão.
Engoli em seco com a inexplicável sensação de estar diminuído e intimidado pela cena. Eu queria ir embora ou talvez nunca ter ido ali, mas só consegui ficar petrificado a acompanhar o suposto casal em sua dança entre outros mais. O ombro onde Inoue esbarrara parecia formigar como se estivesse dormente e, todos os aromas confusos do local deram lugar à fragrância adocicada que emanou-se dela. Por que eu me sentia tão mal? Estava prestes a saborear uma grande jogada, mas aquela sensação dolorosa, fria e agonizante me desesperava e deixava-me impotente, como se eu estivesse em foco e todos tripudiassem de mim. Era a mesma sensação de quando “ele” estava vivo e todos o bajulavam.
A mesma sensação…
Estampei um riso vitorioso por debaixo daquela máscara. Era bom que tivessem memoráveis momentos felizes para comparar com o inferno que iria fazer da vida deles muito em breve. Atestava que tudo que estava a sentir se devia ao fato de não me sentir confortável em meio a tanta presepada. Coisas medíocres para seres medíocres. Continuem presos na ignorância, enquanto isso as peças estão se movendo e meu xeque-mate já estava garantido.
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Enquanto nossos heróis repousavam tentando recuperar energias depois de um divertido festival, julguei que era hora de tirá-los da cama mais cedo. Deixei que Palmon pensasse que tinha um aliado na base que a ajudaria a mandar um pedido de socorro para a parceira. Tachikawa Mimi conseguia ser ainda mais desesperada e escandalosa do que Inoue e, como previsto, não demorou para a Digi-Liga da Justiça se materializar no Mundo Digital em defesa dos fracos e oprimidos.
O espetáculo estava armado e assim que os palhaços escolhidos pisaram no palco a diversão começou. Estavam exaustos e sonolentos tendo que lidar com o resgate da parceira de uma “desesperada patricinha escandalosa a desorientar a todos”. Assim que identificaram os Sunflowmon como oponentes carecidos de libertação, já se organizaram para encontrar Palmon e a suposta Torre Negra. Foi a deixa para que eu mandasse mais escravos entrar em cena ao passo que cortei a comunicação deles com Izumi e a tal resistência, a fim de evitar que pedissem reforço.
Como planejado, usei numerosos escravos os fazendo guiar Digmon para uma armadilha, onde outro grupo de subordinados já aguardava para subjugá-lo. Não poupei Digimon tipo planta e terrestres, deixando todos bem ocupados. Assim que notaram que Digmon estava em uma situação mais complexa, focaram-se em resgatá-lo. À essa altura eu já estava sobre o lombo de Devidramon, chegando ao local, pronto para o ato final. Pelo comunicador, comandei o esquadrão de Zassoumon para manter meu verdadeiro alvo preso, ordenando que os Waspmon surgissem de seu esconderijo nas copas das árvores e finalizassem com chave de ouro.
Os urros de Holsmon eram música para meus ouvidos. A neblina densa emanava do solo e os raios dos choques dos Waspmon clareavam o nefasto ambiente. O vento assobiava contra meus ouvidos, congelando orelhas e nariz, sentia o ressecamentos nos lábios e o incômodo do peso de meu sobretudo a acompanhar o movimentar da brisa revolta que me desgrenhava os cabelos. Já havia configurado os óculos para modo avançado de visão noturna. O gelo da madrugada se misturava à adrenalina que corria em minhas veias... Então eu a avistei!
Ela corria em direção ao seu parceiro caído no chão, inconsciente. Pelo comunicador, ordenei que Devidramon se aproximasse e o entregasse a mim. Não me lembro de já ter experienciado um deleite tão intenso, saboreei o horror de Inoue quase em câmera lenta, a forma como travou o passo, os cabelos desgrenhados, óculos embaçados, peito palpitante e a face contorcida de puro pavor.
Trocamos poucas palavras, só para clarificar que era esse o meu objetivo desde a captura de Palmon. Mantive o controle da situação e mostrei à ela que a partir de agora deveria pensar bem antes de cada respiração. Em meu íntimo, gostaria de ficar ali para tripudiar sobre sua carcaça fracassada, mas já aprendi em falhas passadas que este prazer efêmero pode custar a vitória, sendo assim, fui breve. Assim que Devidramon alçou voo e tomou uma boa distância, fiz com que todos os meus escravos parassem a luta imediatamente e recuassem, abandonando Palmon desacordada em meio à floresta. Aquela era minha declaração de vitória!
A realização me tomava por completo. Assim que entrei na base ordenei que jogassem meu convidado especial em uma cela e fui assistir às gravações do meu triunfo e me deliciar com todo o dano causado ao psicológico de Inoue e seus amigos. Era maravilhoso as caras deles ao darem conta de que foram ludibriados. O caos se instalou, alguns se culpavam, outros blasfemavam, os Digimons estavam em choque.
Abri comunicação com Digitamamon e ordenei que me trouxesse um lanche, durante os dias de empenho em pesquisar e arquitetar este plano, acabei por não me alimentar corretamente. Vi e revi as mesmas cenas me refastelando e depois segui para o mundo real a fim de uma boa noite de sono. Uma nova partida se iniciava, durma bem Inoue, sonhem com os anjos.
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