Inimigos Íntimos
59 Sinceridade explosiva.
— NÓS NÃO TEMOS ESSA PORRA DE MOEDA AMERICANA! — Miyako extravasou sua ira de uma vez.
— Tudo bem, eu ficarei feliz em pagar. — Uma voz suave e gentil, chamou atenção de todos.
POV Miyako
Eu estava colérica com aquele digimon insinuador, com Kaiser, com toda a situação e principalmente comigo mesma. Era como se uma bola de fogo flamejasse acima do estômago e na garganta um nó crescia pouco a pouco, um grito gutural de ódio e dor começava a se formar dentro de mim, se debatendo como um monstro ávido para se libertar, mas me contive e respirei fundo uma vez mais.
Mirei a pessoa que se ofereceu gentilmente para pagar nossa conta. A conta que era minha responsabilidade por ter esquecido os suprimentos. Para minha surpresa era um rapaz ocidental, extremamente bonito, que me ofereceu um sorriso apaziguador. Um príncipe encantado belo e cortês, pronto para salvar a donzela em apuros… Estreitei os olhos afinal, não sou uma donzela, não preciso de ninguém para me salvar de perigos e por último, mas não menos importante, príncipe encantado não existe!
Cerrei os punhos, pronta para recusar, mas senti Hikari-chan depositar a mãos sobre meu ombro, massageando-o, como se tentasse me pedir calma. Respirei mais uma vez. Não era meu orgulho que estava em jogo ali, nem minha implicância com rostos bonitos, sorrisos gentis e demonstrações de cavalheirismo. Se eu não aceitasse todos alí estariam encrencados.
Enquanto o rapaz pagava Digitamamon, Poromon, Hikari e Tailmon se acercaram de mim, Iori olhava-me ponderativo, os garotos foram conversar com o loiro e questionar como ele conseguiu entrar no Mundo Digital, se o Digivice dele era alterado como os nossos. Para nossa surpresa, antes que o rapaz respondesse, Mimi entrou saltitando, passando pela soleira da porta, chamando toda atenção.
— Eu sei, eu sei, vocês estão cheios de perguntas e a resposta acabou de chegar! — espalhafatosa, apertou Hikari e eu em um abraço esmagador.
Eu, sinceramente, não soube o que sentir; Mimi vive em um mundo onde ela parece não enxergar os danos que causa. Ainda estava ressentida com ela por causa daquela festa. A situação em que ela me deixou com Koushiro-kun não foi dolorosa só para ele, me sinto péssima só de pensar, de lembrar o que passamos naquele carro, as coisas que ele me disse, seu desespero em querer acreditar que eu era apenas uma vítima e que poderia me salvar….
Tudo aquilo ainda gritava dentro de mim quando a olhava. Ela me arrastou para aquela festa, contra minha vontade, eu sabia que algo daria errado. Agora veio fazer turismo com o amigo americano, em uma zona de guerra, agindo como se todos estivéssemos na Disney? Como ela pode tratar tudo com tanto descaso, como se a vida fosse uma brincadeira? Como se suas intransigências não abrissem feridas?
Enquanto estava presa nos meus dilemas, Mimi apresentou o rapaz como Michael Barton, e seu parceiro Betamon. Tachikawa explicou que aproveitou o feriado para viajar com os pais para os EUA e encontrou-se com o amigo. Estavam vendo velhas fotos dos tempos em que ela morou lá, quando receberam um e-mail de Betamon alertando sobre o portal que se abriu.
— Vocês correram um grande risco vindo até aqui. — apontou Iori-kun, rigidamente. — O Mundo Digital não está seguro e você sabe disso, Tachikawa-san. Muitas áreas estão tomadas por Torres Negras e seus parceiros não podem evoluir.
— Isso é...— Mimi coçou o queixo. — Mas estamos vivos, inteiros e Michael matou as saudades do parceiro, além de termos chegado a tempo de salvar vocês. — ergueu o polegar, empolgada.— Hey! Esse Humpty Dumpty não é do mal? — apontou para Digitamamon.
— Não. Eu expliquei para os seus amigos que cansei de cumprir caprichos de malucos, agora tudo o que eu quero é uma vida honesta. Me arrependo do meu passado.
— Então tá suave! — todos soltaram um coro de “an?” — Não é fácil mudar de vida, por isso, pode contar com meu apoio.
— Obrigada, queria que todos fossem puros como você, mas há quem julgue os outros baseando-se em suas próprias falhas de caráter. — ele olhou para mim.
Chiei entre os dentes e me preparei para responder, mas o americano começou a falar.
— Ah, Mimi! Por isso eu gosto de você. Esse seu jeito de acreditar nas pessoas e encarar a vida, tem uma ingenuidade, mas mexe com os corações de quem está a sua volta. Quero aprender a ser como você. — sorriu ao completar o elogio para a amiga.
— Para com isso, está me deixando embaraçada. — Mimi empurrou o americano, brincalhona.
— Você embaraçada? — Daisuke questionou com um tom engraçado e espontâneo e todos começaram a rir… Mas, não eu.
Estava perdida em ponderações e releituras pessoais. Acreditar nas pessoas, simplesmente esquecer o que fizeram, o quanto nos magoaram, feriram quem amamos e, seguir em frente? Para Mimi as coisas são de uma simplicidade assustadora e invejável, e se fosse ela na minha posição, estaria calma? Teria acreditado na redenção de Digitamamon e de Kaiser também, mesmo diante das evidências?
Por que não posso ser como ela e acreditar nas pessoas? Por que não posso ser como ela e não me magoar com facilidade? Por que não posso ter essa capacidade de contagiar os corações a volta, como Michael salientou? Se eu pudesse ser assim… Se eu fosse assim, talvez tudo fosse diferente!
Desperto das divagações, com Hawkmon subindo no meu colo e correndo as pontas das asas pelo meu rosto.
— Hawkmon? — pisquei algumas vezes, oscilante.
— Menina desmiolada.— ele tirou a pena de sua cabeça e me ofereceu. — Quer ir lá fora brincar de tiro ao alvo? — fiz um movimento negativo com a cabeça e acariciei as plumas de suas costas, de baixo para cima, o fazendo fechar os olhos para receber a carícia. — Você sabe que eu te amo, não é?
— Eu sei. — senti os olhos arderem, mas segurei as lágrimas. — Eu também te amo. Obrigada por estar do meu lado.
— Sempre! — concluiu convicto, me fazendo abrir um sorriso melancólico.
Esse simples gesto de carinho do meu parceiro já funcionou como um calmante para meus nervos, que pareciam um vulcão prestes a entrar em erupção. Hawkmon sendo uma criatura digital, de um mundo totalmente diferente do meu, fica quase sempre perdido com as complexidades dos relacionamentos humano, mesmo assim, sempre está do meu lado apoiando-me, isso chega a ser comovente e fofo, por vezes aumentando a culpa que sinto por amar alguém que tanto o torturou.
Pequenos tremores começam a abalar a estrutura do local, roubando a atenção de todos.
— Ue? Estão sentindo isso? — Armadimon se manifestou, alarmado.
— Não sinto nada. — Rebateu Patamon inocentemente, pois estava voando.
— Tremores. — Tailmon revelou em tom sério.
— Achei que fosse meu estômago reagindo a comida. — Veemon arrancou risos de todos.
— Não seja inconveniente. — Daisuke desfere um cascudo no parceiro.
— É sério, a natureza chama, não estou mentindo. Depois de comer demais você não fica com vontade de fazer...— ele foi cortado por um tremor ainda maior, que fez Hawkmon cair do meu colo.
Um grande estouro foi ouvido e todos correram para fora, sendo o proprietário do local, o primeiro. Hawkmon e eu também seguimos os demais e quando passamos pela porta, nos deparamos com um enorme digimon destruindo tudo à sua frente, parecia possuído.
Gorimon ou Gorillamon
é um Digimon tipo humano-besta cujo nome e design vem do Gorila . Ele tem um canhão no braço em vez de uma mão. É pacífico, mas não é muito inteligente, por isso irrita-se facilmente. Um Digimon dotado de grande poder nos braços e pernas, capaz de esmagar qualquer coisa, não importa o quão duro eles sejam.
Informação
Level Seijukuki
Digite Fera Humanóide
Atributos Dados
Família / Espíritos da Natureza
Ataques
Ataque de Poder : Ataque com uma técnica super poderosa.
Energia canhão: Atira um grande feixe de energia a partir do cano de seu braço.
Arregalei os olhos ao observar o enorme digimon gorila, deixando rastros de destruição com seu braço em forma de canhão, vindo rumo ao restaurante. Parecia uma cena de Dragon Ball, onde Goku se transforma em um grande macaco e sai detonando tudo, até os olhos vermelhos eram iguais. Digitamamon se colocou diante de Gorimon, se postando em posição de batalha, pronto para defender seu restaurante.
— Uma Espiral Negra melhorada. — Iori-kun apontou para outro braço do inimigo.
— Parece que Kaiser andou fazendo melhorias e mandou Gorimon vir nos mostrar. — Daisuke se expressou irritadiço.
Me senti atingida por uma bomba. Como posso acreditar nas pessoas? Como posso querer ter a pureza que existe no coração da Mimi? Nunca me senti tão enganada, manipulada. Naquele momento desejei morrer, desaparecer desse mundo. Eu, preocupada, sem notícias, confusa, e Ken, melhorando sua força de ataque, investindo contra nós, contra mim...
Gorimon lançou um ataque de energia de seu canhão, em nossa direção. Digitamamon encolheu as pernas para dentro de sua casca e se colocou à nossa frente recebendo o ataque, sendo jogado para longe. Ele nos defendeu, mas porque?
— Veemon, vamos nessa! — o ruivo convocou o parceiro.
— Certo… — concordou Veemon.
— Por favor. — interrompeu o americano. — Podemos resolver isso.— emendou, recebendo um anuir de cabeça do nosso grupo.— Vai Betamon!
— Betamon shinka! — Betamon pulou no lago e evoluiu para — Seadramon. — ao emergir das águas recebeu um ataque corporal de Gorimon e ambos afundaram na lagoa.
Seadramon
Um Digimon Aquático com um grande corpo serpentino. Utilizando o seu longo corpo, enrola-se à volta dos inimigos que o atacam e constringe-os até sufocarem. Desprovido de inteligência, nada pelo Oceano da Rede, com o instinto como guia. O seu movimento especial é expelir ar no zero absoluto pela sua boca, congelando instantaneamente a água e disparando-a contra o oponente.
Nível Seijuku-ki
Tipo ( Ja:) Aquático
( En :) Animal Marinho
Atributo Dados
Família Deep Savers
Dragon's Roar
ATAQUES
"Explosão de Gelo":
"Choque da Água":.
"Mind Freezer": i
— Isso! Temos vantagem na água! — Barton comemorou antecipadamente, o que mostra sua presunção e inexperiência em campo, pois nunca devemos subestimar o inimigo.
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Não tínhamos como acompanhar precisamente,a movimentação da batalha embaixo da água, mas pelas luzes foi perceptível que os oponentes trocaram ataques e Seadramon parecia estar entrando em apuros, mesmo em seu território.
— Palmon, vamos ajudá-los! — Mimi solicitou a parceira que assentiu já se posicionando.
— Palmon shinka... Togemon!
E logo o enorme cacto calçando luvas de boxe vermelhas, surgiu, imponente, no campo de batalha. Gorimon foi lançado aos céus por um golpe de Seadramon e retornou atacando a parceira de Mimi, que o recebeu com uma bela sessão de golpes.
— Pricley Bang Bang! — Togemon mirou precisamente na espiral negra e socou ligeiras e consecutivas vezes, até que a mesma começasse a trincar.
Gorimon atacou com seu canhão e cambaleou caindo de volta no lago, onde Seadramon lhe recebeu com outro ataque direcionado na Espiral Negra. Na tentativa de fuga do grande gorila, Togemon o abordou com mais alguns socos e a Espiral finalmente se quebrou libertando “Oozaru”
— Desculpe se fomos brutos, mas não tinha outra maneira.— Mimi se desculpou e Gorimon coçou a cabeça confuso.
Não demorou, até ele se afastar e ir embora, ainda aturdido.
— Sem a Espiral Negra ele não é um digimon mau. — Palmon opinou.
— Sem Espirais, não existem digimons maus! — Mimi completou.
— Eu discordo, Devimon , por exemplo, não consigo imaginá-lo bom. — Takeru se opôs.
— Certamente existem Digimons extremamente cruéis. — Tailmon bradou melancólica e seus olhos ficaram turvos.
— Por favor, Tailmon, não lembre de coisas dolorosas. — Hikari acolheu a gatinha em seus braços.
Koushiro-kun, pouco me contou sobre os tais Mestres das Trevas, mas o suficiente para saber que eles eram sim, extremamente maus. O que me faz questionar que às vezes a pureza pode se igualar a ignorância, então já não sabia se queria mesmo ser como Mimi.
— Espiral Negra… — Michael murmurou como se tivesse visto pela primeira vez.
— É isso que te expliquei sobre Digimon Kaiser. Também é culpa dele que todos os escolhidos mundo a fora não consigam mais entrar no Mundo Digital. — Mimi encarou o amigo enquanto explicava.
— Fico imaginando que tipo de pais criaram uma pessoa assim, um psicopata que veio brincar de reino aqui. Isso é absurdo! — o loiro expressou sua indignação, mas somente o silêncio paira no ar e sei que é por minha causa, coisa que ele , certamente, não sabe.
Um psicopata…
Eu estava apática enquanto o grupo conversava sobre o paradeiro de Digitamamon, a respeito dele ter nos defendido e como , provavelmente o digimon ovo estava ferido em algum lugar. Debateram sobre a necessidade de procurá-lo. Tailmon e Patamon fizeram Armor Shinka e tão rapidamente Hikari e Takeru montaram os parceiros, saindo a procura.
Quando ponderamos por onde começar as buscas, Digitamamon surgiu em sua forma ovo, rolando em nossa direção, porém… porém, cada pelo do meu corpo se arrepiou, uma corrente de eletricidade subiu pela espinha, como um mau agouro. Mimi, com sua costumeira postura, correu em direção a ele.
— Digitamamon, você está bem?
— Sim...— O tom de sua voz soou de forma bizarra, mas me mantive quieta, pois não queria estar a julgar erroneamente. — Estou muito bem.
— Você nos protegeu, muito obrigada.
— É, eu fui arremessado para muito longe por causa disso. — a voz parecia ainda mais tenebrosa, mas só eu parecia estar percebendo aquilo. — Finalmente consegui voltar. — sua casca se abriu e os olhos brilharam em carmesim intenso, meio a escuridão de seu núcleo.
— MIMI-CHAN, SE AFASTE! — não me importei com mais nada, segui meus instintos e vociferei retumbantemente.
Senti os olhares confusos sobre mim, queria estar errada, mas…
— E dessa vez quem vai mandá-los para longe, serei eu. — de dentro da casca as pernas esverdeadas com garras vermelhas saíram, fixando-se no solo.
— MIMI! — Michael clamou com tom preocupado.
— Miyako-chan! — Hawkmon se dispôs.
— Digimental up...— dei o comando.
— Hawkmon armor shinka… Holsmon, as asas do amor.
Enquanto meu parceiro alcançava a evolução, Digitamamon lançou um ataque contra Mimi, entretanto Holsmon conseguiu protegê-la, mas foi abatido quedando ferido.
— Digimental up...— Daisuke e Iori deram comando para os parceiros evoluírem.
— Veemon armor shinka… Fladramon, a coragem flamejante.
— Armadimon armor shinka… Digmon, A sabedoria profunda!
Os parceiros dos meus amigos investiram com seus ataques contra o digimon ovo, mas nem a broca de Digmon conseguiu sequer arranhar a casca do oponente.
— Vamos atacar todo juntos. — sugeri.
— Pessoal, esperem um pouco, não façam isso. — Mimi se colocou na frente do inimigo e agora eu tinha mais certeza de que já não queria toda essa “pureza”, já estava virando suicídio. Ela se virou para ele. — Digitamamon, por favor, volte a ser quem você era antes. Está sendo controlado, tem que lutar contra isso, lembre-se do seu sonho de recomeçar.
Ah, sim… Os olhos de Digitamamon brilharam e as lágrimas de redenção rolaram, as belas e doces palavras da “senhora coração puro” contagiou o inimigo e quebrou a porra do efeito que, no Gorimon precisou de DOIS dos nossos parceiros para quebrar. ÓBVIO QUE NÃO! PORQUE ESSA DESGRAÇA NÃO É CONTO DE FADAS!
— Não estou sendo controlado, esse sou eu de verdade. — Digitamamon disse em voz assustadora.
— Não acredito em você. Disse que queria mudar.
— Eu estava mentindo, como pode acreditar. É uma menina tola.
— Não interessa, não interessa que você diga que eu sou tola, continuarei acreditando em você e você vai me ouvir, vai voltar a ser quem era e continuar a lutar por uma vida digna.
— JÁ CHEGA! — e como previsto ele investiu contra Mimi, jogando-a contra nós.
— Mimi-san! — nos acercamos dela, que ainda estava meio zonza.
— Eu continuo acreditando, volte a ser o que era, volte a ser o que era, volte a ser o que era… — ela insistiu.
Eu estava preocupada com ela e muito zangada porque… Porque ela estava perdendo tempo com uma criatura que não queria mudar? Não queria aceitar, tentando ser pacífica e amorosa? Ir pelo amor, quando já era nítido que a solução seria pela dor? Ser puro tem limite, acreditar nos outros, tem limite!
— CALA SUA BOCA! — esbravejou Digitamamon.
— CALA A BOCA VOCÊ, SEU IDIOTA! — cerrei os punhos e levantei exaltada o fazendo me encarar alarmado. — Quem você pensa que é? De toda sua história de nova vida, quem mais acreditou e te deu força foi a Mimi. E você a agride ? Como pode fazer isso com a única pessoa neste mundo que continua do seu lado zelando para que você não seja atacado?
— Você novamente? Quem pensa que é para censurar meu comportamento. Você é pior do que eu. Ao menos tenho um lado definido agora, sei quem eu sou, mas e você? Quem é você? Conte a eles, saia da casca. — desafiou-me, me fazendo explodir de vez.
— QUE SE FODA! EU… SOU… SOU AMANTE DO DIGIMON KAISER! — berrei como se estivesse me libertando de um peso enorme. — QUE SE FODA VOCÊ! QUE SE FODA TODO MUNDO! QUE SE FODA TER A DROGA DE UM CORAÇÃO PURO E ACREDITAR NAS PESSOAS, PORQUE É POR ISSO, POR ACREDITAR NAS PESSOAS QUE EU ESTOU AQUI PARTIDA AO MEIO, COM O CORAÇÃO SANGRANDO, SENDO ATACADA PELO ESCRAVO DE ALGUÉM QUE ME JUROU AMOR, QUE JUROU QUE MUDARIA POR MIM!
E o mundo pareceu parar para ouvir meu desabafo, cai de joelhos no chão, já não tinha como voltar atrás e, eu nem queria.
— No começo eu era vítima das circunstâncias, só queria proteger Poromon, mas depois de alguma forma, eu me deixei envolver, me acostumei a conviver com meu inimigo, me tornei íntima dele, a ponto de querer entender sobre seus motivos, sua vida, seu passado e tudo o que o levou a vestir o manto de Kaiser e causar toda essa devastação e massacre. — e as lágrimas já escapavam.
— Miyako-chan...— ouvi a voz de Holsmon, que regrediu a Hawkmon e andou em minha direção. — Você não precisa…
— Não Hawkmon, eu preciso, preciso sim. Tudo que Digitamamon falou hoje, de que eu o julguei pelas minhas falhas de caráter… É verdade. Eu tenho visto os meus amigos me olhando com pena, me vitimizando, como se eu fosse uma coitada, indefesa vítima de uma violação, e fiquei calada, na minha zona de conforto, sem dar a cara a tapa e dizer que na verdade EU ME DEIXEI SEDUZIR, eu quis ser seduzida e estou apaixonada. Esses Digimons não tem escolha, mas eu nunca tive um Anel Negro para me obrigar a nada.
— Miyako-chan, já basta, por favor.
— NÃO! ELE QUER SABER QUEM EU SOU? TALVEZ ALGUÉM MAIS QUEIRA SABER. — cerrei os punhos e me levantei vociferando. — SOU UMA IDIOTA, COVARDE QUE NÃO SABE MAIS NO QUE DEVO OU NÃO ACREDITAR! Eu vi Kaiser quebrando todo meu grupo, acabando com a vida de um por um e tudo que ele fez com Hawkmon, mesmo assim, mesmo assim eu o amo e com certeza isso soa como uma piada sem graça, mas é isso que sou ALGUÉM QUE NÃO TEM O CORAÇÃO PURO E QUE AMA SEU PIOR INIMIGO. É ASSIM QUE EU SOU… ESSE É MEU VERDADEIRO EU!
E nesse momento uma misteriosa esfera de luz saiu do solo, cegando a todos com sua luminescência, mas meus olhos se mantiveram abertos, banhados pelas lágrimas. Aos poucos a esfera foi ganhando um tom esverdeado e se revelando o Digimental da Sinceridade.
— Olha, é seu! — Hawkmon me chamou. — Ele escolheu você, use-o.
— Não. — neguei com a cabeça. — Eu não sou digna desse Digimental. Não existe sinceridade e nem pureza nas minhas ações, meu caráter é corrompido. Eu não sou como a Mimi-chan que vê inocência e verdade em tudo. Nunca serei como ela. Se quiserem me odiar para sempre, entenderei perfeitamente.
— Menina desmiolada. — ele deu um breve riso. — Como poderemos te odiar por amar alguém, seja lá quem for? Amor é amor, não é? Você não é como a Mimi, claro que não e nunca vai ser, nunca, com certeza; porque você é única e se o Digimental quisesse a Tachikawa, a teria escolhido, já que ela está entre nós. Você deve ter a sua visão sobre o mundo. Não questione sabedoria antiga e não se cobre por não ser outra pessoa. Você é quem precisa ser, como precisa ser. Seja você agora, aceite o que é seu por direito e mostre o seu poder.
— O meu poder...— E muitas coisas me vieram à mente, em diversos flashbacks, desde quando eu era aquela garota boba e conheci Hawkmon, meu medo de lutar pelo Mundo Digital e como superei isso; quando Kaiser pisou em mim de todas as formas e me mantive firme e sobrevivi, as batalhas mais árduas que já enfrentei ao lado do meu parceiro e nossos amigos. Hawkmon sempre sendo essa criatura sábia. Eu não precisava ser como ninguém, fui escolhida por ser eu. Mostrar o meu poder? Lembrei-me de quando Ken se afundava em trevas e busquei dentro de mim uma força que desconhecia, a força para ativar o Digimental do Amor, e agora… Com todos os meus defeitos, eu ...— EU ACEITO O MEU PODER… DIGIMENTAL UP…
Hawkmon flutuou envolto em uma intensa luz verde.
— Hawkmon armor shinka! — Hawkmon girou sob o brasão da sinceridade, a sua volta uma chuva de folhas verdes fizeram uma linda dança o deixando completamente coberto, as primeiras a serem reveladas foram suas correntes com enormes shurikens nas pontas. Os olhos misteriosos brilharam em amarelo, a bandana e máscara ninja compunham o traje branco sobreposto por capa verde. — Shurimon. Sinceridade explosiva!
Eu estava em choque, emocionada e maravilhada com a linda transformação, sentia como se meu parceiro fosse uma extensão de mim, com energia total para purificar aquela criatura dominada pelas trevas.
Shurimon partiu para cima de Digitamamon que se escondeu em sua casca. Meu parceiro desferiu vários golpes jogando “Shurikens Bumerangue,” nos quais ele atirava as estrelas ninjas , e essas acertavam o oponente, voltando para si e sendo lançadas em ritmo acelerado.
— Shurimon, você é incrível, fique firme! — o incentivei.
— Nós somos incríveis, Miyako-chan. — respondeu-me sem perder a pose.
— Vocês são dois babacas, isso sim. Compartilhem isso, seus lixos! — Digitamamon rolou, desviando-se das Shuriken Bumerangue, e soltou um ataque. — Swing Egg! — rajada de luzes monocromáticas em tom de vermelho e azul começaram a ser emitidas do corpo do inimigo.
Esse ataque bizarro ainda era seguido de um odor horrível que nos deixou com ânsias de vômito, aturdidos por causa da combinação forte de luzes. Se valendo desse efeito, Digitamamon atacou Digmon e Fladramon, que quase nos atingiram e sua queda.
Mas Shurimon foi surreal e quando o digimon ovo se lançou contra ele, o mesmo usou sua técnica “Konoha Kakure,” transformando seu corpo em um turbilhão de folhas, desaparecendo e reaparecendo atrás do adversário.
— Essa é pra você, Miyako-chan. — exibiu-se merecidamente e eu aplaudi extasiada, como uma criança em um espetáculo, honrada pela dedicatória. E tenho certeza que nem Michael Barton posando de príncipe encantado, tinha brilhado mais do que o meu parceiro.
— Seu convencido de merda! Quero ver se vai continuar se vangloriando depois do meu próximo golpe.— Blefou Digitamamon.— Síndrome do Pesadelo! — O ataque de Digitamamon assemelhava-se a um espírito maligno de olhos vermelhos e corpo negro, que saía de dentro de sua casca rumo a Shurimon.
Agilmente meu parceiro esticou-se com as molas de suas “pernas”, desviando-se do golpe. Fladramon e Digmon fizeram um escudo em nossa frente, lidando com o ataque.
Então uma ideia me ocorreu. Aquele fantasma negro era a verdadeira forma do Digitamamon, o que significava que sua casca ficou vulnerável e com Digmon e Fladramon o segurando…
— BINGO! — gritei e saltei com o indicador erguido, meus amigos olharam com gotas sobre as cabeças. Shurimon olhou para mim e eu apontei e ele anuiu.
— Já saquei! — postou-se em posição de ataque e mirou o centro da casca. — Momiji Oroshi! — estendeu seus “braços” e com uma das estrelas da ponta, alcançou e destruiu, finalmente, a Espiral Negra. — Fatality!
A fala final rendeu expressões interrogativas em quase todos. Talvez eu tenha jogado Mortal Kombat perto do Poromon algumas vezes, só talvez…
Finalmente Digitamamon estava livre, e mesmo com o peso de tudo o que aconteceu, eu não pude ficar sem correr para o meu parceiro e bajular sua nova forma, xeretar em seus acessórios e apetrechos ninjas, muito fabulosos!
— Oh Kami! Você precisa me ensinar a usar uma shuriken. — peguei algumas de suas estrelas ninjas.
— Miyako-chan, tome cuidado isso corta.— alertou-me, mas eu estava empolgada demais para me controlar.
— Sua bandana tem o símbolo da sinceridade. É tão incrível! — mexi em sua bandana e ele resmungou um desanimado “Miyako-chan”— E aquele truque de virar folhas e sumir, sensacional! Eu quase desmaiei de emoção, Tão ousado, extraordinário, formidável…
— Miyako-chan, está me deixando encabulado e também, sinto te desapontar, mas não posso mais manter essa forma. — ele se lamentou brilhando e regredindo a Hawkmon.
Enquanto isso nossos amigos estavam conversando com Digitamamon, que nos agradeceu por tudo.
— Chegando lá em casa vou te deixar comer tudo o que você quiser, seu lindo. — acolhi Hawkmon em meus braços, o apertando, acariciando-o com o rosto.
— Vocês dois estão nessa melosidade até agora. Por favor, meu colesterol subiu. — Daisuke provocou, implicante como sempre.
— Você não quis dizer glicose? — Takeru o questionou matreiro.
— Ah, é tudo a mesma coisa, açúcar, gordura, tanto faz. — o líder cruzou os braços com uma carranca irritada, fazendo todos rirem, mas um barulho chamou a atenção.
— Dai-chan, estou com fome. — a barriga de Veemon roncou logo após a reclamação.
Em seguida as barrigas de todos os digimons roncaram em conjunto.
— Vocês me libertaram e como agradecimento, os convido para comer. — Digitamamon foi cortês e nossos parceiros saltitaram aceitando, sem esperar nossa opinião.— Fiquem a vontade.
Me acomodei em um assento e esperei que alguém comentasse algo sobre minha revelação, mas não houve uma palavra sequer, então decidi dar uma de Mimi e puxar o assunto.
— Sobre o que eu disse no campo de batalha...— todos me deram atenção. — Sobre tudo o que eu disse sobre minha relação com Digimon Kaiser.
— Hey, magricela. — Daisuke me interrompeu. — Todos estamos cansados e sem pensar direito, vamos só aproveitar a comida e conversamos coisas sérias uma outra hora, sabe? Você marca.
Assenti constrangida e aliviada. Sim, eu estava envergonhada por ter gritado para o mundo o meu amor por Digimon Kaiser, nosso inimigo e destruidor daquele mundo, contudo não me senti como se devesse baixar a cabeça. Aproveitei a comida como meu amigo sugeriu.
Quando nos despedimos, Digitamamon me olhou nos olhos.
— Quanto a você, garota do Kaiser, eu…
— Ah, tá tranquilo. Nós dois fomos desagradáveis, eu te julguei mal, então. Acho que estamos quites, não precisa pedir desculpas que não combina com esse seu estilo.
— Nem com o seu.
— Acho que não.
Ambos rimos e nossos amigos se olharam confusos rindo em seguida.
Michael andou até mim e estendeu a mão.
— Garota do Kaiser, an? — senti minha face arder intensamente, já tinha me esquecido que havia um estranho entre nós e que ouviu tudo.
— Er… Quanto a isso…
— Ele tem muita sorte! Você é uma garota incrível, sincera, ousada, intrépida e de gênio muito forte! A forma como se dedicou a descobrir a pessoa por trás do manto e como se sente em relação ao seus amigos e parceiro, mostra que você se preocupa com todos a sua volta e preza por eles. Eu te desejo toda sorte, que seus sentimentos possam alcançá-lo, tocar-lhe a alma, como tocou a minha.
Fiquei sem palavras, quase desmaiando de vergonha. Eles seguiram para o portal e nós passamos pelo nosso e lá estava Yamato a nossa espera e pela cara ele tinha visto tudo o que houve, certamente, mas não tocou no assunto.
Outro problema era Iori, não me olhou e nem sequer falou nada, estava com a expressão fechada, bom, muito mais do que o normal. Eu o conhecia bem, desde pequeno, sabia que estava muito decepcionado comigo, talvez entre nossos amigos ele fosse quem mais se horrorizou com minha declaração.
Enfim, essa seria uma batalha para ser enfrentada em um outro dia. Cheguei em casa e tudo que eu queria era um banho demorado, nem jantei, pois já tinha comido no Mundo Digital. Poromon desmaiou em seu cestinho e eu, já vestida com um babydoll confortável, me joguei sobre a cama. Fiquei fitando o lustre por algum tempo, relembrando tudo o que aconteceu, mas não resisti, me levantei e verifiquei meu e-mail. Nada, nenhuma mensagem… Nenhum, “estou vivo, sua idiota.”
Derrotada, voltei para a cama, mesmo cansada não consegui dormir, só chorar, sentindo aquela dor aguda rasgando meu peito. O que está acontecendo afinal?
Continua...
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