(...)

Lá estava ela, não em uma sala de interrogatório, escura e com uma mesa contendo uma luminária, olhada pelo policial bom e o policial mau, mas pior… Na sala da casa da família Ichijouji, sentada no sofá olhando para os próprios pés que deslizavam nervosamente pelo carpete castigando a sola de sua meia tres quartos.

— Olhe a gravação que eu tenho da sala de vídeos da sua escola. — e na gravação, que aconteceu no dia em que Sora recebeu o chamado de socorro de Piyomon, Miyako abria o portal e todos entravam por ele. — Tenho vigiado vocês há muito tempo e quero saber o que aconteceu? O que são essas coisas e que relação isso tem com nosso filho?

No outro sofá a Sra Ichijouji chorava copiosamente, por fim, não tinha mais como esconder nada, nem se ela quisesse e tentar negar só iria piorar as coisas. Inoue alcançou sua bolsa e libertou Poromon que voou aliviado para seus braços.

— Finalmente, estava abafado lá dentro.— declarou animado sob os olhares indagativos horrorizados.

— Essa criaturinha aqui é um Digimon, ele veio do Mundo Digital e é pra lá que nós fomos na gravação mostrada. — começou a revelação.

— Digimon...— repetiram em uníssono.

— Isso não é possível, não tem como, é um holograma. — o Sr Ichijouji se aproxima tocando no corpinho de Poromon e sentindo que é mesmo real. — Isso é incrível, meu Kami!

— Hey, cuidado aí pra não arranhar a pintura. — Poromon faz piada.

— É espirituoso. — admira-se o homem.

— Mas, essas criaturas, esse Mundo Digital, o que isso tem a ver com o nosso Ken? — a mulher interrompe o momento indo direto ao foco.

— Bem...— Miyako a encara e coloca uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Há quatro anos atrás, meus amigos e eu recebemos isso aqui. — saca seu D-3 o exibindo. — E fomos sugados para o Mundo Digital, a fim de salvá-lo de uma ameaça, para tal conhecemos nossos parceiros que com a nossa ajuda mudam de forma para lutar.

— Quatro anos atrás? Você e o Ken não se conheciam...— ponderou o detetive.

— Tecnicamente não. Não como Ichijouji Ken. — denotou e viu os mais velhos arquearam as sobrancelhas.

— E o que ele tem a ver com isso tudo? — a mulher fica impaciente.

— Fomos levados ao Mundo Digital para lutar contra o filho de vocês, que estava dizimando, massacrando e escravizando essas criaturas, usando o nome de, Digimon Kaiser, trajando uma roupa que o deixava irreconhecível.— articulou categoricamente.

A mãe do gênio levou a mão sobre a boca, enquanto o detetive assustava-se com as teorias que começavam se formar em sua mente.

— Então vocês eram inimigos, e isso? — a pergunta veio tímida e receosa, mas Miyako o olhou nos olhos e respondeu francamente.

— Sim, durante quatro anos, Digimon Kaiser foi nosso inimigo, mandou Digimons controlados para lutar contra nós e por muitas vezes quase nos matou.

— Mas como você e ele… Como vocês? Eu sei que você namorava um colega de escola, Izumi Koushiro, não é? E isso pouco tempo antes daquele dia em que acompanhei Ken até a nova escola e a conheci… Como passaram de inimigos a namorados? — inquiriu o detetive, analitico.

— Vocês tem certeza de que querem mesmo saber essa parte da história? — suspirou constrangida.

— Tudo, Inoue-san, por favor conte tudo. — a mulher insistiu secando as lágrimas.

Ainda era absurdo para eles aceitar que o filho era um vilão de outro mundo e sua namorada era a guerreira da virtude que lutava contra sua tirania. Conto de fadas? Histórias de HQs? Se não fossem as filmagens e Poromon alí, a chamariam de louca, por certo.

— Certo… Foi somente naquele dia em que conheci o senhor. — mirou o investigador. — Eu descobri que, Digimon Kaiser, era Ichijouji Ken. Nosso namoro era uma farsa. Kaiser sequestrou Poromon e me obrigou a servi-lo como escrava, fazer suas vontades do contrário torturaria ou mataria meu parceiro. — relatou com seriedade..

— Namoro falso com ameaças, então...— o investigador não queria ter que acreditar em tanto absurdo. Todos os dias prende bandidos que ameaçam e coagem mulheres e crianças, seu coração não aguentaria ter seu filho comparado a estes.

— Então, fui ofendida de várias formas, caluniada, difamada e não só isso, ele me fez cortar relações com meus amigos, desistir de clubes os quais eu fazia parte e minha família ficou brava comigo pensando que eu tinha deixado meu namorado da noite para o dia por um ídolo..— recapitulou acabrunhada.

— Eu posso perguntar o que ele te obrigava a fazer err… Neste outro mundo? — havia uma dificuldade em formular as frases aceitando que o filho estivesse sendo um tirano psicopata em outro mundo.

— O Mundo Digital é bem semelhante a esse, eu tinha que lavar, passar, cozinhar, limpar toda a base, ler e responder cartas de fãs, abrir presentes, isso era mais para me humilhar.— ela cerrou os punho se lembrando das cartas idiotas das fãs.

— Mas, porque? Qual a razão disso?

— Ele queria me humilhar, estava zangado porque eu o esbofeteio na frente de todos, durante um confronto, mas não parou por aí, Infiltrado no meu colégio, Ken destruiu a vida pessoal dos meus amigos um a um, divulgou informações e fotos particulares e depois jogou toda a culpa em Izumi.

— Seu ex namorado?

— Sim. Fazendo isso ele desestabilizou a equipe que lutava contra seu império, com as cabeças cheias eles não tinham condições de lutar.

— Atacou o inimigo no território dele… Kami, meu filho invadiu a privacidade alheia, divulgou dados pessoais das pessoa...— Sr Ichijouji analisa estupefato.

— Seu filho fez muitas coisas erradas...— ponderou lembrando-se de todas as coisas que ela preferia nem contar a eles, como mexer na mente dela, mandá-la para outra dimensão, colocar câmeras em seu quarto e tantas coisas mais.— Mas, eu não estou contando isso para que o coloquem em julgamento, Ken precisa de ajuda.

— Mas aquele dia que ele foi jantar na sua casa? — objetou Sra Ichijouji mantendo uma esperança de que o relato de Inoue fosse exagerado.— Se o relacionamento era falso, porque permitir que ken estreitasse laços com sua família?

— Não era como se eu tivesse alguma escolha. Ele convenceu minha família sobre nosso relacionamento ser real. — Inoue refutou prontamente. — Quando o convidaram não houve nada que eu pudesse fazer para impedir.

— E o dia em que você o levou ao dentista? — a mulher continuou o protesto. Em sua mente, se seu filho era mesmo tal monstro porque Inoue o ajudaria com tamanha preocupação.— Se ele a estava acuando, porque se preocupar com seu bem estar?

— Err… Eu o levei, porque ele é metido, arrogante, soberbo, estava morrendo de dor e com a bochecha inchada, parecendo um esquilo, mas se recusava a ir fazer tratamento, então eu tive que vir aqui.— confessou sentindo as bochechas arderem, era difícil estar sob aqueles olhares analiticos julgando e ponderando suas falas e ações. — Por favor não entrem em negação. Não quero que o julguem, mas não fechem os olhos para a verdade, estou me abrindo com vocês, expondo coisas muito íntimas então ouçam com o coração.

.— Você quer dizer. Se me permite perguntar...— a mulher começou e só a mensura da pergunta já fez Miyako se encolher e corar no assento. — Você e o Ken...— cautelosa chegou perto da garota sentando-se ao lado dela.— Me desculpe, não quero parecer invasiva, mas eu preciso, preciso muito saber se o meu filho... tocou em você, se ele…

— NÃO! — Defendeu-o prontamente. — Não isso,nunca...— baixou o olhar e o tom de voz. — Nunca sem o meu consentimento.— e ao complementar a frase o detetive apenas confirmou algo que já sabia, pois em suas investigações era dado que a garota tomava anticoncepcionais. — O tempo do Mundo Digital está muito alterado devido a toda influência causada pelas ações de Ken e suas Torres Negras, ocorre que acabamos por passar muito tempo juntos e de certa forma nos aproximamos aos poucos, nos tornamos...— era difícil que o acanhamento deixasse a garota concluir sua fala. — Íntimos.

Suspiros aliviados foram ouvidos vindos do casal, já era horrível processar o caos que o filho estava causando, saber que ele era um molestador seria um desgosto sem igual.

— É nossa responsabilidade. — o homem cerrou os punhos. — O mal que ele causou a esse outro mundo, a essas criaturas, a sua honra, as pessoas daquele colégio… — vociferou transtornado. — Que desonra para nossa família.— socou a mesa de centro.— Devemos trazê-lo de volta a esse mundo e que responda por todo dano que causou.Ter um filho desaparecido é menos doloroso que ter um filho criminoso.

— QUE SE FODA A HONRA DA SUA FAMÍLIA! QUE SE FODA A MINHA HONRA! —Miyako levantou-se indignada e o casal arregalou os olhos. — Essa maldita honra, tudo começou com isso e você tem razão A CULPA É SUAS. Quando Ken era uma criança e perdeu o irmão, ele precisou de vocês mais do que nunca, mas cada um se trancou na sua própria bolha de dor e sofrimento porque perderam o filho perfeito COMO SE O QUE RESTOU NÃO VALESSE A PENA, FOSSE UM LIXO, UM VERME!

— Miyako-chan, por favor, tenha calma. — Poromon pede tentando abrandar a ira da parceira.

— Não tenho calma Poromon, porque depois de tudo eles se preocupam com nome. Ken está lá naquele mundo praticando o que aprendeu nessa casa, frieza, indiferença, massacrar os sentimentos dos outros, negligenciar suas necessidades. Como eu posso pedir para que ele veja seres digitais como amor, se ele enquanto criança de carne e osso NUNCA RECEBEU AMOR, SÓ DESPREZO? Os filhos são o espelho dos pais...— Inoue começa a chorar, sem conseguir mais continuar o que dizia.— Colocar sua dores em uma balança, que egoísta, que mesquinho.

— Está certa...— a voz da matriarca sai branda. — Fomos horríveis, fizemos tudo errado, estávamos com o coração tão partido que perdemos a infância do nosso filho. Você não acha que eu sei que sou um lixo de mãe? Repito isso para mim mesma todos os dias. Eu sentia o tamanho da mágoa e da dor nas palavras hostis do meu filho e pior era saber que eu merecia aquilo. — lamuriou-se a matriarca.

— Querida, por favor sua terapeuta disse para não- — começa o marido, mas a esposa faz um gesto para que ele se cale.

— E é só isso? — a garota pergunta enfática.

— Como assim? — a mais velha murmura.

— Tudo que pessoas depressivas sabem fazer é dizer que são pouco, que são lixo, que sabem o quanto são fracas, medíocres e como erraram. E o que vem agora, eu devo te dar uma medalha por sua brilhante capacidade de reconhecer suas falhas? Ou devo me compadecer porque a senhora é uma pobre coitada incapaz de lidar com suas dores? — Ela usou toda sua sinceridade ácida e impiedosa e deixou o casal sem fala.— Reconhecer erros e continuar na lama sentindo pena de si mesmo não leva a nada. O que adianta um psicólogo saber como a senhora se sente, mas seu filho não?

— Você é jovem e todas as coisas parecem tão fáceis. Não sabe a dor de perder um filho e ter consciência de ter feito tudo errado com o outro. — resguardou-se a senhora.

— É verdade eu não sei como é essa dor, mas sei que se algum dia acontecer eu jamais vou me fechar com a minha perda e quebrar as pessoas que estão vivas e precisando de mim. Morreu acabou, não se pode fazer mais nada, mas Ken não está morto e portanto vocês não tem que agir como se chorassem por um caso perdido. A senhora pode se trancar no seu quarto e se martirizar por todos os erros, encher a cara de remédios e ficar dopada e temporariamente livre do fardo e do peso na consciência, ou pode se preparar pra tentar ser mãe de verdade.— contrapõe de imediato.

— Ken está quase atingindo a maior idade, a sensação é de que nosso momento como pais já foi perdido. Deixamos passar. — dessa vez quem se manifesta é o homem, enquanto a esposa só consegue chorar com os olhos baixos.— Não fomos presentes quando ele mais precisou e agora não sabemos lidar com o que ele se tornou, só nos resta aguentar o peso da culpa.

— Ken não está morto e não é como se ele fosse um caso perdido, pelo amor de Kami! Ele nem fez 16 anos ainda, não é uma criança, é fato, mas ainda precisa muito de vocês. Não é tarde pra vocês consertarem os danos que causaram.— Miyako fungou buscando ar com dificuldade. — Ele está lá no Mundo Digital querendo brincar de Deus, porque teme o que encontrará no mundo real. Sei que nessa idade muitos pais já mandam os filhos para morar sozinhos, mas não é hora pra pensar em valores culturais idiotas. Não existe data de validade para ser pais, se um filho precisar independente da idade os pais devem ajudar.— rememorou casos de sua família. — Minha prima tem 32 anos e mora com os pais, nunca quis se casar por ter sido abusada na infância e meus tios não sentem vergonha dela, pelo contrário, viajam juntos e não se importam com tradições, valores sociais e culturais, o que as pessoas pensam não os afetam. Eles se descuidaram dela quando deveriam ter sido mais cautelosos, mas agora dão a alma para deixá-la feliz.— exemplificou. — Percebem a semelhança? Minha tia poderia ser uma dependente de medicamentos, depressiva e ter ficado se culpando a vida toda, mas se levantou e junto com o marido foi fazer alguma coisa. Ser pais é ter que ser forte em dobro, por você e por seu filho.

O casal se olhou impossibilitado de responder de pronto, foram tantas pancadas de verdades pesadas e dolorosas vindas de uma pessoa tão jovem, de alguém que tinha milhões de motivos para odiar o filho deles, mas que em vez disso estava clamando por ajuda, tão desesperadamente quanto se fora para si mesma.

— Parecia que as coisas iam bem, todos gostavam dele, os jovens queriam ser como ele, os adultos o admiravam, mas a cada dia ele estava mais rebelde e eu pensei ser coisa da idade. — confessa o investigador, enquanto a esposa ainda estava remoendo as palavras da menina.

— Não estava nada bem, não era só uma fase. Ele sofreu com a predileção excessiva que vocês tinham por Osamu, sofreu quando agiram como se a vida tivesse acabado junto com a dele e nada mais restasse, sofreu a perda do irmão, continuou sofrendo quando se deu conta de que o amor das pessoas vem do proveito que elas podem tirar de seu status de “gênio”. — ela levantou-se dando algumas voltas pela sala. — Agora ele se afundou em algo bem além do que eu consigo entender ou explicar. Eu quero ajudar, eu preciso, mas não consigo fazer isso sozinha. Quando todo aquele castelo de ilusões que ele criou for destruído, quando seu mundo cair, ele vai precisar ter para onde voltar e vai estar tão quebrado que… — e as palavras morreram e só em imaginar a cena ela se deixou cair de joelhos sobre o carpete e se entregou a um choro copioso.

Poromon voou para perto da parceira, ele estava desconfortável e constrangido com aquele clima, não sabia como agir, as coisas estavam sérias e pesadas, o desespero da garota o deixava quase sem conseguir respirar, nunca em toda sua longa existência o Digimon havia sentido tanta angústia, medo e confusão. Desde a primeira vez que se viram ele sentiu a personalidade intensa da menina, mas nunca imaginou tal proporção.

Ela queria ajudar, estava implorando aos pais de seu inimigo que se abrissem para o rapaz, com alma, de coração, parassem de lamuriar os erros do passado e fizessem algo no presente. Ela não era indiferente a dor que sofreram, mas sabia bem que deixar que tenham auto piedade não levaria a lugar nenhum. O sol nasce para todos, mas não adianta se você se trancar em um quarto escuro.

Poromon admirou a parceira sendo forte por alguém que tanto lhe fez mal, ela não era delicada com as palavras, não conseguia ser doce e nem ponderava o tanto que metia o dedo nas feridas dos outros, mas sua intenção era nobre. Como a mesma dissera, queria ajudar, precisava, mas não sozinha.

— Inoue-san...— o pai de Ken a chamou em um sussurro, recebendo um mirar ressabiado, por parte dela. — Você tem razão. Agora eu entendo, mesmo com tudo que o nosso filho fez, não pensaremos em julgamentos ou seremos nós mesmos a julgá-lo, estaremos aqui para acolhê-lo e pedir que nos perdoe. — revelou emocionado.

— Que alívio. — a violacea retirou os óculos secando as lágrimas.— Obrigada, obrigada. Isso estava me preocupando tanto, me corroendo. — se levanta ajeitando o uniforme escolar. — Agora eu realmente preciso ir.— seca as lentes com a blusa, colocando-os novamente.

— Não, por favor, fique mais um pouco, nos conte como é esse lugar, se ele tem se alimentado, não tem ficado doente, como podemos ajudar nosso filho a voltar pra casa. — insistiu a mãe do rapaz. — Eu posso preparar um chá, assar uns biscoitos. — seus olhos eram de súplica verdadeira. — Por favor, é muito importante, cada detalhe.

— Acho que ela falou em biscoitos. — Poromon encontrou a deixa para quebrar o peso do clima. — Estou com muita fome, Miyako-chan. — dramatizou se deixando cair no chão. — Faz horas que não como nada, tudo está ficando escuro, não sinto minhas pernas…

— É porque você não tem pernas, está escuro porque fechou os olhos. Não me faça passar vergonha.— ralhou acolhendo o rosado em seus braços, quando se ouviu um ronco alto.

— Viu só, não estou mentindo, aí está a prova.— insistiu o alado.

— Por favor, seu err… Seu Digimon, não é? — Sra Ichijouji colocou a mão sobre o pequeno corpo da criatura, recebendo um anuir de cabeça da menina. — Ele tem fome e nós temos dúvidas, vamos reunir tudo isso a mesa, sim? — ela foi tão gentil quanto Ken costumava ser em seus momentos de doçura, até o tom de voz era parecido, de forma que Inoue sentiu-se quase um monstro por ter atirado seus pensamentos sem filtro algum, ríspida e incisiva.

— Ok. — murmurou completamente enrubescida comparando mentalmente as semelhanças da mulher com o filho.

A senhora secou o rastro de lágrimas e seguiu para a cozinha fazendo um sinal para que Poromon a seguisse, o monstrinho olhou para a parceira como se pedisse permissão e a garota assentiu e ele planou em direção a mais velha acompanhando-a.

— Digimon...— balbuciou o policial.— Ah muito mais mistérios entre o céu e a terra do que conta a vã filosofia. — concluiu mais para si e Miyako riu com a frase.

— Eles tanto podem ser fofos como podem ser perigosos, mas são seres vivos que pensam e sentem, estou evoluindo a cada dia. — clarificou a garota.

— Fale-me mais sobre essas criaturas, sobre esse Mundo Digital. — curioso, o homem requestou a fim de ter o máximo de informações possíveis.

Inoue iniciou seu relato, resumiu o máximo que pode e respondeu muitas dúvidas, ao menos as que conseguiu.

— Então é um lugar onde se tem comida como a desse mundo, mas usam ovos de que? Leite de onde? A carne que comem é de outros Digimons? Se matam um Digimon para se alimentar, ele não se dissolve em dados no mesmo momento? Então como existe carne neste mundo? — as perguntas do homem não paravam de se formar, uma mais complexa que a outra.

— Bem… Existem animais como os daqui, mas são raros de serem vistos, não sabemos se algum Digimon atravessou o portal e levou algumas espécies, ou se essas surgiram através de dados e informações na rede, mas esses dias seu filho me mostrou um vídeo em que haviam Digimons err... tipo fazendeiros, se é que podemos chamar assim, eles tinham gado, galinhas, plantações de grãos, legumes, frutas, verduras…— parou por segundo e sorriu corando ao se lembrar do que em especial o rapaz havia lhe mostrado. — E cacau, por lá tem cacau e eles sabem fazer chocolates, não é incrível?

— Criados com informações na rede? Tem informações de todos os tipos sobre células tronco, pesquisa sobre clonagem e tudo sobre vida e desenvolvimento humano, se esses animais tiveram início através de conversão de dados é possível que hajam humanos artificiais entre esses Digimons?

— Veja bem, nós não sabemos tanto sobre aquele mundo, mesmo seu filho em constantes estudos e com um banco de pesquisas gigantesco, não sabe tanto, não tem resposta para dez por cento de suas dúvidas.

— Então Ken se meteu a tentar dominar um mundo do qual ele nem sequer sabe tanto?

— O confrontei com essas mesmas palavras e ele me disse que nenhum grande conquistador da humanidade sabia tudo sobre o território a ser conquistado, que isso é impossível. Ele tem respaldo para tudo.

— De certa forma faz sentido. Meu Kami! A sensação de impotência diante de tudo isso é quase sufocante.

— Eu compreendo, em parte me sinto assim também. Ás vezes eu queria bater naquela cabeça dura dele, e trazê-lo de volta a força. — riu-se tristemente.

A mesa já estava posta, o chá e os biscoitos servidos, a matriarca os convidou a juntarem-se a ela na copa. Por lá o assunto continuou. Miyako relatou sobre seu medo da criação de Chimeramon, como teme que Ken alcance a vitória e os expulsem de vez daquele mundo, é eminente que Digimons mais poderosos acima de seus conhecimentos, surjam para confrontá-lo.

— Então os parceiros dos jovens escolhidos não são os Digimons mais poderosos? — questionou a mulher.

— Não temos certeza sobre isso, na verdade nossos parceiros podem ser uma medida de precaução para que os mais poderosos não saiam para lutar. Como é um território desconhecido não sabemos até onde pode ir a força evolutiva e o limite de poder das criaturas existentes, mas uma coisa já comprovamos… As batalhas travadas afetam a natureza e o clima e se uma luta for muito intensa pode vir a acabar com o Mundo Digital. — expôs com clareza enquanto Poromon concordava murmurando com a boca cheia de biscoitos.

— Então você teme que mesmo que Ken alcance seus objetivos ele venha a padecer por meio de algo maior ou mesmo um expurgo natural daquele mundo? — Sr Ichijouji coloca sua xícara de chá sobre a mesa fitando seu conteúdo e a fumaça que sobe.

— É possível, porque… Bem, nós fomos escolhidos para ser um controle, uma ajuda para os nossos parceiros, como são bem poderosos eles não evoluem sozinhos, quando querem e nem permanecem no grau evoluído, isso deve ter um motivo e como não sabemos qual é, julgamos que seja uma contenção, assim presumimos que os Digimons que alcançaram um alto grau de evolução estejam incubidos de setores essenciais para guardar mistérios de hierarquias.

— E porque você lutam por um mundo onde estão no escuro sobre o porquê de realmente estarem alí e são obrigados a ficar cogitando possibilidades? — Sra Ichijouji sopra seu chá e o saboreia, com ar interrogativo.

— Porque talvez se não fizermos nada por aquele mundo seus males comecem a refletir no nosso, e pelos sentimentos que temos por nossos parceiros e amigos que fizemos naquele lugar. — Inoue suspira e seus procura pelas horas em seu celular.— Por isso temos que derrotar o Ken, eu não queria ter que encontrá-lo em campo de batalha, mas se for assim…

— Derrotá-lo pode ser uma forma de trazê-lo de volta? — a senhora questionou pesarosa. — Ele pode se ferir? Pode ferir você e seus amigos?

— Sim, se vencermos vamos trazê-lo de volta, pegaremos seu dispositivo digital para que ele não volte mais para o Mundo Digital. Ele vai voltar sem chão, arrasado e precisará muito de vocês, por isso me abri.— ajeitou-se na cadeira, visivelmente incomodada em responder a próxima pergunta, mas respondeu. — Podemos feri-lo, infelizmente ele também pode nos ferir ou até pior. é uma guerra… O confronto final.

— Acha que pode convencê-lo a desistir desse confronto final ao qual você se refere? — interpela o policial.

— Não sei se tenho tanta importância assim pra ele, me libertar do nosso acordo já foi uma prova de amor, querer mais do que isso é sonhar muito alto, mas eu gostaria. Não queria ter que lutar contra ele, nem posso pensar em feri-lo ou o ver ferindo pessoas que eu gosto. — lamentou-se amargurada, olhando mais uma vez para as horas.

— Você precisa ir, neh? Vou levá-la para casa.— o investigador observou a postura desinquieta da menina.

— Inoue-san, quando estiver com o nosso filho- — a matriarca começou mas foi interrompida pela garota.

— Podemos gravar no meu celular se quiserem? — sugeriu simpática e o casal se entreolhou constrangido. — Tudo bem, façam de conta que estão frente a frente com o Ken e abram o coração.

O casal assentiu, terminaram o lanche e voltaram para a sala. Os pais de Ken sentaram-se no sofá e Miyako colocou o celular com suporte sobre a mesa de centro começando a gravar as falas.

— Ken, sei que não deve estar feliz em nos ver, não culpe a Inoue por isso, ela só está preocupada com você. Eu não tenho palavras para expressar o sentimento de culpa que sentimos por termos deixado as coisas chegarem onde estão. — O pai foi o primeiro a começar, a princípio estava muito retraído.— Eu tive uma criação muito severa e na minha família não havia diálogo, só regras, imposições e metas, talvez a profissão que escolhi também tenha influenciado, devido a isso muitas vezes desejei conversar com você, mas não sabia como.— pausou a fala suspirando profundamente.— Hoje eu sei o quanto sinto falta de ter tido um diálogo com meu pai e poder ter contado com ele como um amigo, me dei conta de que repeti com você todos os erros da nossa relação, mas eu quero uma chance para corrigir tudo isso. Não estou pedindo uma chance ao “prodígio”, não quero um troféu em casa para me dar orgulho sendo disputados, eu quero nosso filho de volta, mesmo com as falhas.

— Eu sei que você deve me odiar e me julgar a pior mãe do mundo, não tiro sua razão, eu reconheço que fui, sei o que deixei de fazer, a atenção e o carinho, os cuidados de mãe que deveria ter te dado e não fia. Me perdoe, é tudo que eu posso dizer. Me dê uma chance de fazer diferente, filho. A dor deixa as pessoas fracas e elas fazem coisas horríveis com quem amam e consigo mesmas, mas vamos nos dar uma chance de ser uma família de verdade, vamos sentar todos juntos e desabafar, recomeçar? — a mulher intercalava as falas com os soluços do choro.— Estamos preocupados de verdade, de coração. Não saber onde você estava, se estava se alimentando ou se estava sofrendo cárcere, abusos… Isso quase nos levou a loucura.Saí desse lugar, volta pra nós, não é tarde.

— Não iremos julgar você por nada, não vamos apedrejá-lo, só queremos conversar, mas estaremos do seu lado. Ken, faltam dois dias para a data em que Osamu faleceu, creio que onde quer que ele esteja, gostaria de ver nossa família unida e não fragmentada como está.— os olhos do homem marejaram. — Você está correndo perigo nesse mundo desconhecido, vai ficar sozinho com essas criaturas às quais você tem feito mal? Vai nos excluir de vez da sua vida? Nos apagar como dados? Não a império que resista quando seu imperador está sozinho e ninguém é uma ilha. Reconsidere, volte pra casa, nos dê uma chance, se dê uma chance. Nos ajude a ajudar você.

O tempo da gravação terminou e todos estavam bem emocionados, inclusive Inoue, que já secava as lágrimas novamente. Agora ela entendia, não que desse razão aos pais de Ken, mas pelo que viu ambos tiveram uma rígida e tradicional criação e isso prejudicou muito no ramo do relacionamento familiar.

É muito triste ver como em sua cultura, coisas como honra, regras, nomes, metas, expectativas, levam as pessoas a loucura e não é à toa o Japão ser conhecido como a cultura do suicídio. Uma cultura evoluída tecnologicamente, mas com pessoas sem capacidade de abrir um diálogo familiar, tudo que as crianças sabem é que devem estudar e honrar a família, quando adultos devem ter um bom emprego e além de sustentar a família, querem prestígio da sociedade e o inferno que passaram na infância se repete em seus filhos e assim um ciclo sem fim. Aprovação, aprovação, aprovação...

É como seguir uma programação e quando não conseguem, não se encaixam, dão fim à própria vida ou enlouquecem procurando saídas desesperadas como Ken fez. Como poderia culpá-los? A todos eles, como poderia? Estavam sendo o que aprenderam a ser do meio onde vivem. Mas era bom ver que a vida os ensinava da pior forma, mas ensinava. Diálogos são importantes sempre.

— Então agora eu realmente preciso ir. — anunciou a menina guardando seu aparelho.

— Obrigada querida. Eu fico muito feliz por Ken, por saber que mesmo que a relação de vocês tenha começado de forma errada você conseguiu amá-lo verdadeiramente.— a senhora cativou as mãos da moçoila entre as suas, gratificada.

— Mas eu não… Eu não disse.— o vermelho tomou conta da face da jovem mais uma vez.

— Não precisa dizer com todas as palavras, a forma como nos afrontou e nos fez enxergar a verdade e a obstinação em ajudá-lo, como se emocionou com toda conversa.— concluiu a suposta “sogra”

— Mas eu faria…— a menina tentou articular, gesticular buscando rotas de fuga, mas sem sucesso.

— Faria isso por qualquer um? Não tente se enganar sobre isso. Deixa eu te fazer uma pergunta, quando Ken voltar para casa, se ele aceitar corrigir os erros e recomeçar, você se vê fora desse recomeço?

— Eu… Bom, não faço parte da família.— a resposta não foi exatamente adequada a pergunta feita.

— Em tão pouco tempo de convivência junto ao Ken você conheceu muito mais dele do que conhecemos a vida toda, está dizendo que se ele voltar você não vai fazer parte disso? — insistiu a mais velha.

— Bom...— cativou uma mecha lilás entre os dedos, sentindo as bochechas arderem. — É que, aconteceram tantas coisas e eu não sei.

— Não sabe ou não quer ter que admitir? Sabe porque as pessoas precisam de outras para fazer com que elas enxerguem a verdade? Porque às vezes elas estão se enganado, perdidas, confusas e não aceitam o óbvio. Querida eu posso não ter sido boa mãe, mas isso não quer dizer que eu não entenda de amor. Acho que é meio contraditório você vir aqui e nos pedir para aceitá-lo sem julgamentos quando você mesma tem restrições.— perscrutar o íntimo da mais nova.

— Não tenho! — salientou, mas em seguida baixou o tom. — O problema não é o Ken, tudo que ele fez, o problema sou eu. Aconteceram muitas coisas em pouco tempo e eu mudei tanto, minha mente foi chacoalhada, remexida, revirada e meus sentimentos… Eu não sei separar meus sentimentos.

— Quando souber separá-los, espero que saiba que sempre haverá um lugar na família pra você.— assegurou com franqueza.

— Querida, não é bem dessa forma.— o marido tocou no ombro da esposa. — Inoue-san não deixa de ser a vitima nessa historia, ela tem direito de estar confusa e mesmo de reclamar o que quer que seja.

— Não. Eu já fui a vítima, mas veja bem, Poromon está comigo, estou presa a seu filho por escolha própria e abro mão do meu direito de reclamar algo porque eu já o perdoei por tudo o que me fez, na verdade eu sinto que já o fiz pagar por tudo e não me sinto feliz por isso.— Suspirou curvando-se para a matriarca como despedida e seguiu para a porta, mas parou antes de passar por ela. — Eu vou me lembrar disso, a verdade é que eu não sei mesmo se poderia deixar de ver o seu filho.

Ela passou pela porta sentindo o peso das próprias palavras. Era fato, não poderia mais, não conseguiria e não por pena e por vontade de ajudar, aquela coisa que ela não gostaria de ter que admitir a estava sufocando.

Sufocada, não haveria melhor definição, mesmo Poromon sentiu que o melhor era deixar a parceira em paz. Durante o percurso chuvoso de Tamachi para casa, a garota se deixou cair em um intenso choro. Como o mundo poderia ser tão irônico assim? Ela foi com a cara e a coragem e abriu verdades francas e dolorosas para a família Ichijouji, porque era necessário, em resposta ela ganhou uma verdade pesada…

A mãe de Ken tinha toda razão, já era hora de parar de mentir para si mesma que o estava ajudando por compaixão, por ser uma boa pessoa e por aquilo ser o certo a se fazer. Já era hora de parar de insistir que tudo aquilo que eles tinham era uma mera atração, pois atraídos não dividem nada a mais do que prazer e eles iam bem além disso,

Não queria ter se perdido na loucura dele, mas se perdeu, queria ter protegido seu coração, mas falhou, pois já era dele, talvez sempre fora… E o que faria agora? O amava, o amava tanto que pensar em vê-lo pagando pelos erros cometidos já a fazia sofrer previamente, o amava tanto que tinha dolorosas ânsias de implorar a ele para desistir de toda aquela loucura e voltar com ela para sua família, interceder por eles, para que ele desse-lhes a chance de recomeçar, e que ela pudesse fazer parte desse recomeço.

Desceram do carro e o detetive a acompanhou até ao elevado, agradeceu por tudo e se despediram com uma reverência, antes que a porta se fechasse, a garota a parou com a mão e a mesma se abriu novamente, ela apertou o botão e colocou parte do corpo para fora.

— Ichijouji-san! — chamou-o fazendo o homem parar e fitá-la. — Diga a sua esposa que eu darei o meu melhor.— garantiu e voltou o corpo deixando a porta se fechar.

— Obrigada, Inoue-san… — murmurou emocionada, mesmo que a menina já não pudesse ouvir, sabia que agora era com ela.