Inimigos Íntimos
16 Conflitos
POV Kaiser
Bakemon estava de parabéns, sua atuação como Inoue Miyako, foi brilhante, digna de um Óscar! O melhor de tudo, foram as caras que aqueles patetas fizeram ao verem as mudanças nela, principalmente o imbecil do Izumi, ficando de boca aberta com as novidades. As ações então, chocaram ainda mais a todos, ninguém esperava esse atos vindos dela. Perfeito, era bem isso que eu queria que eles pensassem em relação a essa demonia maldita.
Mas, sem sombra de dúvidas, a cereja do bolo, foi a surpresinha no armário do “pela saco” do Motomiya; simplesmente demais ver aquelas, várias fotos, voando pelos corredores da escola, aqueles otários quase se matando como se estivessem em uma arena, só faltavam as armas para arrancarem sangue uns dos outros e depois se matarem. Queria ter rido na hora, quando as garotas começaram a bater no Motomiya, mas não podia, o ruivo metido a sabe tudo, estava no meu pé, me vigiando, estudando cada reação minha. Hunf, não importa, ainda bem que tenho tudo isso gravado, terei diversão por um bom tempo.
Em uma rua deserta perto da estação de trem, me despedi de Bakemon, ele iria para a casa de Inoue, substituí-la até a hora do seu retorno do Mundo Digital; as ordens continuaram as mesmas, não queria que ele interagisse com ninguém, caso contrário, meus planos iriam por água abaixo.
Passei por todo aquele tormento do metrô lotado, agradeci a Kami quando desci, era apenas o segundo dia e já estava odiando; eu estava acostumado a estudar perto da onde moro, não tinha contato com muitas pessoas me tocando, e muito menos viajava para estudar, levava apenas dez minutos.
Soltei um suspiro aliviado, quando a chave girou lentamente e eu movi a maçaneta da porta, como era de se esperar não havia ninguém em casa. Já estou acostumado a essa rotina dede criança e nem me incomodo. Sigo direto para o meu quarto pegando roupas limpas, em seguida vou para um banho demorado, me esfregando, tirando todo resquício dos germes daquela gente imunda.
Para uma noite horrível como a que tive, estava começando a refletir em meu corpo, me sentia exausto, completamente dolorido e sonolento. Sai do banho e após me secar e me vestir, decidi preparar algo para comer, o problema era, eu não estava com fome. O que raios, estava acontecendo comigo afinal? Eu estava ganhando, por cima, no controle, acabando com todos pouco a pouco, mas havia algo me corroendo com ácido, me cortando por dentro.
Decidi deixar para comer algo em minha base, já tinha deixado a gralha tempo demais sozinha nos meus domínios. Hum! Era isso, já estava na hora de colocá-la para exercer sua função de empregadinha e me preparar o que comer. Sorri largamente, com o pensamento e liguei meu PC digitando as novas coordenadas, em segundo já estava do outro lado do portal, com as configurações de trajes editadas a meu gosto.
Identifico a posição da minha, mais nova escrava, vejo pelo monitor que está na cozinha com Wormmon, Digitamamon e seu parceiro, parecem comer alguma sobremesa. Antes de seguir ao seu encontro, passo pela sala de monitoria dos Monitarmons, para saber das ocorrências do dia. Não é que alguns rebeldes descobriram a localização da minha base. Devo deixar meus escravos mais em alerta. Admito que fiquei bem surpreso de ver como o vermezinho do Wormmon comandou a equipe de defesa, até deu ordem de execução. Muito bem, ele sabe que se não executar, eu os aprisiono para usar em minhas experiências.
Antes de ir para a cozinha, decido passar em meu quarto e… Não pode ser, sério isso? Assim que abro a porta me deparo com a cama bagunçada e a blusa que estava com Miyako, jazia sobre a mesma. Ela poderia ter mandado para lavar, e também ter arrumado a cama. Deve estar pensando que isso aqui é hotel. Já me enfureço só em ver toda bagunça, sigo para o banheiro e abro a porta do box, ao menos ela secou o chão após o banho e estendeu a toalha molhada, mas espera? Meu shampoo, ela teve a ousadia de usar quase todo. É brincadeira com a minha cara? Olho sobre a pia e minha escova está cheia de cabelos. Nem toco, quando abro o armário, noto que a pasta de dentes foi apertada pela metade. Kami! Essa criatura não tem mãe? Como pode ser tão desleixada assim? Eu que não tive, sou mais organizado do que ela.
Coço a cabeça irritado e saio marchando pelos corredores. Isso aqui está tudo errado, era para ela ser minha escrava e não eu ter que ficar cuidando dela, dando banho, remédio, trocando e me estressando com suas bagunças, já passou de todos os limites e eu vou colocá-la no lugar e vai ser agora.
Entro na cozinha de uma só vez, interrompendo a festinha e todos ficam apreensivos, sem mais delongas chamo sua atenção, expondo toda minha ira e ela se encolhe ruborizada, tentando palavras falhas em sua defesa e até se desculpa humildemente ou com falsidade, pensa que eu não sei que ela deseja mesmo me esbofetear, me arrancar os olhos.
Grito com Gotsumon, para que venha levar o verme para sua cela e ela começa a fazer um draminha e não é que o inútil acabou evoluindo? Claro que não acato suas súplicas e mando seu parceiro para a cela imunda de onde veio, mas eu tenho palavra, se ela se comportar direitinho, bem obediente e submissa como uma boa escrava, posso remanejá-lo para um lugar menos pavoroso.
Assim que a sessão de despedidas melosas se encerra, lhe pergunto se já está se sentindo melhor. Ela me olha incrédula e responde meio incerta. Deve estar achando que eu estava preocupado, afinal, a pobrezinha sofreu um ataque de pânico. Só que não, já estava bem melhor e ordeno para que me prepare uma refeição balanceada, lhe informando o passo a passo, enquanto ela me olha estupefata. Vai me servir sim, grande guerreira do Mundo Digital, vai baixar esse nariz e servir o seu inimigo como boa empregadinha.
Me delicio mais um pouco com sua expressão de ofendida, em seguida saio do local ordenando que Wormmon me seguisse. Eu estava ansioso para saborear a primeira refeição de muitas que Inoue ia me preparar. Enquanto isso ouço os relatos dos ocorridos, dessa vez por Wormmon.
Não demorou muito para que Inoue chegasse com a bandeja, imagino o quanto isso deve ser humilhante, mas creio que posso tornar as coisas piores. Ordeno que se aproxime e aponto onde quero que ela coloque o objeto. Desinfeto minhas mãos e começo a saborear o alimento. Ela tem o desplante de me pedir para deixá-la sair, mas óbvio que não, vou ensiná-la a se comportar como uma boa escrava.
Quase não acreditei quando encontrei um, enorme fio de cabelo lavanda, entre as frutas, ela se encolheu reprimida, quando o puxei pedindo explicações. Joguei tudo para o chão e comecei a tripudiar, aproveitei para extravasar toda minha ira. Pisei em seus sentimentos buscando e expondo suas dores mais profundas, pouco me importava aquele maldito fio de cabelo eu estava mesmo com ódio de tudo que ela vinha me fazendo sofrer.
Não creio que nada que eu tenha dito seja mentira, venho observando os digivermes há muito tempo e nunca os vi valorizarem sua presença, que sempre foi de muito mais utilidade que da mosca morta da Luz. Como as garotas se abalam com essas coisas, não foi difícil desestruturá-la completamente, tanto que nem a vi fazer esforço para conter as lágrimas, ela sabe que eu tenho razão, sabe o pouco valor que tem aos olhos deles, sabe que não é nada dentro daquele grupo, garotas inteligentes não possuem valor quando tem uma “donzela indefesa, torcendo o tornozelo a cada cinco minutos”.
Após deixá-la completamente desorientada, comparando-a humilhantemente com a miss falsidade, chegando até a ameaçar lhe cortar os cabelos longos, mandei que limpasse toda a bagunça feita pelo chão. Ela se encolheu, saindo humilhada. Não tenho muita certeza de como eu deveria me sentir sobre isso, afinal era o que eu queria, fazer com que ela chegasse ao fundo do poço, aqui estamos, então porque ainda não me sinto realizado?
Sentei sobre uma das minhas mesas escuras, observando-a entrar com os materiais de limpeza. Era para ser perfeito, não havia naquela Miyako nem resquícios da garota petulante que me enfrentava. Sem protesto algum, ela se colocou de joelhos, usando luvas para recolher o que não pode ser recolhido com a pá.
Iniciei um relato sobre o dia, sobre a suspensão do “pela saco” e a ousadia do loiro intrometido e notei que ela parecia perdida em suas lágrimas, fazendo a limpeza quase em modo automático. Creio que pisei bem forte, toquei em pontos graves, tanto que ela nem nota minha aproximação, após chamá-la várias vezes.
Saboreiei sua queda, está humilhada, destruída sob meus pés, me servindo, largada nesse chão imundo, limpando. Eu tenho milhares de tarefas para lhe passar, tenho cartas para humilhá-la todos os dias e afinal é isso que eu realmente quero. É isso?
Ela continua a me ignorar, me aproximo mais e a puxo pelo braço, exigindo sua atenção e ela parece ser brutalmente jogada de volta a realidade.
— INOUE? — A puxo exigindo que me olhe. — COMO OUSA ME IGNORAR? — Ela piscou algumas vezes, atordoada. — RESPONDA LOGO SUA SONSA!
— Eu estava pensando como você poderia ter sido, poderia ser o Ichijouji Ken, com as cores que eu pintava e não esse monstro. — Fiquei sem respostas, tentando processar as suas palavras.
Mas eu não sou, nunca vou ser. Não posso distribuir algo que não conheci. O mundo é uma selva e o que conta é a lei do mais forte, eu nunca vou ser o que querem que eu seja, vou ser o que preciso ser para me manter forte. Inoue não sabe nada sobre mim, esse mundo idiota não sabe nada…
Me perco momentaneamente em suas palavras e em como todos esperam de mim algo que eu não posso e não quero ser. O estranho é me questionar o porque ela espera algo assim? Liberto seu pulso e corro as pontas dos dedos pela sua pele, inspiro seu perfume pelo ambiente e ela permanece congelada na mesma posição. Tão mais inteligente que todas as outras e ainda sim tão ingênua e limitada a ponto de idealizar alguém.
Fixo meus olhos nos dela, tentando buscar respostas. É tudo tão confuso quando estamos perto um do outro, tudo é tão incompreensível quando ela está envolvida, que sinto que se Inoue fosse uma esfinge, com certeza eu seria devorado. Minhas escrava permanece altiva, mesmo amedrontada não desvia os âmbares expressivos, avermelhados de tanto chorar. Aqueles minutos parecem anos, não consigo entendê-la e não consigo me entender quando estamos assim tão perto.
Tudo que está ligado a ela, me dilacera por dentro, cortando-me dolorosamente e eu revido com as armas que possuo. É um conflito massante, eu a quero e a odeio ou a odeio por me fazer querê-la e está aqui assim, tão próxima e alheia a tudo; eu não consigo definir se sinto alívio pela sua incompreensão, mas parte de mim se irrita como se implorasse para que ela visse.
O fato é: ela está aqui e em minhas mãos, completamente indefesa, totalmente diferente daquela garota impulsiva, que fala muito mais do que deveria; tudo nela é um exagero, um incômodo crescente… Inoue está a centímetros, poderia sufocá-la e assisti-la agonizando tendo todo seu suprimento de ar cortado, poderia quebrar cada membro de seu corpo e ouvir seus gritos de dor, implorando para que tirasse sua miserável vida, de uma vez, poderia rasgar sua pele fina e sedosa e deixar que o carmim se espalhe lentamente por toda extensão da minha sala… Poderia… Beijá-la?
Não! Não poderia, não posso. Quando me dou conta de toda a proximidade e da loucura que estava prestes a fazer, retiro seu dispositivo digital, do meu bolso e a entrego, sussurrando em seu ouvido para que suma da minha frente. Sua mão trêmula, segura o dispositivo e ela parece reunir forças para correr até um dos monitores. A ouço fungando algumas vezes, enquanto digita suas coordenadas.
E finalmente, ela se vai e Bakemon retorna pelo portal, assumindo sua forma original; com um aceno eu o dispenso. Não queria ninguém por perto, precisava ficar sozinho no momento. Digito o comando certo em meu bracelete, tranco as portas e abaixo a iluminação, então me arrasto miseravelmente até a minha cadeira, me jogando de qualquer jeito; sinto que o alimento que comi começa a me fazer mal, meu estômago se revira, aquela maldita dor no peito parece ainda mais lacerante.
Dobro meu tronco sobre a mesa e deixo minha cabeça cair sobre a mesma. Qual é a porra do problema afinal? O que se passa comigo? Porque não consigo pensar, não consigo respirar? O jogo está indo muito bem, um a um os meus inimigos estão caindo, eu estou no controle aqui. Sei que tudo isso está me fazendo muito mal, não gosto de não saber o que fazer sobre algo. “Ichijouji Ken com as cores que ela pintava”, Ah vai se ferrar! Porque estou lembrando dessa besteira?
Não suporto mais ver essas malditas cenas repetidas na minha mente, mas eu não sei como fazer isso parar, quanto mais me esforço para esquecer, mais elas surgem sem permissão e me confundem, ferindo-me demais. Ela é só um verme, um inseto inútil, é uma praga que não presta para nada e eu sou um imbecil que não sei me focar em outra coisa.
Ergo a cabeça brevemente e minha mão segue para os controles, como se tivessem vida própria, ligando a transmissão das câmeras que Bakemon espalhou pelo quarto de Inoue. Esfrego minha visão cansada, para observá-la perdida em conflitos internos, frente aos espelho. Você pode ser tão forte garota? Pode aguentar tudo isso? Como se respondesse as minhas perguntas, ela retira seu digimetal e o coloca sobre a penteadeira. Sabe que não tem importância para eles, sabe que o que eu disse é a verdade, ela está em último plano, ninguém sentirá sua falta naquele grupo maldito.
Inesperadamente, ela pega o brasão e o coloca de volta em seu pescoço, parecendo reconsiderar. Idiota! Quer viver de ilusões? Quando vai perceber que não a valorizam, não a enxergam? Vai insistir com essa baboseira de ser amada e ser importante. Então me questiono o porque me dói tanto quando ela não perde a fé em seus amigos? Todos mentem, todos escondem podres por debaixo do tapete, eles não são como ela imagina e eu vou mostrar e saborear quando essa fé se quebrar.
Vou tirar tudo de você Inoue, vou arrancar sua fé no mundo e virá-lo contra ti e quando nada lhe restar, vai estar sozinha, no escuro, rastejando, quebrada e desprotegida, esquecida, abandonada por todos e nada mais vai invadir seus pensamentos. Sou tirado dos meus devaneios quando uma canção se inicia.
Observo Inoue, sentada sobre um puff, próximo a janela de seu quarto, dedilhando um violão e começando a cantar. A letra fala sobre “cores reais” e toda uma baboseira que parece ter sido tirado de livros de auto ajuda. Paraliso, a ouvindo, estudando suas expressões faciais. Como ela consegue ser assim? Como pode parecer tão bonita, conseguir ser tão forte. Eu a jogo contra o fogo e ela se transforma em cinzas só para renascer das mesmas.
Balanço a cabeça negativamente, tentando voltar ao normal. Sinto uma onda violenta de fúria crescer dentro de mim, me levanto, pegando a bandeja vazia, que jazia sobre a mesa ao lado e a uso para quebrar algumas máquinas, monitores e teclados. Me sinto livre para fazer o estrago que quiser, esse mundo é meu, posso reconfigurar o que eu quiser depois. Quando quase não ha mais o que se quebrar e meus braços já estão exaustos, minha garganta sem voz, devido a eu ter berrado aos quatro ventos todos os tipos de praguejamentos, ando tranquilamente até minha cadeira e me sento, ficando fora do ar por algum tempo.
Quando voltei a consciência, olhei tudo a sua volta e me veio uma sensação de vazio. Como se estivesse fazendo muito por pouco. Qual a razão para deixar a “razão” de lado? Não me senti satisfeito comigo, em nada. Quem em sã consciência, olha para o formigueiro e deseja estar a altura daquele pequeno inseto?
Me levantei e caminhei, passando por todos aqueles destroços, retornei para o meu quarto, eu precisava dormir, tinha que descansar e estar com as energias restauradas para o outro dia, afinal, ainda tinha que derrubar mais uns digimbecis. Com base na noite anterior, tenho plena consciência de que não conseguiria descansar por vias naturais, sabia qual era a única saída, nunca havia precisado disso, só que agora, do jeito que as coisas andavam, era a forma. Antes de vir para o Mundo Digital, acabei furtando um dos remedinhos que mulherzinha purgante se dopa, o mais forte de todos, de forma alguma aceitaria passar outra noite me corroendo por causa daquela gralha imbecil.
Meu corpo estava exausto e pesado, decidi que talvez fosse melhor tomar outro banho. Entrei no meu quarto e tudo estava da mesma forma de quando cheguei. Olhei demoradamente para camisa que ela usou, eu deveria colocar fogo, mandar para lavar, mas em vez disso andei até a cômoda, abrindo a segunda gaveta e retirando um saco plástico, pegando a peça e levando-a ao nariz inalando seu cheiro.
De forma patética e vergonhosa, aperto a peça contra o meu corpo, inalando mais intensamente, caio sobre a cama, desejando que ela estivesse alí. Seu aroma doce está por toda parte e as memórias dos nossos momentos sobre estes lençóis, invadem minha mente, fazendo meu corpo arder. Será que eu nunca mais vou conseguir ter paz?
Decido retomar o controle e me levanto, guardo a blusa dentro do plastico, ando até o banheiro e limpo minha escova tirando todos os fios lilases e os guardando em outro saquinho, coloco etiquetas com nome e data e guardo tudo em um local seguro. Feito isso sigo para o banho gelado, por onde fico por um longo tempo.
Estou cansado de questionamentos, de não saber o que fazer, meu corpo e minha mente estão exaustos, talvez tudo que eu precise seja dormir um pouco e amanhã colocar mais uma parte do meu plano em prática. Com todos os digiescolhidos pelo mundo a fora, impossibilitados de abrir portais, tudo que me resta é focar em destruir esses daqui.
Saio do banho, me seco e visto algo confortável, retorno para o quarto e troco os lençóis usados por ela, colocando-os no cesto de roupas sujas. Tomo o remédio para dormir e me acomodo sob o edredom, fechando os olhos e relaxando o corpo.
(...)
Acodo com o som do despertador, estico o braço para desligá-lo e me espreguiço, alongo todo o corpo e realmente me sinto revigorado, não é que essas porcarias realmente funcionam?! Meu sono foi tranquilo, não me lembro de ter tido nenhum sonho, nenhum incômodo.
Fiz minha higiene matinal e segui para minha sala de controle, passei as ordens do dia para cada escravo e abri o portal para o meu quarto. Hoje meus planos envolviam mais duas cartas do baralho, mas como estava expondo somente os digiescolhidos, mandei que meus Monitarmons invadissem o sistema de mais alunos em busca de itens comprometedores, aquele colégio iria virar de cabeça para baixo e eu ia deixar aquele nerd babaca do Izumi para o grand finale.
Vesti meu uniforme e tomei um café da manhã reforçado. Decidi mandar uma mensagem para o D-terminal de Inoue.
“Bom dia sweetie! Espero que tenha tido uma boa noite de sono. Como uma boa namorada hoje você está encarregada de preparar meu obento, espero que fique bom. Olhe dentro do seu porta jóias, o Bakemon deixou duas escutas acopladas em brincos dourados com coração de esmeralda, quero que os coloque e aguarde meu contato.
Digimon Kaiser”
Saí de casa sorrateiro, antes que alguém acordasse e viesse me azucrinar com todos os tipos de perguntas. Segui para a estação e novamente enfrentei aquele metro fedido, dessa vez tive que aturar um grupo de garotas assanhadas que, fingiram cair em minha direção, mas desviei e uma delas acabou caindo no colo de um velho com cara de tarado. A cara que ele fez foi muito engraçada, tive que conter um riso.
Desembarquei na estação e caminhei pelas ruas de Odaiba, absorto em pensamentos, preciso comprar outro celular para Inoue, uma vez que quebrei o antigo, mas enquanto isso vou deixá-la atualizadas das novidades, através do meu.
Paro na entrada do colégio e os grupinhos já estão formados. Observo o grupo dos digiescolhidos com cara de derrotados, está cada vez menor, e a tendência é diminuir ainda mais; sorrio de canto com esse pensamento. Observo que Inoue se aproxima, pego meu celular e desbloqueio o canal de comunicação que dão acesso às escutas.
— Está me ouvindo Inoue? Se estiver coloque uma mecha de cabelo para trás da orelha. — A observo fazer o movimento que ordenei. — Muito bem. Viu que estão todos te olhando e falando sobre você? Não abaixe a cabeça, mantenha a postura ereta. — E ela indireitou a postura como lhe ordenei. — Ignore todos, imagine que são pequenas formigas, as quais você está esmagando sem dó, concentre-se em chegar até mim.
Embora estivesse obedecendo corretamente, seu rosto estava ruborizado. Andou até mim e parou à espera do próximo comando. Desliguei o celular e falei pausadamente.
— Beije-me. — Queria manter a tradição e matar Izumi a cada dia.
— Não posso fazer isso… — Ela arregalou os olhos me fitando horrorizada.
— Ah não? Saiba que os arquivos das suas Fanfictions estão bem aqui. Imagine se acidentalmente meu dedo escorregasse e enviasse todas para o Izumi…
Quase não tive tempo de terminar a frase, ela se impulsionou contra mim e me beijou… Mas não foi no rosto como o Bakemon fez no dia anterior, foi na boca e, por um minuto minha mente ficou em branco e senti meu sangue correr todo para o meu rosto. O toque macio dos seus lábios provocou algumas reações em meu corpo, me senti quente e meu estômago revirou todo o café da manhã. Não foi um beijo demorado, na verdade foi um breve pressionar de lábios, mas foi o suficiente para me deixar completamente aturdido.
Tudo parecia estar em câmera lenta, ela se afastou e ficou me fitando em choque com o que tinha feito. Pisquei algumas vezes os olhos, só consegui despertar do meu transe, quando começou o alvoroço entre os alunos. A culpa foi minha de não ter explicado onde era para ser beijado. Não queria que ela notasse o quanto fiquei sem chão e tratei logo de me recompor, a puxando para a parede e abrindo o video no meu celular.
— Todas as pessoas têm segredos. Até o melhor dos corações possuem “maus hábitos”.
Iniciei o vídeo com muitas filmagens que um dos meus Bakemons havia feito. Takaishi Takeru, é o tipo de rapaz que as garotas adoram, sempre gentil e divertido, com elogios para todas, o garoto metrossexual que está sempre acompanhando as tendências da moda. Porém, o escolhido da esperança adora brincar de conquistar corações. Talvez seja uma forma de testar seu potencial, mas o fato é que o loiro afeminado tem uma namorada em cada escola, sendo que algumas são inocentes primárias. Para todas que conquista, o garoto presenteia com um anel dourado de pedra lilás e todos eles são idênticos.
Ontem, enquanto eu atormentava Inoue, Bakemon se passou por uma dessas garotas iludidas e criou um grupo em rede social para adicioná-las, enviou o vídeo para elas e olha… Parece que teremos um belo espetáculo antes da aula, nessa linda manhã. Inoue colocou os dedos finos, sobre os lábios, olhando espantada para a tela.
— Não posso crer que o Takeru-kun saia com todas essas garotas! — Sussurrou espantada, nossa proximidade era tanta que eu podia sentir seu hálito doce.
— Sei como é. A vida é cheia de surpresas minha querida. Você também tem surpreendido muito a todos. — Não deixo de debochar de sua situação.
Assim que dou minhas últimas palavras, envio uma mensagem para Monitarmon, para que libere os vídeos, do Takaishi. Neste mesmo instante as garotas que foram vítimas do falso namoro, começam a chegar e o garoto já fica acuado sem rotas de fuga.
O grupo de garotas, cada uma com uniforme diferente, se aproxima do grupo dos digiescolhidos e começam a lançar ofensas contra o loiro. Os amigos ficam sem saber o que está acontecendo, o mesmo fica sem saber como reagir. Os alunos do colégio voltam sua atenção para o escândalo.
As garotas falam sobre o quanto estão magoadas e uma a uma passa por Takaishi, dando-lhe um tabefe no rosto e jogando-lhe o anel que ganharam de presente, fazendo com que os alunos do nosso colégio comecem a rir.
— Nunca imaginei algo assim. — Inoue sussurra horrorizada .
Estendo uma mão sobre suas costas e a sinto estremecer, seria de medo? Ignoro esse fato e me aproximo de seu ouvido sussurrando.
— Tenho muito mais de onde veio isso. Seus amigos são uma fraude, o mundo inteiro é uma fraude. Você verá.
O portão se abre e nós caminhamos para nossos armários de sapato, quando Miyako abre seu armarios, vários preservativos, alguns de embalagem azul e outros vermelho, caem do mesmo, sobre seus pés. Noto que neste mesmo momento, Hino, a garota na qual ela bateu, aparece com seu grupinho.
— Hmm! Inteligente Inoue. As cores diferentes são para você saber com qual dos dois vai usar? — Após esse comentário, as risadas de deboche se iniciaram.
— Ignora. — Digo seco, parando ao seu lado e ela obedece, continuando a calçar os sapatos.
Hino fica visivelmente enfurecida por seu plano não ter tido o êxito desejado. A garota é tão estúpida que nem sabe fazer armações sem se condenar, quis ficar na cena do crime para tripudiar da vítima. Pessoas normais são tão estúpidas, mas o que me intriga é, para invadir armários contei com Bakemon que atravessa paredes, mas essa garota não tem essa ferramenta, o que me leva a crer que ela possui contatos, nota mental, mandar que um dos meus fantasmas fique de olho nela.
Acompanhei Inoue até a sua classe, seu rosto ainda estava bastante corado, mas ao que me parece ela já está sabendo suportar o constrangimento e o peso do julgamento de todos. Sigo para a minha classe e observo Takaishi sendo tratado como se tivesse uma doença, aquilo foi uma facada na popularidade dele. Me sento em meu lugar e verifico algumas coisas triviais no meu celular, o guardando assim que o professor entra na sala.
(...)
O horário de almoço se inicia e saio para buscar Inoue em sua classe. Ela realmente trouxe o meu obento. Caminhamos até o refeitório e escolhi uma mesa afastada para nós. Ela sentou-se de frente para mim e colocou os obentos sobre a mesa.
— Qual é o meu? — Pergunto, analisando ambos e ela empurra um deles em minha direção. Sorrio e giro o objeto trocando-os. — Então vou comer este aqui. Não há problemas?
— Faça como quiser, ambos têm as mesmas coisas. — Ela faz uma carranca emburrada.
Nos concentramos nos nossos almoços e até que o sabor estava bom, mas claro que eu ia deixá-la com raiva.
— Errrc… Isso aqui está horrível! — Faço uma careta.
— O que? — Ela abre a boca, indignada. — Como pode dizer isso? Sabe o trabalho que eu tive… — Ela para a fala colocando a mão sobre a boca.
— Ah, muito bem, então está sendo uma escrava dedicada tentando agradar seu mestre. — Abro um sorriso sacana.
— Nada disso, seu… — Se levanta colocando as mãos na cintura. — Quer saber de uma coisa? Me devolve isso aqui. — Ela tenta pegar o obendo, mas sou mais rápido e o pego antes. — Me devolve isso. Eu acordei cedo, fui pra cozinha fazer e você tem a ousadia de falar “errc”. — Fala vermelha de raiva e eu me divirto com sua situação. Ergo o objeto bem acima da cabeça e ela tenta pegar.
— Você não está se comportando bem.
— Só quero te livrar de comer essa coisa horrível.
— Nunca disse que eu não ia comer.
— Mas disse que está horrível.
— E está, mas não tenho escolha, um imperador não pode ficar sem se alimentar. — Ela se debruçou sobre a mesa, na tentativa de pegar o obento. — Não quero ser chato, mas as pessoas ali atrás devem estar tendo a perfeita visão da sua bunda. — Ela parou e olhou para trás, os garotos estavam com os hashis parados com a comida a caminho da boca,com o maxilar caído.
— Kyaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! — Gritou, escandalosa, voltando a se sentar, com o rosto completamente ruborizado.
Isso foi diferente, me fez rir de uma forma que eu não me lembro de já ter feito antes. Não entendo como pude achar tanta graça em algo tão bobo. É completamente estranho dizer, mas aquele riso tolo me fez bem, foi uma experiência completamente nova. Quando consegui controlar o riso, notei que ela me olhava perplexa; coloquei algumas mechas de cabelo para trás e continuei a comer como se nada tivesse acontecido.
Inoue permaneceu me olhando por algum tempo, parecia chocada com algo, mas em seguida se concentrou em seu almoço. Olhei por debaixo dos meus cabelos, a mesa dos amiguinhos dela, não estava muito longe, escutei quando o Ishida deu um soco na mesa, em seguida o orientador lhe chamou a atenção. Esse idiota metido a rockstar tem mania de ficar socando as coisas. Vou dar a ele bons motivos para querer socar algo.
Terminamos o almoço e Inoue colocou mais duas caixinhas sobre a mesa. Olhei com ar de interrogação.
— É torta de morango, minha mãe quem fez, mas não precisa comer se for para ofendê-la. — Ela estava com o rosto tão corado, mas não havia nenhum motivo, talvez ainda não tenha se acostumado com tantos olhares sob si.
— OK. — Pego uma das caixinhas a abrindo e começando a comer, usando a pequena colher que veio junto a mesma. — Nada mal. — Sorri debochado.
— Seu problema é comigo. Não desdenhou só porque não foi feito por mim. Se me acha tão inútil assim, porque me quer como escrava?
— Porque é divertido, oras. Não tenho que ficar lhe dando explicações.
— Você é doente.— Ela falou comendo uma colherada de sua sobremesa.
Me inclinei sobre a mesa, deixando nossos rostos bem próximos e sussurrei:
— Você ainda não viu nada… — Miyako revirou os olhos, mastigando o doce. — Mas vai ver, ah se vai… — Ameacei e ela quase se engasgou. Meus olhos caíram para seus lábios, seu hálito cheirava a morango, me lembrei imediatamente…
Ela me beijou pela segunda vez? O que está acontecendo aqui? Então a primeira ela estava delirando e hoje ela me entendeu errado? Eu não consigo pensar quando estamos assim tão próximos, meu coração bate tão forte como se ela pudesse ouvir e novamente sinto meu fluxo sanguíneo se concentrando todo no meu rosto. Só, de repente as coisas a nossa volta perderam o som, a cor e pareciam girar lentamente, eu fiquei imaginando se sentiria novamente a textura daqueles lábios.
— Inoue e Ichijouji, podem deixar para flertar fora da escola e se encaminharem para suas salas. — Ouço a voz do professor Fujiyama, me tirando do meu transe.
O que? Como assim, todos os alunos já saíram e o refeitório estava vazio. Nos levantamos abruptamente e ela recolheu os recipientes sobre a mesa, os colocando dentro de sua mochila, correndo para guardá-los em seu armário. Me curvei para o professor, em uma reverência formal, enquanto ele balançava a cabeça negativamente, estalando a língua no céu da boca.
Segui para minha classe, mas pelos horários que se seguiram eu não prestei atenção em nada que foi dito. Apoiei o cotovelo sobre a mesa, usando a mão para apoiar meu queixo. Os mesmos questionamentos invadem a minha mente. O que está acontecendo? Oras me sinto bem, oras tenho vontade de quebrar tudo, oras sinto uma dor lacerante, oras uma ansiedade inexplicável, fora todas as alterações em meu corpo. Eu já me perguntei isso milhares de vezes e continuo me perguntando.
O tempo foi mudando de repente, o céu foi ficando nublado e a brisa fresca começou a soprar. Nossa ultima aula era de música, ao que me parece a classe já vinha ensaiando para uma apresentação, os alunos que não iriam participar, sentaram-se próximos a janela.
O som do piano se inicia e a música me era extremamente familiar. Droga, como se não bastasse todos os meus conflitos em relação a Inoue, ainda tenho que me lembrar de coisas como essa.
Antes do meu irmão sofrer o acidente, minha mãe tocava piano, ela era professora em uma escola de música, próxima a nossa casa e vivia tocando essa melodia, por muitas vezes… Mas eu não consigo lembrar bem, são memórias fragmentadas, dolorosas, naquele tempo tudo parecia diferente, mas o mundo é uma fraude, sempre foi e eu não entendia nada.
Olhei mais uma vez, focando minha atenção nas gotas de chuva que aos poucos se tornavam fartas, iniciando uma tempestade, novamente minha mente vagou por milhares de questionamentos. Eu odeio a Inoue, pelo que me fez, talvez devesse me vingar matando seu parceiro de uma vez, destruindo seus dados. Seria a vingança mais sensata, mas eu não quero ser sensato, quero por perto. Preciso dela por perto. Porque?
Olho para o reflexo da vidraça e a vejo parada atrás de mim, como um fantasma.
— Ken-kun? — Ouço sua voz me chamando. Meu Kami, estou ficando louco? — Esperei por você lá fora, toda sua classe já saiu.
Não, era mesmo ela. Eu viajei novamente, me perdi em pensamentos.
— A música? — Eu me sentia completamente confuso, a música ainda tocava na minha cabeça, mas a sala estava vazia.
— Ah… Entendi… — Miyako sentou-se na cadeira ao lado e deslizou os dedos finos pelos detalhes do piano. — A música as vezes nos transporta para outros lugares, nos faz reviver momentos e é por isso que eu a amo. — Levantou-se indo a frente e mexendo nas partituras. — Essa música? Heart String, deve ser mesmo incrível para abalar um coração de pedra como o seu.
— Não diga bobagens. Não fiquei abalado, é só… Ah, não é da sua conta! — Levantei pegando a minha mochila. — Vamos logo.
— Na chuva? — Perguntou dando de ombros. Eu realmente não estava preparado para aquela chuva. — Olha quem diria, o senhor do submundo digital não veio preparado.
— Sua gralha, não esqueça da sua condição perante a mim.
— Não esqueci, só para te mostrar que não tenho um coração podre como o seu, vou te levar até a estação.
— Guarde seu bom coração, sua generosidade para outro, eu dispenso. — Escoro o quadril em uma das mesas e cruzo os braços na frente do peito.
— Ok. A tempestade não parece que vai parar por agora. Eu vou embora pra minha casa quentinha e confortável, você pode ficar por aqui pegando pirraça. — Ela ousou fazer uma reverência imperial. — Alteza! — Carregou de sarcasmo a palavras final e pensou que iria sair correndo pelos corredores, depois de debochar da minha cara, mas fui mais rápido e a puxei pelo pulso, de forma que seu corpo voltou todo em um impacto e tive que segurá-la firme para que ambos não fossemos para o chão.
— Não debocha de mim, sua… — A segurei ainda mais firme e nossos rostos ficaram a centímetros de distância, seu hálito quente dançando contra minha face, seus batimentos tão acelerados quanto os meus. Aquela proximidade mexeu com todo meu corpo, aquele clima, seu cheiro, suas formas imprensadas contra mim, eu estava a um passo, nós estávamos, nós definitivamente iamos nos beijar.
Porém, um barulho se iniciou no andar de baixo, gritaria, ofensas e eu a soltei subitamente, em seguida sai puxando-a pela mão e ela acompanhou meu ritmo. Paramos no topo das escadas e na parte de baixo Ishida enfrentava sua banda ou ex banda.
— Seu idiota! Como pode nos trair dessa forma? — Um dos integrantes, esbravejava indignado.
— Não é como vocês estão pensando. Eu ia reunir todos, ia explicar. — Ishida tenta se esquivar da bronca.
— Nós vimos suas conversas com aqueles produtores. Você dizendo que somos irresponsáveis e negligentes com os ensaios. — O outro, de cabelos espetados, acusa.
— Não falei nenhuma mentira. A banda nunca está completa para os ensaios e as vezes tenho a impressão de que só eu levo isso a sério. — Ishida solta o verbo de uma vez e uma briga corporal se inicia, sendo apaziguada por Takenouchi.
— Já contou a ela, Yamato? Pelo jeito não né! Sora-san, sabia que no final desse ano Yamato vai iniciar carreira solo e sair em uma turnê pelo país?
A ruiva fica estarrecida colocando as mãos sobre a boca, algumas lágrimas lhe escapam.
— Diz que não é verdade, Yamato. — Choraminga em desespero.
— Sora…
— DIZ QUE NÃO É VERDADE, YAMATO!
— Sora, eu posso explicar…
Ao dizer isso a ruiva lhe vira um tapa estalado e sai correndo pela tempestade. O loiro passa as mãos pelo cabelo e em seguida sai atrás da mesma, a chamando pela rua. Olho para Inoue e ela está horrorizada com o que presenciou. Antes que ela me ofenda de alguma forma, digo de forma debochada.
— É minha cara… Acho que agora eu vou aceitar aquela sua carona no guarda chuvas, até a estação.
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