Inimigos Íntimos

62 Confiança Inabalável


Notas iniciais
Olá leitores! Sejam bem vindos a continuação de Inimigos Íntimos que agora será aqui no Nyah. Estou postando no Inkispired e no Wattped também, mas por lá estou postando a versão reescrita e portanto ainda estou no capitulo 6. Eu agradeço a quem ainda continua comigo e reforço que não vou abandonar a Fic mesmo porque ela já está nas retas finais. Agradeço a Maroca, Flutter, Felipe, Miriam, Laynet e Gabriel que continuam comigo a me dar forças, migraram comigo colocaram nos favoritos, me apoiaram por mensagens. Eu amo vocês, me perdoem pela demora. O próximo capitulo será o confronto final contra Kaiser e como vocês acham que Miyako vai reagir frente a frente com o inimigo, amante? Essa linda arte foi presente da linda da Miriam Cadernas. Muito obrigada Mirim, seu carinho me ajudou em um momento muito difícil.



POV Narrador

Nuvens escuras recobriam os céus. A casa estava movimentada com familiares que pouco os visitavam. Sua mãe, parecia abalada, como quando acabamos de cair de um balanço e nos levantamos sem saber o que aconteceu. Ele era pequeno demais para entender, mas sentia o peso do ambiente e, que o melhor era ficar o mais quieto o possível em seu canto.

Palavras de consolo eram dirigidas a sua mãe e avós paternos. Quanto a ele? As pessoas só se referiam como “pobrezinho.” Mas ninguém havia o explicado o motivo de tanto lamento e, como criança educada que sempre fora, ele aguardou até que alguém o fizesse. Aos poucos a casa foi esvaziando e seu avô se aproximou e lhe fez um cafuné nos cabelos.

Convidado a se sentar junto ao idoso, Iori recebeu a informação mais difícil de sua vida; o falecimento de seu pai. Enquanto sua mãe, em outro cômodo do apartamento, não pode mais conter um sonoro pranto. Ele era muito pequeno, tanto que não chorou no momento, talvez por ainda estar a processar as informações, contudo, aquele instante ficou marcado para sempre.

Todas as memórias eram enevoadas, mas de algo ele se lembrava bem… Sua mãe o segurou pela mão e o levou até a casa da vizinha, uma mulher alegre, de sorriso espontâneo, cuja casa era agitada. Ambas conversaram enquanto ele ainda estava perdido na conversa séria que tivera com seu avô, “Agora você é o homem da casa, deve cuidar bem de sua mãe. Onde estiver, seu pai estará contando com você. Eu estarei sempre aqui para te auxiliar.”

Repentinamente sua mãe se levantou como se estivesse prestes a partir, informou que ele ficaria com aquelas pessoas naquele dia. A matriarca conhecida como Sra Inoue, com seu sorriso de sempre, chamou por uma de suas crianças. A menina pouco mais velha que Iori, de longos cabelos lilases e óculos de lentes grossas, veio a saltitar pelo ambiente e se apresentou como Inoue Miyako.

— Miyako, querida, Iori-chan ficará conosco hoje. Cuide bem dele, certo?

A garotinha assentiu e o puxou pela mão o arrastando até seu quarto. Enquanto era arrastado o menino mirou a mãe que anuiu com a cabeça lhe passando confiança. Tal como prometera, a garota de cabelos lilases cuidou dele, dividiu seus lápis de cor, tentou apresentar jogos e até o convidou para jogar o videogame do irmão. Iori estava triste, aquela altura a consciência de que jamais veria o pai novamente já estava mais sólida e as lágrimas vieram abundantes.

Miyako estava lá, mesmo não sabendo o que dizer, mesmo já tendo oferecido doces, brinquedos e tudo que poderia animar qualquer criança. Ela não desistiu e cumpriu sua promessa ao cuidar dele aquele dia e em todos os que se seguiram a partir dali, como uma verdadeira irmã, embora fosse indiscreta e inconveniente às vezes, o fazendo passar por situações embaraçosas.

Ele se acostumou com ela e mais, se apegou. Aprendeu a lidar com sua irreverência, eloquência e temperamento forte. Parou de invejar as crianças que tinham irmãos, quando entendeu que também tinha uma; aquela que batia nos garotos que o importunava, o constrangia perante as meninas de sua idade, fugia para seu apartamento a fim de assistir animes e tokusatsus pois, a família monopolizava a única televisão assistindo noticiários e doramas. Foram tantos dias a compartilhar a emoção dos programas de heróis e discutir quais eram os melhores! Ela era sua irmã.

Sua irmã...

E agora? Agora ela o decepcionou completamente.

Como ela pode?

Ele confiou cegamente nela. Em teoria Kaiser a estava coagindo inteiramente. Passou noites sem dormir a temer pelo bem estar da amiga. Teve na boca o amargo gosto da impotência mediante a situação. Viu aquele canalha inescrupuloso destruindo a vida da garota que ele gostava em sua frente, em frente a todo o colégio o deixando sem reação.

Ah sim… Como esquecer daquele dia.

Ao contrário de seus amigos e colegas de escola, Iori estava mais focado em seus estudos e aulas de kendo, as quais lhe possibilitara uma renda a mais para ajudar em casa, do que em romance. Mas ela chegou em sua vida inesperadamente. Mori Chidori… Albina, de olhos rubros e madeixas presas em uma longa trança, a garota conseguia ser mais calada do que ele um dia já fora, mas era ótima aprendiz em suas aulas e coincidentemente matriculou-se na mesma instituição de ensino que ele.

Ela era diferente das outras garotas, misteriosa, o intrigava e fascinava. Não se contentou em apenas admirá-la ou ser seu mestre no kendo, almejou saber mais e ousou pedir seu celular. O grande problema era que a menina era tímida e reclusa ao extremo e ele… Embora a convivência com o grupo de Digiescolhidos o tivesse deixado mais desenvolto, sua postura severa muitas vezes era confundida com frieza e indiferença, mas ele só não sabia como lidar com questões sentimentais.

Entretanto, foi através de singelas mensagens pelo celular, que ele conseguiu uma ligação com a garota. E não era como se ele quisesse esconder a ligação, mas no colégio ele temia se aproximar, já que a mesma se isolava pelos cantos sempre evitando ser notada. Tudo que Hida menos queria era invadir o espaço pessoal de alguém por quem tinha tanto apreço. Talvez por isso nunca a tenha convidado para um encontro e limitou-se àquele ínfimo contato virtual.

O que raios ele estava esperando? Que a tímida garota tomasse a iniciativa? Isso jamais aconteceria. O imprevisível aconteceu. Miyako o percebeu compenetrado em responder as mensagens que chegavam periodicamente e como toda irmã abelhuda, o questionou. Não obtendo resposta ela tomou o aparelho de sua mão e correu para o terraço do prédio, trancando-se com o objeto. Iori quis morrer, sentiu que aquilo não poderia acabar nada bem. Clamou para que Inoue o devolvesse seu pertence, para que não fizesse nenhuma besteira, esmurrou a porta até se cansar e sentar derrotado no chão.

Ela abriu quando quis e, ele sabia que viria encrenca. Risonha o entregou o aparelho e o repreendeu por trocar mensagens com Mori a tanto tempo e nunca ter marcado um encontro. Miyako estava certa, refletiu Hida, contudo, ela invadiu seu espaço pessoal e ele estava muito zangado.

— Bom, agora você não vai mais poder fugir.— Inoue declarou entre um riso traquina.

— Você não fez isso, Miyako? — protestou Hida aturdido. Dispensou o honorífico demonstrando sua ira.

— Veja por si. E a propósito, estou impressionada com seu bom gosto para garotas. Entrei nas redes sociais dela e vi umas fotos, é muito bonita! — Dito isso, a violácea saiu a saltitar pelas escadas.

Iori ainda estava petrificado. Como a amiga pode ser tão audaz? Quando conseguiu coragem ele mirou a tela onde estava a resposta de Mori ao convite para um encontro. Para sua alegria a garota aceitou, para seu desespero, ele não sabia onde levá-la, não conhecia nada a cerca de encontros românticos. Não lhe restava alternativas a não ser recorrer a ajuda de quem lhe colocara nessa encrenca.

De certa forma ele sabia que precisava agradecer a amiga, pois sem ela talvez nunca tivesse tido essa oportunidade, uma vez que não teria coragem por medo de ser invasivo. Mas era orgulhoso demais para admitir isso para ela. Solicitar sua ajuda para o encontro já foi uma quebra brutal de seu brio.

O dia do encontro com Mori foi memorável, talvez um dos mais felizes que já desfrutara em sua vida. Assistiram a um filme, passearam por um belo jardim botânico, pelo enorme aquário. Era todo o cronograma sugerido por Miyako. Finalizaram em um café calmo e confortável onde puderam conversar um pouco mais.

E as coisas iam bem, de maneira que ele nunca imaginou. As mensagens continuaram a ser trocadas naturalmente. No encontro não estenderam limites nem a um enlaçar de mãos, mas ele preferia assim. No colégio Iori continuava a manter distância, em sua mente era a forma de respeitar o espaço pessoal da garota. Ela parecia querer passar invisível pelo restante do ensino médio e, se ele se aproximasse geraria burburinhos e fofocas.

Todavia, tudo ruiu quando Kaiser resolveu se infiltrar em suas vidas usando sua melhor amiga como gatilho. Não bastava tudo que estava acontecendo a cerca de Miyako, que o deixava preocupado, confuso e impotente. Kaiser estendeu seus ataques pessoalmente a cada um do grupo e em seu caso valeu-se das informações que perscrutou sobre Mori espalhando-as via rede social de quem a conhecia..

Aquele fora um dia fatídico e horrendo. Repentinamente a garota que ele gostava, com quem vinha construindo um elo, fora exposta e atacada e ele não fez absolutamente nada para ajudar. Encolheu-se como um covarde e nem sequer mandou mensagens quando a mesma desapareceu do colégio e das aulas de kendo.

Mori nascera intersexual, uma vez que atualmente o termo hermafrodita é usado unicamente para se referir a animais. Ela passou por uma cirurgia complexa ainda criança permanecendo apenas com órgão sexuais femininos. Contudo, em um país onde sexo é um tabu e as pessoas mal falam sobre o assunto, a repercussão que essa revelação íntima teve foi descomunal, chegando a ameaçar a integridade física, moral e psicológica da garota.

Chidori não precisava ter passado por tudo isso se não fosse a ligação com Iori. Ela foi o calcanhar de aquiles do guardião da Sabedoria e ele se culpava por isso. Ichijouji causou um grande tormento na vida de todos, mas no caso dele uma inocente foi ferida para atingi-lo e ele não era capaz de perdoar tal injustiça.

(...)

Já estavam a duas horas presos naquele submarino, com o suprimento de ar acabando aos poucos. Quando partiram para aquela missão, deveriam ter previsto que aquela era mais uma armadilha de Kaiser. Ele preferia perder o suposto Digimental, para acabar de vez com a vida dos Digiescolhidos, inclusive a de Miyako que estava arrasada jogada naquele chão, com os olhos opacos e sem mais lágrimas para derramar.

Desde a declaração e explicação da violácea que Iori não a via e nem trocava mensagens com ela. Aquilo tudo ia muito além dela, muito além dele… Havia um nó preso na garganta do mais novo. Ele não conseguia aceitar, não poderia entender e só de olhar para Miyako sentia asco, queria odiá-la, mesmo não conseguindo.

A parceira de Hawkmon estava horrível, deplorável. Pálida, magricela e com olheiras acentuadas, o olhar sem vida, sem brilho e a expressão apática. Inoue mantinha-se quieta, meditativa e com certeza estava quebrada por saber que todos poderiam morrer a qualquer momento e Kaiser nem ao menos se importara com sua vida, depois de tudo. Ninguém ousava dizer uma palavra, mas o pensamento era notoriamente compartilhado.

— ótimo, já tentamos de tudo para restaurar a comunicação com Izumi-san, mas não deu resultado. — Takeru lamuriou-se correndo os dedos pelas madeixas loiras.

— Koushiro tinha razão, um de nós deveria ter ficado no mundo real. — choramingou Daisuke se culpando. — Agora não tem como nenhum dos veteranos vir ao nosso resgate, uma vez que não abrem portais.

— Não se culpe. — consolou Hikari. — Não tinha como adivinhar que acabariamos presos, além disso, todos precisavam estar aqui para que o Digimental faça sua escolha.

— No entanto...— Miyako se manifestou pela primeira vez naquele dia. A voz saiu fraca e carregada de amargura. — Já estamos aqui a tanto tempo e até agora o digimental não reagiu.

— Talvez não sejamos dignos. — sussurrou Iori. — Se bem que levando em consideração a última escolha de um Digimental. — foi acido, sem conseguir conter sua mágoa.

— Iori-kun. — repreendeu Yagami temendo pela amiga que já estava visivelmente debilitada.

— Deixa ele, Hikari-chan. Eu mereço isso.

— Não, amiga. Não é culpa sua estarmos presos aqui — Yagami suspirou se colocando no lugar da amiga. — Nada disso é sua culpa. Sabe o que eu quero dizer. Não vou permitir que te acusem.

— Você não vai permitir, Yagami? Não precisamos acusá-la de nada. Miyako sabe seus erros.— pontuou o mais novo.

— Esse tipo de discussão não vai nos levar a lugar algum. Iori, você vai lá fora e busque alguém que possa nos resgatar. — Daisuke designa.

— Eu não vou. Como vou conviver com a culpa se não conseguir voltar a tempo e algo acontecer com vocês? — Hida foi sincero.

— Não precisa conviver com a nossa morte se evitá-la. — reforçou o segundo líder. — Considerando a situação, você é a melhor pessoa para ir.

Daisuke não mediu muito as palavras, isso nem era do seu feitio. Deixou claro que os ânimos entre Inoue e Hida estavam exaltados e o momento já estava tenso demais. Na decisão de separar os amigos, o mais jovem era a escolha mais adequada, uma vez que a garota estava visivelmente abalada.

— Considere melhor, por favor. — Takeru pousou a mão sobre o ombro do amigo.— O tempo está acabando. Todos concordamos que você deve ir.

Hida apenas assentiu e assinalou para Armadimon. Não ficou satisfeito com a decisão do grupo. Ele já tinha falhado com a Mori, já a tinha deixado sofrer quase agressão física em sua frente, sem ter tido coragem para reagir. O que garantia que não falharia novamente com o grupo? Contudo, o que fazer se fora praticamente obrigado a assumir a missão de resgate.

— Estou indo. — anunciou entrando na cápsula ejetora submarina.

— Boa sorte. — os amigos desejaram em uníssono.

— Eu confio em você, Iori-kun. — Miyako incentivou pacifista.

— Grandes coisas… Você confia em qualquer pessoa. — Iori rebateu de pronto.

Naqueles segundos em que a cápsula se fechava ele considerou recuperar as palavras que vomitou. Estarreceu-se com a expressão desolada da amiga. Ela já estava péssima, o reflexo da derrota e ele a jogou ainda mais para o abismo, a arrastou na lama. Decerto estava profundamente sentido com ela, mas aquela poderia ser a última vez em que se viram, que se falaram e era isso… Era isso que ele tinha a dizer para ela? Ele era horrível! Horrível, talvez pior que Kaiser.

— Iori, você está bem? — Armadimon chamou pelo parceiro o fazendo se atentar a missão.

(...)

Assim que recuperou comunicação, Hida contou a Izumi sobre o ocorrido, quando fora atacado por um MetalSeadramon e pela primeira vez ousou usar seu celular como dispositivo de transporte. Tudo que o escravo de Kaiser destruiu foi uma cápsula vazia.

Pela janela redonda do submarino, Inoue assistiu a toda a ação. Iori tentou algo novo até o momento, de outra maneira estaria morto pelo ataque de MetalSeadramon. Independente de qual deles estivesse naquela cápsula resgate aquele ataque viria. Seu estômago se revirou. Kaiser estava mesmo com sede de sangue, seja seu ou de seus amigos, ele só queria tirá-los do caminho. Seu amigo de infância tinha toda razão, ela confiava em qualquer um… Ela era tola, manipulável, desprezível… Ela acreditava em redenção, mas talvez isso não existisse de fato.

Jogando as costas contra a parede, Miyako não quis mais se conter, não pode mais e… E se deixou escorregar esparramando-se no chão e caindo em uma intensa crise de choro. Hawkmon e todos os presentes se desesperaram penalizados e sem palavras para consolá-la.

— Miyako, tenho certeza que o Iori não falou por mal.— Pousou a asa sobre a cabeça da parceira.

— Hawkmon tem razão. Iori-kun está sob muita pressão e bem… Teve aquilo com a namorada dele, então...— ponderou Yagami, sem saber que apenas piorou a situação.

— Eu sei… Coitada da menina. Ela não tinha nada a ver… Bem, como a professora, como muitas pessoas. Iori-kun tem razão. Ken foi horrível e eu escolhi confiar, perdoar e amar mesmo assim… E ele me retribuiu me jogando em uma armadilha e me deixando para morrer sem ar.— o pranto se intensificou.

— Ah meu Kami, não amiga. — a castanha se acercou da mais velha, sem saber como lidar com a situação.

Daisuke caminhava furioso de um lado para o outro.

— Quando eu colocar as mãos naquele filho de uma puta...— esbravejou socando a palma da mão.

Daisuke e Miyako discordavam de quase tudo, sempre implicaram um com o outro desde crianças, mas ela era como uma irmã para ele e vê-la daquela forma, era como se de todas as pessoas a quem Kaiser prejudicou, a garota fosse a mais quebrada.

— Daisuke-kun, não use esse palavreado perto dos nossos parceiros. — Takeru tentou amenizar a sua maneira.



(...)

Já no mundo real, Iori deixou Izumi tentando encontrar um meio de fazer com que seus aliados se aproximassem do perímetro onde os amigos estavam presos, contudo a Torre Negra que Kaiser instalara os corromperiam caso aproximasse. Enquanto Koushiro buscava soluções, o jovem Hida foi buscar o único Digiescolhido que possuía um parceiro capaz de resgatar os amigos na situação em que estavam, Kido Joe.

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O ar estava cada vez mais escasso e não sabiam dizer se estavam com sorte por MetalSeadramon não atacar ou se aquela era a forma sádica de Kaiser assisti-los agonizar em uma morte lenta e torturante. Os rapazes entraram em um acordo de procurar o Digimental para passar o tempo e, os Digimons ajudaram.

Enquanto isso, Iori e Joe foram recepcionados pelos escravos de Kaiser, mas com a ajuda de aliados contatados por Koushiro, conseguiram passar por eles, mas infelizmente não encontraram a Torre Negra e dado a isso MetalSeadramon continuava a rondar o restante da equipe.

Colocaram em prática um plano onde Ikkakumon distrairia MetalSeadramon enquanto faziam o resgate dos amigos com ajuda de Whamon que usava um dispositivo inibidor de ondas emitidas pela Torre Negra. Era um projeto em que Izumi vinha trabalhando a algum tempo e agora veio a oportunidade de um teste que para a sorte de todos se mostrou favorável.

Os jovens se alegraram quando avistaram Ikkakumon pela escotilha. O parceiro de Kido estava dando o seu melhor, mas lembrava-se que da outra vez que confrontou um MetalSeadramon precisou evoluir para Zudomon para derrotá-lo. A fim de afastar a serpente dos Digiescolhidos, mordeu sua cauda, girando-a e arremessando para o mais longe que conseguiu.

Ganhou um pouco de tempo quando o enorme corpo da serpente marinha ficou preso entre algas, corais e outras plantas marinhas. E mesmo aprisionado o oponente continuava a lançar choques contra o parceiro de Joe, que se esquivava agilmente.

Paralelo a isso, Whamon entrou em ação e quebrou a parede que aprisionava os Digiescolhidos, de forma precisa e bem pensada para que o local não inundasse de uma vez. Sua fronte ocupou o buraco feito por ela e sua enorme boca se abriu revelando Hida e Kido, apressados convidando os amigos para subirem a bordo da salvadora.

— Não podemos ir ainda. O Digimental da Confiança está aqui. — Daisuke apontou para o objeto com o símbolo da Confiança.

— É verdade. — concluiu Kido. — Aposto que ele é seu Iori-kun. Vá pegá-lo.

— De forma alguma. — recusou-se firme.— Subam todos o tempo está acabando.

— Iori, não pode dizer algo assim, não desista do seu destino. — Armadimon clamou dramático.

— Escute seu parceiro. Você não quer ser lembrado como o Digiescolhido que deixou o Digimental da Confiança se perder no fundo do mar, não é? — Joe incentivou em um tom ameno e brincalhão, mas não surtiu nenhum efeito.

— Eu me recuso. Não sou tão presunçoso e vocês não sejam hipócritas. — acusou exaltado.

— Pirralho idiota, o que quer dizer com isso? — vociferou Daisuke, ofendido.

— Sei que me obrigaram a buscar ajuda para que eu não ficasse aqui piorando o clima com a Miyako-san ao dizer aquilo que todos pensam.

— NÃO SEJA INJUSTO! — foi a primeira vez no dia que Inoue alterou a voz. — Isso não tem nada a ver comigo. Todos aqui incluindo os Digimons acreditamos em você de verdade. Isso devido a seu temperamento e prudência. Você pode não confiar em si mesmo, mas nós confiamos em você!

Um momento de silêncio foi feito. Todos tinham muito a dizer, mas sem saber como colocar em palavras.

— Eu não mereço a confiança de ninguém...— O garoto dos olhos verdes desabafou pesaroso. — Eu fiquei furioso quando você desabafou toda a verdade sobre sua relação com Kaiser, a acusei de trair minha confiança, a confiança do grupo, mas a verdade é que eu senti inveja.

— Oi? — Todos se admiraram confusos.

— Eu tive inveja da coragem que você teve em se abrir daquela forma e defender alguém como ele, confessando que confiava em suas possíveis mudanças. Você o defendeu, mas eu… Quando a Shidori precisou de mim, eu me acovardei.— confessou envergonhado e admirado, como se somente naquele momento ele tivesse se apercebido daquilo. — Eu sinto muito, eu fiz com você o mesmo que fiz com ela, eu sou assim.

— Pare com isso Iori. — Armadimon tentou intervir.

— Não, deixa ele desabafar, se compreender. — Kido aconselhou

— Em ambas as situações eu sei que você ficou confuso, pois elas destoam de toda a criação rigida que você recebeu. Sei o quanto é difícil para você aceitar a escolha estúpida que eu fiz em amar alguém que fez mal a todos nós e a este mundo. Entendo que você me enxergue como uma irmã e queira me proteger da sua maneira, mas não sabe bem como demonstrar isso. Não precisa saber lidar com situações complicadas para ser alguém confiável. — clarificou compreensiva. — E quanto a Shidori-san, bem… O segredo dela é algo íntimo, complexo e delicado. Vai precisar ser forte confiar nela e em si mesmo e conversar claramente, desabafar, se desculpar.

— Confiar em mim mesmo. — lacrimejou emocionado. — Porque vocês confiaram e confiam em mim, mesmo com meu comportamento horrível…

Os amigos confirmaram com a cabeça. O Digimental flutuou no ar e sumiu aparecendo frente ao rapaz.

— Eu confio em você. — cada um repetiu respectivamente.

— Iori...— Armadimon chamou transbordando expectativa. — EU CONFIO EM VOCÊ!

E com o último incentivo vindo do parceiro Hida alcançou seu Digimental e uma explosão luminosa em tons de roxo tomou o local.

— Digimental Up… — Iori comandou emocionado.

— Armadimon Armor Shinka… — Armadimon girou sob o símbolo da confiança. Atrás de si surgiram imagens de Gomamon e Ikkakumon e Zudomon. — Submarimon “Confiança inabalável”

Iori não pensou duas vezes e subiu a bordo de seu parceiro, encantado com sua nova forma de um belo submarino pronto para a batalha. Enquanto isso, os demais Digiescolhidos entraram na boca de Whamon e foram levados para a superfície.

— River Of Power!! — MetalSeadramon investiu violentamente contra Ikkakumon encurralando-o contra as rochas do fundo do oceano e disparando consecutivos choques em seu peito. — Shimetsuke! — Após atordoar o oponente a serpente marinha se enrolou entorno de seu corpo e começou a apertá-lo.

O parceiro de Joe sentiu como se seu corpo fosse se fragmentar, mas foi salvo na hora.

— Torpedo de Oxigênio! — Submarimon disparou contra MetalSeadramon, que consequentemente soltou Ikkakumon, a fim de revidar.

— River Of Power! — Intensas rajadas de energia saíram do focinho de MetalSeadramon sendo direcionadas a Submarimon.

Com agilidade surreal, o parceiro de Hida se desviou dos golpes e se posicionou ao lado de Ikkakumon confirmando um ataque combinado. MetalSeadramon já era um oponente forte, mas a influência da Espiral Negra o deixava ainda mais poderoso. O plano principal era destruir a Espiral.

Enquanto a luta subaquática se desenrolava, na superfície os Digiescolhidos e seus parceiros lutavam contra as forças de Kaiser. Procuraram pela Torre Negra, mas não a encontraram em lugar algum. Todos já estavam exaustos e famintos e o desempenho contra os oponentes não estava sendo dos melhores.

Durante o confronto contra MetalSeadramon, enquanto os Digimons miravam na Espiral Negra, Iori avistou uma formação metálica e a definiu como sendo a Torre Negra.

— Submarimon, Ikkakumon, não podemos machucar MetalSeadramon e não estamos tendo sucesso em atingir a Espiral, mas olhem a esquerda, aquilo parece uma Torre Negra. Vamos destruí-la aproveitando o poder dele.

E os aliados entenderam de pronto, provocaram MetalSeadramon para uma perseguição e nadaram para frente da Torre. Quando a Serpente pensou ter encurralado os oponentes disparou seu ataque mais poderoso. Submarimon e Ikkakumon desviaram agilmente para direções opostas e completaram o ataque do inimigo. Os tres golpes combinados fez a Torre Negra ruir e se desmaterializar.

Os olhos de MetalSeadramon voltaram a tonalidade normal e a Espiral Negra em sua cauda desapareceu; estava livre. A serpente agradeceu e partiu. Enquanto isso na superfície, a batalha finalmente chegou ao fim e todos respiraram exaustos e aliviados. Passaram por momentos difíceis, mas agora estavam em posse de mais um Digimental e venceram outra batalha.

(...)

De volta ao mundo real, os Digiescolhidos se encontravam no apartamento de Takeru. Todos a parabenizar Iori por sua nova aquisição e Upamon por sua fabulosa evolução. Os Digimons comemoravam e se fartavam com a comida, um merecido momento de conforto e alegria para os monstrinhos.

Inoue discretamente tocou o ombro de Iori e assinalou para que fossem para a sacada conversar em particular.

— No fim, tudo deu certo, não é? — a garota forçou um sorriso, se encostando nas grades da sacada.

— Este ainda não é o fim. — pontuou o mais novo, preocupado.

— É, eu sei… Você tem razão quando diz que todos estão pisando em ovos comigo. As vezes penso que eles deveriam ser mais como você e…

— Te acusar e desprezar, como se eu mesmo nunca tivesse cometido um engano.— foi direto. — Eu lhe devo muitas desculpas. Você esteve comigo todo esse tempo, desde a morte do meu pai. Nem sempre eu te dei abertura em minha vida, mas você nunca desistiu de mim e continuou sendo minha amiga.

— Pare com isso, está me deixando sem graça. Não tem que se desculpar, eu não sei como reagiria se estivesse na sua posição ou dos outros.

— Seria compreensiva, certamente.— sorriu amistoso. — Também quero me desculpar por dizer que você confia em qualquer um. Eu estou tentando entender que você conviveu muito com Kaiser e tem seus motivos para acreditar nele.

— Ah, tudo bem. — sorriu tristonha. — Eu já nem sei em que acreditar depois de tudo, depois de hoje. Eu realmente vi coisas surreais, o poder das trevas, mas… Talvez Ken não queria ajuda para se libertar disso e eu fico enxergando esperanças onde não tem.

— E como você está com tudo isso?

— Eu não sei. Estou me sentindo deslocada no grupo. É como se os outros ficassem medindo as palavras e ações o tempo todo com medo de me magoar ainda mais. Como se temessem que no momento final eu não vá suportar e acabar desmoronando. Entende?

— E vai? Como você pensa que vai reagir quando estiver frente a frente com Kaiser?

— Eu penso nisso o tempo todo e mal tenho conseguido comer ou dormir, mas sei que preciso. Eu vou ter que ser forte. Não se trata somente de Ken e de mim. Essas tragédias pelo mundo afora, o desequilíbrio do Mundo Digital se refletindo no nosso mundo… É algo muito maior que meus sentimentos idiotas.

— Eu sou um idiota mesmo. O tempo todo estava pensando em como me senti traído com sua atitude e não enxerguei a situação horrível na qual você se envolveu. Me sinto uma criança tola. — Ele escorregou para o chão, se sentando ali mesmo.— Como você está aguentando tudo isso.

Ela suspirou e sentou-se ao lado do amigo.

— Eu não sei, mas acho que preciso suportar. O fim está próximo e nossa próxima ida ao Mundo Digital será para confrontar Kaiser. As vezes eu queria desistir de tudo e me encolher debaixo do edredom até que tudo acabe, mas vocês precisam de mim, da força que eu puder dar para Hawkmon. É hora de saber diferenciar a vontade da obrigação.

— Você precisa ser forte. Nós precisamos ser. — colocou a mão sobre a da amiga. — Quando isso tudo terminar eu vou procurar pela Mori e me desculpar. Eu culpei Kaiser por ter arruinado a vida dela, a culpei por não ter me contado nada, mas o maior culpado fui eu. Mori não era obrigada a me contar seu segredo, era íntimo, doloroso e era passado. — Ele se abriu novamente, surpreendendo-a. — Amar alguém não significa ter que saber tudo sobre sua vida. Depois da batalha eu vou resolver tudo, mesmo que seja para ouvir um merecido “adeus.”

— É isso aí, confiança! — Miyako deu um soquinho no ombro do mais novo.

Ambos ficaram sentados em silêncio ouvindo a algazarra dos Digimons e vendo o sol se pôr. O resto do grupo se horrorizava e preocupava com as matérias sobre catástrofes naturais ao redor do mundo. Angustiada, Miyako suspirou profundamente. “Aproxima ida ao Mundo Digital será para confrontar Kaiser.” Ela não estava sabendo lidar com aquilo, mas estava se esforçando. Era hora de acabar com aqueles jogos doentios de uma vez por todas.

— Confiança! — ouviu Iori murmurar como se o mesmo lesse seus pensamentos.

Confiança...