POV Ken

Sentia-me estranho após ter desabafado com Miyako, sei que era uma carta necessária para não perder neste jogo, que eu não poderia permitir que ela se penalizasse sabendo somente a versão dos meus pais e viesse a quedar para o lado deles, mesmo assim era como se eu tivesse me exposto ao extremo além de rememorado cada motivo para tanta dor sufocada dentro de mim.

Minhas previsões vieram a calhar, não tardou para que meu pai abordasse Miyako e a levasse para um interrogatório familiar, obviamente sabendo o estado em que minha mãe se encontrava e que tal fato iria desestruturar Inoue levando-a a revelar o que lhe fosse inquirido.

Ao notar a demora de Inoue, abri o portal para que Bakemon pudesse passar, sabia que o computador dela estaria ligado. Não demorou para que o fantasma estivesse no local onde ordenei que surgisse; a residência Ichijouji, minha prisão por todos estes anos.

Pude ouvir toda a conversa e confesso que me surpreendi com tudo o que ela disse, a forma como falou. Sei que é ousada, altiva, mas depois de tudo nunca imaginei que viesse a interceder por mim com tanta veemência como fez.

Miyako enfrentou meus pais dentro da casa deles, onde reinam suas regras, hábitos, costumes e tradições. Intrépida, ela jogou na cara deles todas as suas falhas como pais, foi categórica, enfática, severa, os horrorizou, escandalizou, disse o que precisava ser dito e sem nenhuma delicadeza.

O mundo a minha volta pareceu parar e de repente eu me senti tão escudado e amado? Sim, em nenhum momento ela negou meus defeitos, pelo contrário, se mostrou consciente de tudo o que fiz, se posicionou contra minhas decisões, mesmo assim lutou em minha defesa.Ninguém nunca o fez, nunca pensei que fizessem. Sempre que eu mostravam um progresso o mundo exigia mais, as pessoas comparavam ao fantasma do meu irmão.

Quando me dei conta, já estava com a face molhada, os olhos ardendo e as lágrimas escorrendo quentes pelo rosto. Não me dei ao trabalho de secá-las, nem me envergonhei delas. Ela se importa realmente comigo. Ela me entendeu. Ela me defendeu

Ela estava ali afrontando os monstros do meu passado, os encarando de frente e dizendo tudo o que eu nunca tive coragem, estava apontando o dedo e mostrando a eles o que fizeram de mim… O que fizeram de mim?

Então entendi o covarde que sou e precisou de uma garota ir lá e lutar uma batalha que era minha. Eu deveria ter me rebelado contra tudo de errado que meus pais me fizeram, deveria ter revelado para eles sobre as lágrimas de sofrimento que me arrancaram durante todos esses anos lamentando a perda de Osamu e agindo como se eu não tivesse a mesma importância.

Justo eu que sei tantas coisas, que estou prestes a ter o controle do Mundo Digital, não tive o comando da minha própria vida, preferi fugir e me refugiar em outro mundo. E lá estava Miyako com sua altivez inerente, revelando toda a dor que a fiz sofrer e ainda intercedendo a meu favor.Ela dizia cada palavra como se estivesse lendo minha alma e ditando-a em voz alta, nunca pensei que um dia seria tão compreendido e defendido por alguém.

Quando meus pais decidiram gravar algo para mim, eu já tinha ouvido sobre como eles se sentiam, sobre o desejo de consertar as coisas, recomeçar, a necessidade de estarmos frente a frente em uma conversa decisiva.Em outros tempos eu teria gargalhado, feito troça, mas agora…

Enternecido, busquei o ar com dificuldade, meu peito doía. Assim que Miyako despediu-se e saiu com meu pai, desliguei o monitor, estupefato. Levantei da minha cadeira e segui para o quarto.Fechei a porta atrás de mim e massageei as têmporas, precisava de um banho. Segui para o chuveiro já me livrando das roupas, liguei a torneira e deixei a água fria cair sobre meu corpo enquanto toda a conversa se repetida retumbante, em minha mente.

Saí do banho e vesti um pijama leve, abri o closet observando meus trajes costumeiros, azul costumava ser minha cor preferida até voltar minha atenção para o lilás, mas essa já pertence a outra pessoa. Corri os dedos pelas capas, sobretudos, a maioria lembrava-me trajes reais, mas naquele momento não me sentia um imperador e sim um covarde.

Jogo todas as peças para o chão, alcanço os óculos sobre o criado-mudo e o arremesso contra o carpete, por sua resistência ele permanece intacto. Abro a primeira gaveta do criado-mudo e pego algo que há muito tempo eu não me atrevia a tocar; uma foto de Osamu.

Sento-me sobre a cama e o encaro, é como se ele me encarasse de volta e desse um sorriso debochado. “Você é um fracasso, precisou de uma garota, que está em sua vida a pouco menos de um ano, para resolver problemas que te assolam a vida inteira.”

Ele tinha razão. Ao mesmo tempo que eu estava feliz por toda garra com que Miyako me defendeu, senti meu orgulho se estilhaçar completamente e a dor de ser um completo covarde me abateu como um tapa na cara.No final, eu apenas me escondi, fugi, tive mágoas, iras, asco e não fiz nada a respeito.

Fugi e me escondi…

Fugi e me escondi…

Era como se pudesse ouvir a voz de Osamu na minha cabeça debochando da minha confusão, me chamando de fracassado, perdedor. Ele tinha razão, toda razão, não sou digno de nada, de uma capa, de um título, de ter alguém como Miyako, alguém que só se preocupa comigo porque eu a arranquei de sua vida, estraguei seus planos, atrapalhei seu relacionamento.

Até nisso eu sou desprezível, miserável. Eu desejei aquela garota e fiz de sua vida um inferno culpando-a pelo que me despertava, fiz com que sofresse pelas minhas fraquezas e ainda exijo que ela me ame quando o que já recebo nem sequer é merecido.

Eu não deveria voltar para casa, tentar recomeçar, ouvir meus pais, desabafar com eles, não deveria ver mais aquela garota, não há nada de bom em mim, não posso trazer benefício para ninguém, minha existência é um erro… Um erro… Tudo que eu tento, de todas as formas que tento… Eu sou um fracasso.

Encolho as pernas abraçando os joelhos e baixando a cabeça, apoiando minha fonte neles, me permitindo afundar em lágrimas. Não há cartas, não há jogo eu já sou um perdedor e tudo que eu desejo é submergir naquela imensidão de águas negras que me assombram.

Eu quero deixar de existir, a vida de todos será mais fácil sem mim, Wormmon não sentirá que precisa ter a quem servir, meus pais estarão livres, Miyako e seus amigos livrarão esse mundo das Torres Negras e talvez ela reate seu namoro perfeito com Izumi. Quem se lembrará de mim?

Me perco na dor, na vontade desaparecer e não me dou conta de que ela está aqui no meu quarto falando, ou tentando falar comigo. Ouço sua voz parecendo tão distante, talvez esteja com medo de mim.

Ela se justifica de todas as formas, mas não estou zangado, estou envergonhado, profundamente envergonhado, reconhecendo o quanto sou patético. Sinto que deveria deixá-la partir e seguir sua vida, mas em meio a tantas justificativas ela diz algo que me desperta.

.— Não quero enfrentar a dor de ter que ficar longe de você novamente, não ouvir sua voz, não sentir seus abraços. Eu sempre penso como você precisa de mim, mas acho que eu nunca disse...— sinto suas mãos acariciando meus cabelos. — Eu nunca disse o quanto eu preciso de você. Se você me pedir para ir embora e esquecer tudo eu não serei capaz, eu não quero ir, não quero ser descartada, não quero-

De sobressalto agarrei-lhe o pulso, jamais esperava ouvir tais palavras e já me sentia afundando em um pântano escuro e vazio de solidão e humilhação, e era onde eu merecia ficar para sempre, mas aquelas palavras…

Eu precisava dizer algo, dessa vez carecia ser corajoso e não fugir como tenho feito a vida toda, de tudo que me faz mal, até porque Miyako só me faz bem e se eu tenho que sumir que seja depois de dizer o que sinto.

— Ken...— ela sussurrou incrédula.

— A forma como você colocou toda a minha situação e o comportamento dos meus pais durante esses anos, como se indignou, como jogou para eles que não tinham direito de julgar minhas ações, já que tinham parte da culpa. Obrigado. — a abracei o mais forte possível. — Você foi incrível, eu sempre admirei sua força e obstinação. Nem eu mesmo fiz tanto por mim quanto você fez mesmo que eu só tenha te causado dor.

Separei o abraço a virando de frente para mim fitando seus âmbares confusos. Queria declarar isso a ela olhando dentro dos seus olhos, para que ela sentisse o quanto era sincero.

— Eu sinto tanto por ter te feito sofrer pelas minhas fraquezas, por ter te culpado pelo que eu comecei a sentir por você e querer te punir. Tudo sempre teve a ver comigo, com o que eu não entendia, com o que eu não conseguia ser, com o que eu não podia ter.

Ela já se derramava em lágrimas, eu tinha tantas coisas para dizer e essas foram saindo

— Não, não… Não se desculpe. — levou os dedos finos sobre meus lábios, calando-me. — Eu já te perdoei e entendi que mesmo que tudo tenha tido um começo deturpado nós vencemos isso. Tudo o que importa é como estamos agora, o que sentimos, o que temos.

— O mundo foi horrível comigo e eu descontei em você por medo de mais uma rejeição. Isso foi covardia. Eu te submeti a dor e você me apresentou o amor. — segurei suas mãos, trazendo-as aos lábios e as beijando carinhosamente. — Mesmo que você não possa me amar como eu espero, o que fez por mim já foi tão…

Já foi muito mais do que eu merecia, Miyako era incrível por conseguir me perdoar e ainda me entender, por ter me defendido, qualquer sentimento que viesse dela já seria demais para mim, agora eu tinha noção de que não era digno de nada.

— Eu amo. — ela interrompeu minha fala com a súbita e inesperada declaração e meu mundo parou.

— Você? — Questionei oscilante. Como ela poderia dizer isso depois de tudo que eu fiz? Não conseguia acreditar que estava ouvindo tais palavras.

— Amo… Eu te amo demais, como você espera, talvez até mais. Eu não quero apenas o seu bem estar, não tenho apenas preocupação. — segurei seu rosto entre as minhas mãos, seus olhos estavam arregalados e a boca semiaberta.— Eu sinto sua falta, ficar sem te ver, sem te tocar é quase uma dor física. Eu te amo demais, Ken, preciso de você.

A prendi em um abraço e selei nossos lábios, foi tão impulsivo, instintivo. Era uma celebração, ouvir aquilo foi de uma importância gigantesca, parece que esperei a vida inteira para ouvir tais palavras e que toda tormenta que passei fora aliviada com aquela simples declaração. Ela me ama. Ao menos uma pessoa neste mundo. Sem que eu tenha que mendigar.

— Você? Você realmente, más e seu parceiro Digimon, Izumi, seus amigos? Todo o resto? — questionei ao separar o beijo.

— São importantes é claro, mas eu nunca senti nada tão forte assim na vida. Preciso de você tanto quanto preciso do ar que eu respiro e não me importo o quanto isso soa brega. — sorrimos juntos. — Sabe aquele filho que você queria me dar?

— Aquilo foi só...— sorri me sentindo constrangido, aquilo foi um momento bobo, desviei o olhar, mas ela me segurou pelo queixo, forçando-me a encará-la, meu rosto queimava.

— Eu quero. Quero que você me faça um filho. Quero ficar nove meses imaginando uma pequena mistura de nós dois, conversando com a barriga, comprando roupinhas e planejando a decoração do quarto. Deixar minha genética misturada com a sua como presente para o mundo, uma prova viva do nosso amor.— a medida que ela ia falando as cenas se desenhavam em minha mente e meu rosto queimava, formigava, meu peito se aquecia emocionado.— Quando o tiver em meus braços quero você do meu lado e nós vamos brincar com as pequenas mãozinhas e procurar traços um do outro naquele rosto minúsculo. Ele vai nos transformar em idiotas babões e crescer cheio de amor e atenção, pois nunca repetiremos os erros dos nossos pais. .

Tudo o que ela disse se passava em minha mente como uma previsão do futuro, como um desejo tomando forma. A abracei forte e me deixei cair em um pranto copioso. Dizem que os filhos tendem a repetir as falhas de seus pais, mas eu nunca farei isso, uma bebê é a maior prova de amor que uma mulher pode dar a um homem, a honra de ter seus DNA misturados em um serzinho feito com todo amor. Eu jamais negligenciaria meu filho e nem os próximos, trataria todos iguais, daria a mesma atenção e os amaria com suas limitações, não exigiria que fossem melhores e maiores que o restante do mundo.

— Eu também te amo tanto, desde sempre e acho que se eu soubesse antes, se eu tivesse entendido. Meu Kami, você é louca, nós somos loucos. Você quer mesmo ter um filho meu? Quer mesmo ficar do meu lado? — não que eu a estava taxando como mentirosa, mas era muito difícil de assimilar que aquilo estava mesmo acontecendo.

— Não há nada que eu queira mais nesse mundo, mas eu não quero ficar ao seu lado. — rompi o abraço e a encarei sem entender. — Quero que fique do meu. Como poderia eu, pensar em ter um filho em meio a inimigos. É porque se ficarmos aqui escravizando Digimons seremos inimigos deste mundo e uma hora a de surgir quem nos confronte. Não posso viver assim, não posso submeter uma criança a essa vida e não a desejo pra você.

— Mas você viu como as coisas no mundo real estão complicadas. Lá eu não sou nada, a não ser um troféu para escola, para os meus pais. Você viu.

— Não importa, Ken. Seus pais estão mudados, sua falta fez que enxergassem os erros, estão sofrendo e arrependidos, querem você de volta sem julgamentos, não importa como for, querem ficar ao seu lado.

— Não sei se posso perdoá-los, não sei se consigo, ainda dói muito.

— Eu sei que dói, mas direi o mesmo que eu disse para sua mãe. Você pode continuar nessa dor que você já conhece ou escolher ao menos tentar perdoar. Ken, eu sei que não se supera esse tipo de coisa da noite para o dia, mas sua vontade e tentativa já faz a diferença.

— Vi a mensagem que gravaram para mim. — baixei o olhar, os fatos estavam confusos dentro de mim.

— E o que me diz?

— Não sei o que dizer, o que pensar ou sentir. Confesso que pareceram sinceros, mas...

— Se não for por eles faça por nós. Eu quero você comigo, quero acabar os estudos, me formar, entrar na faculdade. Quero um filho seu sim, mas quero construir um futuro confortável para ele, no mundo dele, entende? — ela não deixa de ter razão. — Quero que ele vá a escola, conheça seus avós, tios, cresça junto com sua “espécie”.

— Depois de tudo o que eu fiz, como você acha que seus pais e amigos vão lidar com sua escolha? — coloco em pauta todos os contras.

— Não me importa se vão me julgar. Se me odiarem eu vou sofrer, é claro e é uma possibilidade, mas vou sofrer mais se ficar sem você. Deixa esse mundo em paz, Ken, vem corrigir os erros do presente e construir um futuro ao meu lado.

— Concertar os erros, piff! —bufo frustrado, afinal isso seria uma bomba. — Você quer dizer confessar tudo o que fiz e livrar Izumi. Seria um verdadeiro escândalo, a queda do gênio, do mito, já vejo as manchetes.

— Mas é o certo a se fazer. Todos passamos por uma fase difícil, você tem razão, vai ser um escândalo, mas vai passar.

— Diante desse escândalo sua família vai te permitir ficar ao meu lado?

— Minha família não é tão tradicional e se você se redimir vão te achar corajoso e digno de um voto de confiança.

— Vai ser apontada e apedrejada por ficar ao meu lado, sabia?

— Mais do que já fui até hoje? — sorriu melancólica. — A diferença é que agora eu estou escolhendo isso.

— Porque Miyako? Porque se sacrificar tanto por mim? Fora desse mundo eu não sou nada, não terei nada para lhe oferecer, serei menos que um verme.

— Claro que é. Você é o garoto esperado por seus pais, que como eu, não querem um ídolo do momento, querem a pessoa que você é, com suas falhas e fraquezas. Um garoto que sabe ser doce quando quer, que cozinha muito bem. Como você mesmo disse, chega de brincar de Kaiser, certo? Não quero ter que viver em um mundo sem você e jamais ficaria aqui. O que você tem a me oferecer? Um futuro ao seu lado, não posso fazer nosso filho sozinha, certo?

— Você entende o que está me pedindo, garota?

— Para desistir do seu império? É muita audácia da minha parte, não é? Mas eu te amo, não posso desistir de ter você comigo nunca e não quero te deixar aqui. Quem vai te abraçar quando as trevas te sufocar, quando você se sentir inundado pelo mar negro, quem vai te trazer de volta? Não tenho um império para oferecer, mas tenho meu amor, meu calor e a promessa de um futuro dedicado a nós. Vem comigo?

— Eu tenho muito o que pensar. Tudo que eu construí aqui. — desvio meu olhar para a foto de Osamu sobre a cama, lembro-me das palavras dele “perdedor, fracassado” — Não poderei ser igual a ele. — a alcanço e sinto vontade amassá-la.

— Por Kami, Ken, do que você está falando. — ela pegou a foto das minhas mãos observando.

Seu rosto se contorcia em inúmeras expressões enquanto analisava a foto, então ela praticamente gritou:

— Meu Kami!. — saltou da cama como se tivesse tido uma revelação, pegou o sobretudo e os óculos no chão e jogou sobre a cama. — Ken vista isso. — ordenou autoritária.

— Como assim? — me sinto perdido sem entender o que ela quer afinal.

— Veste seus trajes, faça seu penteado habitual, me deixe falar com Kaiser. — ela estava falando sério. Que tolice era tudo aquilo?

— Você está ficando louca, Miyako? Está fazendo piadas comigo? — enfureci-me sentindo ofendido, em meio a uma conversa séria ela decidiu debochar de mim.

— Não estou, é importante, faça por favor. — pediu de forma delicada, mas enfatizando a importância do seu desejo.

Confuso, decidi acatar seu pedido. Depois de trajado, ela me olhou seriamente, segurou meu pulso e me arrastou para o banheiro parando em frente ao espelho, de corpo inteiro. Eu estava ainda mais confuso.

— Me diga o que você vê, Ken? Me diga quem é Kaiser? — olhei para meu reflexo, sem entender o que ela queria dizer. Ela apontou para a foto de Osamu que tinha em mãos. — Esse penteado, os óculos, a arrogância de querer ser o melhor em tudo. ME DIGA QUEM É VOCÊ AGORA? — estarreci prontamente, creio que seja essa a sensação de ser atingido por uma bala..— A roupa que sugere nobreza representa como você via o tratamento que Osamu recebia. Isso que você está vendo no reflexo é uma reconstrução do que se perdeu, é o que você julgou que deveria ser para ser melhor, para ter valor. Então me diz com sinceridade, o que você está vendo no espelho?

Entendi tudo...

Enxerguei o que ela enxergou...

Minha visão clareou...

Minha mente se abriu...

Retirei os óculos e os quebrei com a força com que os apertei, revoltado comigo .

— Uma farsa! Essa roupa é uma farsa, esse mundo, essa vida, eu sou uma farsa.— respondi com total convicção e entendi que nem o personagem que construi para encarnar, nem a minha criação de mim mesmo, me pertencia, Kaiser não era real, não era original era uma cópia, uma projeção.Me deixei cair de joelhos e não tive vergonha de chorar, tudo tinha sido brutalmente arrancado de mim. .— O que eu tenho feito todo esse tempo tentando ser alguém que nunca poderia ser? Deveria ter sido eu a morrer naquele acidente, eu não presto para ser como Osamu nem em um mundo onde ele nunca pisou, nem em um mundo que deveria ser só meu. PORQUE EU NASCI, PORQUE EU EXISTO, PORQUE TENHO QUE PASSAR POR TUDO ISSO? EU NÃO QUERO SER UM FRACASSO, NÃO QUERO SER UM PERDEDOR E NEM VIVER A SOMBRA DO QUE MEU IRMÃO PODERIA TER SE TORNADO… PORQUE? PORQUE?

Doía tanto, sentia ódio de mim mesmo, vergonha. O que eu era com aquelas roupas, com aqueles cabelos? Nada, nada, menos que um verme. Kaiser nada mais era do que uma projeção do meu desesperado desejo de ser Osamu, de ser como ele foi mesmo que em outro mundo, mas não sou ele e passei tanto tempo encenando e tentando me convencer de que eu era, que agora não sei quem sou.

Em meio a minha crise desesperada, puxo os meus cabelos quase arrancando. Miyako se ajoelha se acercando de mim, me consolando.

— Shhh! Chora, coloque tudo pra fora.

— Eles queriam que fosse eu quem tivesse morrido, Miyako. — desabafo aquilo que escondi no recôndito da minha alma.

— Quem queria isso?

— Meus pais, eles não falavam diretamente, mas eu entendia, entendia tudo e sofria… Os vizinhos falavam que era uma pena o filho mais talentoso, o primeiro filho. Eu desejei com todas as minhas forças estar morto no lugar do meu irmão para não passar por aquilo…

Quanto mais eu relatava, desabafava, mais meu peito doía, se apertava. As memórias de tudo o que sofri, que senti, toda a comparação, o descaso. Eu queria morrer, desaparecer.

— Amor, foi difícil e eu te entendo, mas você tem que tirar essa fantasia de Osamu que a sua mente criou e ser você mesmo, enfrentar seus pais, desabafar cara a cara com eles, os ouça, deixe que eles te ouçam. Por favor Ken, por você, por mim, por nós.

Por nós… Por nós…

Ela me quer a seu lado mesmo eu não sendo nada, não tendo nada a oferecer, mesmo depois de ter desgraçado sua vida, ela ainda sonha com um futuro ao meu lado. Tudo isso me deixava tão perdido, afinal era tudo que eu queria, não? Ouvoir que ela me ama, que se importa comigo. Era tudo que eu precisava.

Porque me sinto assim, afinal? Meus pais assumiram a culpa que sentem, Miyako me declarou seu amor. Mesmo humilhado por ver a verdade por detrás do manto que vesti, mesmo meu castelo tendo vindo ao chão, essa não era uma situação tão ruim.

Mesmo em desespero ela conseguiu me dar o conforto que eu precisava para conseguir adormecer e assim descansar minha mente. Acordei na penumbra, no silêncio, mas com Miyako em meu braços aconchegada em mim. Meu mundo tinha desabado e a verdade rugiu na minha cara me fazendo ruir.

Do pouco que a minha mente confusa conseguia processar, uma coisa eu entendia lucidamente; o meu desejo de ter uma vida ao lado de Miyako é real e não posso deixá-la para continuar fingindo ser outra pessoa, me inspirando, me baseando e dando vida a um personagem. Kaiser não existe, nunca deveria ter existido, ele foi minha fuga, minha covardia, no momento havia outro mundo que eu queria conquistar, um mundo onde eu pudesse ficar ao lado dela.

Em um ímpeto de coragem acendi o abajur e a acordei, aquilo estava preso em minha garganta, pulsando em minhas veias, precisava ser dito naquele momento e se deixasse para depois era como se algo pudesse levar minha impavidez embora e isso eu não queria, não poderia permitir.Sonolenta, Miyako esfregou os olhos e sentou-se, forçando-se a abrir os olhos e me encarando confusa.

— O que foi? — Acariciou meu rosto. — Não se sente bem? Quer tomar um analgesico, sua cabeça deve estar dolorida devido ao choro, é normal. E muitas emoções também e...— Segurei sua mão e a olhei com convicção a fazendo se calar. — O que foi?

— Eu vou voltar com você para o mundo real, vou encarar meus pais, admitir os erros que cometi e enfrentar as pessoas que prejudiquei. Abandonarei o manto de Kaiser por um futuro ao seu lado.