Notas iniciais
Quanto tempo ne? Será que ainda existe alguém interessado na continuação? Mesmo passando tanto tempo é muito ruim sentir que não concluiu algo e esses dias o Gabriel, meu marido de escrita, me fez lembrar dessa minha amada Fic e neste feriado eu resolvi escrever um pouco, espero que gostem, beijos!

Onde seria mais adequado para encontrar Inoue e ter aquela conversa complicada e cheia de nuances? Convidá-la para sua casa poderia soar covarde, afinal estaria trazendo-a para sua zona de conforto e limitando-a em explodir em ira caso necessário, pois certamente ela iria se conter sob o teto dos Ichijouji, por respeito a família. Na casa da moça era fora de cogitação, pois certamente não seria questão de coragem e sim um ato suicida. Se alugasse uma sala de karaokê, teria que se mostrar para alguém e este poderia muito bem vender a informação.

Eram tempos sombrios, difíceis… O que precisavam conversar era tão íntimo e delicado e já passara da fase da urgência. Se fossem ao Mundo Digital, uma gama de perigos os espreitar e ele não poderia se preocupar em mais nada a não ser no conteúdo da conversa.

Naquela noite, Ichijouji não dormiu, ficou ponderando as alternativas e acabou por escolher a mais aceitável, a menos ruim, por assim dizer; a base camuflada na bolha dimensional, o local onde manteve Inoue quando a moça sofreu um trauma emocional violento e perdeu a memória.

Suspirou aliviado por ainda ter acesso a alguns arquivos de sua antiga base e encontrar as coordenadas. Aquele local era completamente isolado, volteado por um muro e vácuo dimensional. Após encontrar a melhor solução, sofreu mais algumas horas de dores de barriga, de ansiedade em enviar a mensagem, escreveu e apagou vários textos e por fim enviou apenas as coordenadas, sem cumprimentos, recomendações, assim, no susto…

“Que repentino, inoportuno e insensível!” censurou-se envergonhado, mas já era tarde, a mensagem já fora lida prontamente, mostrando que a violácea também estava acordada. De todo modo seria bom resolverem tudo naquele horário assim não preocupariam as famílias e os parceiros.

…

Naquela noite ela esperou que Poromon adormecesse para se permitir cair em pranto enquanto mirava a noite fria pela janela. Ultimamente tudo tinha um gosto amargo e já estava difícil continuar sendo forte e vestindo máscaras de sorriso para tranquilizar os amigos e entes queridos.

Diante de tudo ela só queria tirar aquele nó da garganta, gritar, chorar, quebrar algo, dizer como realmente se sentia, fazer perguntas e obter respostas. Não era pedir demais, ela tinha esse direito, afinal? Como se Kami-sama tivesse ouvido seu lamento, o celular vibrou com uma mensagem “a mensagem”

Trajada em seu confortavel pijama de inverno de blusa verde-claro com estampa de Kuromi e calça roxa, nem pensou em se trocar e correu pra ligar seu notebook o mais silenciosamente o possivel.

(...)

Miyako materializou-se em frente a grande tela do tecnológico computador do porão iluminado por diversas luzes que davam ao local um aspecto futurista de naves espacial de filmes de ficção cientifica.

Girou a grande cadeira cujo recosto estava ao contrário, como se fora encontrar o imponente e insano Digimon Kaiser, sorrindo sarcasticamente. Um calafrio angustiante e estranhamente nostálgico percorreu seu corpo. Não! Kaiser não existia mais… Aquela projeção de Osamu, o remorso, abandono, comparações, aquele Arquétipo dos demônios internos de Ichijouji Ken, foi expurgado e purificado.

Ken? Piscou abrupta, sofrendo um solavanco da realidade que a aguardava em algum canto daquele local. Encorajou-se e encontrou as escadas dirigindo-se até a sala do primeiro andar.

Apressada, passou pela sala em meio a fantasmas do tempo em que esteve alí, fazendo sua cabeça doer e as vertigens lhe atingir. Determinada, ignorou o incomodo e subiu as escadas que levavam ao segundo andar, percorrendo o pequeno corredor e abrindo a porta repentinamente.

Ofegante, precisou de um tempo para recuperar o folego. Observou como em câmera lenta o rapaz que jazia de pé frente as janelas observando a chuva que caia lá fora; cabelos presos em um curto rabo-de-cavalo, moletom verde-militar, mãos enfiadas nos bolsos.

Ken virou o rosto pálido em um movimento letárgico, a face ainda apresentava sutis marcas do confronto em batalha, as olheiras mostravam que suas noites de sono também não vinham sendo das melhores.

Encararam-se por um momento, enquanto uma rajada de vento entrou furiosa pelo ambiente, alvoroçando cabelos e cortinas e assobiando agourenta e as luzes tremeluziram enquanto os olhares permaneciam cativos.

Nenhum deles se moveu por um tempo, parecendo esperar que o outro desse o primeiro passo, proferiu a primeira palavra. Ken sabia que precisava se desculpar, mas as falhas eram muitas e as justificativas quase inexistentes.

Inoue quebrou a distância em passadas decididas, franziu o cenho, semicerrou os olhos e uma ruidosa bofetada sonoriza-se pelo ambiente. Ichijouji baixou o olhar sem esboçar reação. Isso era mais do que esperado, ainda era pouco diante do que ele realmente julgava merecer.

— O que você pensa que eu sou? Como se atreve a me deixar na geladeira depois de tudo? Se tenho atualizações a seu respeito é por meio dos seus pais. Eu não tenho dormido, não tenho comido.

As emoções de Ken congelaram, a culpa perfurou seu peito como flechas de gelo. A verdade era que Kaiser ainda que insano, ainda que um personagem criado para protegê-lo de suas fraquezas, lhe fazia imensa falta e aquela pessoa diante de Inoue estava profundamente quebrada, defasada, precisando reaprender a caminhar.

— Eu continuo a só te causar problemas…— murmurou o guardião da Bondade, com a voz desprovida de emoções, feito um fantasma, recebendo outra bofetada furiosa na face oposta.

— NÃO SEJA VITIMISTA! EU NÃO VOU ADMITIR ESSE TIPO DE DISCURSO A ESSA ALTURA! VOCÊ CAUSOU E AINDA CAUSA PROBLEMAS, MAS EU NÃO QUERO A CONFIRMAÇÃO DISSO, QUERO A SOLUÇÃO!

Ele arregalou os olhos e deu um passo para trás com o choque da frase da moça furiosa, mas Inoue o segurou pela gola do moletom, não permitindo que se afastasse.

— Eu odeio estar passando por tudo isso, ver meus amigos me olhando com pena e meus pais pensando que eu sou uma droga de uma dependente emocional, idiota.

Ken abriu a boca sem saber o que responder, a face dolorida e a carranca assustadora e transtornada da garota a sua frente deixava sua mente ainda mais conflituosa e anuviada.

— Diz alguma cisa.—pediu sentida—NÃO ME OLHA COM ESSA APATIA!

— Eu… eu sinto muito. — Sussurrou intimidado não pela ira da violácea, mas por sentir o quão pouco isso poderia significar.

— ISSO É TUDO? — Vociferou encolerizada, esperando bem mais que aquelas simples palavras. — Pelo que você sente muito?

— Por tudo, desde o começo.— ciciou desencorajado.

— Por tudo? Então eu devo entender que você sente por tudo o que aconteceu entre nós também? — a voz baixou, as mãos soltaram a gola do moletom do rapaz.

Ken baixou o olhar, ela o odiaria certamente, mas cada dia doeria menos e ela era forte e poderia se recuperar. Quanto a ele, havia muita sujeira para limpar, contas com a justiça, com a sociedade e com o Mundo Digital, além disso, ela já lhe oferecera apoio antes e ele se levantou contra ela, não poderia exigir isso agora.

— Então eu devo concluir que você fez uma escolha e que ela não me inclui? Agora que se libertou de Kaiser, quer lutar as próprias batalhas sem depender de ninguém?

Ele voltou o corpo para a janela e espalmou as mãos contra a vidraça fria, suspirou embaçando-a e limando-a com a palma.

— O poder das trevas é deplorável, e não é que eu o queira de volta, mas quero que você saiba que sem ele talvez eu seja menos da metade do que era antes. Sinto menos força, menos inteligência e confiança… — confessou mirando sua imagem na vidraça, notando sua debilidade.

— Bem-vindo a mais um dia normal como um ser humano falho e imperfeito.— ironizou amarga e engasgada, não poderia crer que depois de tudo estava sendo descartada.

— Eu sei. Acho que quero aprender um dia de cada vez a caminhar com minhas próprias pernas, reconhecendo minhas fraquezas e imperfeições a aprendendo a lidar com elas.— não virou para encará-la e pelo reflexo a viu cerrar os punhos, indignada.

— Espero que saiba o que está fazendo, pois não vou aceitar desculpas de emocional abalado, porque eu também estou com a droga do emocional abalado e não estou sendo idiota. Quero que saiba que seu eu cruzar aquela porta não haverá outra oportunidade para nós.

— Eu sei… Eu só quero o que for melhor para você. Como eu poderia pedir que esqueça tudo o que lhe fiz e fique do meu lado?

— ISSO QUE VOCÊ ESTÁ DIZENDO É UMA TREMENDA DE UMA BURRICE! — Sem raciocinar, Miyako andou até um jarro sobre o criado-mudo e o arremessou contra Ichijouji que desviou por pouco e a encarou horrorizado.— DANE-SE, SE VOCÊ ACREDITA MESMO QUE DEPOIS DE TUDO EU AINDA PRECISO SER PRESERVADA DE QUALQUER MERDA!

Era só a Miyako sendo a Miyako e quebrando tudo, gritando até ficar rouca e extravasando toda dor, revolta e ira. Ken apenas a observou destruir todo ambiente, era o mínimo que podia fazer por ela e nem poderia julgá-la.

— Então é isso? Eu vou embora e te deixar com sua merda de recomeço, foda-se você e sua caminhada com as próprias pernas.— proferiu entre lágrimas, cambaleando exausta de tudo o que quebrou e esgoelou. — Eu só queria que você precisasse de mim…— confessou chorosa num tom quase infantil. — Como eu preciso de você.— concluiu baixinho, mais para si.

E no fim, ela já tinha desabafado mesmo e não tinha mais nada para fazer alí. Como ela mesmo havia salientado, não queria ser uma dependente emocional idiota. Era o recomeço dele, a escolha dele e não havia mais nada a se fazer a não ser aceitar.

Girou nos calcanhares sem vontade de encará-lo uma última vez. Depois de toda agitação, somente o som forte da chuva acompanhado por alguns raios e trovões podia ser ouvido.

Descartada, descartada, descartada… A única palavra que ecoava dolorosamente em sua mente e amargava seu âmago. E não que ela fosse narcisista e tivesse problemas em ganhar um fora, mas era a situação deles, após toda trajetória que tiveram…

Estava derrotada e nem se lembrava do que disse a ele ha pouco, que se passasse por aquela porta não haveria outra oportunidade para eles. E quando seu primeiro passo atravessou a soleira da porta, sentiu-se puxada para trás, envolvida por um abraço forte que quase a fez parar de respirar.

Ken repousou a fronte na curvatura entre o ombro e o pescoço da moça, possibilitando-a perceber a face encharcada de lágrimas, sussurrando para ela:

— Preciso de você.— confessou depois de tudo.

— Então? — soluçou ela, confusa.— Eu não entendo.

— É o que eu deveria fazer, era o certo; te libertar da bagunça que é a minha vida, minha mente… mas acho que não consigo ser tão nobre, depois de tudo acho que ainda existem traços fortes de Kaiser em mim.

— Seu idiota!—chorou ela uma vez mais. — Que se foda essa porra de nobreza, de que o verdadeiro amor liberta. As coisas entre nós nunca foram politicamente corretas, por que deveriam começar agora?

— E se eu não souber te explicar o porquê me deixei enganar pelas trevas e não cumpri o que combinamos? Se a minha mente foi revirada e remexida o suficiente para não ter as respostas que você procura?— desabafou enfim o que tanto o preocupava e os soluços de seu pranto se intensificaram.

— Eu vou entender porque convivi contigo e vi o poder das trevas agir, com meus próprios olhos. É verdade que tenho muitas perguntas, mas talvez possamos descobrir as respostas juntos.

— Eu não queria ter colocado sua vida em risco naquela armadilha no porto, não queria ter chicoteado seu rosto. Eu deveria ter sido mais forte, deveria ter vindo para o mundo real contigo naquele dia, eu… — ele já não tinha palavras, apenas lágrimas.

— Eu sei, eu sei… Está tudo bem agora. Estamos vivos e podemos recomeçar!— Ela se desenrolou do abraço se virando para encará-lo novamente, colando as frontes, refletiu sobre como a batalha deixou danos físicos e emocionais e sobre como estavam cansados.

Abraçaram-se forte, enquanto os trovões ressoavam lá fora, as luzes piscaram e se apagaram e permaneceram apenas iluminados pelos raios que reluziam em tons de violeta pelo quarto devastado. A chuva lavava a terra renovando-a para um novo dia e talvez as lágrimas fizessem o mesmo por seus corações.