POV Miyako

Abro meus olhos lentamente, é como se eu estivesse despertando do vazio profundo, a iluminação me incomoda então massageio as pálpebras e vou tentando me acostumar com a claridade. Estou em uma cama macia, perfumada, mas onde? Será um sonho? Puxo as memórias do que me aconteceu antes, mas não consigo me lembrar de nada.

Movo meu corpo, procurando despertá-lo; minhas mãos sentem o tecido suave dos lençóis, o toque é prazeroso, me estico e me espreguiço algumas vezes e me descubro, sentindo a corrente de vento fresco, acariciar minha pele, a sensação me faz suspirar… Hm, cheiro de relva fresca, de amanhecer!

Sento-me na cama e observo o local a minha volta; um quarto simples com chão e móveis de madeira, cortinas brancas e uma porta que parece levar a uma sacada. Me sinto curiosa, mesmo sem meus óculos, posso notar que lá fora a paisagem parece ser linda.

Coloco os pés no chão e levanto sentindo um pouco de tontura. Encontro meus óculos sobre o criado mudo e os coloco de imediato; posso ver bem melhor onde estou, me traz uma sensação reconfortante e até nostálgica, mas não sei dizer o motivo e não quero me perder pensando nisso agora, apenas sigo em direção a varanda e apoio as mãos no beiral de madeira, ficando maravilhada com a beleza do local: Lindas montanhas, pinheiros altos, árvores com copas fartas e muitas fruteiras, ao longe um campo dos mais variados tipos de flores. Como pode haver um lugar tão lindo?

Me distraio enquanto sinto a brisa, simplesmente parece que todos os meus problemas desapareceram, talvez eu esteja no paraíso, talvez seja um sonho. Sim, pode ser um mero sonho, mas o cheiro e a brisa faz com que tudo pareça tão real… Eu só queria estar lá embaixo correndo livre, imagino que, como é um sonho, se eu mentalizar e desejar, posso aparecer lá, mas nada acontece então decido voltar para o quarto.

Entro no local e observo todo o ambiente, encontro pantufas que são do tamanho dos meus pé, pousadas próximas a beira da cama, às calço. Duas portas me chamam a atenção, diferente da que leva até a sacada, que são de madeira e vidro, essas são apenas de madeira, na mesma cor do piso, uma delas está semi aberta e noto que leva a um banheiro no qual resolvo entrar.

Agora as coisas estão mais longe de parecerem um mero sonho, se for, é no mínimo o sonho mais detalhado que já tive. Olho para o suporte de toalhas e encontro minha toalha lilás de unicórnio, ao lado de uma branca, reviro os olhos sem entender nada. Abro o armário e encontro minha escova de dentes, dou de ombros e coloco o creme dental, fazendo minha higiene matinal.

Continuo sem fazer idéia de onde estou, sei que deve ter a ver com o louco do Kaiser, eu quero fazer xixi, mas tenho medo de ter alguma câmera por aqui, so que… A vontade é muito maior e acabo sendo vencida. Imagine só que vergonha se Kaiser estiver sentado em sua cadeira me vendo fazer xixi, bem ao menos é xixi e se fosse o número dois, credo! Que pensamento horrível, acho que ele ia desligar a tela, sei lá o que se passaria na cabeça doentia dele. Gente, eu estou louca, com medo de fazer xixi e ser vigiada, Kami, em que ponto chegamos?

Saio do banheiro após toda higiene e deixo o quarto em seguida, dando de frente com um corredor; logo à frente de onde sai havia outra porta, mas essa estava fechada. No final do local se localizava mais uma porta, essa eu pude abrir e vi que era um banheiro social, simples e bem arrumado.

Rumei até a outra extremidade do corredor e me deparei com escadarias de madeira; comecei a descer os degraus e um aroma delicioso de chá de hortelã veio ao meu encontro, também havia cheiro de… bolo de banana? Eu adoro bananas, pena ser tão difícil de encontrar. Só com esse cheiro o meu estômago ronca alto.

Paro de imediato, as lembranças começam a fervilhar com flash em minha mente. Me vejo descendo as escadarias correndo, usando um vestido azul claro, largo e longo, até abaixo dos joelhos, sendo seguida por Hawkmon que me pede para ir devagar, parecíamos tão felizes… Como crianças.

Começo a descer lentamente, deslizando a mão pelo corrimão, olhando cada detalhe daquele local; o lustre antigo, o sofá de couro preto, o tapete indiano no chão, a mesinha de centro de vidro e laterais de madeira, uma televisão, a porta que leva para fora estava aberta e quando cheguei ao final, olhei para o outro ângulo e encontrei uma cozinha americana, com a mesa posta.

Fiquei evidentemente confusa, parada ali sem saber para onde ir; aquilo me deu uma vontade de chorar, parecia tão nostálgico e me doeu o peito, apertou forte. Sinto como se estivesse enlouquecendo, talvez esteja. Levo a mão sobre o peito como se pudesse remover a dor, o aperto, mas não funciona e as lágrimas rolam sem permissão.

Ando cautelosa, tonta, corro os dedos pelo encosto do sofá. Tenho lembranças de já ter me divertido muito nesse local, era como se eu tivesse vivido uma vida paralela a minha e agora ambas se colidem. Continuei andando pelo local e peguei um pendrive com a forma da Millenium Falcon, ele era meu, andei até a TV e a liguei conectando o aparelho, uma lista das minhas músicas preferidas apareceram e eu escolhi algumas e coloquei para reproduzir.

Assim que a música se iniciou chamou a atenção de quem estava na cozinha. Ah meu Kami, não sei dizer se essa visão é bizarra, louca, assustadora ou… Ken surgiu próximo a bancada. Ok, eu já esperava por ele ali, mas não com os cabelos presos em um rabo de cavalo, parecendo o Shikamaru do Naruto, ou mesmo um lutador de sumô, vestia uma camisa vinho de mangas longas e uma calça preta folgada, estava de avental e luvas de cozinha. Não, vocês não leram errado, desconstruiu completamente seu magnífico cosplay de Digimon Kaiser, oh eu só uso coturno e sobretudo porque sou assustador!

— Então acordou? — deu um meio sorriso.

— Não, estou dormindo ainda. — não resisti a provocar.

— Hm! Tanto mau humor deve ser fome, venha tomar o café da manhã. — deu a volta tirando as luvas, colocando sobre a bancada e me puxando para a cozinha.

Olhei seu visual detalhadamente e não aguentei, começando a gargalhar.

— O que aconteceu com você? Onde está o lucky Game Of Thrones? Ou melhor Gellal Hernandes? — perguntei entre risos e parece que o deixei sem graça.

— Bem, está um dia muito quente e… Sobretudo, luvas e essas coisa não ficam bem na cozinha.

— Você não fica bem na cozinha, isso é bizarro.

— Então você gosta das roupas que uso na base? Pensei que as julgasse ridículas.

— E são, ou eram… Creio que me habituei a te ver só daquela forma e de uniforme desde que começamos… — me perdi no que dizer sobre o que seja essa relação que temos. — Tudo isso.

— Se você preferir. — ele mexe em seu bracelete e logo surge com as configurações de cabelo e trajes habituais. — Assim está melhor?

— Não! — balanço a cabeça negativamente. — Não mesmo, o dia está quente mesmo, pode voltar ao que estava.— sorrio meio constrangida e ele volta ao visual de antes.

Me puxa pela mão e me leva para a mesa, estou tão perdida com isso tudo que o acompanho e deixo que ele me siva. Oi LICENÇA? É isso mesmo produção? Kaiser está mesmo vestido dessa forma e me servindo?

— Você vai adorar esse bolo de banana. Usei duas bananas, farinha de aveia, dois ovos, passas, mel para adoçar, um pouco de fermento em pó. Não leva leite, manteiga, nem óleo, é totalmente saudável e fica uma delícia!

— Você quem criou a receita?

— Não, peguei na internet, por sua causa. Sei que não gosta de comer só frutas e eu me recuso a te entupir de doces.

— Melhor não se meter no meu relacionamento com os doces, isso é declarar guerra.

— Não, eu não vou. Só estou dando alternativas mais saudáveis, já ouviu falar de sucralose?

— Você está parecendo…

— Uma youtuber, blogueira, fitness, dessas que ensinam a fazer potinhos de salada para durar a semana toda. — falamos em uníssono e isso é estranho demais.

— Você tem me dito isso todas as vezes que falamos sobre comida.— disse como se justificasse o fato de saber o que eu ia dizer.

Anui com a cabeça e degustei o bolo, e… Uau! Era mesmo muito bom! Natural e bom. Como eu já disse algumas vezes, eu odeio café da manhã tradicional aqui do Japão, julgo o fim ser obrigada a comer arroz, peixe e salada quando acordo, gosto mesmo de costumes de outros países, a questão era… Não é a primeira vez que ele me serve o café, o pior é que eu gosto disso, esse cuidado, esse momento de dedicação. Não sei se é boa idéia eu gostar disso.

Ele me observa comer, sentado à minha frente com o cotovelo apoiado sobre a mesa e o rosto levemente inclinado sobre sua palma, com um meio sorriso, como se me analisasse. Eu não posso pensar que isso seja fofo, não faz nenhum sentido, devo ter em mente que ele é um louco, um inimigo, isso devo me lembrar a todo momento de que ele é meu inimigo e adora jogar comigo, talvez isso tudo faça parte de mais um de seus jogos.

— O que está acontecendo aqui? — paro de comer e pergunto por fim.

— Bom… Você está comendo um bolo e tomando chá e eu estou te olhando. — da de ombros como quem explicou o óbvio.

— Não pode ser apenas isso. Qual é o jogo? O que você tem em mente para me magoar dessa vez ? — questiono desviando o olhar.

— Não tenho nada em mente pra te magoar, eu costumo cuidar bem das minhas coisas e você é minha agora. Pare de ser repetitiva, eu sei que fui mau com você, mas isso mudou, acabou, agora eu só quero cuidar bem de você. — pegou a minha mão esfregando-a em sua face e beijando-a.

Um momento de silêncio se fez, uma brisa soprou entre nós fazendo um suave assobio, era o período em que uma música termina e outra começa a ser reproduzida. Por um momento eu me deixo levar pela beleza do local, do momento, do rapaz a minha frente. Sou uma idiota por estar me deixando levar assim, sei o quanto ele é bipolar, quer cuidar bem de mim? Sei, para amanhã me fazer sangrar, me humilhar de alguma forma.

Oh Kami! Não sei se posso mais suportar isso, quantas faces Kaiser pode ter e porque tem que ser eu a ser vítima de todas elas? As imagens de suas gargalhadas psicóticas enquanto faz alguém sofrer, seus planos doentios se misturam com as cenas do dia de sua derrota para os meus amigos; aquela aura púrpura, os olhos… parecia completamente possuído por algo, mas o que? Talvez seja coisa da minha cabeça, talvez eu esteja inventando motivos para justificar os comportamentos maníacos dele.

— Então, eu acho que minhas histórias já não te parecem tão ridículas? Quero dizer, olha só pra você. — provoco em tom de deboche, somente para ver sua reação.

— Ainda são bem ridículas.— dá um risinho se servindo de um pouco de chá.

— Não tem muita diferença do que está acontecendo aqui agora.

— Eu estou ciente disso. — mexe com a colherzinha na xícara. — Mas é um ridículo que eu quero viver, eu escolhi passar por isso, perder meu tempo dessa maneira, então faça valer apena.

— Você não faz sentido nenhum. — murmuro incrédula com a brandura de sua resposta.

— E você faz? A vida faz? A existência do universo, faz?

Fico sem resposta, no momento eu não faço sentido nenhum, nada faz ou tem feito, então me calo, encolho-me na minha cadeira, bebo meu chá, duas xícaras mais e noto que Kaiser tem em seu rosto um olhar vitorioso.

O que pensar sobre tudo isso? Eu realmente não sei; o fato é que esse local tem um forte poder sobre mim, continuo a comer enquanto tento puxar as muitas memórias que querem surgir. Para mim está claro que foi aqui que ficamos enquanto eu não estava bem, certamente as memórias são dessa época, meu Kami! O pior de tudo é o sentimento de saudades. Como eu posso me sentir assim?

Balanço a cabeça negativamente e me levanto da cadeira o fazendo repetir o ato.

— Não! Por favor, me deixe, eu preciso de um tempo sozinha. — ele me olha com ar de quem iria protestar, mas o impesso. — Eu estou implorando, esse lugar mexe muito comigo, me deixe respirar e colocar as idéias no lugar, deixe-me sozinha por um tempo, eu preciso muito ou vou enlouquecer. — rogo com fervor e ele parece entender e torna a se sentar, gesticulando para que eu saia.

Lhe dou as costas e saio da cozinha, passando pela sala e saindo pela porta. Na varanda havia uma mesa redonda de madeira com um notebook ligado e três cadeiras normais, uma de balanço, paro observando o local e as lembranças me alcançam…

Lembro-me de estar sentada no colo de Kaiser, naquela cadeira de balanços, trocando beijos tão ardentes que mesmo só em recordar já deixam meu corpo em chamas; fico zangada com as lembranças e troco as pantufas pelos meus chinelos, que estavam na porta, saindo correndo pelo caminho de pedras arredondadas, mesmo um tanto desorientada.

O dia está quente, mas a brisa está fresca e sopra o perfume das variadas flores e ervas desconhecidas; meu peito se aperta ainda mais, esse perfume de nostalgia mexe demais com meus sentidos. Eu disse que queria ficar sozinha, mas não é exatamente possível, pois para cada lado que eu olhe as lembranças surgem para me assombrar.

Paro perto de uma grande árvore de tronco robusto, encontro um balanço de madeira e suspenso por correntes que se prendem a um galho forte; me sento a fim de colocar as idéias no lugar, mas… Fico girando e enrolando as correntes para sentido horário e anti horário, lentamente vendo a paisagem rodopiando a minha volta. Não tenho palavras para definir o quão confusa eu sou agora.

Kaiser me prendeu em seu labirinto de insanidade e agora sou como ele, estamos tão próximos, sabemos tanto um do outro e passamos por tantas coisas… Juntos? Eu me sinto tão tola e impotente diante disso tudo… Tão incapaz… Tão diferente do que eu era há meses atrás. Sou uma boneca para ele, penso em milhares de ofensas e formas de agredi-lo, quem sabe até magoá-lo, mas nada nunca funciona e eu só consigo voltar a pensar naqueles beijos… Tão incapaz…

Fico girando por tempos, olho para o céu, às vezes para o gramado, escorrego as solas dos pés pela relva fresca, a sinto fazendo cócegas em um contato prazeroso. As minhas lágrimas se tornam um sorriso quando me lembro de certos momentos, meu rosto se aquece ao me lembrar de suas expressões em determinados momentos. Eu só não sei o que pensar e quando me dou conta estou devaneando com seus dedos correndo pela minha pele, sua boca beijando-me o pescoço e sua voz rouca falando ao meu ouvido…

O balanço para bruscamente me causando saltar para fora dele, ficando um pouco tonta, sendo amparada por quem o parou.

— Eu te pedi um tempo. — sussurro zonza pela proximidade.

— Você teve quatro horas, não foi o bastante? — questiona debochado e eu fico incrédula.

— Não pode ser verdade!

— É verdade, vim te buscar para o almoço. — sorri de canto, suas mãos ainda estão em volta da minha cintura, mas a solta lentamente e a direita enlaça a minha, puxando-me consigo.

Do percurso do balanço até a casa, foco nas nossas mãos unidas; me lembro da manhã fria e chuvosa em que ele a segurou pela primeira vez, o quão triste e doloroso foi aquele momento, então me lembro das várias outras vezes, na escola, na base, aqui e cada vez a sensação era diferente, me pergunto quando foi que deixou de ser deprimente e assustador para ser tão agradável? Será mesmo não ser certo me sentir dessa forma?

Ele me leva para dentro, na porta trocamos nossos calçados pelas pantufas e passamos pela sala; as músicas que coloquei para reproduzir, agora estão em um volume bem baixo. Eu me desligo da razão, certo ou errado, pois estou me martirizando e me punindo sem chegar a lugar algum, apenas me deixo levar, lavo as mãos e me sento à mesa, a refeição está com uma aparência e um aroma muito sedutor, aviso com um gesto que eu mesma me serviria, e ele se senta em sua cadeira.

— Sempre tive curiosidade sobre como a comida é feita neste mundo.

— Oras, como assim?

— Sobre algumas coisas que usam ovos, leite e carne, mesmo alguns grãos derivados do mundo real.

— Na verdade aqui tem tudo isso. Fica em silêncio e me diga o que você ouve.

Fiquei em silêncio por um minuto e ouvi o canto dos pássaros. Pássaros? Aqui tem pássaros?

— Isso não é possível! Nas minhas pesquisas com Koushiro-kun nunca…

— Suas pesquisas falharam, existem fauna aqui, peixes, pássaros e outros animais, existem plantas e frutas que existem no nosso mundo.

— Então esse mundo é uma cópia fiel do nosso, mas sem seres humanos?

— Não sei dizer ainda, qual dos mundo é realmente a cópia, mas um dia eu vou descobrir, talvez possamos descobrir juntos. — ele coloca sua mão sobre a minha e me olha nos olhos, penso em me livrar do toque, mas estou curiosa para saber o que vem depois, além disso é muito raro estabelecermos um diálogo que não seja uma briga.— Sei que vai ficar encantada com minhas pesquisas tecnológicas e biotecnológicas, tenho mais recursos do que você já viu em toda sua vida, além disso já vi como você namora meus computadores.

— Não posso negar, nunca vi nada como o que você tem na base. Os processadores, placa de video, mesmo o designer das máquinas deixam a Apple no chão.— deixo escapar minha animação com a tecnologia apresentada na base.

— Imagine daqui a alguns anos, porque ainda somos jovens diantes de um mundo novo repleto de grandes possibilidades.

Dessa vez eu retiro minha mão e me levanto, já havia terminado a refeição e aquela conversa estava indo para um rumo que não me agradava em nada.

— Vou escovar os dentes. — anuncio seca, saindo apressada, passando pela sala e subindo as escadas.

Faço minha higiene dental e volto para o quarto, sentando-me sobre a cama. Como ele pode pensar em me comprar, ok que em matéria de ser louca por tecnologia, sou pior que a Felicity Smoak mas isso não pode me comprar, nada que ele faça, pode.

Jogo minhas costas contra a cama e fito o teto, prendendo-me em meus pensamentos, mas não tão alheia para não perceber sua entrada no quarto e quando se encaminha para o baheiro. Fecho os olhos tentando manter a mente ao menos limpa, livre de preocupações e conflitos. Desperto sentindo seus lábios sendo pressionados contra os meus, suavemente, sinto a refrescância do creme dental. Me sento atordoada arrancando risos dele.

— O que você está fazendo? — questiono ofendida.

— Não pensei que isso fosse novidade, já estivemos em momentos bem mais intensos. — rebateu debochadamente e senti meu rosto esquentando na hora.

— Eu… Eu… — bufo sem saber o que responder, me levanto e saio para fora do quarto.

Corro para o primeiro andar e de lá disparo para longe da casa. Não tem mesmo como fugir não é? Não tem como lutar! Corro pelo bosque e enveredo por entre as árvores, corro até me cansar e minhas pernas não aguentarem mais. Não faz sentido, não pode fazer, não faz…

Novamente eu faço o que mais tenho feito, me sento sobre as raízes de uma árvore, apoiando minhas costas contra a mesma e choro. Até quando vou ficar assim? Não sei, mas as coisas que sinto perto dele me fazem sentir tão estúpida, a pior pessoa do mundo. Sem me dar conta eu escorrego para as folhas secas que formam um espesso tapete no chão e me deito, encolhendo-me em posição fetal e abraçando a mim mesma. Penso em todos os meus amigos, no meu parceiro, em Koushiro-kun, relembro todas as atrocidades que Kaiser fez a eles e a este mundo.

Choro por horas, no fundo espero que ele venha me procurar, mas isso não acontece, quando sinto meu corpo dormente por estar por muito tempo na mesma posição, começo a me mover lentamente e me levanto, meus cabelos estão armados e cheios de folhas, a camisola que estou usando ficou sujo de terra.

Ando de volta para o caminho que fiz e chego a beira de um lago, ao contrário de hoje cedo, agora não tem brisa soprando e a água se tornou um espelho parado o qual eu me inclino para olhar meu reflexo; estou péssima e furiosa, mas afinal eu pedi que ele me deixasse em paz, então porque estou furiosa por ele não ter vindo atrás de mim?

Observo a camisola que estou usando, é clara, de alças finas e curta na altura das coxas, então algo me chama atenção, como se fosse um colar, mas eu não estou usando colar! Deslizo os dedos pelo meu colo entre os seios e olho ficando incrédula com o que encontro. Uma enxurrada de memórias me abate, nosso acordo, a bomba implantada em Hawkmon, a quimera, e o que ele fez comigo naquele laboratório horrível, me marcando como seu eu fosse sua propriedade, cerro os punhos furiosa e marcho de volta para casa.

Entro na casa e subo as escadas correndo me direcionando ao quarto, quando abro a porta o encontro deitado sobre a cama mexendo em seu notebook, seu olhar vem em minha direção.

— O que aconteceu com você? Está péssima.

— O que aconteceu comigo? Ichijouji Ken, como pode fazer isso comigo? — coloco a mão sobre a marca que ele me fez. — Isso é tortura, que tipo de lunático é você? Me fere, me marca, me assusta e depois me trás pra um lugar lindo, cozinha para mim, tenta me comprar com sua tecnologia avançada…

— Está furiosa com essa marquinha? Isso foi como fazer uma tatuagem, as pessoas fazem tatuagens todos os dias no mundo e ninguém denomina os tatuadores de torturadores.— se senta me encarando e falando naturalmente.

— Isso porque as pessoas que fazem tatuagens escolhem sentir essa dor e ter uma marca eterna em seu corpo, mas eu não escolhi.

— Ah, escolheu sim, além disso meu trabalho foi muito mais bem feito do que a de um tatuador, tanto que você só sentiu dor na hora, hoje quando acordou nem se lembrava mais.

— Porque eu desmaiei ontem, seu psicopata, de dor, de medo, de horror e hoje quando acordei eu estava confusa, porque é só isso que você sabe fazer, me confundir, brincar com a minha mente.

— Olha, você está bem, na verdade está ótima, sentir aquela dor foi necessário, mas já passou, foi apenas o selo do nosso contrato, a prova definitiva de que você vai ficar comigo pra sempre.

— A prova definitiva? É o meu corpo! Ele está com uma marca eterna, que não permiti e você diz não ser nada demais?

— Não pensei que ficaria tão zangada.— levantou-se colocando o notebook sobre o criado mudo e caminhando até mim, me fazendo afastar até bater as costas contra a parede. — Além disso, está em um local tão discreto, quem além de mim poderá ver? — esticou uma mão deslizando seus dedos pelo meu colo, contornando a marca.

— Não encosta em mim. — segurei sua mão com firmeza o olhando severamente.— Sua loucura não tem limites.

— Vai estragar nosso dia brigando por pouca coisa.— Kaiser tenta acariciar meu rosto, mas bato em sua mão.

— Como você pode ignorar as implicações dos seus atos? Meu corpo está marcado como uma propriedade sua, contra a minha vontade, e… Estragar o dia? Você passou o dia todo tentando brincar de príncipe encantado, forçando um gentileza que não possui, uma falsa doçura e um afeto… Seja lá o que você está tentando fazer aqui, isso não é para você, porque você não tem sensibilidade nenhuma, não tem coração!

Deslizo para longe dele e entro no banheiro. Fecho a porta e jogo as costas contra ela, me deixando afundar no chão, enquanto as lágrimas escorrem. Como pode existir uma pessoa assim? Ele parece não enxergar o peso de suas ações, não sabe respeitar as vontades dos outros. O pior é eu ver toda essa loucura bem diante do meu nariz e ainda sim me sentir tão atraída por ele.

Me levanto e olho para o espelho em minha frente, estou péssima! Tiro os meus óculos e coloco sobre a pia, talvez o melhor seja tomar um banho para tirar essa terra e folhas secas dos meus cabelos, não sei se vou me sentir melhor depois disso, mas água sempre ajuda.

Ligo o chuveiro e tiro a camisola suja, deixando-a em um canto qualquer. Entro embaixo da ducha, apreciando o contato da água morna com a minha pele, sentindo meus músculos relaxarem. Ainda bem que aquele maluco ao menos se lembra de tudo e trouxe shampoo. Lavo os meus cabelos os deixando livres de terra e folhas, em seguida começo a me ensaboar.

Quase morro de susto quando sinto Ken abraçando-me pelas costas, apertando nossos corpos, me deixando congelada, sem reação alguma nem mesmo para brigar.

— Você tem razão...— sussurra em meu ouvido e eu me sinto derretendo em seus braços.

— Sobre? — respondo com voz entrecortada.

— Eu realmente não sei como fazer nada disso.

— Você colocou uma bomba no corpo do meu parceiro e depois marcou minha pele como se eu fosse uma coisa.— tento me soltar de seus braços, mas ele me aperta forte.

— Eu tive medo, foi isso. O que eu teria como garantia? Se a deixasse partir com seu parceiro, você nunca mais voltaria para mim. Miyako chega de me odiar, ou de tentar, chega.

— Não dá. Eu não posso… Você só faz coisas ruins e quando tenta fazer algo bom, faz tudo errado. Eu não sei lidar com esse “morde e assopra”

— Então me ensina.— sussurrou contra o meu ouvido.

— Como?

— Me ensina, Miyako, me mostra como você quer que as coisas sejam feitas e eu farei, farei como você quiser.

Parei de me debater, tentando processar as suas palavras que acabei de ouvir e ele girou meu corpo, fazendo-me ficar de frente para si. Não sei explicar, mas pude ver sinceridade em seus olhos, era como se toda aquela névoa tivesse se dissipado e o azul estivesse mais intenso e brilhante.

Minhas costas pressionadas contra o azulejo e seu corpo prensado ao meu, enquanto sua boca buscava a minha em um beijo faminto. Eu me deixei levar, desliguei minha mente do resto do mundo, de tudo e me permiti deleitar aquele momento, o envolvi com meus braços e apreciei o movimentar de nossas línguas e o esfregar dos nossos corpos, molhados, escorregadios pelo sabonete.

Eu só queria muito mais daquele contato, daquele momento. Eu estava deixando a minha razão de lado novamente? Provavelmente, mas aquela altura eu já não tinha mesmo como voltar atrás e apagar todos os nossos passos até aqui. Eu era fraca diante de tudo o que ele me faz sentir e lutar estava me levando a loucura e me despedaçando por dentro, sabia que minha consciência pesaria para sempre, mas não pude e não quis evitar, me rendi completamente.

Cada beijo era seguido de outro, havendo apenas uma breve pausa para respirarmos. Como sua boca pode ser tão deliciosa? Talvez por ser tão proibida. Eu apenas quero que ele me beije mais, que beije para sempre… Mesmo que o mundo desabe, nada mais importa neste momento, eu preciso que ele me beije.

Ficamos naquele contato enlouquecedor, as mãos passeando pelos corpos um do outro, as bocas perdidas em beijos sôfregos, compartilhando gemidos, sensações… Ambos desesperados por mais e mais proximidade, mas desfrutando ao máximo a que temos no momento. Não deveria parecer tão incrível, tão delicioso, tão mágico, mas essa tarde laranja, rosada, o som da água caindo, misto aos nosso gemidos e palavras soltas… Kami! Eu o quero demais… Demais… Não deveria ser tão gostoso assim.

Ele liberta meus lábios e segue com sua boca pela minha bochecha encontrando minha orelha, mordiscando-lhe o lobolo.

— Eu quero você. — suas mãos contornam minha cintura e se afundam no recheio do meu bumbum, pressionando nossas pélvis, me fazendo sentir sua ereção pulsante. — Não há nada que possa nos interromper agora.

— Oh meu Kami! — arfo enlouquecida de desejo, sentindo a ardência em meu baixo ventre, uma queimação no púbis, minhas unhas se cravaram na carne de suas costas. — Eu quero, quero ser sua, por mais insensato que seja, eu quero muito, nunca quis tanto algo assim em toda minha vida.— declaro embriagada pela luxúria do momento.

Ken toma meus lábios mais uma vez, sua mão vai para a torneira a desligando, em seguida ele puxa uma das toalha, a qual usa para nos secar ligeiramente, torcendo meus cabelos, os secando. Me divirto com a forma apressada com que ele age, é diferente de seu comportamento habitual.

Eu sei o que vai acontecer agora entre nós, não há nada que possa nos impedir, tanto que ele desliga o comunicador que está sobre a pia, ao lado do meus óculos e me olha de uma forma ‘ansiosa”, veste o roupão e envolve a toalha em meu corpo, parece tão nervoso quanto eu.

Me assusto quando ele me pega no colo, não consigo deixar de rir, parece muito bobo, mas fofo. Saímos do banheiro e a tarde já coloriu todo ambiente de cor-de-rosa, eu estava bem convicta do que queria, sentido ainda não fazia, mas eu desisti de dar ou procurar um para tudo isso, eu apenas quero, não preciso ver motivos em querer.

Ele me coloca sobre a cama macia, e prontamente me beija torridamente, correspondo à altura, sinto seu corpo pesando sobre o meu, suas mãos arrancando a toalha que me cobre, as minhas puxando o laço de seu roupão e o retirando, nossos corpos entram em contato novamente e é como se uma corrente elétrica passasse por eles.

Envolvo minhas pernas em torno do seu quadril, deixo que as minhas mãos deslizem deliberadamente, por suas costas apertando seu traseiro friccionando nossos sexos, que já se derramam em libido, recebo um gemido arrastado contra minha boca, acabo retribuindo com outro.

Rolamos pela cama, as bocas se saboreando, as mãos se explorando, a louca busca por uma posição que nos permita aproveitar mais e mais um do outro, os pés e pernas se esfregando ansiosamente, sinto sua boca abandonar a minha e percorrer pelo meu rosto, sua respiração quente, ofegante, contra minha orelha e pescoço, os lábios deslizando por meu colo, chegando ao recheio dos meus seios, os mordiscando, me fazendo arfar.

Uma de minhas mãos corre para os seus cabelos úmidos, se enlaçando com força, forço minha pélvis de encontro a sua e giro meus quadris o provocando, de forma que sinto sua glande se atritando e escorregando pelos lábios íntimos, o fazendo gemer entre os meus seio e em seguida tomar um em sua boca e me torturar o sugando deliciosamente.

Deixo escapar um gemido escandaloso, mas não posso me conter, senti-lo sugando meu seio dessa forma, gemendo com a boca cheia, me deixa enlouquecida, eu preciso de mais, eu preciso de muito mais. Porque? Porque ele é completamente louco e eu sou ainda mais louca, por ele.