Inimigos Íntimos
37 Cuidados Especiais
POV NARRADOR
Os âmbares de Miyako se mantiveram abertos por alguns minutos, ela tentava processar o misto de sensações e a insanidade do momento. Ichijouji Ken, não era só um egocêntrico, sádico, soberbo, lutando para atingir a grandeza suprema e moldar o mundo a seu bel prazer, não importasse os meios… Ichijou Ken, não era só aquela explosão de luxúria e ira, que lhe aquecia de ambas as formas, a fazendo por vezes querendo espancá-lo ou ser tomada selvagemente… Aquele garoto tinha um mar de mistérios dentro de si
Ela fechou seus olhos e se deixou mergulhar naquele beijo, submergir na insanidade da alma do gênio, já era tarde demais para dizer que não se deixará envolver, que estava amedrontada, comovida e curiosa. Já era tarde demais para ela; então também desligou sua mente e deu a ele o conforto que aquele beijo implorava, ali mesmo, naquela sala caótica, mal iluminada, manchada de carmim...
Os lábios foram separados, Miyako não se importou em estar suja, mas notara o quão sério eram graves os ferimentos das mãos do garoto.
— Precisamos cuidar disso...— aproximou seus dedos, mas sem tocar, com medo de causar dor.— Me deixe tirar isso...— tirou o bracelete e ele permaneceu sem reação, ela aproveitou para chamar um Guardromon e pedir que ele levasse Wormmon para “enfermaria”.
Ficou esperando que o gênio se zangasse, se opusesse, mas ele continuou sem esboçar nenhuma reação, então apenas o ajudou a se levantar e seguiu com ele pelos corredores mal iluminados da base, até chegar ao quarto dele.
— Minha irmã mais velha é enfermeira, me ensinou algumas coisas, acho que posso tratar suas mãos… Meu Kami! — suspirou correndo as mãos pelos cabelos, por mais que Kaiser estivesse quieto e silencioso aquilo a estava assustando, tudo o que vira a pouco a estava deixando confusa e amedrontada, afinal o que aquele garoto possuía dentro de si?
Inoue balançou a cabeça se livrando dos pensamentos e arrastou o genio para o banheiro, o sangue de suas mãos gotejando por onde ele passava, a princípio a garota pensou em lavar as feridas na pia, mas o garoto também estava com as roupas sujas.
— Ah, quer saber? Vá para o banho de uma vez. Vou limpar essa bagunça enquanto isso. — anunciou apontando para as gotas de sangue pelo chão, já ligando o chuveiro e se virando para sair e dar privacidade ao garoto que a segurou pelo pulso.
— Você também se sujou, toma um banho comigo? —sugeriu ele, em tom baixo, quase irreconhecível.
A garota abriu a boca algumas vezes, sem palavras para responder, o que a assustava era que; se viu ponderando se realmente deveria, mas repreendeu-se de pronto. — Oras, se já está pensando em besteiras é porque está melhor. Não tem chances disso acontecer, e...— o olhou severa, enquanto o mesmo já havia soltado seu pulso, começando a se despir. — Eu vou… Vou lá pra fora, limpar tudo e… E procurar algo para tratar isso.
Saiu rapidamente, fechando a porta atrás de si, jogando as costas contra a mesma e respirando profundamente, sua mente confusa sobre muitas questões. Deu de ombros e correu para a sala de material de limpeza, onde pegou o necessário para limpar a bagunça feita, em seguida correu a “enfermaria” para buscar algo que a ajudasse a tratar os ferimentos de Kaiser.
Quando o rapaz saiu do banho, Inoue já o aguardava tendo a seu alcance tudo o que usaria. Ele vestia um pijama azul claro, os cabelos molhados escorridos o fazia parecer uma criança e ela sorriu com o pensamento, o fazendo arquear as sobrancelhas.
— Senta aqui. — apontou ela, para a beira da cama, onde jazia uma pequena maleta com tudo o que usaria.Ken deu passos arrastados, com o olhar desconfiado, e sentou-se onde fora indicado. Com delicadeza Miyako, sentou-se a seu lado e tomou uma de suas mãos. — Tenho que olhar com cuidado para ver se não tem nenhum destroço pequeno dentro da carne. — ligou uma pequena lanterna, ajeitou os óculos e olhou atentamente. — Hm… Vamos limpar as ferida primeiro.— dizendo isso ela jogou o medicamento esterilizante, fazendo com que o gênio tirasse a mão abruptamente.
— AII QUE DESGRAÇA VOCÊ TÁ FAZENDO? — indagou furioso, soprando o local onde o remédio fora colocado.
— Oras, não seja desbocado, preciso desinfetar direitinho, que ter um tétano, uma inflamação grave?
— Ou morrer antes mesmo que isso ocorra, só com essa dor horrível? — protestou.
— Ah, sério? Não creio que o temível, Digimon Kaiser, está pegando pirraça por causa de um remédio bobo? — provocou o fazendo revirar os olhos. — Para de drama, me dá essa mão aqui.— puxou a mão dele de volta, recebendo uma expressão nada amigável, que não a intimidou.
A seu tempo, sem pressa e cuidadosa, Inoue usou lanterna, lupa e pinça para retirar alguns poucos destroços, estilhaços de vidros e etc… Sempre desinfetando e recebendo rosnados do ‘paciente’, imaginando que se ele fosse tratado por Digimons, mataria os coitados a cada vez que sentisse dor. Após finalizada os cuidados com cada uma das mãos, ela as enfaixou, dedo por dedo e punho até o pulso.Foi demorado e exaustivo, silencioso, tirando os resmungos do garoto.
— Porque está fazendo isso...— Kaiser perguntou em tom oscilante.
— Preferia que eu te deixasse sangrar até a morte? Não é da minha natureza.— respondeu concentrada em terminar de enfaichar.
— Tenho servos que podem fazer essa função. — apontou orgulhoso.
— Não… Não tem. Você tem Digimon que sabe tratar ferimentos de outros Digimon, mas não de humanos e sabe porque? — ele arqueou as sobrancelhas e ela prosseguiu. — Porque somos corpos estranhos neste mundo que não nos pertence, eles sabem tudo sobre anatomia uns dos outros, mas como poderiam saber sobre a nossa? Mesmo com informações, é diferente de um médico que tem onde praticar. Você pensa que sabe tudo, Ken, mas a verdade é que se você adoecer neste mundo, não há quem possa lhe salvar, dependendo da doença.— foi incisiva e o encarou.
Kaiser se viu sem respostas, nunca havia pensado por este lado, mas era um fato, ele poderia vir a adoecer algum dia, porque não? Não estava livre disso, infelizmente, o fato apontado por Inoue era completamente coerente.
— Isso não muda minha decisão, posso infiltrar Bakemons entre médicos, posso sequestrar um médico se um dia precisar…
— Pode, claro que pode, depois apagar a memória dele como fez com a minha, pode roubar medicamentos, pode fazer o que quiser? Deixa eu furar a sua bolha mylord, você não pode. A vida é cheia de imprevistos e você pode não estar no controle para sempre. Pode dar febre, pode delirar, não saber dar ordens aos seus escravos e eles não saberão o que fazer… Oh meu Kami! Você é tão imaturo, inconsequente, não fere só quem está a sua volta, machuca a si mesmo, não pensa direito e…
— Para...— exigiu com firmeza, mas sem levantar a voz e a garota parou em meio a fala. — Agora não.
— Agora não… Ken, tudo com você é assim. Você me deixa confusa, brava, preocupada e, não quer me ouvir, não quer falar. É que eu penso, que no fundo, nem você tem explicações para certas coisas e também está confuso, não é?
— Eu não sei… Só, não estou acostumado a alguém me perguntar tantas coisas, não estou acostumado a ter que dar explicações, então seja paciente, ok?
— Não é como se eu tivesse outra escolha, mesmo. — andou até o criado mudo pegando um copo e enchendo com água, abrindo o analgesico. — Tome. Vou tomar um banho e ir para casa. — avisou exausta.
Ken não protestou, os ferimentos estavam tratados, mas a dor o estava incomodando bastante, tomou o analgesico e se deitou. Sua mente estava confusa, mais que o normal, seu orgulho doía mais que as feridas que causara a si mesmo e os cuidados, as palavras severas de Inoue, trazendo a tona situações as quais ele nunca tinha ponderado.
Inoue… O que dizer da garota a qual ela subestimou tanto desde sempre? O confrontou e o controlou em um momento de total descontrole, ela se manteve lá, protegeu Wormmon, o trouxe de volta a realidade, quando tudo que ele via em sua frente era o tom púrpura do ódio… Soube mexer em seu bracelete, o que não lhe passou despercebido.
Quem era aquela garota? Nem parecia a mesma que um dia desmaiou com crise de pânico apenas em ter que segui-lo pela penumbra, ela tinha evoluído, se adaptado, agora andava pelos corredores mal iluminados, da base como quem andava em sua casa, sobretudo quem era ele diante dela? Ponderando suas idéias, buscando meio de lhe dar quaisquer tipo de explicação, coisa que não era acostumado a fazer não com seus pais, baixando a cabeça para suas broncas…
Enquanto se questionava, um misto de ódio por si mesmo o ia corroendo, a constatação de que não era tão brilhante quanto se julgara ser, pela derrota que tivera hoje, pelo fato de não se lembrar de sua terrível condição humana e por ela… Como a tinha levado para tão perto de si? Como fora se acostumar a sua presença, de tal forma que sua vontade era de não permitir que ela regressasse ao mundo humano?
Porque ela pensava em coisas que nunca antes lhe ocorrera, era um lado que faltava em si, era perfeita como sua rainha, mas ele sabia que nunca, Inoue, aceitaria a coroa, pois antes de tudo a garota se apegava ao fato de ser Digiescolhida e ter que lutar por aquele mundo. Droga de objetivos idiotas, porque raios ela tinha que ser tão idealista? O que ganharia salvando aquelas criaturas?
Sabia muito bem que seduzi-la e levá- la para cama, não bastaria para fazê-la trocar de lado, talvez a solução fosse mesmo vencer essa guerra de vez, expulsar aqueles idiotas, escravizar seus Digimons, talvez ela entendesse que se ficasse ao lado dele poderia amenizar o irremediável então… Talvez seu amor e compadecimento por aquelas criaturas fosse uma arma de muito valor para conseguir tê-la ao seu lado futuramente, em meio a milhares de questionamentos e planos, o gênio adormeceu, só despertando com o movimentar da garota pelo quarto.
— Você ainda está aqui? — abriu os olhos incomodado com a iluminação, notou que a garota usava um vestido florido, simples, um dos que Bakemon levara para a base.— Pensei que estava aflita para ir embora? — ao tentar esfregar os olhos, foi lembrado da condição de suas mãos e irritou-se com o fato.
— Eu ia embora, mas… —sentou-se a beira da cama, escovando as longas madeixas lilases. — Se eu for para casa, como você vai se alimentar? Não imagino um Guardromon ou um Gotsumon te dando comida na boquinha! — fez troça, ganhando um revirar de olhos.
— Pode ir para casa, não tenho fome alguma.— virou´se para o lado oposto, colocando o travesseiro sobre a cabeça, soltando um gemido de dor ao mover as mãos. — Onde estão os analgésicos?
— É isso mesmo que estou ouvindo? O brilhante”Ichijouji Ken’ quer tomar mais remédios, antes da hora e de barriga vazia? Se quer se matar, corte os pulsos de uma vez. — vociferou irritada, colocando a cartela de analgésico no bolso. — Está vendo o “porquê” de eu ainda não ter voltado para casa?
Ele se remexeu na cama, se virando para encará-la.
— Porque? Está preocupada comigo? A derrota que tive hoje, não te deixou feliz? Não te encheu de esperanças? Sei que estava assistindo tudo e torcendo por eles, não foi? — o tom era enciumado?
— Porque está me culpando? Não é o meu lado desde o começo? O inimigo aqui é você, lembre-se disso, não tem que me cobrar como se minha lealdade de esperanças e expectativas pertencessem a você.
— É… E você está aqui, não me deixando morrer, porque tem um bom coração? Porque a porcaria do seu brasão é “Amor” e deve honrá-lo? Devolva meus analgésico e saia fora daqui, leve sua boa vontade consigo. Nenhum inimigo atravessa o campo de batalha para tratar o outro.— virou-se novamente para direção oposta.
— Vou deixar os analgesicos e ir para casa, depois que você comer.— ignorou a birra e se manteve firme.
— Você não pode me obrigar a comer. — protestou irritado.
— Então ficarei aqui a te assistir morrer de fome, quando isso acontecer pegarei Hawkmon e mandarei um e-mail para meus amigos, destruiremos as Torres Negras e ganharemos a guerra, simples assim. Não se alimente, obrigada. — provocou divertida e ele sentou-se zangado, afrontado.
— Não faça piadas às minhas custas, Inoue…
Ela virou-se, colocando-se de joelhos sobre a cama, ficando tão perto que seus narizes quase se tocavam.
— Ou o que? — provocou com um sorriso largo nos lábios.
— Inoue...— repreendeu de forma ameaçadora, ergueu as mãos e tentou tocá-la, mas a dor o fez grunhir arrancando risos da violacea.
— Oh, ele não pode fazer nada com a pata machucada! — cantarolou provocativa.
— Inoue...— ela estava certa, surpreendentemente ele mesmo riu de sua situação miserável perante a inimiga.— Então? Como vai ser? Vai roubar meu bracelete e realizar uma rebelião na base?
— Hm...— fez uma expressão pensativa. — Estou gostando da idéia, conte-me mais sobre isso. — respondeu brincalhona, sorriu para ele e recebeu o sorriso de volta, a distancia entre os dois parecia se fechar automaticamente.
— Porque, Miyako? — insistiu na antiga pergunta.
— Porque, o que? — se fez de desentendida.
— Porque ainda está aqui? —persistiu.
— Porque tenho um bom coração e tenho que honrar o meu brasão do “Amor”, certo? — foi sarcástica respondendo com a frase dita por ele há tempos atrás.
— Você e esse seu gênio ruim, essa língua afiada, ainda vai se meter em encrenca por causa disso.— ameaçou, olhando dentro dos âmbares reluzentes.
— Não me diga… Então é assim que você se intitula agora? — deslizou os dedos finos pelos fios índigos. — Encrenca? — riu pelo nariz. — Meu Kami! Você quer saber o que eu estou fazendo aqui? — ele assentiu pausadamente. — Eu não sei, talvez a sua loucura seja contagiosa e…
— Eu não sou louco...— murmurou com incerteza, fechando os olhos ao sentir a carícia em sua bochecha.
— É sim… Confuso, inconsequente, imaturo, egocêntrico e...— contornou-lhe os lábios finos. — Incrivelmente lindo.
Ele não se moveu, mesmo querendo, ficou a espera que ela o beijasse, embora sem muita credulidade, no entanto Miyako realmente o fez, de forma doce e carinhosa, mansa, que o deixou tão surpreso, e tudo o que ele queria era poder envolvê-la em seus braços e aprofundar o beijo, mas ao levar as mãos a cintura da garota, a dor o fez soltar um grunhido.
— Oh, nada disso, vai ter que ficar quieto com essas mãos, por algum tempo.— ele apenas assentiu, o que poderia dizer, vez que fora o causador de seu próprio infortúnio, agora sentia-se patético. — Procure descansar, vou fazer algo para nós comermos, já volto. — anunciou já se afastando o deixando querendo muito mais do beijo que iniciaram.
Ela ficaria mesmo para cuidar dele, já tinha sido grosso, a escorraçado para casa, mas ela nem deu importância, estava decidida e no fim… Sua grosseria fora por pura vergonha, estava se sentindo um fracassado, fraco, inútil, patético, não queria que ela ficasse ali o vendo tão deplorável, sem nem ao menos poder comer direito, mas também não queria que a garota fosse embora.
Miyako estava decidida a pegar a matéria com Bakemon e repassar durante o dia seguinte, pois teria muito tempo, sendo assim ficaria mesmo para cuidar de Kaiser, isso lhe soava estranho, mas era o que julgava ser o certo a fazer, principalmente depois da cena estranha que presenciara, sabia que havia um mistério a ser desvendado e estava decidida a fazer-lo.
Antes que a garota dos cabelos lilases cruzasse a porta, foi surpreendida com uma tímida pergunta do gênio.
— Miyako, como está Wormmon?— a garota arregalou os olhos, fazendo-o desviar o olhar, ela poderia jurar que o viu ruborizar de leve. — É que, ele não é de todo inutil e sabe lidar com algumas coisas e… Quer parar de me olhar assim, está me irritando.
— Uhum...— sorriu debochada. — Ele está sendo bem cuidado, vai ficar bem. Direi a ele que se preocupou.
— Não se atreva! — cerrou os punhos e gemeu com a dor do ato.— Não entenda isso como preocupação, pouco me importo com aquele verme, só estou visando as atividades da minha base.
— Claro que está. — cantarolou duvidosa e saiu saltitando o deixando furioso.
(...)
Despertou com o chamado da garota, moveu-se preguiçosamente, o analgesico o dera alta dose de sonolência, mas o cheiro do alimento trago por ela, fizera seu estômago roncar e sua boca salivar.
— Massa? — questionou o gênio, ainda com voz sonolenta.
— Bem… Como apenas suas mãos estão feridas, julguei que não faria mal fazer algo mais forte, então me arrisquei em uma lasanha.
Ele não podia negar, a aparência e o aroma o estava enlouquecendo, era como se não comesse a dias, de certo já passara muito do horário.
— Você já comeu na cozinha? — interrogou ao notar que na bandeja havia apenas um prato.
— Não, esse prato é o meu. Como você, certamente, não vai conseguir segurar os talheres, terá que comer comigo. Vou fazer aviãozinho. O que acha?
— Vai se ferrar, Miyako! Você não pode estar falando sério.
— Ah, mas estou falando muito sério. O que foi? Está com nojinho? Com vergonha?— sentou-se diante dele, já provando do alimento. —Então tá, se não vai querer eu vou comer tudo sozinha...— experimenta e se diverte ao ouvir o estômago dele roncar. — Hm… Está tão gostoso...
— Eu odeio você. — resmungou chateado.
— Oi? Disse alguma coisa? Ah, você quer…
— Óbvio que eu quero, estou faminto.
— Então vai ter que abrir o bocão… Assim, bem grandão...— ele rangeu os dentes.
— Você está adorando tudo isso, não é?
— Eu? Imagina, vamos lá, abra a boca bem grandona, boca de jacaré, assim...— ela abriu a boca em demonstração e quando ele pensou em fazer aquela “vergonha” toda, ouviu um riso abafado e se virou encontrando um Gotsumon segurando a bandeja onde estava a assadeira com o alimento.
— O que está fazendo aqui, seu inútil? — esbravejou irritado, envergonhado.
— Kaiser-sama… A senhorita Inoue, ela pediu pra trazer...— o monstrinho se perdeu nas palavras.
— Caia fora daqui, cérebro de brita.— antes que ele acabasse a frase, o Digimon já estava fora do quarto e fechando a porta, fazendo com que Miyako começasse a rir.— E você? Para de uluar feito uma hiena e me dê logo essa comida.
— Uiiiii, oh, sim vossa alteza, mas terá que abrir o bocão, vamos lá, diga AAAA…
Nada poderia ter sido mais constrangedor, era nítido o quanto a garota se divertia com a situação, embora isso, a comida estava deliciosa, ela também tinha feito um suco natural de maracujá para acompanhar. Ele aproveitou que ela saiu para levar as vasilhas de volta para a cozinha, e foi escovar os dentes. Não foi fácil, qualquer coisa que fazia com suas mãos, era tremendamente doloroso.
Mas, parando para pensar, não fora de todo ruim, receber os cuidados de Miyako, ainda que discutissem quase o tempo todo, ela fazia questão de o tratar como criança, ainda sim era prazeroso receber os carinhos e a atenção dela, dormir e acordar a seu lado, ter os cabelos penteados por ela e mesmo a comida colocada em sua boca, sob uma chuva de piadinhas, não poderia culpá-la, já tinha se divertido muito as suas custas, vira que sua inimiga não perdia a oportunidade de dar o troco e com certeza todas as gargalhadas que já tivera devido as suas infantilidades, foram cobradas e pagas com juros.
O fato era que; mesmo que às custas de sua situação depreciável, ouvir as risadas dela, ver as expressões divertidas em seu rosto arredondado, as covinhas nas laterais da boca, poderia se dizer, por mais loucura que fosse, que estava valendo a pena.
Além de que, ele tinha causado tudo aquilo, sua ira, seu desequilíbrio diante da derrota quando a vitória esteve na palma de sua mão, sua incapacidade de lidar com a fúria havia lhe gerado aquele transtorno então o melhor a fazer era tirar uma lição e tentar ser mais equilibrado em momentos assim, saber que pode ter perdido uma batalha, mas ainda não perdeu a guerra, e guardar energias para essa.
Miyako, por outro lado, estava curiosa, óbvio que um tanto receosa com tudo o que vira naquele dia, sabia que se fosse mais sabia não se deitaria ao lado de Kaiser e se arriscaria a dormir tranquilamente, era quase como brincar com a morte, por certo era não saber se ele poderia ter uma outra crise daquelas e quem sabe o que mais poderia acontecer, mas ela estava disposta a ficar e se arriscar.
A dura verdade que a garota estava tentando ignorar era que, depois de ter visto Kaiser praticamente possuído por aquela força desconhecida, seu coração se acendeu em esperanças, embora o jovem fosse temperamental e com inúmeras desqualificações, ainda tinha alguns momentos de doçura, ela ficava se agarrando a esses momentos, alguns sorrisos sinceros, olhares ternos, gestos contidos, mas que nunca lhe passara despercebido.
Ela estava revezando entre cuidar de Ken e passar em casa, pois sentia falta de sua família, da comida da mãe e de suas coisas, era extremamente estranho quando parava para pensar em sua atual situação, o lado bom era que podia ver Hawkmon todos os dias por um longo tempo e além disso Ken a estava ajudando nos estudos, pois Bakemon lhe trazia a matéria, mas a explicação dos professores lhe fazia falta.
Wormmon não demorou a se recuperar, Miyako fez questão de contar a ele sobre a “preocupação” de seu mestre, ela até ficou emocionada com o quanto a pequena criatura ficou feliz por tão pouco. Tinha que haver um motivo forte para aquele Digimon ser tão apegado assim a Kaiser, tinha que haver explicações para muitas coisas que aconteciam em torno daquele garoto, mas quais?
Os dias foram passando e as mãos do gênio se apresentavam melhores a cada troca de curativos, até que Inoue entrou em semana de prova e teve que ficarem em sua casa se concentrando apenas nisso, não podia ir mal, Ken não se opôs, embora a quisesse roubar de vez do mundo real, preferia não forçar isso, já tinha outros métodos em mente.
Ao menos uma vez por dia Miyako entrava em contato com a base, para saber de Ken, Hawkmon, Wormmon, ou apenas para se manter conectada de alguma maneira. No colégio ela preferiu se manter afastada de todos, nas ida e volta tinha que driblar repórteres e paparazzi que tentavam saber sobre o namorado desaparecido, mas o que lhe cortou mesmo o coração foi ver que o Sr. Ichijouji nunca perdia as esperanças de que ela soubesse alguma notícia.
Inoue não sabia mentir, embora não pudesse contar a verdade, suas expressões e seu olhar diziam mais, ainda mais para um experiente investigador criminalista, o homem não iria pressioná-la como se faz com os criminosos, algo lhe dizia que mais cedo ou mais tarde a menina contaria o que sabe, para o bem da família e para seu próprio bem, era visível o quanto o peso do segredo a fazia mal. Seja como for, ele manteria suas atenções voltadas para ela.
(...)
Estava nervosa, andando em círculos, o resultado de suas provas havia chegado, foram razoáveis, até melhor do que esperado, para quem está passando por um turbilhão de loucuras, estava já há duas semanas sem vê-lo, as mensagens trocadas eram frias e vagas.
Era bem isso que ela merecia por cuidá-lo tão bem. Aquele lunático bipolar, tripolar, multipolar, horas não a deixa voltar para casa, horas se esconde e a afasta como se ela quem fosse a inimiga perigosa, pois, era o que deveria ser, o que deveria ter sido, bem que a idéia de um motim não era de todo mal, mas não, tinha que se preocupar em preservá-lo de ser jogado de volta no mundo humano naquele estado lamentável?
Fora pressionada a saber o paradeiro do ‘namorado” o que de fato sabia. Havia tantas coisas que queria conversar com ele, talvez por isso o garoto a tivesse evitando. Ingrato! O que poderia esperar dele, quando sabe que a única pessoa que importa em sua frente é si mesmo? Talvez nem isso, pois não se auto agredir como faz habitualmente.
Mandou mensagens, furiosas, desaforadas, usou o fato de não ver Hawkmon há duas semanas,em verdade estava com saudades, mas em seu íntimo sabia que o parceiro estava bem, sua revolta fora se sentir descartada, esquecida, jogada no mundo humano, aguentando o peso do desaparecimento do dito ‘namorado”, doendo sobre seus ombros, enquanto o mesmo já, provavelmente, estava muito bem e preso em suas maquinações vingativas.
(...)
Kaiser sorriu largamente, ao receber a trecentésima mensagem de Miyako, furiosa, desaforada, seguida de emoticons com carinhas zangadas. Óbvio que agora que estava recuperado ele resolveu traçar um novo plano de ação, dessa vez iria usar o novo recurso Espiral Negra, para distrair os inimigos e se focar em algo mais visionário.
Julgava precisar de um parceiro que estivesse a sua altura, ele tinha que admitir que os parceiros dos Digiescolhidos, eram incríveis, mas ter apenas um de nada lhe serviria. A Espiral Negra lhe possibilitou ter domínio sobre Digimons poderosos tanto em campo de batalha, quanto em outras áreas e seu laboratório de pesquisas agradecia por isso…
Não que ele estivesse se esquecido de Inoue, muito pelo contrario, sua ansia por vencer seus inimigos e trazê-la de uma vez para seu lado, se tornava cada vez maior. Ela tinha pedido que ele a deixasse lutar dignamente, ao lado dos amigos, não era justo tirar dela esse direito, bem… Após ponderar bem o pedido dela, Kaiser julgou que poderia fazer algo a respeito.
Se ele simplesmente lhe entregasse Hawkmon, ela poderia nunca mais vê-lo, mas sem seu parceiro ela não poderia lutar, então o único jeito era ter um certo controle em relação a situação, para isso já tinha um plano traçado, provavelmente a garota ficaria furiosa, mas era o único jeito.
Mandou uma mensagem seca, a ordenando que se fizesse presente na base, nem recebeu resposta, pois a mesma passou pelo portal de imediato, e… Lá estava ela, vestida com o clássico uniforme de empregada, dessa vez em um tom vinho escuro.
Mal colocou os pés na base, nem se deu conta de que já estava na sala de controles toda reconstruída, chegou virada na Rochelle, esbravejando e falando todo repertório de desaforos que conhecia.
— Você me deu um gelo? Como pode fazer isso comigo? Foram quase três semanas sem notícias decentes. Eu sou perseguida pela mídia, pelo seu pai e ele sabe que eu sei mais do que digo… Ken, como pode me deixar sozinha com os seus problemas e fingir que eu não existo? Ao menos poderia ter me chamado uma vez ou outra...— olhou para as mãos dele. — Suas mãos, estão ótimas...—ele se limitou apenas em dar um sorriso de canto. — Imbecil! Cretino… Eu deveria mesmo ter jogado ácido nas suas mãos em vez de cuidá-las.— grunhiu furiosa, voltando a falar e falar, desabafar toda sua frustração, tudo o que julgava ser injusto, até ficarem sem palavras.
— Já acabou? — ele falou brandamente, se aproximando.
— O que? Como é? — questionou ofendida.
— Se já acabou o show, agora é minha vez. — a puxou pelo pulso, envolvendo-a e prendendo-a em seus braços, selando seus lábios em um beijo tórrido.
Ela estava horrorizada, ultrajada. Como assim? Se ele estava pensando que poderia dar-lhe um gelo de semanas, deixando-a preocupada e com peso de suas ações imaturas sobre seus ombros, depois resolver tudo com um beijo qualquer? Ah, mas estava muito enganado.
A garota lutou contra o beijo, se contorceu e retorceu, tentou de todas as formas afastá-lo, mas no fim acabou como prometeu para si que jamais ficaria novamente, ‘rendida”nos braços do inimigo, correspondendo com toda sua alma, querendo muito mais daquele ato...
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