POV Kaiser

Desprezível…

Desprezível...

Desprezível…

“As palavras não são simplesmente os nomes transparentes das coisas, elas formam uma entidade autônoma, regida por leis próprias, e que pode ser julgada em si mesma. A importância das palavras ultrapassa a das coisas que elas supostamente refletiam”.

As palavras de Miyako ficaram ecoando em minha mente…

Já era previsto, mas eu não queria admitir.

Ela se coloca como sendo a minha vítima?

“A vítima é o herói de nosso tempo. (…) Como poderia a vítima ser culpada, ou melhor, responsável por alguma coisa? Não fez, foi feito a ela. Não age, padece”

De repente eu me senti caindo em um vazio sem fim…

A história se repete…

Porque? Porque com ela também?

Não tive forças para raciocinar, sequer para revidar. Queria que ela se calasse, que parasse de dizer tantas palavras cruéis, mas o que eu poderia esperar, afinal estava lidando com uma situação que eu criei e talvez por isso não tive como retrucar.

Só queria que a dor parasse…

E de repente tudo estava silencioso e frio, eu estava sendo puxado de volta para um passado que eu tinha guardado no fundo de um baú e trancado a sete chaves.

Não quis gritar, esbravejar e não tinha voz, mas a angústia falava por mim e a queria longe dali, tanto que mandei que ela fosse para casa.

Minha mente estava enevoada, parte de mim tentava auto anestesiar, enquanto a outra gritava sem tem o dizer. Eu estava envolto pelo nada, estava onde é o meu lugar, me afundando em trevas… Onde tudo é sem vida e meu corpo é puxado para um buraco negro. Naquele lugar onde ninguém vê minhas lágrimas, nem ouve meus apelos e a dor e os tormentos são familiares.

É frio…

É tão frio…

Era como se houvesse uma fenda em minha mente, senti meu cérebro se partindo como um quebra cabeças, sendo eu incapaz de remontá-lo.

Pois não é preciso ser uma casa para estar assombrado, o cérebro tem corredores ocultos e o que se esconde entre seu labirinto pode ser capaz de amedrontar o pior dos assassinos.

Frio…

Frio…

Ouço a voz de Miyako… “A vítima”, aquela que padece pelo que fiz a ela. Me chama, abraça-me, acolhe-me, envolve-me e posso sentir o calor que emana de si… Não consigo questionar o quão absurdo é ser resgatado pela minha vítima.

...

Não mais sinto o frio, penso que o entorno é quente e aconchegante como o ventre de uma mãe… “Mãe” uma palavra que eu tenho evitado há muito tempo, pois se alguém deveria ser o culpado por tudo isso deveria ser ela, eles…

Não pedi para nascer, mas fui jogado neste mundo competitivo e exigente onde tive que me adaptar e aprender a ser forte e independente.

Biologicamente, o sentido da vida é passar os genes para frente: vivemos enquanto indivíduos para garantir a continuidade da espécie como um todo. Mas esse sentido biológico não me satisfaz, especulo que deve haver algo a mais do que essas necessidades vitais. Se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.”Heraclito”. Os bois vivem o momento, são felizes com o que encontram para comer, pois não possuem consciência de passado, presente ou futuro, essa consciência nos leva a questionar um sentido a mais.

Para muitos o sentido da vida é ser o mais belo, inteligente, rico, popular, mas seria um sentido pleno ou um sentido emprestado. O que vem depois, o que tem a mais, o que há por trás dos sentidos que cada um busca para sua existência?

Tenho fugido da minha humanidade há tanto tempo que me esqueci que isso é algo que sempre estará comigo não importa o quanto eu lute contra, mas eu falhei, eles falharam, tudo isso é uma falha permanente, mas a quem devo culpar? Para quem devo mandar a conta afinal?

Não há sentido em viver, tentar se adequar é um engano, tentar adequá-los é outro equívoco, o que se deve ser, é confuso até para quem diz que é. Ser, aparentar, decifrar…

Existir é um empenho para levar onde?

O vazio não explica nada, por certo confunde mais ainda, mas abriga. Abriga? Protege, esconde... Porque quando estou com eles minha humanidade tola tenta agradá-los involuntariamente.

Esse mundo me limita, me sujeita, me reprime, tenta moldar-me para suprir expectativas alheias e essas são inalcançáveis. Houve um tempo, um momento em que eu tentei ser como todos queriam e assim fui alguém, então veio a compreensão de que, quando eu era livre de máscaras e atuações, não era notado e quando encarnei algo contra minha essência fui aclamado porque ser, não é simplesmente “ser” é obrigatoriamente aparentar, tudo se trata unicamente disso.

Houve um tempo em que eu vivia no encanto, na ilusão de ter um lar, naquela época eu era jovem e imaturo demais para quaisquer questionamentos e tudo era tão leve, quente e aconchegante…

Mas ninguém permanece na inocência para sempre e ao findar da minha primeira infância os primeiros traços negativos da minha asquerosa humanidade se fizeram presentes. Eu era o segundo filho da família Ichijouji, moramos em um apartamento simples e meu quarto era dividido com meu irmão Osamu.

Meu pai trabalhava como detetive policial e minha mãe era professora de piano. Quando ainda não tinha idade para ir para pré escola, ela me levava em suas aulas, que não eram muito distantes de nossa casa.

Havia felicidade, aconchego naquela simplicidade. No final do dia minha mãe me levava para brincar no parque perto do nosso prédio e meu irmão vinha correndo da escola e deixava sua mochila com ela para brincar comigo.

Muitas vezes alguns de seus colegas também iam para o parque e se juntavam a nós. Me lembro de Osamu os repreendendo quando escolhiam brincadeiras das quais eu não entendia e poderia participar.

— Se o meu irmão não puder participar da brincadeira eu também não irei brincar. — Osamu se impunha e sempre conseguia me colocar nas brincadeiras.

Naquela época eu era feliz, inócuo, e viver na ignorância muitas vezes nos causa essa sensação de tranquilidade “A ignorância é uma espécie benção, se você não sabe, não sente dor.” Contudo, isso durou até eu entrar na escola e meu pesadelo começou.

As circunstâncias começaram a mudar drasticamente; os professores que conheci, lecionaram para meu irmão anteriormente e deu-se início a uma série de comparações.

— Seu irmão não tinha dificuldades nenhuma com essas questões.

— Seu irmão era o melhor aluno da classe.

— Você deveria se esforçar para ser como seu irmão.

— Se você se dedicar mais seus pais vão se orgulhar como se orgulham do seu irmão.

Eu não era tão concentrado quanto Osamu, pensava em brincar, desenhar e aquela sala de aula para mim foi como uma prisão, uma tristeza começou a assolar-me de tal forma que fui me fechando para o mundo.

Dia após dia eu me esforçava para alcançar o desempenho exigido pelos professores, mas tudo o que conseguia eram infinitudes de equiparações.

Paralelo a isso, a relação entre meu irmão e eu foi se transformando; seu bom desempenho escolar tornou-se um vício em sua rotina, mas eu não entendia, queria correr, brincar, desejava sua atenção e como qualquer criança pequena, fazia o que podia para conquistá-la, gerando crises de ira por parte dele.

Osamu não brincava mais, não descia para o playground e sem ele para convencer os mais velhos de me deixar fazer parte das brincadeiras, o que me restava era olhar enquanto as crianças se divertiam; todavia eu… Eu me sentava no balanço e ficava a olhar rumo ao nosso prédio com mínima esperança de que ele viesse, até a noite cair e minha mãe me chamar para voltar para casa. Ele nunca veio, nunca mais…

— Oniisan, consegui fazer um avião de papel, vamos na sacada ver até onde ele voa? — Invadi o quarto saltitando após ter feito meu primeiro origami.

— Não entre assim de repente, você me fez perder a concentração. Não vê que estou estudando? — Me olhou tirando os óculos e coçando os olhos. — Saia daqui.

— Mas… Você viu? Fiz sozinho...— mostrei com empolgação.

— Hunf! Está feliz com algo tão bobo, com a sua idade eu já tinha vencido o concurso de origamis da escola. — ele se levantou irritado e tomou o avião da minha mão o amassando e jogando na lixeira. — A asa não ficou boa, volte lá e faça novamente e brinque sozinho, não tenho tempo.

Passou a ser assim; perdi meu irmão para seus estudos, ele agora tinha outra felicidade! Havia se tornado centro das atenções, não era mais considerado um garoto normal; a escola parabenizou nossos pais, os vizinhos também, assim que souberam e ele gostava de todo aquele alvoroço em torno de si.

Pior do que não ter mais meu amigo para brincar, era ser irmão do “garoto especial” a carga era muito pesada, dolorosa e as pessoas pareciam sentir prazer em me menosprezar.

Senti-me esquecido e deixado de lado por diversas vezes pelos meus pais, pois eles passaram a dar total atenção ao meu irmão “o filho mais velho, gênio, especial”.

Uma noite despertei em prantos depois de ter tido um pesadelo, o chamei, mas ele estava dormindo profundamente então caminhei até o quarto dos nossos pais, eles conversavam e olhavam nossos materiais escolares.

— Não é que o Ken tenha dificuldades, mas ele não é tão brilhante quanto o Osamu. — ouvi as palavras da minha mãe e parei onde estava, tentando conter o choro.

— Creio que já sejamos os pais mais invejados de Tamachi, todos queriam ter um filho como Osamu, então tudo bem se o Ken não for tão especial.— foi a resposta do meu pai.

Então era isso, meus pais gostavam mais do Osamu, ele quem dava orgulho, ele era “brilhante” era “especial”. O meu pesadelo perdeu a importância, para mim aquela realidade superou um sonho assustador e o primeiro pensamento de ira veio a minha mente.

“Tudo é o Osamu, eu queria que ele desaparecesse “

Todos haviam me esquecido, tirando os professores que continuavam a exigir cada vez mais que eu fosse como Osamu. Fora isso eu também tinha perdido o direito de entrar no nosso quarto para não atrapalhar os estudos do meu irmão.

Parece pequeno? Parece ridículo? Mas aquele era o meu mundo e com tão pouca idade, tudo foi virado pelo avesso e não tive estruturas para suportar. Tudo era culpa da genialidade de Osamu e comecei a desejar que ele não fosse tudo aquilo, que fosse como antes e viesse brincar comigo.

Quando a noite caia, eu normalmente estava fazendo a lição de casa na sala, quando terminava ficava a fazer desenhos com giz de cera. Meu pai chegava do trabalho e começava a conversar com minha mãe sobre o dia, era minha brecha para esgueirar-me até o nosso quarto e bater na porta.

Osamu, antes mandava que eu fosse embora e parasse de bater, posteriormente começava a ignorar meus chamados. Eu não queria entender, não podia desistir e continuava a bater até meu punho ficar dolorido, cansado sentava-me no chão e continuava chamando para o vazio.

Nas raras vezes em que ele se distraia e deixava a porta sem trancar eu entrava e pegava algum dos seus antigos brinquedos. Certo dia alcancei uma pequena nave espacial e comecei a fingir que estava voando com ela pelo espaço, a minha idéia era que ele visse que estava sendo divertido e viesse brincar, mas em vez disso.

— Quem te deu permissão para pegar minha nave? — conclamou exaltado e com o susto acabei deixando que o brinquedo caísse e se quebrasse.

— Eu sinto muito.

— NÃO SENTE NADA… VOCÊ NÃO PODE VER NADA MEU QUE QUER DESTRUIR.

— Eu só queria que você brincasse comigo.

— E por isso destrói as minhas coisas? Você não tem respeito, é egoísta, quando quer algo faz coisas ruins para conseguir eu odeio ser seu irmão.

Aquilo teve uma repercussão enorme, Osamu me bateu pela primeira vez e os nossos pais intervieram, ambos levamos broncas, mas eu fiquei de castigo e ainda fui acusado de estar tendo uma fase rebelde, no fundo só queria a atenção do meu irmão de volta.

Tão célere quanto o bater de asas de um beija-flor, aqueles dias felizes de brincadeiras com meu querido irmão tinham findado e tudo que eu recebia dele agora era rispidez. Osamu não era o mesmo, estava sempre irritado e mesmo quando tirava notas extraordinárias ele se cobrava por não ter sido melhor.

Foram eles… Todos eles… Nossos pais, vizinhos, professores. Demorei para entender, mas hoje é claro. Osamu estava obcecado por suprir as expectativas de todos e muitas vezes não era cruel somente comigo, mas consigo mesmo, se afastou dos amigos focando-se apenas em estudar. Ele não estava feliz, mas meus pais não se importaram, não podiam abrir mão de serem ‘pais de um prodígio”

Depois que Osamu faleceu em um acidente de carro as coisa pioraram. Ainda me lembro dos comentários das pessoas sobre a perda de um garoto tão genial. Abutres! Não conheciam nada sobre ele, nada sobre a pessoa que costumava ser antes de tudo aquilo.

O drama maior foi que… A morte de Osamu não foi instantânea. Após o atropelamento ele foi socorrido e levado para o hospital, os médicos estavam esperançosos, mas… Lembro-me estar sentado no corredor, pois não pude entrar, mas ouvi meus pais chorando diante da notícia, ouvi uma das enfermeiras conversando e dizendo que “era como se ele não quisesse viver”

“Como se ele não quisesse viver” Naquele dia pela manhã nós tínhamos tido uma discussão “ algo relacionado ao dispositivo digital”e ao fim eu desejei internamente que ele desaparecesse, então meu mundo caiu.

Foi meu primeiro contato com uma dor tão aguda. Senti-me culpado, mas com o tempo fui entendendo o papel que os nossos pais tiveram em tudo isso, e meus sentimentos em relação a eles foram apodrecendo, secando até se tornarem pó.

Quando Miyako diz que eu não penso nos meus pais, ela nem sequer imagina como eles são de verdade. Uma mãe que perde um filho e se afunda em antidepressivos negligenciando o outro e um pai que busca conforto de sua perda se entulhando de trabalho e quase não voltando para casa.

É isso… Após o falecimento de Osamu, eu estava sem chão, ainda precisava deles, mais uma fraqueza de ser humano é ser tão dependente, carente, ainda mais na infância o colo de uma mãe tem muita importância.

Não posso dizer que tive uma mãe. Após a perda do meu irmão ela deixou de dar aulas de piano, se dopava de remédios e dormia o dia todo, meu pai chegava tarde do trabalho e fazia nosso jantar e levava para ela comer no quarto. Comer a mesa foi um hábito que teve fim.

Durante mais de um ano foi assim, meu pai trabalhava e quando chegava tinha que fazer tudo em casa. O apartamento passou a ficar sempre fechado e obscuro, frio, cheirando a mofo. A comida feita pelo meu pai não era das melhores. Haviam constantes discussões para que minha mãe procurasse ajuda de um psicólogo. Por várias vezes a ouvi gritando que tinha falhado como mãe o que ela não enxergava era que eu ainda estava vivo e precisando dela.

Quantas vezes os ouvi conversando.

— Não tenho mais motivos para viver sem Osamu aqui. — chorava minha mãe.

— Você precisa ser forte. — era visível que meu pai não era bom com as palavras, mas tentava.

— Ele era tão talentoso! Tão perfeito! Porque tinha que ser ele?

Para mim aquele questionamento da minha mãe deixou tudo bem claro… Era eu… Eu quem deveria ter morrido, esse era o desejo de todos.

Meu pai não respondeu nada, no fundo eu esperava que ele falasse sobre mim, a lembrasse que eu ainda estava alí, também esperei que ele me procurasse para conversar, mas quando não estava empenhado em tarefas domésticas ou em seu trabalho, estava ocupado com outras coisas, a impressão era de que eles não queriam se recordar de mim.

Eu sabia que aquele não era meu lugar. Não me lembro muito sobre como comecei minhas pesquisas no Mundo Digital, me lembro vagamente de ter estado aqui e conhecido outro garoto, mas isso antes da morte de Osamu, uma noite até sonhei que ele esteve no meu quarto me pedindo ajuda, mas…

O ponto é, que minha última tentativa de provar algo, deu certo, para meu profundo descontentamento… Algo me dizia que se eu fosse como Osamu, a atitude de todos mudariam em relação a mim. Assim foi.

Quando o colégio começou a me elogiar, a mídia a me assediar, minha mãe aceitou buscar o tratamento psicológico e a tentar melhorar seu comportamento. Óbvio a mãe de um gênio não pode ser uma depressiva que dorme o dia todo, ela não buscou ajuda por mim, mas por si mesma.

Agora a família Ichijouji lembrava-se de que tinha outro filho, tentaram voltar a ser uma família normal e feliz, minha mãe arrumou emprego em um restaurante até as refeições à mesa reiniciaram.

Então eu entendi que sendo apenas eu mesmo jamais teria nada daquela família, se eu não fosse alguém que trouxesse um título, uma honra para o nome, uma massagem em seus egos, minha existencia de nada lhes favorecia.

Cada momento naquela casa, naquele mundo, me deixava mais consciente do quanto as pessoas são hediondas. Todo o tempo que fui preterido quando tudo que eu precisava era de um pouco de calor, me fez mais forte.

Não me sinto penalizado pelas lágrimas que meus pais choram agora, pois tenho certeza de que nunca serão o bastante se comparadas às que já me fizeram derramar, esquecido, jogado como um lixo inútil pelos cantos daquela casa.

Quando decidi vir para o Mundo Digital em definitivo, parti desde sábado e deixei uma mensagem no meu computador, que só foi lida em uma terça-feira.

Inoue sente pena dos meus “desventurados pais”? Óbvio que sente, eu sou o monstro da história, sou aquele que não merece seu respeito, seu amor, porque esse seria bem mais empregado a Izumi, que mesmo tendo pais adotivos, sabe como ser um exemplo de filho.

Eu sou desprezível? Desprezível por me revoltar com um mundo tão hipócrita, por encontrar uma mina de possibilidades como o Mundo Digital e querer tirar o melhor dele? Por ter feito tudo o que eu fiz para tê-la perto de mim?

Agora eu entendo…

Involuntariamente, do canto mais recôndito do meu inconsciente, tudo que fiz desde o começo foi porque me apaixonei por ela. Como as crianças que se apaixonam na pré escola e provocam seus alvos.

Wormmon tinha toda razão quando dizia que ela me irritava tanto porque eu gostava dela, até uma pilha de dados como ele teve essa percepção, mas não eu…

Pressupus que depois de todas as minhas experiências fracassadas com interações humanas minha blindagem já era inabalável.

Não quis enxergar, aceitar, preferi me enganar que tinha a ver com orgulho ferido, com vingança, mas toda dor que causei a ela foi por ter me sentido ameaçado… Eu não queria que fosse assim, amar, seja que tipo de amor for, é doloroso demais, é pisar em solo instável.

Se antes eu entendesse tudo que entendo agora…

A verdade é que finquei uma adaga no meu próprio peito e todos os meus jogos e manipulações não passam de táticas desesperadas para mantê-la comigo.

No fim eu me fortaleci a todo custo, me aparatei, revesti-me de todas as formas, mas a angústia retoma seu lugar no meu peito, aquela que conheci ainda criança e que agora cresceu comigo.

E o que eu sou diante daqueles a quem eu pateticamente venho a mendigar afeição? Não sou nada, sou desprezível e meus métodos para conseguir atenção ainda continuam sendo os piores.

Perdido em um turbilhão de pensamentos e lembranças fragmentadas, ainda fui capaz de fazer a única coisa que me restava que era libertá-la e devolvê-la para sua vida normal.

Ela se irritou com essa possibilidade, pois tem todos os motivos, graças a mim sua realidade já não se compara ao que era antes e isso é algo que eu não tenho como reverter.

Mas era o certo a se fazer, não? Voltarmos a ser apenas bons inimigos e nada mais que isso. Chega de jogos emocionais, temos escolhas e metas opostas.

Devo admitir que tudo se confundiu em minha mente quando ela se irritou, mas em seguida me beijou. Qual o significado que ela empregou naquele ato eu não sei decifrar.

Quando ela se foi eu fiquei refletindo sobre aquele beijo e sobre todos os outros e nossos momentos. Confesso que senti falta de quando estávamos na primeira base, as longas horas de afago nos cabelos e suas declarações de amor, mas era tudo graças a seu estado mental estar abalado naqueles dias… Aqueles incríveis trinta dias que vou guardar para sempre.

Perdido em divagações me veio novamente o questionamento “porque existimos?”. Eu não existo para lidar com interações humanas, apodreço tudo em que toco e mais do que nunca agora entendo que o sentido da minha vida é fazer algo diferente, grandioso.

Vou me libertar desse sentimento destrutivo para seguir adiante com os meus projetos, esses sim são concretos e me darão resultados práticos.

O que vou fazer com a falta que sentirei dela é algo que vou estudar depois, devo deixá-la ir agora, antes que eu me arrependa e a aprisione a mim, não me importando com o quanto nossa relação é destrutiva para ambos.

Saí da cama e me troquei, decidi comer alguma coisa, mesmo sem fome, em seguida fui para meu laboratório a fim de pegar a seringa que contém o vírus que dissolve o dispositivo explosivo que implantei no parceiro dela.

Se tenho medo de me arrepender dessa decisão? Eu sei que vou. Meu orgulho se quebra em ter que admitir isso, mas já chorei muito por causa dela, por ciúmes, por saudades e ainda vou chorar, pois tudo aqui vai me fazer recordá-la de alguma forma, minhas roupas, meu quarto, meus lençóis tem seu cheiro e dormir sem o calor dos seus braços vai ser torturante.

Mais uma vez enfatizo, cravei uma adaga no meu próprio peito.

Como eu tinha passado grande parte do tempo debaixo daquele edredom, perdido em conflitos e fragmentos de memórias, não demorou muito para que ela mandasse uma mensagem pedindo as coordenadas, respondi apenas com o que foi solicitado.

Estava me preparando para uma despedida.

Prontamente ela se materializou, ainda vestindo seu uniforme escolar, parecia preocupada. Não fiz questão de me levantar da minha cadeira, apenas a girei para encará-la, tentando ao máximo transparecer altivez, quando estava prestes a desmoronar em lágrimas em sua frente. Bem, não seria a primeira vez.

— Ken...— demorou um tempo para prosseguir. — Você está bem? Se alimentou corretamente.

— Por favor, pare com isso. — exijo enojado. — Não tem que fazer isso.

— Fazer o que?

— Fingir que se preocupa comigo.

— Por Kami-sama, Ken, eu me preocupo com você, lembra-se de quem te levou ao dentista? Quem cuidou das suas mãos, e ontem...

— Para, eu não quero ouvir isso, nada disso. Você quem disse que sou desprezível, não sou digno dos seus sentimentos. Porque cair em contradição? O que foi dito, está dito.

— Eu… Aquilo. — ela mordeu o lábio inferior, nervosa, como se procurasse por palavras. — Eu não deveria ter dito.

— CALADA! — Vociferei impedindo que ela dissesse algo que pudesse interferir na minha decisão. Com o susto Miyako recuou alguns passos e eu me levantei da cadeira e a puxei pelo pulso a abraçando forte. — Cala boca! Não fala nada. — Já era tarde para conseguir conter minhas lágrimas. Me deixei afundar no perfume dos seus cabelos e desfrutar do calor do seu corpo, sentindo seus batimentos acelerados. Alcancei sua mão entregando o pequeno estojo que continha a seringa.

— O que? — Inoue mal conseguia falar, devido ao aperto do meu abraço.— O que é isso?

— Estou te dando sua liberdade, essa é a cura para Hawkmon.

— Meu Kami! — exclamou entre lágrimas.

— Não existe nada mais que te prende a mim. Antes que você volte por aquele monitor, eu só quero te olhar um pouco...— a solto do abraço e seguro seu rosto entre minhas mãos. — Só quero alguns minutos para imaginar que tudo poderia ter sido diferente e que você pudesse ter gostado mesmo de mim e aceitado ficar do meu lado,— A abraço novamente.— Só mais um pouco de companhia, é o que eu te peço. Só quero delongar a dor de me sentir sozinho novamente. Então só me abraça, não diz nada. Não quero sua compaixão, sei que não sou nada pra você, só me dê um momento a mais para guardar