Inimigos Íntimos
24 30 dias com você
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Uma brisa suave, entra pela janela fazendo as cortinas esvoaçarem e seus cabelos também, fazendo com que seu cheiro se torne marcante no ambiente. Nos aproximamos de forma que a pontinha dos nossos narizes se encostaram e sinto seu hálito doce; engulo um pouco de saliva, me prendendo em seus orbes âmbares brilhantes. Inoue, eu não posso te beijar. Você não está aí… Milhares de questionamentos sobre certo e errado se passam pela minha mente, mas jogo-os para longe, quando ela passa seus braços em volta do meu pescoço e me puxa para si.
Nada mais importa, nossos lábios se encontram naquele contato macio, escorregadio e intenso. Nossas línguas se buscam, se enroscam, se acariciam, e só consigo apertá-la forte contra mim, sentindo nossos batimentos descompassados. Não faça isso comigo Inoue, eu sei que você não está aqui, mas não consigo parar...
Pov Kaiser
Em um lapso de consciência, separei nossos lábios, nada daquilo que estava acontecendo não era certo, aquela garota não tinha a mínima ideia do que fazia, por mais que eu quisesse, e eu queria muito, não poderia continuar com aquela loucura.
Ela abriu os olhos e me encarou confusa, em seguida aconchegou a cabeça contra meu peito e resmungou alguma coisa… Espera? Ela falou? Falou comigo? Temos um progresso a mais.
— O que você falou? Não entendi…
— Bate tão forte… — Sussurrou enfim.
É sim, bate tão forte quando ela está tão perto e eu não entendo porque tem tanto poder sobre mim; não entendo nada relacionado aos tantos pensamentos que tenho sobre ela, só a abraço forte, embora devesse levá-la de volta para seu quarto, eu não quero.
Inoue tenta me beijar novamente, mas a impeço, melhor não testar os meus limites. Ela não parece se incomodar e se aconchega ao meu peito, me deito com ela e tento fazer com que adormeça, tendo em mente muitos fatos para tentar ignorar… O tecido fino dessa camisola, seus seios macios contra meu corpo, o beijo quente que trocamos, tudo isso insiste em agir de forma intensa em meu corpo.
A sorte decidiu ficar a meu favor e ela adormeceu em meus braços, a medida que lhe afagava os cabelos. A ajeitei confortavelmente e segui para um banho gelado a fim de acalmar as reações do meu corpo; demorei alguns minutos, e quando regressei ao quarto, não tardei a adormecer, estava completamente exausto.
(...)
No dia seguinte levantei antes dela e desci para preparar o café, assim que cheguei na cozinha aquela ave maldita veio me azucrinar.
— Onde está a Miyako-chan? Procurei por toda a casa, lá fora e não a encontro.
— Não procurou em toda a casa, se não teria encontrado.
— Trancou ela no porão?
— Claro que não, seu imbecil. Eu queria saber quem configurou os Digimons, o que essa criatura tinha na cabeça pra fazer seres tão estúpidos?
— Aí! Ninguém configurou Digimons coisa nenhuma e não desconversa, onde colocou a Miyako-chan?
Ai, que vermezinho mais insuportável, não sei como ela o aguenta como parceiro. Já estava pensando numa maneira de fazê-lo ficar de bico calado, só que nesse momento Inoue chegava na cozinha, sonolenta, esfregando os olhos e ajeitando os óculos.
— Essa daí serve, pra você, imbecil?
Ele voou até a parceira e ela o abraçou e sorriu, enquanto a ave tentava conversar com a garota, eu preferi me concentrar no que usaria para fazer o café, nada de coisas tradicionais, eu não estava nem um pouco a fim de cozinhar. Olhei em alguns sites de nutrição e peguei umas dicas, por sorte tinha trago coisas que seriam úteis, mas não tinha frutas.
— O passarinho? Que tal você colher umas frutas.
— Não fica me chamando assim.
— Para de se lamentar e vai procurar as frutas, a vitamina não vai se fazer sozinha!
Ele voa até o cestinho vazio sobre a mesa e olha para Inoue.
— Vamos ? — Ela se levanta, animada e segue a ave.
Minutos depois eles retornam com a cesta cheia, maçãs, laranjas, peras, pêssegos e peras e mamão.
Uso o mamão para fazer uma vitamina, com uma colher de aveia, bem como ensinou no site. Sobre a mesa coloco o pão integral, iogurte, requeijão, frutas picadas, granola e o mel, noto que Inoue come de tudo, enquanto a ave dá preferência para as frutas.
— Então, gênios do mal gostam de vida saudável? — Fala sério, que tenho de ouvir esse tipo de coisa a essa hora da manhã.
— Gênios são espertos o bastante para não comer café da manhã com panquecas, ovos e bacon. Porque quer saber sobre a minha dieta?
— Quero saber porque a Miyako-chan dormiu com você?
— Pergunta pra ela, como você falou, ela quem foi para o meu quarto.
— Você é um cara muito estranho, me capturou para tê-la por perto, quer fazer com que ela fique do seu lado? Fique sabendo que a Miyako-chan nunca…
Ela se levanta em meio a conversa e vai para fora.
— Oh, parece que ela não gostou do assunto. — Não perco a chance de provocar, ele voa e segura a tigela de frutas com as garras indo para fora.
Organizo a bagunça da cozinha e pego meu notebook, seguindo para a varanda, me sentando em uma das cadeiras de balanço que tem por alí, a escoro de forma que pare de balançar e começo a me concentrar nos meus estudos, posso me dividir entre trazer Inoue de volta e desenvolver minha nova arma de controle.
Ela fica durante um longo tempo brincando com o Digimon, depois entra em casa, passando por mim. Acompanho seus movimentos com o olhar e ela mexe na TV, parecendo procurar algo, encontra a lista de reprodução que copiei de seu PC e coloca algumas músicas para reproduzir, creio que isso também seja um progresso.
(...)
Os dias que se seguiram, foram da mesma forma, cada vez ela buscava mais as coisas que gostava. Tive a ideia de dar a ela seus livros preferidos para que pudesse ler, mas me lembrei de que tinha suas Fanfictions salvas, coloquei o arquivo todo em um tablet e deixei que ela se distraísse com as próprias palavras. Ao que parece deu muito certo, a vi gargalhando várias vezes, oras completamente absorta na leitura.
Ela continuava a me puxar todas as tardes para sentar naquela rocha próxima ao lago e ver o pôr do sol ao seu lado, em silêncio, estava mais leve, mais solta, os pesadelos pararam, assim como as crises de choro, sorria com mais frequência, por vezes até gargalhava.
Quanto a mim… Meus estudos para desenvolver o Anel não iam nada bem, creio que aquele clima verde, alegre de filme de romance dor de barriga, estava me deixando sem inspiração, ao menos tinha notícias diárias sobre a vida dos digipatetas e minha formação de ataque e defesa ainda estavam mantendo bem os territórios já conquistados, só não conseguia continuar a expansão e isso tava me deixando muito irritado.
Outro detalhe que me irritava muito era ter que cozinhar, eu realmente passava raiva com algumas coisas, na receita parece de um jeito, mas na hora de fazer sai tudo errado, um desses dias eu me estressei e acabei jogando uma vasilha contra o azulejo da cozinha e esbravejando alguns xingamentos.
É tanta humilhação e raiva que eu tenho que passar, por minha culpa mesmo, o pior é saber disso… Saio dos meus pensamentos quando a vejo apoiada no batente da porta, olhando a confusão toda.
Inoue não fala nada, se aproxima e começa a recolher e limpar a bagunça feita, pega um avental para si e olha a receita sobre a bancada, começando a organizar os ingredientes pedidos. Ela pode ser uma gralha desajeitada, mas é habilidosa com o corte dos legumes e modo de preparo, com certeza a mãe e as irmãs devem ter lhe ensinado bem.
Quando tudo já estava praticamente pronto, olho em direção a porta e vejo o Digimon de Inoue, com as asas cruzadas como se fossem braços, e balançando a cabeça negativamente, viro a cabeça para direção oposta ignorando seja lá o que for que ele queira insinuar com essa postura ridícula.
Ela segue para colocar a mesa, mostrando que andou prestando a atenção onde costumo guardar as coisas. Depois desse dia, Inoue sempre vem me ajudar na cozinha, mesmo que não diga nada, considero tudo como um grande avanço.
Uma dessas noites, eu estava na varanda, enquanto ela assistia alguma dessas séries bobas com seu parceiro. Fechei o aparelho, derrotado e sem esperanças de conseguir aprimorar meu Anel e ela saiu pela porta e veio em minha direção, tirou o aparelho do meu colo e colocou sobre a mesa, sentando-se naturalmente.
— Onde está seu parceiro? — Ela não responde. — Dormiu? Você o levou para cima? — Ela meneia a cabeça positivamente.
Ficamos em silêncio, enquanto ela brinca com os detalhes dourados do meu casaco. Só consigo pensar o quanto toda essa situação está me atrasando, minha mente está parada, não consigo desenvolver nada sobre esse maldito Anel, porque estou aqui servindo de babá e nem sei se ela vai mesmo melhorar.
Estou cansado desse lugar, de ter que tomar banhos gelados quase todas as noite porque ela fica se esfregando em mim, o que mais eu tenho que fazer, já segui todas as dicas daqueles livros idiotas, sites. Nada está dando certo, nada…
Como se não fosse o suficiente toda minha amargura e frustração, Inoue faz o que tenho tentado evitar, envolve meu pescoço com seus braços e me beija e… Minha mente entra em colapso e acabo a jogando no chão. Com o impacto meu notebook, que estava na mesa, acaba se espatifando também.
— Não faz isso! Não quero te beijar, não quero que você me beija, eu nem sei quem é você, fica longe! Fica longe…
Eu sinto uma revolta, uma fúria tão grande dentro de mim, cada vez que ela me beija, que eu permito que fique tão próxima, sei que estou sendo patético, esperando uma coisa de uma pessoa que não está aqui.
— Não era pra ser assim…
— O que?
— Porque você não é gentil? Onde está seu olhar sereno e seu sorriso doce? Porque você não é como nas histórias? — As histórias? Ah, foi uma péssima idéia deixá-la ler essas baboseiras.
Respiro fundo, me lembrando das baboseiras que ela escrevia sobre mim. A olho, e vejo ainda está caída e se encolhe. Droga! Posso ter estragado o pouco progresso que tivemos. Me aproximo e ela se encolhe mais.
— Eu não vou te machucar, não quis derrubar você. Não sou nada dessas coisas que você leu, nunca fui. Assim como você não está sendo quem deveria ser.
Me aproximo e ela não se move. Desgraça! É sempre assim, nunca sei o que fazer com essa garota. Nada aqui está certo e ela me faz cair em contradição, sendo que acabei de gritar para que fique longe de mim e agora a puxo para um abraço.
Ela está louca, eu estou ficando mais louco que ela…
Inoue chora como uma criança e eu estou perdido, sem saber o que pensar ou o que sentir, me vendo impotente diante de tudo, jogado em uma armadilha que eu mesmo planejei.
— Chega, para com isso, seus olhos vão ficar ardendo e sua cabeça vai doer.
— Você não se importa… — Fala em meio aos soluços.
— Err… Eu… — Pigarreio revoltado comigo mesmo pelas próximas palavras. — Me importo sim. Agora para com esse drama porque você fica feia com essa cara de choro, seu nariz fica vermelho e seus olhos inchados. Vamos levantar desse chão?
— Feia? — Pergunta ofendida, secando o rosto, tirando as lentes embaçadas. — Por isso não quer me beijar?
— Não. É mais complicado que isso.
— Eu não entendo.
— Eu sei que não. Vem, levanta. Vamos entrar.
Eu não sei se é um bom sinal que ela esteja falando comigo, creio que sim. Realmente se tem uma coisa no qual eu não sou nada bom é em lidar com pessoas, principalmente elas estando fragilizadas
— Não quero entrar.
— O que você quer então? Dormir aqui fora?
— Não, quero dormir com você.
— Novidade. Então vamos entrar, não vou dormir aqui fora.
— Não quero entrar agora. Pode passear comigo? Lá dentro está muito quente.
Nisso eu tenho que concordar, hoje estava um calor horrível, o clima extremamente quente permaneceu dentro de casa, enquanto do lado de fora era mais fresco, antes de dormir eu iria fazer uns ajustes no ar condicionado.
Sendo vencido por ela, afinal eu tinha colocado tudo a perder com o surto de fúria, decidi que seria melhor fazer o maldito passeio com ela.
— Ok, Inoue, vamos dar o passeio e depois você vai dormir. Certo? — Questionei e ela assentiu se apoiando em mim para se levantar. Enlaçou sua mão a minha e saiu me puxando para fora.
A noite estava agradável, embora quente. Um fato interessante era ter uma enorme lua no céu, me fazia ficar ainda mais curioso sobre as semelhanças entre os mundos. Me perco olhando para o céu e ouço a voz dela novamente.
— É bonita?
Volto minha atenção para ela e observo como fica linda iluminada pela luz do luar, respondo a sua pergunta com um aceno positivo com a cabeça, mas só consigo prestar a atenção em como está linda.
Caminhamos até a rocha onde ela gosta de se sentar e a lua está refletida nas águas, o cheiro de relva e terra molhada é agradável, algumas flores também exalam seu perfume e aquela mistura é bem atrativa, devo admitir.
Inoue se sentou e me lançou um olhar convidativo. Puxei o ar e soltei lentamente, sentei-me ao seu lado, imaginei que ela continuaria silenciosa como tem sido, mas não foi este o caso.
— Porque você está sempre de mau humor?
— Eu não… — Deixe-me ver… Você perdeu a memória, meu império está ameaçado, não consigo desenvolver meu Anel, estou preso aqui aguentando seu parceiro inseparável, enquanto tenho que cuidar de você e até cozinhar. É claro que eu não tinha como explicar tudo isso pra ela. Suspirei profundamente e a olhei, ainda a espera de uma resposta. — É complicado. — Virei o rosto para direção oposta, observando os lírios balançando ao vento.
Ela se levantou e esse ato fez com que eu a olhasse. A brisa que soprava fazia com que o tecido fino da roupa grudasse em seu corpo expondo suas curvas, voltei a olhar para os lírios imediatamente, se eu ficasse a olhando mais um pouco, teria que ir imediatamente para um banho gelado. Senti o toque fresco de seus dedos finos, contra minha face a puxando de volta para que a encarasse.
— Vai me empurrar? — Sussurrou se aproximando.
— Inoue, eu te avisei que…
— Era pra ficar longe… — Colocou uma das mãos sobre meus lábios e a outra correu pelos meus cabelos. — Vai gritar comigo novamente? — Ela sentou-se no meu colo novamente e aproximou nossos rostos, simplesmente ignorando tudo que aconteceu há momentos atrás. — Eu não posso ficar longe, porque quando você está perto eu quero te beijar e isso é o meu sonho…
A proximidade, a forma como seus dedos giravam contra minha face e sua respiração colidia contra a minha… Enfim, de nada adiantou ter gritado com ela, a empurrado, dito para que ficasse longe, envolvi sua cintura fina e mergulhei em sua boca. Eu queria… Kami, como eu queria…
Me esqueci de tudo, dos meus planos, de sua atual condição e me rendi aquele momento delicioso, a beijei uma, duas, três, quantas vezes pude, a acariciei, desfrutei de suas carícias, como se fosse a última vez, como se fosse um sonho do qual poderia despertar a qualquer momento.
Nos beijamos até quase ao amanhecer, quando ela se sentiu exausta e resmungou que queria entrar, só assim voltamos para casa, Inoue estava com tanto sono que chegava a tropeçar nos próprios passos.
(...)
Acordei com os raios de sol entrando através das cortinas e incomodando meus olhos, me alonguei preguiçosamente e estiquei o braço a procura de Inoue, mas a cama estava vazia.
Levantei e fiz minha higiene matinal, a procurei em seu quarto, na sala de musica e na biblioteca, desci as escadas e a procurei pela casa, tentei até mesmo no porão, mas nem sinal dela ou de seu parceiro. Segui para fora a procura.
E se ela recuperou a memória e fugiu com o parceiro? Eles sabem onde fica a passagem podem ter saído para tentar chegar até ela, se conseguirem, mesmo sem digivice, podem conseguir contato com os digiescolhido e depois… E depois... Que idiota que eu sou! Como pude baixar a guarda dessa forma?
Corro pelos arredores gritando por ela, sem nenhuma resposta, para mim já estava claro, era isso que tinha acontecido. Decido voltar para dentro e contatar os escravos mais próximos, a fim de colocar todos a sua procura.
Minha cabeça girava e doía, quando passei por uma das árvores que ficam mais próximas da casa ouvi uma risadinha dela. Parei no mesmo momento e voltei meu olhar para cima. Não pode ser sério. Ela gargalhava do meu desespero, sentada tranquilamente comendo uma maçã, com o vestido enrolado até o as coxas, seu parceiro em um galho acima.
— Se já está bem para me fazer de idiota, deve ter se recuperado. — Marchei furioso até ficarem sob o local onde ela estava. — Para de rir como uma hiena e desça aqui agora mesmo! — Eu estava indignado, procurando esses dois imbecis e eles se divertindo com a minha cara, mas mandar ela descer, não foi a melhor das idéias. Ela jogou o pedaço de maçã para trás e inclinou o corpo e eu entendi de pronto. — Não, Inoue, não se atreva…
Já era tarde demais, só me dei conta de já estar no chão, meu corpo dormente pelo peso dela sobre mim e o susto do momento, Inoue levantou o tronco e ajeitou os óculos, estudando minhas reações. Óbvio que eu estava furioso, com vontade quebrar aquele pescocinho fino dela, quando meu corpo tomou consciência, a girei, invertendo nossas posições.
— O que passa pela sua cabecinha oca? Poderia ter fraturado algum osso, poderia ter me feito fraturar… E que ideia foi essa de subir na árvore, seu Digimon pode ser ave, mas você não voa. — Ela simplesmente começou a rir como uma criança, como se o que minhas palavras a divertisse. — Inoue eu estou falando sério, quando eu te chamar responda na hora. Para de rir. — Aquilo estava testando demais minha paciência. — Me diz que entende. Entende?
Seu riso parou e seus braços enlaçaram-se em meu pescoço, me puxando para um beijo o qual retribuo instintivamente.
Golpe baixo sumir a manhã inteira, me fazer sair sem café da manhã, ficarem gritando por ela, a procurando em todos os lugares, pensando as piores coisas, para no final cair em cima de mim e ainda não dar a mínima para o que eu falei, me vencendo com esse beijo.
— Plumas Espirais! — Ouço o ataque do parceiro dela e as plumas caem como flechas rentes ao meu copo. Separo o beijo e o olho indignado. Esse verme ousa me atacar? — Sai de cima dela. O que pensa que está fazendo, seu louco?
Me levanto enfurecido e a puxo junto comigo.
— Sua parceira pulou em cima de mim, ela quem me agarrou e da próxima vez que você ousar me atacar, vou te trancar em uma cela e te deixar apodrecendo nela para sempre!
A levei para dentro e fomos preparar o café da manhã, já eram quase nove horas, sendo que acordei às sete, meu estômago roncava. Um fato interessante, eu nem me lembrava de como era comer por fome, só me alimentava para manter minhas energias, mas cuidar dessa garota é tão exaustivo que as energias se acabam e a fome vem.
Me sentei para poder comer em paz e ela sentou-se no meu colo.
— Viu o que eu quis dizer, passarinho? Ataca ela, agora. — Não perco a chance de esfregar na cara daquele Digimon insolente.
— Miyako-chan, senta na cadeira. Não fica grudada nesse cara, ele é mau. — Reviro os olhos com a fala do verme.
— Ele é meu namorado, não seja ciumento. — Ela fala e come uma torrada com geleia.
— Ele não é seu namorado, Miyako-chan, ele é um inimigo, louco, cruel… — Coça a cabeça com as asas. — Vai deixar ela ficar pensando que vocês são um casal.
— Por mim… — Dou de ombros, só para provocá-lo. — Deixa a menina ser feliz… Miyako-chan, me passa o suco. — Dou ênfase no “chan” e ela me entrega o jarro, a agradeço com um beijo breve em seus lábios.
— Não incentiva ela! Como pode se aproveitar de alguém nesse estado, seu monstro, você me dá nojo! — Corre as asas pela mesa, derramando um copo de suco e voa para fora, enfurecido.
— Que parceiro mau criado. Parece que ele não aprova a relação. Não entendo o porque, sou um rapaz de família
Me divirto sozinho com a minha piada sacana, sei que ela não entende e beija meu rosto colocando torrada na minha boca
(...)
Embora ainda não se lembrasse de nada, Inoue estava bem mais animada, falante e até mesmo cantarola algo, enquanto me ajuda na cozinha, toma iniciativa de escolher receitas. Outro dia quis fazer cupcakes, até que saíram gostosos. Tarefas domésticas como arrumar a casa e colocar as roupas para secar, ela também se escalou para fazer.
Recentemente ela começou a jogar videogame e já zerou a maioria dos jogos que mandei que Bakemon trouxesse. No momento está viciada em jogos de dança, seu parceiro detestável, falou que estes eram seus preferidos e todos os dias ela dançava, deve ser por isso que tem pernas tão… Isso não vem ao caso, mas falando em suas formas, em uma certa manhã, acordei sem ela ao meu lado e quando foi a sua procura, a encontrei saindo do lago, onde brincava com seu parceiro, um espirrando água no outro.
Eu já perdi as contas de quantas vezes a vi nua e a toquei, mesmo assim esse tipo de visão causa uma confusão no meu corpo que não consigo controlar, nem entender.
Lá estava eu, parado na porta a observando, o tecido da camisola fina, todo grudado, molhado, transparente salientando cada contorno do seu corpo. Respirei fundo e calculei que seria melhor voltar lá para cima e tomar um banho antes de descer para o café.
(...)
Não me incomodei mais em trazer a Miyako de volta… É estranho com agora me sinto livre para chamá-la pelo primeiro nome, porque raios eu queria trazer de volta alguém que me odeia tanto? Conclui que seria melhor tirar alguns dias de folga, minha mente estava mesmo entrando em crise, então joguei meu manto e meus óculos para um canto qualquer e resolvi aproveitar um tempo com ela.
O que? É cientificamente provado que férias fazem bem para todas as criaturas, mesmo uma mente brilhante como a minha, às vezes precisa respirar um pouco. Eu só decidi brincar um pouco de ser o que ela queria, passear pelos campos e tentar engolir seus filmes horríveis, embora eu sempre acabe dormindo em meio a eles, entretanto descobri que nem todos os seus gostos são ruins, os filmes de ficção, mistérios, medievais e mesmo baseados em quadrinhos, são bem interessantes, as séries médicas, de suspense e principalmente policiais são muito interessantes, logicamente eu sempre resolvo os mistérios antes da metade do capítulo, mas algumas vezes realmente me surpreendo.
O clima foi se tornando frio e chuvoso, mas isso não diminuiu sua animação, ainda joga videogame, jogos de dança, percebi que ela começou a mexer em programas diferentes no notebook, me lembrei que em seu PC haviam vários arquivos de mixagem, sonoplastia, produção de músicas, ela parece se interessar muito por esse assunto, noto como seu parceiro observa cada evolução dela, mas… Cada evolução me deixa com um gosto amargo, cada dia que passamos juntos eu quero menos, que ela se recupere completamente.
Esse era o sonho dela para o futuro? Produzir músicas? Talvez fosse algo voltado para desenvolvimento tecnológico? Um futuro em meio a tantas pessoas horríveis e exploradoras que só querem tirar tudo de você e se aproveitar de títulos, mas ela não via assim, sua mente ainda não tinha abertura para esse grau de visão, então é bom que ela tenha esquecido de tudo isso, eu posso cuidar dela.
Adormecer com Miyako ao meu lado é maravilhoso, seu perfume, seu calor, as carícias que me faz, é algo revigorante. Despertar é ainda mais agradável, algumas vezes ela me pede para lhe fazer tranças nos cabelos, diz que gosta que eu mexa neles, revelou que ama mantê-los longos, mas as vezes sente muito calor.
Creio que eu estava mesmo precisando desse tempo, não me descuidei dos meus planos, mantenho contato com Bakemon e Wormmon, mas parei um pouco com a paranoia de desenvolver o Anel, estou descansando, mas tenho certeza que quando retornar ao projeto encontrarei uma solução, por hora está de bom tamanho saber que minha culinária se desenvolveu com auxílio dela. Miyako está certa por gostar tanto de doces, realmente são deliciosos, é engraçado o tempo que ela perde para decorá-los, mas ficam bem vistosos.
(...)
Naquela tarde em especial, a chuva caia serena lá fora, já havia se passado um certo tempo desde a hora do almoço. Me sentei nos degraus da escada e a observei enquanto dançava no jogo de dança e brigava com seu parceiro, dizendo que não valia voar, uma discussão se iniciou, sobre quem estava em desvantagem, por fim decidiram tirar o jogo e colocar o karaokê… Pelo amor de Kami!
Pensei em sair e fugir para o porão, mas quando a canção começou, era calma e melodiosa, sem notas altas, pertencia a um dos filmes que assistimos, eu não consegui sair do lugar, enquanto ela cantava se passava em minha mente cenas dos momentos que passamos aqui…
Quero estar com você naquele dia
Em que tirei o nosso futuro
Agora você está aqui assim
Eu quero viver com você, é um milagre que nós nos encontramos
Obrigado obrigado te amo
Eu me pergunto por acaso, é você que eu estava procurando?
Eu sou tão tolo ao notar que eu não fiz nada, mas para chorar dirigimos
Inesperadamente sua voz toca meu coração
Como começou a mudar e arco-íris aparece através da chuva
Eu quero estar com você naquele dia
Em que tirei o nosso futuro
Agora onde você está aqui então
Eu quero viver com você, é um milagre que nós nos encontramos
Obrigado obrigado te amo
Se você não pode vê-lo, basta vir
E vamos andar neste dia nostálgico do dia onde nós nos encontramos
Esse pequeno é a luz mais forte da estrela, daquele tempo
Eu quero continuar assistindo e olhando com você. Que meu único motivo
Eu quero estar com você meu coração sentiu tristeza
Apenas não diga nada, apenas me deixe ao seu lado
Eu quero viver com você porque eu sou seu maior aliado
Para sempre, para sempre te amo
Para ser franco, não há nada mais
Que não possa parar
Eu quero te sentir eu quero te amar
Agora você está morando comigo
(Eu te amo)
Eu quero estar com você naquele dia em que tirei o nosso futuro
Agora onde você está aqui então
Eu quero viver com você, é um milagre que nós nos encontramos
Obrigado obrigado te amo
A qualquer momento para sempre
Eu te amo
— Então você gosta dela? — Sou tirado dos meus pensamentos, pela ave insolente.
— Vai se ferrar. Para de dizer besteiras. De onde você tirou essa asneira?
— Da baba que está aí escorrendo da sua boca aberta. Se quer saber, no começo eu estava com muito ódio por pensar que você estava se aproveitando da Miyako-chan, mas agora eu tenho pena. Essa que está aí não é ela e você sabe, diz que é superior, mas está se enganado e quando ela voltar ao normal, vai te odiar em dobro. Nunca espere tê-la te ao seu lado.
Verme desgraçado, cerrei os punhos pronto para atacar aquele idiota, mas meu comunicador tocou, olhei para meu bracelete e segui para o porão. Era Wormmon com notícias.
— Ken-chan, consegui uma forma de trazer a Miyako-san de volta.
— Do que está falando? — Me senti como se fosse atingido por um tiro. — Como assim?
— Em uma área conquistada, um Anel Negro foi colocado em uma BlackTailmon, esse Digimon tem o poder de hipnose com seu golpe olho de gato, é nossa última esperança. Pode trazê-la para a base, imaginei que esteja irritado em ter ficado 30 dias por conta dela, já ordenei que Devidramon fosse buscá-los.
— Nos buscar? Agora?
— Sim, algum problema?
— Não… Eu não suporto mais esse lugar, mesmo.
A ligação foi encerrada e eu fiquei algum tempo olhando para a tela, Inoue tinha colocado a canção e cantava novamente… A partir daí tudo que eu fiz pareceu ser em modo automático, como se estivesse em um transe. Subi os degraus e arrumei nossas coisas, ouvi Devidramon chegando lá fora, fui até a TV, desligando-a e segurei Miyako pela mão.
— O que está acontecendo? — Seu parceiro perguntou.
— Vamos trazer sua parceira de volta. A que me odeia lembra?
Ele me olhou confuso, segui com Miyako e montamos em Devidramon, rumando para minha base. Eu não sabia que aquele era o último dia, mas aquele Digimon maldito tinha razão, aquilo era humilhante demais, desprezível, aquela que estava alí não era ela. Milhares de dúvidas e questionamentos se passavam pela minha mente, a chuva que caia era fina e fria, a envolvi com o meu casaco, uma vontade imensa de voltar para trás e nunca devolver sua memória, me dominava.
Chegamos a minha base e Wormmon veio em nosso encontro, já trazendo BlackTailmon, antes que eu dissesse algo e Digimon explicou:
— Não posso devolver a memória dela, mas posso apagar tudo que aconteceu a partir do momento que a traumatizou.
— Quer dizer que ela vai se esquecer dos últimos dias também. — O parceiro de Inoue questionou.
— Exato, vai ser como se ela tivesse voltado no tempo e nunca ter vivido nada que viveu após entrar na dimensão sombria.
— Otimo, otimo mesmo! — A ave maldita olha em minha direção, com ar de vitória.
— Tudo bem, Ken-chan? — Wormmon pergunta preocupado.
— Não me chama assim, seu verme! BlackTailmon, faça o que tem que fazer.
Seguimos para o meu quarto e Inoue sentou-se sobre a cama, BlackTailmon ficou de pé em sua frente e a fez olhar em seus olhos, os olhos de ambas brilharam em tom verde fluorescente e Miyako caiu inconsciente sobre os lençóis.
— Ela deve acordar somente amanhã e será como era antes, livre de quaisquer lembranças.— Assegurou o Digimon gato.
Fiz sinal para que se retirassem, quando a porta bateu, caminhei em sua direção e sentei ao seu lado; coloquei para trás de sua orelha algumas mechas de cabelo, e fiquei olhando para ela, velando o seu sono. Soltei um suspiro frustrado, eu nem acredito que desperdicei trinta dias com você, para no final, as coisas voltarem a ser como eram antes; perdi tempo, poderia estar conquistando outras áreas e desenvolvendo meu novo Anel, mas não, fui obrigado a ouvir as suas músicas, ver aquelas baboseiras de filmes e séries românticas, ter que aguentar aquela ave irritante me azucrinando o tempo inteiro, ver o pôr do sol… Todas essas bobagens que vocês fazem.
Com as pontas dos dedos, fiz um carinho em sua bochecha, contornando a linha de seu queixo, até chegar aos seus lábios. Me aproximei e dei um selinho, desfrutando pela última vez toda a sua maciez, pois sei que quando ela acordar, isso não será mais possível de acontecer. Encostei as nossas fontes e fechei os olhos, inspirando o seu cheiro e sentindo o meu coração bater rápido.
Ah, Inoue, as suas lembranças foram levadas para sempre, mas e agora? O que eu faço com as minhas?
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