Iniciativa Vingadores

3 Conheçam os Recrutas


Notas iniciais
Desculpem a demora D: Espero que o capítulo compense...

“Respire fundo, Samon.”

Um.

Ela suavizou o aperto, puxando a fina corda como se tocasse num delicado violino. Ambos os olhos abertos, pés afastados, joelhos flexionados levemente, mãos rente ao corpo. Como ela havia sido treinada a fazer.

Dois.

Seus olhos fecharam-se por meros instantes, dando-lhe a atenção necessária para que percebesse passos às suas costas. Seus músculos retesaram, sua respiração acelerou e a flecha se fez presente entre seus dedos.

Três.

Meros segundos passaram, o suficiente para que ela soltasse a corda, voltasse-se para trás e desferisse um golpe na estranha presença. O outro desviou do contato, dando um passo para o lado e lançando-lhe um gancho de esquerda; que foi facilmente evitado. A garota pingava de suor, seus cabelos, mesmo seguros em uma firme trança, ensopados pelo contato com suas costas, alguns fios do mesmo colando em seu rosto. A jovem tentou chutá-lo outra vez, mas somente atingiu o ar; sentindo-se agarrada por trás, lançou-se de costas para ao chão, fazendo um baque alto, forte naquele espaço de absoluto silêncio. Soltando-se do eminente perigo, ela ergueu-se, segurando o pescoço daquele que talvez pudesse feri-la, esperando a situação clarear-se para dar o próximo golpe.

O atacante sorriu.

– Como podemos treinar se você sempre subestima seu adversário? – aquela voz grossa e autoritária sempre a fazia sorrir; menos naquele momento, onde ele pegava suas pernas e a fazia cair, consequentemente.

– Ei! – ela riu, apesar de ter sido, evidentemente, derrotada – Eu tinha vencido, Clint! – ela apoiou-se no tatami com os cotovelos, observando-o se levantar.

– Se eu realmente fosse um de seus inimigos, acho que já teria enfiado uma flecha nessa sua garganta tagarela. – ele esticou o braço em sua direção, sorrindo torto – Não me subestime, bonequinha.

Ela fez uma careta enquanto aceitava a ajuda, erguendo-se também. Ela odiava aquele apelido mais do que tudo nesse mundo.

– Tenho sorte de te ter ao meu lado, então. – ela mordeu o lábio inferior, colocando alguns fios de cabelo atrás da orelha. Um ato involuntário; ambos se conheciam a tempo suficiente para que não existisse nenhum tipo de atração entre eles.

Bem, pelo menos não mais.

Algo naquela frase destruiu todo o bom humor que o Gavião Arqueiro havia acumulado para aquele horário de treinamento. Ele desviou o olhar, voltando-o para a porta; até sua mala e alguns papéis que se encontravam perto da mesma.

A loira franziu o cenho. Eram raras as vezes que ela o via sério desse jeito; por mais que, para os outros, ele parecesse um grande bloco de gelo, apenas um gavião a espreita, esperando, ansiando por um deslize. Ela se aproximou, apoiando as mãos em seus ombros.

– O que há, Clint? – sussurrou da maneira mais gentil que encontrou. Ela o sentiu estremecer antes de vê-lo virar em sua direção mais uma vez.

– Não estarei mais ao seu lado tanto quanto você gostaria, Bianca. – a jovem arregalou os olhos minimamente – Pelo menos, não exclusivamente.

Vendo seu semblante confuso, Barton afastou-se, pegando os papéis do chão e aproximando-se outra vez. Desta vez, ela conseguiu ver com mais clareza o que se encontrava em suas mãos; mais precisamente, o envelope relativamente amarelado que estava em cima de todos os outros documentos.

Sua respiração pausou. Seu corpo estremeceu. Ela não conseguia acreditar no que lia, com letras grafadas e vermelhas, bem no alcance de sua visão:

“Iniciativa Vingadores: Aceita”.

Lágrimas acumularam-se em seus olhos, assim como um grande sorriso pôde ser alastrado em seu rosto. Era para aquilo que ela havia crescido; treinando, estudando, se isolando de tudo e de todos. Finalmente, a morte de seus pais não teria sido em vão; e talvez, só talvez...

Ela não fosse ser um risco para mais ninguém.

– Esperei tanto por esse dia... – ela sussurrou mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa. Mas Clint não pôde deixar de se assustar com o fato, arregalando os olhos e escancarando levemente a boca.

– Você tá louca? – ele exclamou, tentando afastar o envelope, por mais inútil que isso possa parecer – Quer mesmo se enfurnar em uma sala de aula, aprender como salvar o dia e não ser reconhecida por isso? Morrer pelos outros, defender aqueles que...

– Que tem a vida toda pela frente e não sabem se proteger? – o tom de sua voz aumentou consideravelmente, “assustando-o” ainda mais. Barton não era um homem que era impressionado tão facilmente; mas era difícil aquela criaturinha tão pequena, que ele orgulhosamente chamava de aluna, deixar a timidez de lado e aumentar a voz para quem quer que fosse – Estranhamente, Sr. Gavião Arqueiro, minha resposta é sim. Não foi para isso que treinamos? Não foi para isso que deixei minha vida social? – seu tom voltou ao normal quando finalizou, sombria – Não foi para isso que eu sobrevivi?

Clint piscou algumas vezes, agora entendendo porque aquilo era tão importante para ela. Estúpido. Ele deveria ter visto antes... A culpa crescente por ter sobrevivido; as horas lutando, ensaiando para futuros combates...

Tudo para honrar aqueles que já amou.

– É difícil... – sua voz relutante começou, tentando se explicar, tentando fazê-la entender porque aquilo era tão complicado para ele – Ainda não ensinei tudo o que você deve saber.

Ela sorriu de lado, entendendo um pouco o seu lado. Ele lhe ensinara a vida inteira; talvez até um pouco mais do que isso. Não era fácil ver “seu filhote” sair do ninho.

Por mais idiota que essa analogia possa parecer.

Bianca deu alguns passos em sua direção, ainda incerta se ele se esquivaria outra vez ou não. Vendo nenhuma reação por parte dele, ela pegou o envelope de suas mãos, abrindo novamente o seu grande sorriso.

– Vai ter muito tempo para isso lá na academia.

(...)

Lágrimas escorriam por sua face, um soluço teimoso querendo escapar de sua garganta. Por que só lhe avisaram agora?

Agente Coulson: morto em combate. Era tudo o que o telegrama dizia; nenhuma data, lugar, ou quem. Simplesmente assim. Sem mais nem menos.

Ela amassou o pedaço de papel, tentando acertar a lixeira e não se sucedendo como gostaria. Coulson fora um amigo; alguém em quem ela confiara, acostumara a contar seus pensamentos, emoções, sobre o dia a dia. Agora, ele se foi. E ela não estivera lá para impedir.

– Sinto muito, Agente Waterloo.

Ela ergueu-se sem pestanejar, se prostrando de frente a visitante, reconhecendo imediatamente sua voz. Ignorando as lágrimas que secavam quase dolorosamente em seu rosto, ela levou sua mão direita para a testa, prestando continência.

– Estou longe disso, Agente Hill. – seu braço voltou para sua posição original enquanto ela continuava – Não cheguei tão longe ainda.

Maria sorriu levemente. Ela tinha um carinho especial pela menina; desde que a encontraram vagando, sozinha, naquele tão fatídico dia. Um dia que ela tinha certeza de que a outra ainda se lembrava; mas preferia não tocar no assunto. Cicatrizes eram muito fáceis de serem reabertas.

– Talvez não tão longe quanto pensa.

A garota franziu o cenho enquanto a morena pegava um envelope de sua bolsa, depositando-a em cima da mesa. A mais jovem hesitou levemente, mas não o suficiente para que a outra percebesse.

– Amanhã você vai partir. As informações de que precisa estão aí dentro. – a Agente virou-se para ir embora, porém, não antes de terminar, dizendo – Boa sorte, Alice.

E então ela se foi.

A jovem dos cabelos cor de fogo pegou o pacote, lendo em sua capa “Iniciativa Vingadores – Aceita”. Ela arregalou os olhos. Todos aqueles em volta da S.H.I.E.L.D sabiam o que aquilo significava: o projeto havia sido, finalmente, aprovado. E ela fora aceita.

– Annabelle. – seu chamado não passou de um sussurro, mas sua primeira imediata não tardou a aparecer – Vá até Hank e diga que estou deixando a missão para você. Sei que não estragará os nossos anos de trabalho. – a outra sorriu, parecendo orgulhosa de si mesma.

– Obrigada, Alice. – seus olhos encheram-se de lágrimas, mas ela não as deixou cair, tornando-se imediatamente um pássaro e voando para longe dali.

A então comandante Waterloo sorriu levemente, saindo de sua modesta cabana. Ela olhou para os seus redores; todos os mutantes restantes da Mansão X estavam ali, trabalhando em uma das últimas missões que lhe foram designadas antes do incidente Jean Grey. Ela inspirou profundamente, estufando o peito. Ela fizera muito desde então; aquela não era uma missão tão simples e, por mais que não gostasse de admitir, a saída de todos da mansão para aquele campo fora muito mais do que bem vinda para os seus planos.

– Atenção. – ela exclamou, fazendo com que a multidão olhasse para ela. Um fato que ela já estava acostumada: afinal, ser uma das líderes de todos aqueles seres espetaculares não era tão fácil.

– A S.H.I.E.L.D pediu minha presença imediata e eu terei que partir. – sussurros contraditórios e murmúrios de preocupação ocuparam o ambiente. Ela pigarreou uma vez, trazendo a atenção de volta para si – Annabelle ficará no meu posto até que eu retorne. – “Isso se eu voltar” ela pensou, mas resolveu não dizê-lo em voz alta – Ela fará o seu trabalho com precisão e espero que todos se mantenham trabalhando como sempre até lá. E tudo o que eu queria dizer, bem... – ela engoliu em seco, sentindo as lágrimas voltarem, mas não se rendendo a elas outra vez – É boa sorte.

Todos bateram palmas. Sem exceção. Aquilo quebrou um pouco da postura que ela havia construído; mas, mesmo assim, manteu-se pétrea, inteira. Alguns vieram cumprimentá-la; dizer palavras de carinho e apertar as mãos em companheirismo. Quando finalizaram, ela simplesmente expirou profundamente, olhando, novamente, ao seu redor.

Estava na hora de fazer as malas.

(...)

– Café com leite para a mesa quatro e linguiça de búfalo para a mesa dezesseis! – a loira gritou com toda a força de seus pulmões devido a todo o barulho que vinha da lanchonete. Ela já havia se acostumado com a garganta seca, as espalmadas na bunda e ao equilíbrio perfeito dos talheres e pratos em sua bandeja.

– Freguês na mesa sete, Kali! – sua companheira de trabalho gritou de volta enquanto se dirigia para a cozinha afim de informar os pedidos. A garota andou sensualmente até a mesa, onde um homem com um jornal levemente amassado estava sentado, tampando o rosto. Já era parte de seu trabalho fazer os clientes lhe olharem com outros olhos.

– O que gostaria hoje, senhor? – sua voz soava animalmente sexy, e não era por tentar demais. A jovem percebeu as mãos do outro apertarem o frágil papel com mais força do que deveria, e ela sorriu com o fato.

Ela ainda tinha os seus encantos.

– Você em um prato de ouro. – o jornal foi depositado na mesa, revelando um homem extremamente sedutor, com seus óculos Ray Ban e seu sorriso de lado, sacana – É um pedido muito caro? Pois tenho certeza de que posso cobrir o preço.

O sorriso da garçonete aumentou ainda mais.

– Já o vi nos jornais, Sr. Stark. – ele tirou os óculos, surpreso com a agilidade mental da garota – Agora o que me intriga é o que o senhor está fazendo em uma pequena lanchonete do subúrbio como esta.

Ele fez uma careta, odiando o som daquela palavra nos lábios delineados da outra. Senhor. Quando ele se tornara tão velho?

– Pergunto-me a mesma coisa, pequena. – observando a garçonete trincar os dentes ao som daquela palavra, seu sorriso aumentou – Mas o que tenho em mãos pode fazê-la mudar de ideia quanto ao que quer fazer de sua vida.

Antes que ela tivesse a mínima chance de respondê-lo, ele depositou na mesa um envelope amarelado, desgastado. Tudo o que dizia em sua capa era “Iniciativa Vingadores – Aceita”.

Ela ergueu a sobrancelha. Aquilo não lhe significava nada; mas se o homem mais rico de New York estava ali naquele fim de mundo, era porque o assunto era muito mais importante do que aparentava ser.

– O que o faz pensar que aceitarei, Stark? – o homem ergueu-se de seu lugar no meio da pergunta, colocando o casaco de couro nas costas e virando-se para a saída.

– Não é muito questão de escolha quando se trata da S.H.I.E.L.D, querida. – ele riu levemente, andando com passos lentos até a porta. Quando lá chegou, ele virou a cabeça para trás, dizendo – Mas se eu fosse você, consideraria seriamente a proposta. Pode mudar muito na relação com sua mãe.

Ela estava pronta para lhe dar a pior das respostas quando ele abriu a maleta que estava em sua mão, revestiu-se com sua armadura de ferro e saiu voando dali. Típico de um covarde, pensou ela.

Seus pensamentos estavam confusos. Seu corpo estremecia. Seus dedos apertavam aquele documento como se ele fosse o seu bote salva vidas. “Mudar a relação com minha mãe?” ela pensou, soando histérica em sua mente “Mas como?”

– Vou tirar uma folga, Jack. – sua voz saiu tremida, chorosa. Seu chefe não ousou negar-lhe o pedido; sábio da parte dele. Ela começou a andar rua afora, não pensando muito no caminho enquanto voltava para o apartamento. Sentada no estofado sujo do metrô, ela olhou, mais uma vez, para o pacote em mãos.

Tudo o que ela precisava fazer era ler seu conteúdo.

(...)

– Vamos Willy, já fizemos isso várias vezes. – a voz de Orlie já estava começando a lhe dar nos nervos – Se concentre...

– E você acha que eu estou fazendo o que aqui, irmãozinho? – o garoto já havia se acostumado com o tom de insulto de sua irmã — Quero ver você tentar!

– Se eu pudesse manipular a mente alheia, teria o maior prazer. – ela revirou os olhos com o pensamento simplista de seu irmão – Qual a dificuldade de mandar um exército de formigas ficarem em linha reta?

Ela estava tentando. E muito. Mas manipular uma mente era uma coisa: várias era algo totalmente diferente. Ela bufou, frustrada consigo mesma; frustrada por isso soar tão patético para o seu irmão, tão patético até mesmo para Jill.

Ainda bem que aquela víbora não estava ali para ver seu fracasso.

– Apesar de serem pensamentos simplistas, são variados em sua forma. – ela explicou, desistindo daquela tentativa por hora e fixando seu olhar no teto semi rachado de seu apartamento – Controlar todos para que pensem de uma única forma é complicado. – ela expirou profundamente antes de finalizar – Sou um caso perdido.

O irmão deitou ao seu lado, passando o braço ao redor de seus ombros. Ela encostou a cabeça em seu ombro, fazendo um biquinho.

– Acha que aprendi a quebrar as coisas de um dia para o outro? – ela riu levemente, fazendo ambos sorrirem com o fato – Você vai conseguir. Você sempre consegue.

Antes que ela respondesse o quão fofo ele era, a campainha de seu apartamento tocou. Ambos franziram o cenho: era final de semana e todos sabiam que os dois iam passar o dia juntos. Sem interrupções.

Quem será que era?

Willy ergueu-se da cama; afinal, a casa ainda era dela. Chegando até a porta, ela a abriu, sem nem mesmo perguntar quem estava do outro lado.

Mas seu queixo só faltou cair de tão surpresa.

– Dr. Bruce Banner? – Orlie ergueu-se da cama, parecendo confuso.

– Quem? – seu tom era de completo sarcasmo, irritadiço até. O homem do outro lado da porta engoliu em seco; ele não estava preparado para situações como aquela.

– Um dos maiores físicos da atualidade! – ela abriu um largo sorriso, sentindo seu peito sendo empurrado para frente por seu coração, sua respiração ficando escassa e quase inexistente. Se a simples menção de seu nome já a deixava tonta, imagina nesse momento? – Gostaria de entrar, doutor?

– Não será necessário. – uma tentativa de sorriso passou por seus lábios, mas logo se tornaram tremulações. Uma mulher bela e esperta como ela parecia ser, reconhecendo-o? Algo com que ele não estava muito acostumado naqueles dias – Só quero lhes entregar esses envelopes.

Suas mãos suavam ao estender os pacotes inesperados, ainda mais ao esbarrar naquela mão tão feminina, tão delicada. Os dois se encararam momentaneamente; um instante que pareceu uma eternidade para ambos.

– Espero vê-la em breve... Digo, vê-los! Vê-los! – Bruce ajeitou os óculos enquanto Willy ria levemente e Orlie espremia os olhos, desconfiado.

Assim que ele cumpriu sua missão, ele rapidamente saiu dali, sem nem olhar para trás. A garota sentiu um aperto ao vê-lo partir; mas, para seu irmão, só faltou dar pulos de alegria. Ela lhe entregou o outro envelope e, ao lerem as palavras grafadas em vermelho, se encararam, confusos:

“Iniciativa Vingadores: Aceita/o”.

(...)

– Doutora? – sua assistente bateu na porta, colocando somente a cabeça na sala esterilizada da médica – Posso trazer o próximo?

– Claro, Maggie. – ela sorriu para a velhinha, que fechou a porta com o máximo de cuidado que pôde – Se cuide, James. Não quero vê-lo aqui tão cedo.

– Sim senhora. – o garotinho disse, tentando dar uma espiada no decote da doutora. Bagunçando o cabelo do moleque, ela empurrou-o levemente da bancada, mostrando-lhe que percebera o seu “plano”, e, assim, fazendo-o sair da sala. Ela expirou profundamente, pegando a prancheta e encarando o nome do próximo paciente.

– Steve Rogers? – ela disse enquanto escutava a porta ser aberta, o que a fez olhar para cima e sorrir torto. Ela não poderia ter tido mais sorte: homens bonitos como aquele não entravam sempre em sua sala – Normalmente não cuido de adultos, sou pediatra. Tem certeza de que está no lugar certo?

Ele sorriu levemente, olhando para baixo, deixando um pouco de sua timidez ser demonstrada com sua posição corporal, o jeito que sua respiração saia de seu nariz. A mulher colocou a ponta da caneta na boca, mordiscando sensualmente, pensativa.

– Na verdade, Dra. Grimald, tenho certeza absoluta. – estendendo um envelope em sua direção, ele finalizou – Mas não para uma consulta de rotina.

Franzindo o cenho, ela pegou o envelope, olhando para aquelas grandes letras na capa. “Iniciativa Vingadores – Aceita”. Ela arregalou os olhos.

– Faz tanto tempo que... Que não lembro desse nome. – ela engoliu em seco, referindo-se ao nome da organização, a S.H.I.E.L.D. Steve, percebendo seu embaraço, aproximou-se alguns passos de sua pessoa.

– Eles sabem o quão poderosa você é, Charlotte. – ela o olhou fixamente, parecendo assustada – Admitiram isso e precisam de você. Nós precisamos de você. – ele se afastou novamente, indo em direção porta – Leia o documento. Pode ser que te esclareça algumas coisas.

Antes que ele se fosse, no entanto, ela não pôde deixar de indagar:

– Como me acharam? – ela engoliu em seco mais uma vez. Um dos motivos para que trabalhasse em um lugar tão pequeno era para não ser encontrada pela S.H.I.E.L.D; o que acontecera em sua infância não passara de um infeliz acidente e tudo o que ela queria fazer era esquecer.

Ele virou-se para ela, soando sério, compenetrado. Ele expirou profundamente e, sem conseguir encará-la de volta, respondeu:

– Eles nunca a perderam de vista, doutora. – ele pegou na maçaneta da porta, fixando o olhar em sua pessoa pela última vez – A S.H.I.E.L.D nunca perde.

E, assim, ele saiu porta a fora e, sem nenhum aviso, desapareceu.

(...)

A mulher entrou pela janela, tentando ser o mais discreta possível enquanto fechava a mesma e retirava o dispositivo de seus tornozelos. Ouvindo batidas consistentes em sua porta, ela se apressou em guardar seus pertences, exclamando:

– Sim?

Entraram em sua sala, a encontrando com os pés em cima de sua mesa, sorrindo largamente. Sua secretaria, uma adorável jovem com não mais do que 20 anos, sorriu educadamente, ainda segurando na maçaneta da porta.

– Sinto muito em interrompê-la, Srta. Azevedo, mas tem um homem aqui que insiste em vê-la.

– Ele está marcado na agenda? – ela franziu o cenho, procurando pelo seu diário pessoal. A secretária pigarreou, parecendo desconfortável.

– Você se livrou de todos os compromissos para que pudesse... Fazer suas coisas. – ela disse, tentando soar o mais discreta possível. A jovem era uma das únicas que sabia de suas... Atividades Extracurriculares.

– Ow. – foi tudo o que ela conseguiu dizer, por ora. Pigarreando também, ela fez um gesto com a mão, dizendo em seguida – Pode deixa-lo entrar, Suzi.

Ela acenou com a cabeça, saindo porta afora. A moça ergueu-se da cadeira para atender melhor o possivelmente cliente, vendo-se no espelho e ajustando sua roupa e cabelo. Quando ouviu a porta sendo aberta, ela armou o seu melhor sorriso, voltando-se para trás outra vez.

Mas aquela expressão transformou-se rapidamente em surpresa.

– T-T-Tony Stark? – ela escancarou levemente a boca, mas rapidamente a fechou. Como sua secretaria pôde ser tão irresponsável, não reconhecendo o dono da indústria onde ela mesma trabalhava?

– Seu pai não me contou que você era articulada desse jeito. – o belo homem sorriu com o seu embaraço. Percebendo sua reação, a jovem morena adiantou-se, pegando em sua mão e a chacoalhando entusiasticamente.

– É um prazer conhece-lo, senhor! – mais uma vez, a careta tomou conta da face de seu superior. Sentindo seu rosto esquentar-se, ela largou sua mão, adiantando-se até a porta – Um café, Suzi! Rápido! – ela lhe sorriu, nervosa – Preto?

– Com um cubo de açúcar. – ele respondeu, olhando ao seu redor. Ele depositou a maleta no chão, retirando, mais uma vez, seus óculos do rosto – Seu pai não lhe fez jus o suficiente, minha querida. Você é realmente bela e prestativa.

– O-Obrigada. – ela disse, martirizando-se por dentro por soar tão indefesa e ridícula – Sente-se, por favor. – ela indicou a cadeira mais próxima, e ele não tardou a aceita-la.

– Serei breve, e o mais profissional possível. – ele sorriu de lado sedutoramente. Ela somente sentou-se do outro lado, tentando tomar sua posição mais séria e compenetrada – Creio que já ouviu falar da S.H.I.E.L.D, não?

– Em alguns relatórios. – ela disse, sentindo um asco por aquele nome. Alguns dos projetos da empresa eram para a agência, e ela não gostava nem um pouco daquilo; por mais que seu objetivo fosse a segurança, ela não passava de mais um dos maquinários do governo – Por que?

– Por que ela, evidentemente, já ouviu falar de você. – vendo a expressão confusa da outra, ele rapidamente lhe entregou o envelope relativamente amassado, depositando-o na mesa. “Iniciativa Vingadores – Aceita” era o que dizia em sua capa. Isso só a fez franzir ainda mais o cenho.

– Do que se trata? – ela perguntou, alcançando o pacote. Stark somente abriu ainda mais o sorriso.

– Só descobrirá se ler, Sabine. – ele se ergueu da cadeira, não esperando pelo café.

– Como uma negociante, Sr. Stark, sabe muito bem que não posso assinar um contrato sem saber dos fatos. – ela disse enquanto ele se dirigia para a porta da sala. Para um homem importante como aquele viajar até um país como o Brasil, era porque o assunto não poderia ser tratado tão levianamente como ele estava tratando.

– Bem, saberá se lê-lo, minha querida. – ele colocou os óculos de volta – Tire um tempo de folga dos crimes do Rio de Janeiro e terminará rapidinho.

Antes que ela lhe fizesse mais perguntas, o bilionário saiu pela porta. Então, sem tempo a perder, ela alcançou o telefone, discando os números que sabia de cor e colocando-o na orelha o mais rápido possível.

Não demorou muito tempo para que atendessem.

– Viviane, eu preciso de você agora.

(...)

Atenta a qualquer barulho, a qualquer intenção de perigo que a empreitasse. A mulher de cabelos negros comia seu japonês, praticamente encolhida em seu minúsculo apartamento, não deixando de encarar ao redor como se, a qualquer momento, um de seus inimigos pudesse surgir de um de seus móveis. A tocada da campainha a deixou, imediatamente, de pé: erguendo seu revólver, ela andou em direção a entrada, olhando pelo olho mágico e segurando firmemente a maçaneta.

– Quem é? – perguntou, sem rodeios, sem nenhuma perspicácia. Do outro lado, um homem todo de preto, com um arco nas costas, encontrava-se, esperando, como ela mesma fazia todos os dias de sua vida. Ele não respondeu de imediato.

– Alguém que pode acabar com os seus problemas. – ela espremeu os olhos, desconfiada, cega pelos pensamentos. Mas aquela frase teve o poder de incentivar sua curiosidade; levando-a, assim, a abrir a porta.

O visitante logo entrou, encarando ao redor, e, então, para a garota à sua frente.

– A S.H.I.E.L.D quer vê-la, Naja. – ela deu um passo para trás, escondendo a arma nas suas costas – Sabe do que me trato?

– Mais uma das maquinações nojentas de seu governo? – ela sorriu, sarcástica – Nunca ouvi falar e não estou interessada em fazê-lo agora.

– Uma pena. Os russos poderiam largar do seu pé se o fizesse. – o estranho homem virou-se para ir embora; mas ela não conseguiu se conter.

– Espere. – ele voltou-se para ela outra vez – Quem é você?

Ele sorriu levemente.

– Alguns me chamam de Gavião Arqueiro. – ele estendeu um envelope que dizia, em letras grafais, “Iniciativa Vingadores – Aceita” – Por enquanto, é tudo o que precisa saber ao meu respeito.

Ela aceitou o papel, ainda desconfiada, atenta. Ele riu por dentro. Aquela jovem se assemelhava a ele, de certa forma... Sempre preparado para o inimigo; sempre a espreita de alguém que pudesse, eventualmente, machucá-lo.

– Sobre o quê mais eu preciso saber? – sua voz hesitante o acordou de seus devaneios. Ele pousou a mão no queixo, como se refletisse sobre a pergunta; porém, logo a respondeu:

– Esta é uma chance de juntar-se a nós. – ela ergueu a sobrancelha, cética – Se o fizer, pode ter uma boa noite de sono, sem medo do governo russo te encontrar e leva-la de volta para os seus laboratórios. – isso, com certeza, atraiu sua atenção.

– Como vocês... – Clint não lhe deu a chance de terminar a frase.

– A S.H.I.E.L.D sempre mantém os olhos no que lhe interessa. E eles estão, definitivamente, interessados em você. – ele voltou-se para a entrada da casa – Pense nisso. – e, assim, ele fechou a porta.

A jovem jogou-se contra o sofá, perplexa, indecisa. Ela havia tomado tanto cuidado para manter a identidade a salvo; longe do olhar daqueles que pudessem lhe fazer mal, de um jeito ou de outro. Como a descobriram? O que queriam com sua pessoa?

E o que era a “Iniciativa Vingadores”?

(...)

Direita. Esquerda. Direita. Esquerda. Ele tinha que ficar sempre atento, sempre em movimento. Um boneco; decapitado. Mais um; perfurado sem misericórdia no estômago. Quando estava prestes a atingir o próximo, chamaram sua atenção:

– Estás deixando os pés muito separados, jovem.

O garoto riu escandalosamente, apoiando a espada no chão e, secando o suor de seu rosto, encarou o inesperado visitante.

– Como sabe? – ele cuspiu no chão, há alguns passos de distância.

O loiro sorriu de lado. Era esperto, o garoto.

– Já participei de muitas guerras, muitas matanças. – ele deu alguns passos em sua direção, fazendo-o erguer a sobrancelha.

– Com uma espada? – ele se pôs a rir outra vez – Não nesse mundo.

O outro achou graça em sua frase. Oh, a ironia...

– Sir? – um dos mordomos ergueu a voz, relativamente preocupado – Quer que eu chame a segurança?

O garoto olhou outra vez para o visitante, surpreso.

– Não precisa, Alfred. – quando este foi embora, o mais novo abriu um sorriso – Como conseguiu entrar sem ser notado? Tem que me contar como fazer isso!

O estranho olhou para as nuvens carregadas de chuva no céu.

– Também tenho minhas habilidades... Sir Jon Targaryen.

Jon começou, também, a andar em sua direção.

– Quem é você? – ele entortou levemente a cabeça para a esquerda, curioso, indagador.

– Interessante a pergunta. – o outro respondeu, colocando a mão no queixo – Mas a pergunta certa é: o que eu estou fazendo aqui?

– Ok... – ele franziu a sobrancelha, ainda sorrindo. Decidiu entrar no jogo – O que está fazendo aqui?

O loiro abriu o maior sorriso que o garoto já vira. Pegando um envelope, ele o lançou na direção do jovem monarca, fazendo-o ler com perspicácia as palavras “Iniciativa Vingadores – Aceito”.

– O que isso significa? – ele não quis soar rude, arrependendo-se por dizer dessa maneira inconsequente. Mas o inesperado visitante não pareceu notar, retomando a dizer:

– Gostaria de lhe dizer; contudo, não possuo o tempo que desejas. – ele olhou para o céu outra vez – Tudo do que necessitas estás nesse envelope. Agora, se me permite, tenho que voltar a cuidar de meu irmão. – e, tão rápido quanto apareceu, se foi; pulando em direção ao céu em uma altura tão fantástica que, facilmente, não pôde mais ser visto.

E enquanto o jovem Jon olhava para o envelope lacrado, tudo o que o outro deixara em seu lugar foram os trovões.

(...)

– E é assim que vamos vender o protótipo do “Palhaço Feliz”. – a garota finalizou a apresentação com um grande sorriso no rosto. Havia demorado semanas para que ela terminasse seu discurso; e o fato de que não havia gaguejado nenhuma vez durante aquela hora era, definitivamente, uma vitória pessoal.

– Parabéns, Srta. Shaw. – o chefe apertou sua mão após os clientes terem saído – Tenho certeza de que uma promoção bem gorda está a sua espera nesse exato momento. – o homem baixinho e careca piscou em sua direção, saindo logo em seguida do salão.

Fazendo a dancinha da vitória, ela praticamente saltitava em direção a sua sala, a abrindo sem se importar se alguém a visse dessa maneira. Aquele havia sido um dia perfeito até então; o que poderia dar errado?

Contudo, assim que ela fechou a porta, alguém pigarreou às suas costas, dizendo:

– Feliz, Srta. Shaw?

Ela virou-se rapidamente, com os olhos bem abertos. Uma ruiva ocupava sua cadeira, observando a sala atenciosamente; menos a ela mesma. A garota engoliu em seco.

– Até agora, sim. – ela respondeu, milhares de pensamentos circundando sua mente. Se ela tivesse tempo o suficiente, talvez ela pudesse fazê-la sair dali sem se lembrar de nada da visita...

– Não faria nada, se fosse você. – a estranha mulher ergueu-se do lugar – Minha memória não ficará apagada tempo o suficiente para que você consiga escapar daqui.

A boca da jovem se escancarou, surpresa. Como ela sabia de seus poderes? Será que ela conseguia ler seus pensamentos?

– Como você... – ela decidiu verbalizar sua confusão, mas foi impedida de fazê-lo.

– A S.H.I.E.L.D se interessou por você. – pelo cenho franzido da garota, a ruiva supôs que a outra não soubesse do que ela estava falando – É uma agência dedicada a proteger as pessoas. Pessoas que não conseguiriam se defender, totalmente desprotegidas. Nós precisamos de combatentes; pessoas especiais, com habilidades especiais, que se dediquem a salvar o mundo... – ela parou, alcançando um envelope que dizia “Iniciativa Vingadores – Aceita” na capa – Como você.

A garota não conseguiu impedir que a gargalhada ocupasse o ambiente.

– Quem? Eu? – ela riu mais um pouco – Sou uma ninguém, amiga! Uma Zé-Nin-Guém! – ela soletrou, achando aquela história cada vez mais divertida – Por que iriam querer alguém como eu?

A outra se aproximou de sua pessoa, fazendo-a parar de rir instantaneamente.

– Só porque seus pais não souberam valorizar o que tinham, não quer dizer que faríamos o mesmo.

Aquilo deixou a garota sem palavras. Fazia tanto tempo que ela não pensava em sua família... Somente a lembrança de que fizera parte de uma cortava o seu coração.

A mulher afastou-se, parando na porta. Ela suspirou e voltou-se para a garota outra vez.

– Leia e pense nisso. – ela pegou na maçaneta – Pode valer a pena.

E, assim, Natasha Romanoff se foi; deixando em seu lugar apenas uma pobre jovem a, finalmente, entregar-se as lágrimas.

(...)

– Obrigado e volte sempre! – o garoto dizia com um grande sorriso no rosto enquanto mais um cliente saia da loja. Por mais que ele fosse o dono do lugar, ele gostava de trabalhar em contato direto com as pessoas – Mais um para o meu bolso. – ele disse em tom de brincadeira para um de seus empregados, que apenas sorriu por educação – Babaca. – ele sussurrou quando o outro se afastou, vendo alguém se aproximar da bancada – Olá senhor, no que posso ajuda-lo?

Ele franziu o cenho com o estereótipo que se aproximava; um adulto, com óculos, terno e camisa desgrenhados, olhando para os lados como se a qualquer momento alguém fosse pular em cima dele. Não era uma pessoa que poderia ser considerada esportista.

– Pode começar não encostando em mim, Sr. Judd. – o homem, com sua boca levemente retorcida, ajeitou o máximo que pôde sua gravata amassada – Creio que não está interessado em tornar-se um gigante no meio de sua loja.

O dono mudou de postura, o encarando com seus olhos céticos, perigosos. Ele, então, o reconheceu dos jornais; o homem de duas faces, que se tornava “o outro cara”.

– O que quer aqui? – sua voz era sombria, e o doutor não quis testar a sorte e ver o atrito crescer entre os dois. Pegando sua maleta, ele retirou da mesma um envelope, onde estava escrito com letras grandes “Iniciativa Vingadores – Aceito”.

– Não quero que o meu amigo interno acabe com o seu negócio, então serei o mais breve possível. – ele disse enquanto ajeitava os óculos – O pessoal da S.H.I.E.L.D quer que você participe de um projeto.

– Que projeto? – o outro ergueu a sobrancelha, sua curiosidade sendo atiçada pelo estranho homem. Banner olhou para os lados, verificando-se de que ninguém escutava sua conversa.

– Todas as informações estão aí dentro. É melhor começar a ler, Sr. Judd. – ele virou-se de costas, dizendo em seguida – Até mais ver.

“Que homem mais esquisito...” ele pensou, observando o papel em mãos – Martin, tome conta da loja. Estarei em meu escritório, se precisar. – dito isso, ele se afastou da bancada, não retirando os olhos do estranho embrulho amarelado. Quando chegou em seu escritório, não tardou em abrir seu conteúdo, pegando uma tesoura de sua mesa e tomando cuidado para não danificar nada no processo.

Mas quando começou a ler, toda a sua postura mudou, outra vez; seus pensamentos ficaram confusos, suas costas arquearam-se contra a cadeira. Ler aqueles documentos parecia mais um sonho; ou pesadelo, dependendo do ponto de vista. Histórias sobre aliens, seres estranhos e com poderes magníficos, estavam todos ali, relatados do jeito mais descritivo possível.

E ele pensando que fosse o único desse mundo...

(...)

A loira encontrava-se em seu quarto, observando suas belas asas estenderem-se pelo espelho. Ela as polia delicadamente, como sua mãe a havia ensinado antes de morrer, cantando em sua cabeça uma melodia que a progenitora sempre entoava quando a estava ninando.

Ela estava no meio desse processo quando ouviu palavras em um som alto demais para ser ignorado. Curiosa e preocupada, ela largou tudo e se dirigiu ao andar de baixo, onde seu pai se encontrava discutindo com um homem loiro e alto, bem definido e com um uniforme de soldado, na porta de sua casa.

– O que há, papai? – ela questionou, se fazendo presente no espaço. O progenitor a olhou, mortificado por certo momento. Mas porque?

– Suas asas, Isabella! – ele exclamou, e a filha colocou ambas as mãos por cima de sua boca escancarada, nervosa. Ela esquecera completamente de escondê-las.

Então era assim que tudo acabava? Como rata de laboratório; movida a drogas farmacêuticas e objeto de pesquisas?

Estranhamente, o loiro somente sorriu. Ele passou por seu pai, que agora batia a cabeça contra a parede, extremamente envergonhado, e então o soldado ajoelhou-se no chão, tão próximo de seu corpo que ela conseguia sentir o calor lhe aquecendo por inteira.

– Isso é para você, Srta. Castoldi. – ele lhe estendeu um envelope. Ela não conseguia ver direito o que estava escrito, pois sua mão cobria as palavras; mas quando ela o pegou, conseguiu ler claramente:

“Iniciativa Vingadores – Aceita”.

– O que é? – ela questionou, parecendo esquecer que estava com medo, ou que suas asas ainda estavam abertas ao ver de todos. Steve sorriu de lado; a garota parecia tão inocente, tão indefesa...

Como ele mesmo já fora um dia.

– Saberá quando ler. Não posso ficar muito tempo ou alguém aqui me mata. – ele disse, no final piscando para ela. A garota riu levemente, o som de sua voz soando como sinos harmoniosos para os seus ouvidos. Rogers ergueu-se do chão, se afastando rapidamente em direção a porta.

– Espero vê-la em breve, Srta. Castoldi. – ele fez um aceno de adeus e, então, se foi. Ela olhou para o envelope outra vez, sorrindo largamente e o abraçando com carinho.

Ele fora o primeiro, além de seu pai, a ver suas asas.

E ela não podia estar mais feliz.

(...)

– Você primeiro. – a morena pediu, sorridente. O garoto riu de sua face, dando um selinho em sua boca.

– Você primeiro. – ele repetiu, e a garota não pôde deixar de rir com a discussão. Ambos estavam deitados na cama de seu novo apartamento, comprado às custas do trabalho pesado e a tristeza cortante de sua mãe. Os dois, cobertos apenas pelo cobertor, riam as custas um do outro; sempre felizes, sempre orgulhosos de como as reviravoltas da vida o fizeram estar ali, juntos, unidos.

– Ok então. – ela pigarreou momentaneamente, olhando para o teto – Eu o amo pelo fato de você ser só atencioso comigo e com mais ninguém.

– Pensei que não gostasse do meu jeito “frio e calculista”? – ele ergueu a sobrancelha e ela lhe deu um empurrão no ombro, lembrando-se de que aquelas foram as suas próprias palavras.

– Tenho que amá-lo pelos defeitos também, não é mesmo? – depois de vê-lo revirar os olhos, ela continuou – Ok, agora você.

– Hm, deixe-me ver... – ele posicionou o polegar nos lábios, como se estivesse a pensar – A amo por fazer uma excelente torta de banana.

Ela escancarou a boca de maneira cômica e piadista, não acreditando em sua cara de pau.

– Ah, é mesmo? – ela se levantou da cama, deixando o namorado a contemplar sua nudez a distância – Então pode procurar outra para fazer suas tortas de banana, porque esse par de peitos e essa bunda redondinha vão vazar daqui...

– Amor, vem cá, tava só brincando! – ele começou a choramingar e, compadecendo-se de seu rostinho triste, por mais que fosse uma mera brincadeira, ela voltou para a cama, aninhando-se outra vez em seus braços.

– Engraçadinho... – ela sussurrou, aproximando seus lábios outra vez. O beijo entre os dois sempre era intenso, apaixonado; e aquela vez não foi exceção. O loiro a puxou para um embrace mais intimo e, estremecendo de precipitação, ela não hesitou em aceitá-lo, agarrando sua nuca com paixão, como se fosse o ar que ela respirava. Suas línguas se entrelaçavam, como se fosse uma dança onde ninguém poderia parar; seus corpos estavam unidos, quase em uníssono...

Até que alguém tocou a campainha.

– Quem é o maldito? – o garoto ergueu-se da cama, extremamente furioso por terem interrompido seu momento com a namorada. Pegando qualquer calça que estivesse a disposição, ele saiu do quarto, batendo a porta fortemente ao fazê-lo.

– Ou maldita... – a garota complementou sozinha, mordendo o lábio inferior. Ela não gostava quando o namorado saia daquele jeito; ela sabia muito bem do que ele era capaz. “Pobre coitado aquele que acabou de tocar a campainha...” pensou ela por um momento, e, por causa dessa linha de raciocínio, ela quase ergueu-se também para ver o que ocorria na sala; mas seu namorado logo voltou, com uma expressão em seu rosto que ela nunca vira antes.

– O que foi, Andros? – ela questionou, franzindo o cenho. Ele apenas lhe lançou dois envelopes, dizendo:

– A coisa mais estranha aconteceu, Josi... – ele respondeu, encarando o vazio à sua frente – A coisa mais estranha...

Achando preocupante a atitude de seu amor, ela tratou logo de resolver aquela questão ao ver do que se tratava os estranhos pacotes. E ali, com letras vermelhas e grafadas, estava escrito:

“Iniciativa Vingadores – Aceita/o”.