Iniciativa Vingadores

5 As Fichas Assassinas


Notas iniciais
Dei mais destaque aos nossos garotos nesse capítulo; espero que não estejam desapontadas rsrs

Bjxxx

– Bom, já que ninguém vai falar nada, vamos direto ao assunto.

Christopher, com essa frase, conseguiu chamar a atenção dos três garotos para si. O silêncio no quarto já estava se tornando extremamente torturante para todos; e Chris não pôde se conter em, finalmente, quebrar o gelo.

– Que seria... – Orlando ergueu a sobrancelha esquerda, sentindo-se incomodado com toda aquela situação. Ele geralmente era um homem muito reservado; e dividir o quarto com mais três desconhecidos não era exatamente o modo mais eficaz de manter sua privacidade intacta.

– O que mais? – o moreno jogou-se em sua cama, sorrindo maliciosamente – Mulheres.

Jon riu levemente, terminando de dobrar sua última camiseta; um ato dificílimo para o lorde, já que o garoto se acostumara a vida inteira a servos lhe fazendo aquele mesmo trabalho.

– O que tem elas? – ele disse, voltando a olhar para os companheiros depois de fechar a gaveta – Já quer marcar território?

Os punhos de Andros transformaram-se em dois punhos, e ele se esforçava ao máximo para não demonstrar nenhuma alteração de humor enquanto os outros conversavam entre si.

– Exatamente! – Chris ergueu-se da cama, como se aquela resposta fosse a mais simples do mundo – Nós, homens, estamos em minoria nesta casa; todos sabemos disso. Não queremos brigar entre si por causa de um par de saias, não é mesmo? – Jon riu mais uma vez, balançando a cabeça com o modo obsceno de pensar do novo amigo – Então, quem vai ficar com quem? Vejamos... – o moreno colocou o indicador na boca, como se estivesse a pensar – Sabine não é nada mal... Sua bunda é, no mínimo, tentadora. – seu corpo estremeceu com o pensamento – Já Lily, não aconselho muito; viajei com a garota e ela é um tanto... Peculiar. – um calafrio percorreu sua espinha enquanto ele continuava seu discurso – Josi...

Aquela foi a última gota. Em um pulo, Andros já estava em seu encalço; prensando-o contra a parede, seu braço pressionando sua traqueia, afim de fazê-lo perder o ar. Enquanto o moreno lutava contra seu forte embrace, o outro rugiu, entre dentes:

– Não... Se aproxime... De Josi... – pressionando-o ainda mais, completou em uma exclamação – Fui claro?

Christopher o empurrou para longe, massageando o pescoço. Os dois garotos restantes só puderam ficar ali, fitando a cena de olhos arregalados. Aquilo foi tão inesperado que seus corpos paralisaram de susto.

– Eu ia dizer que ela já estava ocupada! – Judd se explicou, espremendo os olhos em sua direção, como aviso. Aquilo fez Jon lembrar-se de Naja... E seu corpo estremeceu com tal fato.

– Só um aviso de amigo. – Cortes sorriu falsamente, afastando-se ainda com os passos pesados.

– Cara doido... – o moreno disse enfim, voltando a deitar-se na cama e pegando uma revista na mesa de cabeceira.

(...)

As fichas dos recrutas estavam todas empilhadas em cima da mesa central, com os Vingadores, Logan e Loki em volta, olhando para a mesma. Steve, respirando fundo, com a cabeça apoiada nas mãos e os cotovelos sobre as pernas, ergueu-se de seu lugar, pegando a primeira ficha.

– Por que estamos com tanto medo, afinal? – ele riu de nervoso, encarando a todos, referindo-se ao fato de estarem à horas naquela mesma posição – São só novatos! E precisamos conhece-los antes de ensiná-los... Certo?

Ninguém respondeu a pergunta, e o Capitão ficou ali, com cara de taxo, enquanto ainda segurava aquele pequeno monte de papéis.

– O que estamos esperando? – Tony Stark sorria enquanto entrava na sala de reuniões, observando as feições de todos ali presentes. Vendo somente Rogers levantado, e já com uma ficha em mãos, seu sorriso aumentou, arrancando-lhe os documentos – Obrigado por me esperar, Capicolé. Sabia que ainda tinha o espírito de equipe em você. – dando tapinhas em seu ombro, Stark sentou-se no lugar do Capitão, fazendo-o olhar feio para o bilionário – Ainda não? Tudo bem. – o moreno ergueu-se, deixando Rogers sentar-se, enfim – Vejamos... Isabella Castoldi; Codinome, Fada. Tem 19 anos, é londrina, órfã de mãe e seu pai é dono de uma empresa de carros desconhecida. – Tony jogou os papéis na mesa – Só isso? A S.H.I.E.L.D não nos deu mais nenhuma informação? – ele jogou-se na cadeira restante – Como eles esperam que controlemos essas pestes se nem sabemos o que podem fazer?

– Nick Fury quer que aja uma demonstração de seus poderes amanhã, antes das aulas começarem. – Clint disse olhando janela afora, observando como o pôr do sol mesclava-se com as nuvens do céu, deixando-as mais alaranjadas a medida que o tempo passava– Escrever sobre os mesmos é perigoso. Pode cair em mãos erradas. – com a última frase, Barton não pôde deixar de desviar o olhar para Loki, que apenas sorriu torto em resposta.

– Isso é só uma desculpa! – Tony fez um gesto de desprezo com as mãos — A verdade é que Nick não confia na gente para tanto... – Stark ergueu-se do lugar, locomovendo-se até a janela – Mas por que...?

– Bem, seja o que for, não descobriremos a resposta tão cedo. – Steve alcançou outro monte de papéis, fitando a todos outra vez – Ou talvez esteja aqui, nessas fichas. Por isso, temos que olhá-las, uma por uma. – ele se levantou, completando – Certo?

Sem receber nenhuma resposta, ele abriu o próximo documento.

– Josi Black; Codinome, Lunar. Tem 18 anos, americana, pai desconhecido. – o Capitão olhou para os lados, percebendo que havia algo errado – Cadê Natasha?

– Recebeu uma missão no Sul da Itália. Fury não quis dar mais detalhes. – Clint respondeu em seu tom monótono de sempre, deixando a todos meio aturdidos.

– Bem, então teremos que reorganizar as aulas, depois. – Rogers engoliu em seco, pegando a próxima ficha – Andros Cortes; Codinome, Planador. Tem 19 anos, americano e órfão.

– De onde os jovens arranjam esses codinomes, hoje em dia? – Stark balançou a cabeça – Cada um mais...

– Christopher Ferraz Judd; Codinome, desconhecido. – Steve interrompeu Tony, fazendo-o revirar os olhos com tal ato – Tem 26 anos, americano, família residente de Washington.

– Meio agressivo, o garoto. – Bruce disse, ajeitando os óculos – Ou talvez um pouco super protetor demais. Não deu para ter certeza.

– De qualquer maneira, será bom para o campo de batalha. – Thor também se levantou da cadeira, mostrando sua imponência – Raiva no coração de um guerreiro dá mais força e razão na hora do combate!

Loki bufou levemente e revirou os olhos pela aparente falta de tato do meio irmão.

– Ok... – o soldado pegou mais uma ficha, abrindo-a logo em seguida – Lylian Grey Shaw; Codinome, Lilith. Tem 22 anos, londrina, família desconhecida. – Rogers franziu o cenho com tal fato. Não dizia que a garota era órfã; somente que não se sabia sobre seus pais, ou parentes próximos. Mas... Por que?

– Você demora demais. – Stark roubou o próximo documento, abrindo-o sem hesitar – Jon Targaryen; Codinome, Sword. Eles foram abrindo o dicionário para pegar esses nomes, né? – todos o fuzilaram com os olhos, fazendo-o prosseguir com a leitura – Tem 20 anos, francês, herdeiro Targaryen, da família do Primeiro Rei da França. Uau. Temos mais uma celebridade aqui. – ele riu com a própria piada, parando ao perceber que ninguém mais o fazia – Vocês não têm muito senso de humor.

– Ou não achamos engraçado. – Logan grunhiu de modo que todos o escutassem – De duas, uma. Qual você acha mais provável?

Enquanto Tony fazia uma careta de desprezo, o resto observava a cena de olhos esbugalhados. Esta fora a frase mais comprida que Wolverine pronunciara desde que haviam se conhecido.

– Hum... Próximo. – Bruce tomou coragem para quebrar a quietude incômoda do recinto, abrindo o próximo documento – Naja Rowan; Codinome, Naja.

– Criativo, não? – Stark sussurrou, mas não esperou risadas desta vez.

– Tem 19 anos, russa... – Dr. Banner franziu o cenho, confuso com o que dizia naquelas páginas.

– Ela foi experiência dos pais adotivos na Rússia. É uma longa história. – Barton completou o perfil como se aquela fosse a resposta mais natural do mundo – Vocês não precisam saber dos detalhes sórdidos. – ele finalizou com um sorriso de escárnio alastrando-se pelo rosto.

Diante da resposta e do silêncio que seguiu-se depois, Bruce só pôde sentar-se em sua cadeira outra vez.

– Vocês, humanos, são muito medrosos. – Thor disse, alcançando mais uma ficha e abrindo seu conteúdo – Sabine Dupré Azevedo; Codinome, Papillon. Tem 23 anos, brasileira, órfã de mãe; seu pai, Pierre Dupré, antes de se aposentar, era grande empresário francês, o qual trabalhava numa das filiais das Indústrias Stark na França e, após a morte da esposa, passou a trabalhar na filial do Brasil.

– Essa sim teve criatividade para nome. – Tony sorria de orelha a orelha, orgulhoso de ter algum representante de sua empresa ali, para mostrar a todos o seu “poder”.

– É o nome de um filme, Stark. – Logan disse sem expressar nenhuma emoção, continuando a afiar suas garras.

– Ah... – o bilionário franziu o cenho, aparentemente confuso.

– Sim, é norte-americano. Foi lançado em 1973, e conta a história de um homem injustamente preso na Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. – Dr. Banner dizia enquanto limpava a lente de seus olhos. Alguma semelhança com a realidade, talvez?

– Tá, tá, tá, já entendi. – Tony bufou, jogando-se novamente em seu lugar – Prossiga.

Segurando o riso, Steve seguiu em frente.

– Charlotte Marie Van Der Belt; Codinome, Fênix.

Não deu para Logan se segurar. Transformando as próprias mãos em punhos, impedindo-o de realizar qualquer ação mal pensada, ele se ergueu do lugar e, com passos decididos, dirigiu-se porta afora, sem se dar o trabalho de olhar para trás.

Como resultado, na sala de reunião, só permaneceu as expressões de choque.

– Bem... Enfim. – Rogers tossiu, chamando a atenção de volta para si – Tem 20 anos, inglesa, sempre morou com a tia em New York, apesar de seus pais permanecerem vivos.

– As coisas estão ficando cada vez mais estranhas por aqui... – Dr. Banner sussurrou para si mesmo, referindo-se a saída brusca de Wolverine minutos antes.

– Isso não é da nossa conta. – fora a vez de Clint abrir outro documento – Orlando Joshua Hansen; Codinome, Ying. Tem 27 anos, americano, seus pais mantêm-se vivos e saudáveis na fazenda da família, em Idaho.

– A próxima ficha é da irmã gêmea. – o Capitão disse ao ler o conteúdo dos papéis seguintes – Wilhemina Rae Hansen; Codinome, Yang. O resto vocês já sabem.

– Ela tem bom coração. – Bruce disse com um olhar deveras sonhador, lembrando-se dos olhos brilhantes da jovem sobre si quando chegou no apartamento; mas, percebendo que Stark o observava e não querendo ser motivo de chacota momentos depois, continuou a dizer, arrumando seus óculos no rosto – Pelo que percebi de seu comportamento tanto físico quanto psicológico quando fui lhe entregar as informações sobre a Iniciativa.

– Sei... – Stark sorriu torto, mas decidiu deixa-lo como estava. Pelo menos por enquanto – Kalista Rhode Winter; Codinome, Snow. Ah, essa garota é interessante. – ele riu levemente antes de continuar – Tem 21 anos, americana, seu pai é um humano e a mãe é Afrodite, uma das Deusas Gregas.

– Como é? – Thor ergueu-se mais uma vez de seu lugar, sua face tomando um tom levemente avermelhado – Os Gregos são monstros sem alma! Destruidores de lares e inimigos de Asgard! Não posso treinar alguém que é proveniente de um de seus deuses! Seria como...

– Trair o próprio povo. – Loki completou em um tom completamente desinteressado, sabendo de cor aquele discurso heroico e emocionante, o mesmo de seu pai. Steve o encarou com os olhos em brasa; e o Deus da Trapaça sabia que, dali, não sairia coisa boa.

– Se não vai ajudar aqui, Loki, que tal fazê-lo lá fora? – ele esticou o braço em direção a porta, completando com uma pergunta – Ele já está com o chip ou não?

– Foi implantado antes de decolarmos, hoje cedo. – Clint respondeu, parecendo assustado com a atitude inesperada do Capitão.

– Pois bem. – ele voltou a apontar para a saída da sala – Faça algo longe daqui. E que seja útil. – o último aviso saiu em um tom perigoso, severo. Enquanto o moreno se erguia, não acreditando que estava sendo expulso daquela maneira, Stark completou, sorrindo:

– É, Lokinho. Faça um café bem forte pra gente e volte em cinco minutos. – o bilionário piscou para ele, divertindo-se com a cena. E enquanto o Deus saía, espumando de raiva e injuriado com toda aquela situação, uma única pergunta rondou sua mente:

“O que seria esse tal de... Café?”

– Enfim. – Clint dirigiu-se a Thor, afim de que continuassem com a reunião e, de preferência, a acabassem logo – Ela foi expulsa do Olimpo por ser meia humana. E Afrodite é conhecida como uma das Deusas Gregas mais bondosas e sinceras. Quer mesmo tirar a chance de Kalista apenas pelo histórico da família? – antes que o Deus pudesse lhe responder, o Arqueiro completou – Pense bem. Você pode estar destruindo a vida da garota.

O loiro pensou, olhando janela afora, assim como o companheiro já havia feito. O céu estava escuro agora; as estrelas iluminavam levemente as árvores da floresta, mas o breu tomava conta dos jardins da mansão. Ele expirou profundamente, fechando os olhos.

– Não. – ele respondeu à pergunta, sem encarar ninguém – Vou dar-lhe a mesma chance que os demais. Mas se os Deuses Gregos vierem tirar satisfação...

– Não podemos dizer que você não avisou. Sim, todos nós entendemos. – Rogers completou e o Deus franziu o cenho. Não era aquilo o que ele estava prestes a dizer; mas soube se satisfazer com a escolha de palavras – A próxima é... – o Capitão abriu outra ficha, começando a lê-la atentamente – Alice Waterloo; Codinome, Wonder. Tem 22 anos, inglesa e órfã.

– Jane Doe. – Clint disse, fazendo com que todos o fitassem, seus cenhos franzidos pela confusão – Esse era seu nome antes de ser encontrada na ponte Waterloo, na Inglaterra.

– E disso você sabe... Como? Se os documentos dela foram feitas no nome de Alice Waterloo... – a frase de Bruce foi morrendo assim que observou o modo como o Gavião o fitava; atento, misterioso. Tenso.

– A S.H.I.E.L.D tem mais recursos do que pensa, doutor. – ele disse tentando soar mais calmo – Além de que... Nós a achamos antes dela vir morar com os mutantes.

– Mas... – o gesto brusco paralisou Steve, estando frente a frente com o Arqueiro.

– Não é da sua conta. – ele encarou a todos – Não é da conta de ninguém. Fui claro?

Todos assentiram com as cabeças, por mais estranho que aquilo pudesse parecer. Nem mesmo Clint Barton sabia o que estava fazendo; mas se Fury queria que a garota permanecesse um mistério...

Bem, assim ela iria permanecer.

– Continuemos, então? – Rogers voltou a ler, novamente compenetrado em sua função atual — Bianca Samon; Codinome, Ice. Tem 22 anos, americana, seus pais foram...

– Mortos em uma explosão. – Stark agarrava os encostos da cadeira com uma força desnecessária; olhando fixamente para frente, mas não para um ponto em específico. Ele ficou ali, parado; sua mente rondando em problemas do passado. Em diversos nomes, datas e acontecimentos imprevistos... Em um nome em particular. Bianca.

– Na minha indústria; em um dos meus laboratórios. – ele dizia enquanto se levantava lentamente da cadeira; não conseguindo encarar ninguém ao seu redor – Alguma dúvida... Capitão?

A última palavra saiu em tom de escarnio, desprezo; mais por si mesmo do que pelo outro herói em si. A culpa já tomava o seu interior, como sempre havia em todos esses anos; o choque de saber o que havia feito com a vida da garota infiltrando-se em seu cérebro a cada momento que passava. Ela estava ali. Na mesma mansão, com as mesmas pessoas, respirando o mesmo ar. A ideia de ter que ensiná-la lhe soava absurdo; impossível até. E enquanto ele se dirigia a saída, uma ideia torturante ocupou todos os seus pensamentos:

“Quanto mais eu fujo da verdade, mais ela volta para me assombrar.”

– Tony, espere! – Steve tentava fazê-lo parar, mas era em vão – Ainda temos mais...

E quando o bilionário saiu, batendo a porta com toda a força que possuía, o loiro completou, sem nenhum objetivo aparente:

– Uma.

(...)

Logan só parou quando se encontrou fora da mansão, ajoelhado na grama alva do jardim. Nenhuma emoção demonstrava-se em seu rosto; os olhos esbugalhados encarando o horizonte, entre os galhos das árvores, entre a escuridão taciturna. Ele procurava por algo. Mas não sabia o que.

O homem se levantou outra vez, andando sem rumo pelos caminhos tortuosos das trilhas. Era uma bela noite, aquela. A lua firmava-se imponente no céu; os sons dos grilos e das corujas harmonizavam o ambiente, dando-lhe cores, cheiros. Paz.

Mas essa atmosfera não era o suficiente para acalmar o coração da fera.

Ele permaneceu andando até suas pernas cederem contra o solo, suas garras rasgando a terra como se fosse um simples pedaço de papel. Um soluço ameaçou escapar de sua garganta; mas ele a segurou, com certa dificuldade no ato. Um homem que se preze nunca deveria chorar.

Porém, aquilo tudo se tratava de Jean. Jean Grey... Sua Fênix.

Ele não ousava pensar nela. Nem tocar em seu nome. Mas a situação atual fazia desta missão a mais impossível de todas... Seu odor, o calor de sua pele, seus olhos brilhantes e alegres ainda estavam ali, remendados em suas memórias, em seus pensamentos. Ele a amara. E ela nem ao menos foi sua.

O som do riacho interrompeu seus pensamentos. Ele o seguiu sem se dar conta do fato; só o percebendo quando, ao chegar lá, deparou-se com uma cena inusitada.

O vento esvoaçava ao seu redor, balançando os seus longos e belos cabelos em sincronia. As gotículas do rio flutuavam bem próximas ao seu rosto; e flores brotavam aos seus pés, multicoloridas, alegres. Perfeitas. A morena, ajoelhada em seu leito, cantarolava uma música desconhecida; juntando-se aos sons da floresta, ao canto das corujas e dos grilos. Logan não sabia o que dizer, ou fazer; só conseguia ficar lá, observando-a sorrir, cantar.

Viver.

– Olá? – ele mal percebeu quando a estranha se levantou, franzindo o cenho em sua direção. Em algum momento, ele deve ter feito algum som; quebrado algum pedaço de graveto enquanto andava em sua direção. Um erro estúpido, para toda a experiência que ele havia adquirido todos esses anos.

– Desculpe-me se interrompi algo. – ele coçou a nuca, aparentemente embaraçado pela situação. Ele nunca havia sido pego de surpresa; aquela, geralmente, era a sua função.

– Só estava dando uma volta. – ela sorriu, e aquele simples ato trouxe uma calma em seu coração que ele não sentia há muito tempo. Franzindo o cenho mais uma vez, a jovem continuou, dizendo – Sou Charlie. Quem é você?

Aquele nome lhe trouxe para a realidade de volta. Só havia uma pessoa, entre todas as outras garotas da casa, que possuía um nome parecido com aquele.

E a realização deste fato trouxe de volta o Wolverine que todos nós conhecemos.

– Volte para a Mansão. É perigoso aqui fora. – seu tom fora rude, inesperado. Charlotte diminuiu seu sorriso a medida que aquele homem tão misterioso ia embora, lhe deixando uma única dúvida:

“Quem é ele?”

(...)

Stark andava cegamente pelos corredores, os pensamentos confusos e o passado circulando por sua sanidade. Ele não conseguia manter sua mente em ordem; ou suas ações em foco. Pela primeira vez em anos, ele estava, inteiramente,...

Perdido.

(...)

Caos. Confusão. Gritos de horror. Era tudo junto e misturado; milhares de cientistas entrando e saindo do laboratório, relatórios sobre o que havia dado de errado na pesquisa de criogenia sendo feitos sem um pingo de descanso, ou explicações. A situação precisava ser controlada o mais rápido possível. Não havia tempo a perder.

O jovem Tony, comandando a empresa há mais ou menos oito anos, não sabia ao certo o que fazer. Ele nunca havia lidado com esse tipo de situação antes; e seu pai nunca lhe explicara apropriadamente como fazê-lo. Seus olhos, escancarados e nervosos, observavam a cena como se ele não estivesse, propriamente, ali; como se um filme estivesse se desenrolando na sua frente e ele nada pudesse fazer. Um observador... E nada mais.

Ele sentou-se em um canto qualquer, a sombra da situação nunca abandonando sua face. Sentindo alguém puxar a manga de sua camisa, ele moveu sua cabeça para a esquerda, vendo quem havia interrompido sua linha confusa de pensamentos.

Apenas uma garotinha.

– Onde estão os meus pais? – ela perguntou, os cabelos revoltosos em volta de seu rosto sujo, seus grandes olhos brilhando pelo acúmulo de lágrimas. O benfeitor sorriu torto, transformando-se no Stark de sempre ao colocar o indicador em seu queixo e dizendo:

– Eu vou encontra-los. Está bem?

Ela assentiu com a cabeça, confiando cegamente em suas palavras. Os dois se levantaram, segurando as mãos; agora o rico dono do laboratório tinha uma missão, e ninguém entraria em seu caminho.

Eles procuraram por certo tempo, porém, a confusão do lugar estava insuportável demais para se achar qualquer coisa. A jovem já começava a chorar, copiosamente; mas Tony Stark não era homem de quebrar suas promessas.

– Alguém viu os pais dessa garotinha? – ele gritou, enfim, atraindo olhares para si.

Mas não o tipo que ele desejaria ter atraído.

– O que está fazendo com ela, Stark? – uma de suas cientistas, sem medo de seu patrão, aproximou-se, arrancando a garotinha de suas mãos e a colocando no colo, seu corpo revestido por um grande plástico branco, provavelmente uma proteção para momentos como aquele – Ela estava lá, senhor. Pode ter sido infectada.

– Onde estão os seus pais? – ele repetiu a pergunta, parecendo ignorar as palavras da doutora. Ela suspirou pesadamente, ambos os ouvintes ansiosos pela resposta.

– Estão mortos, senhor. – os dois arregalaram os olhos – Ela foi a única sobrevivente.

Tony caiu de joelhos no chão, fechando os olhos e deixando uma lágrima percorrer sua face. A cientista, então, se afastou; a garota se remexendo em seu colo, não querendo abandonar aquele que veio a ser seu amigo. Quando o perdeu de vista, ela, finalmente, se rendeu a depressão.

Agora sim, ela se sentia completa e extremamente sozinha.

(...)

O bilionário foi obrigado a se apoiar na parede mais próxima, a enxurrada de memórias obscurecendo sua visão. Ele não queria pensar naquilo, mas a verdade, em algum momento, viria a tona.

Fora sua culpa. Todo o rumo que a vida da jovem tomara, todas as mortes que ocorreram naquele dia... Tudo por causa de uma única peça. Um único problema nas instalações.

De seu laboratório.

– Tony?

Há muito tempo ele não escutava sua voz; contudo, ele ainda a reconhecia. Com sua visão voltando ao normal, ele não pôde deixar de vê-la; aquela que havia tentado ignorar por tantos anos; aquela que havia sido, ao mesmo tempo, seu sonho e seu pesadelo.

– Bianca. – ele sussurrou, com medo das próprias palavras. A loira continuava a encará-lo; suas faces tomando um tom rosado nas bochechas, seus olhos azuis, brilhantes, crescendo cada vez mais pela surpresa. Não havia palavras para descrever o momento, ou ações para suavizá-lo.

Somente o silêncio.

– Vejo que a S.H.I.E.L.D lhe fez bem. – ele tentou sorrir torto e tomar o seu lugar de sempre; mas sua voz saiu fraca, grogue. Ele tentou de novo – Você mudou muito desde que te visitei pela última vez, há...

– Cinco anos... Senhor. – ela completou, indecisão ocupando o som de sua voz. Ela engoliu em seco, ruborizando mais ainda – Você mudou bastante também.

– O Homem de Ferro faz isso com as pessoas. Até com ele mesmo. – Stark riu de nervoso, sem saber direito o que dizer em seguida – Bem... Parece que nos veremos mais vezes agora, não?

– Acho que sim. – ela respondeu, soando cada vez menor. Ela olhou para os próprios pés, mordendo levemente o canto da boca.

– Foi bom te rever, Bianca. – ele queria dar um fim naquilo; sair correndo e não olhar para trás. Mas, ao invés de correr, ele somente andou para bem longe; sábio da parte dele. Deixando a loira completamente sozinha naquele grande corredor, um breve flashback lhe ocorreu, de muitos anos atrás.

De um momento onde ele também havia lhe deixado só.

– Me chame de Bia. – ela respondeu para, aparentemente, ninguém.

(...)

O homem franziu o seu nariz, olhando, pela milionésima vez, ao seu redor. Há certo tempo ele se encontrava ali e ainda não tinha descoberto o que deveria fazer.

Cozinha. Que nome mundano e incomum para um lugar tão esterilizado; tão... Esquisito. Loki olhou para a esquerda. Será que aquele objeto tão grande, tão próximo ao teto, seria o chamado “café”? O Deus segurou a maçaneta e abriu, encontrando vegetais e legumes diversos em suas gavetas, comidas de variados tipos em suas prateleiras. Ele cheirou alguns dos itens, fechando a porta outra vez. Maciço demais para ser o que ele procurava.

O moreno, então, se dirigiu às gavetas; abrindo uma por uma, encontrando facas, colheres, garfos; e outros objetos pontiagudos que não soube identificar. As fechou, sentindo o rubor subir por suas faces. Aquela situação era, no mínimo, vergonhosa; quem entrasse ali, certamente pensaria que o Deus não passava de um completo idiota.

Ou inútil.

– Procurando alguma coisa? – em um pulo, seu corpo esguio virou-se para trás. Uma garota pouco comum o observava; seus olhos cinzas analisando cada passo, cada ação que ele realizava; panos de diversas cores cobriam sua cabeça, não lhe dando a certeza da cor de seus cabelos. Que manias esquisitas eram aquelas, dos humanos.

– Não preciso da ajuda de uma midgarniana comum. – ele respondeu sem pensar, praticamente cuspindo as palavras enquanto desviava o olhar. Seu orgulho nunca o permitiria dar o braço a torcer.

– E de uma midgarniana incomum? – ela ergueu a sobrancelha, andando em sua direção e não parecendo surpresa com a escolha de palavras do Deus – Não? Tudo bem. – ela balançou os ombros, já se encontrando ao lado do homem – Acho que vou fazer um café para mim, então.

Loki franziu o cenho enquanto a estranha sorria torto. Com o destaque da palavra, que ele tanto buscara saber o significado até agora, deu para perceber que ela sabia o que o moreno procurava. Mas... Como?

A jovem começou a preparar o necessário, inclinando-se sobre o corpo do Deus para alcançar a prateleira mais alta e pegar uma de suas xícaras. O rosto de Loki ruborizou, mais uma vez; e, tentando ignorar o ocorrido, ele se afastou, apoiando-se na bancada e permanecendo em silêncio.

– Você não é de falar muito. – ela constatou determinada, colocando o estranho pó escuro em uma de suas máquinas e, como resultado, deixando escorrer certo líquido de odor questionável na xícara de café.

– Não perco o meu tempo com futilidades, é diferente. – ele disse enquanto observava o inusitado experimento da humana, desviando o olhar do mesmo para perceber sua reação.

– E mesmo assim, deu-se ao trabalho de conversar comigo. – ela sorriu largamente, parecendo saber que aquilo aconteceria e estando preparada para responde-lo – Muito... Gentil de sua parte. – dando destaque à palavra, ela pegou o café pronto, colocando-o nas mãos esguias do Deus – Tome. Pode lhe ser útil. – ela piscou para ele, se afastando logo em seguida e lhe dando a certeza, mais uma vez, de que ela sabia o tempo todo o que ele estava fazendo ali.

E ele não pôde fazer nada, além de ficar segurando aquela xícara enquanto a observava, enfim, partir.


Notas finais
Mereço reviews? XD