Ingruentis
1 Prólogo.
Notas iniciais
Havia uma cabana escondida no meio da floresta. Era pequena, com janelas quebradas, uma porta de madeira frágil e um telhado coberto de musgo, parecia desabitada, mas saia da chaminé da cabana uma fumaça negra. Lá dentro, num conforto um tanto duvidável, haviam duas criaturas. O primeiro era um homem, na casa dos cinquenta anos, com cabelos grisalhos, o queixo bem barbeado e os olhos azuis faiscantes. Este usava trajes que nada se adequavam ao ambiente que estava, mas parecia bastante confortável na poltrona de pele. Ao seu lado havia uma criatura um tanto diferente. Este possuía longas orelhas de coelho, o cabelo crescia apenas no topo da cabeça, seus olhos eram brancos com íris negras e suas feições eram mistura de coelho e homem. Era velho, a criatura. Os homens chamavam a raça dele de Leptum, que na língua antiga significava “Cara de Coelho”.
O Leptum fazia chá de ervas doces, enquanto o homem balançava em sua cadeira. Nenhum dos dois falavam, nem precisavam. Sabiam que algo errado estava acontecendo, só procuravam as palavras certas para descrever. O homem começou.
- Garrin, meu velho amigo. Nos conhecemos há quanto tempo? Duas, três décadas? Sabe que confio a minha vida a ti, velho guerreiro. Apenas me diga que não estou ranzinza e velho o suficiente para começar a imaginar coisas. O Mal vem, não?
O Leptum abanou suas orelhas em sinal de nervosismo, mas seu semblante calmo ainda não havia quebrado.
- Apenas o Bem sabe isso, velho Morgan, apenas o Bem. Mas não se preocupe, você ainda tem muito para viver e por mais que morramos agora, amigo, as folhas dizem que o Rei dos Reinos do Sul está para renascer.
- Suas folhas são bobagens, coelho estupido. –Morgan, zangado, bateu a mão em sua poltrona com força. – Suas folhas não ajudaram na guerra do Pico dos Grifos.
- Não ajudaram, mas previram a morte de seu querido irmão Malzote. Se as folhas preveem, irá acontecer, seu velho rabugento.
- A morte de Malzote foi coincidência, isso é o que eu digo. Coelhos não servem para Sabedoria.
- Homens não servem para Visão, mas mesmo assim Olham. Se você não fosse tão cego, iria perceber que coelhos são perfeitos para Sabedoria. — O Leptum estufou o peito e as orelhas, botando ênfase no que dizia. Mesmo todo esticado, ainda não passava da cintura do homem. – O Rei está para nascer, é o que eu digo e digo!
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