Ingleses também matam
1 Prólogo
Notas iniciais
A viagem para a praia foi uma ideia repentina entre o grupo de anglo-brasileiros e foi quase totalmente planejada por mensagens via WhatsApp. Os pais de Albert tinham uma casa no litoral, mas quase nunca a visitavam. Só alguns técnicos de confiança da família iam lá algumas vezes para restaurar alguma coisa, detetizar ou simplesmente tirar o cheiro de mofo. Dominados por um consumismo exagerado, o Sr. e a sra. Walker compraram uma casa no litoral nordestino (o mais belo do Brasil) e deixaram a antiga casa no litoral sudeste para Albert, como um presente de natal para o filho. A mais velha ganhou um carro só dela, conforme ela havia pedido. Ser filho de um casal rico tem lá suas vantagens.
Albert já havia concluído o seu curso na faculdade e no próximo ano, passaria a trabalhar com o pai. A irmã ainda nem havia entrado na universidade, pois estava se matando de estudar para fazer o vestibular para o curso de medicina na USP, um dos mais concorridos de todo o país. Ela adorava repreendê-lo por ter feito administração numa universidade privada, mas ele não ligava, afinal; não conseguiria mais do que isso.
A viagem aconteceria no dia 29 de dezembro, eles iriam em dois carros. Um era o de Jennifer e o outro de Henry. Algo que todos eles tinham em comum era uma grande diversidade de bens materiais, afinal... a maioria deles vieram para o Brasil acompanhados de seus pais por fins econômicos, ou seja; são filhos da elite. Sempre se metiam em discussões políticas na faculdade, representando a direita e argumentando com seus professores de esquerda. No fim, nunca dava em nada e todos continuavam as aulas.
Esse círculo de amizades começou em um clube anglo-brasileiro que havia em São Paulo. Os pais deles se conheceram e consequentemente, apresentaram seus filhos uns aos outros. Albert conheceu Henry um mês depois de sair da Inglaterra. Ele já estava no Brasil há quase dois anos, mas ainda falava português com dificuldade. No início, eram apenas os dois, até Hillary e Katherine chegaram um ano depois. Foi uma questão de meses até Lily, Peter e Tommy chegarem. Os últimos a se juntarem ao grupo foram Darla e David, há dois anos e meio. Lily namorou Henry por seis meses e o largou sem motivos aparentes. Henry ficou arrasado, mas logo superou e começou a namorar Hillary, a quem ele jura amar de verdade. O relacionamento deles já dura quatro anos e dois meses.
Eles sempre se reuniam aos fins de semana e aquela não seria a primeira vez que passariam o ano novo juntos.
…
O dia da viagem chegou logo. Albert e Jennifer se encontraram com o outro casal de motoristas na frente do condomínio de Henry, às oito da manhã. O carro dele já estava ligado e eles só estavam esperando os dois irmãos chegarem. Finalmente, Albert saiu do carro e abraçou o amigo. Foi cumprimentar a namorada dele, mas notou que ela estava com uma expressão de raiva e rosnou quando ele se aproximou dela.
–Bom te ver também, Hillary. — Ele disse, com ironia.
–Vai tomar no seu... — Ela começou a dizer, mas Henry tampou a boca dela com as mãos.
–Ela está contrariada, vai ficar assim por umas horas, mas logo vai estar por aí rindo e fazendo gra... Ai! — Ele interrompeu a frase com a expressão de dor, a garota havia mordido a mão dele.
–Eu vou ficar infeliz essa viagem toda. Eu gostaria de levar um tiro agora. — Ela disse, ainda muito brava.
–Ei, Hillary. — Jennifer falou – Vai ser legal, acho que até tiraram o mofo e as baratas da casa.
–Eu não vou. — Hillary cruzou os braços e se sentou na calçada, como uma criancinha mimada. Bem, ela só não era uma criancinha, mas era bem mimada.
–Henry, dá um jeito nela. Os outros já devem estar nos esperando. Vamos passar na casa da Darla primeiro, não é?
–Isso – Concordou Henry – Depois iremos buscar o Peter, o David, a Lily, Katherine e por último o Tommy.
–Por que o Tommy por último? — Hillary indagou.
–Você não precisa saber, não disse que não vai? — Ele rebateu.
Ela ficou vermelha de raiva, na verdade, Hillary queria muito bater no namorado até sair sangue, mas se limitou a soltar um rosnado seguido de uma bufada aborrecida. Entrou no carro ainda de braços cruzados e colocou o cinto. Sua franja ruiva cobria sua visão, mas ela se recusava a descruzar os braços para arrumá-la. Acabou sendo vencida pela insistência daqueles fios e se arrumou, olhando o próprio reflexo no retrovisor.
O namorado dela rapidamente entrou no carro e fechou a porta, logo girou a chave e ligou o motor novamente. Apesar de estarem lado a lado, eles não conversaram até a metade do caminho. Finalmente, a garota decidiu se pronunciar.
–Eu não quero aquela vadia a menos de um metro de distância de mim.
–Eu sei – Henry respondeu, sem tirar os olhos da estrada – Ela vai com o Albert.
–Também não quero ela a menos de um metro de distância do Albert.
–Por quê? — Ele perguntou.
–Porque não é nem pra ela estar junto da gente. — Ela reclamou.
–Para de frescura, Hillary. Pelo menos ela não fica fazendo cara feia quando contrariam ela.
–Ela faz coisa pior e você sabe disso.
Henry não respondeu, apenas suspirou e parou na frente da casa da garota. Foram apenas alguns minutos de viagem. Ela aproveitava o calor para usar um shorts jeans bem curto e agarrado e uma camiseta fina que ela mesma havia estampado com os dizeres “I'm so fancy”, a garota mascava um chiclete. Ela pegou suas duas malas e as colocou no porta-mala do carro de Albert. Logo entrou no veículo, antes de ser convidada.
–Nossa, eu fui a primeira? — Ela perguntou.
–É. — Albert respondeu, sem querer puxar muito assunto com Darla. — Vamos buscar o Peter agora.
–Ele bem que podia não ir, não é? — Ela perguntou. Ela vivia repetindo dados que provavam que ele era ridículo. — Prefiro mil vezes o David.
–Não se preocupe com isso, ele vai com o Henry e a Hillary. — Jennifer respondeu – Mas se você tentar encostar um dedo no meu irmão ou no David, eu te largo no meio da estrada e você vai ter que fazer ponto pra voltar pra casa.
–Bom, espero que eu não me machuque se for jogada.
Jennifer revirou os olhos e ajeitou os óculos no rosto, voltando o olhar para o caminho, enquanto Albert acelerava o veículo. Ela sinceramente queria desistir da medicina e fazer psicologia só para entender como uma mulher pode ser tão oferecida quanto Darla e também queria entender o que os homens veem em alguém como ela. Involuntariamente, ela começou a debater o assunto consigo mesma, tanto que nem reparou quando o carro parou na frente da casa de Peter. Ele deveria estar os esperando na calçada, mas não foi encontrado lá.
Henry precisou descer do carro e tocar a campainha da casa. Depois de alguns minutos, o rapaz saiu pela porta, vestido ridiculamente com um óculos espelhado no maior estilo “Olá, adoro funk ostentação”. O rapaz que havia o chamado olhou para ele com vontade de rir e tirou os óculos do rosto dele.
–Isso aqui vai ficar confiscado em nome dos bons costumes.
–Qual é, truta? — Indagou Peter – Devolve meu possante aí.
–Primeiro, “possante” é carro. Segundo, essa gíria é do tempo da minha bisavó e terceiro, não. — Henry respondeu, quebrando os óculos no meio com as mãos. — Ja basta suas calças caídas até o joelho.
Peter não falou nada, só ficou olhando assustado para os óculos quebrados na mão de Henry e o seguiu até o carro. Encontrou Hillary retocando o batom, se olhando no espelho retrovisor. Ela pareceu nem ligar para a entrada dele e isso o deixou bem decepcionado. Tentou chamar a atenção.
–Tá ficando gostosa com esse batom. — Ele elogiou.
–Peter, cale a boca. Aprenda a falar português antes de querer usar as gírias brasileiras. Se eu quisese ficar “gostosa”, eu estaria implantando silicone nos meus peitos e não passando batom. Agora por favor... silêncio.
Ela fechou o vidrinho do cosmético e o jogou no rosto de Peter com certa raiva. Ele se sentiu totalmente humilhado e para baixo... não conseguia entender como Hillary não gostava dele. Pensou que talvez fosse por Henry, mas ele parecia meio mole... já Peter sempre se achou muito durão, do jeito que as mulheres gostam, segundo sua concepção. O namorado dela entrou no carro e deu partida.
–Quem nós vamos buscar agora? — Ele perguntou, tentando evitar um coice.
–Lily – Respondeu Henry.
–Ela também não vai entrar no... — Hillary começou a reclamar.
–Não, ela não vai. — Henry prontamente respondeu.
Lily morava há algumas quadras da casa de Peter, de modo que eles não levaram nem cinco minutos para chegar na casa dela. Ela cumprimentou Albert e Jennifer e depois abriu a porta do carro. Deu de cara com Darla mexendo num celular. Lily também não gostava dela, mas evitava demonstrar, então simplesmente deu um sorriso simpático.
–Oi, Darla. — Ela disse, fechando a porta.
–Oi – A outra respondeu, sem tirar os olhos do celular – Como vai?
–Bem... — Lily respondeu com estranheza, era atípico de Darla perguntar aquilo – E você?
–Na mesma.
Lily aceitou aquilo como uma resposta positiva. Não queria saber as definições de Darla para “na mesma”. Eles andaram em silêncio por uns dez minutos, até pararem na frente da casa de David. Como sempre, ele estava com uma camiseta preta dos Arctic Monkeys e óculos escuros. Tinha um cabo de pirulito na boca, simulando um cigarro. Usava uma roupa de mangas até o cotovelo, apesar do calor de 36ºC. Não tinha muitas malas para serem colocadas no carro.
Ele abriu a porta e se acomodou ao lado de Lily. Gostou da parte do grupo que estava com ele, principalmente Darla, afinal... só ela era ela.
–Oi All, oi Jenn, oi Lily... oi Darla. — Ele colocou uma carga de sensualidade no último cumprimento. Os outros foram respondidos com murmúrios.
Por fim, os dois veículos pararam na última casa: a de Tommy. O rapaz estava sentado em cima das próprias malas e apoiado nas mãos, de olhos fechados. Henry precisou buzinar para acordá-lo. Ele assustou-se e se colocou em pé rapidamente, pedindo para que o rapaz abrisse o porta-malas. Assim que ele guardou sua bagagem, entrou no carro.
–Estou morto de sono – Ele comentou. — Fui dormir às duas e acordei às cinco.
–Ansiedade de novo, Best? — Hillary perguntou.
–Sim, amiga... tentei de tudo. — Ele respondeu, com a voz ensonada.
–Lembrou daquele chá que eu te ensinei a fazer? — Ela perguntou.
–Tentei tomar aquilo e é horrível! — Ele exclamou. O jeito dele fazia Henry rir. — Eu bebi café...
–Café te mantém acordado, bestão. — Hillary repreendeu.
–Não acho... é gostoso e relaxa.
Henry precisou colocar uma das mãos na boca para disfarçar as risadas. Ele não aguentaria toda aquela viagem sem cair na gargalhada. Hillary lançou um olhar de advertência para ele. Eles passaram na casa de Katherine, que precisou enfiar com dificuldade as suas malas na parte de trás do carro. Ela cumprimentou Hillary com um beijo de bochecha com bochecha antes de entrar no veículo.
–Oi, amore. — Hillary cumprimentou — Tudo bem?
–Tudo sim. — Ela respondeu — Ansiosa, mas bem.
–Tommy está com o mesmo problema. — Hillary comentou.
Uma conversa interminável se estabeleceu ali. O único que evitava falar era Peter. Finalmente, os carros saíram da cidade, para enfrentar todos os quilômetros de congestionamento até chegarem ao seu destino.
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