Ingleses também matam

6 Interrogatório - Parte I


As horas que se sucederam foram ministradas por um silêncio mortal. O máximo que se ouvia eram lamúrios de Katherine e Henry, ocasionalmente de Albert. Jennifer acompanhava o comportamente de cada um, fazendo anotações mentais. Ninguém teve ânimo e apetite para almoçar, tampouco jantar. Os poucos que se alimentaram, comeram pão amanhecido ou qualquer coisa que havia na geladeira. A loura decidiu dar mais uma olhada na cena do crime.

Um pouco menos nervosa, ela abriu o lixo e o examinou. Havia cascas de frutas, restos da ceia... e algo que brilhava na hora que o sol iluminava a garagem. Jennifer prendeu a respiração e retirou o objeto brilhante de lá. Era um pedaço mediano de vidro, que era pequeno demais para pertencer a uma garrafa. Ela não se lembrava de alguém ter quebrado algo de vidro, mas achou melhor perguntar na sala.

–Alguém quebrou qualquer coisa de vidro aqui? — Ela falou, cortando o silêncio.

–Que tipo de pergunta é essa? — Henry perguntou.

–Alguém quebrou qualquer coisa de vidro nessa casa? — Jennifer repetiu, ignorando Henry.

Alguns se entreolharam, mas ninguém se manifestou. Jenn considerou aquilo como um “Não”, que comprovava a teoria dela de que aquele vidro tinha a ver com a morte de Hillary. Ela deixou o pedaço do objeto na mesa da cozinha e voltou para fora da casa. Examinou aquele cadáver e decidiu que deveria escondê-lo, antes que começasse a exalar o odor podre de morte. Ela abriu o porão da casa e procurou uma lona que seu pai havia comprado para cobrir uma piscina que eles pretendiam fazer na casa. Ela retirou a faca das costelas da garota e enrolou o corpo na lona.

Depois de examinar e limpar a faca, ela escondeu o corpo no porão. Ela poderia ser presa por ocultação de cadáver, mas tinha fé que conseguiria descobrir quem era o assassino a tempo. Aquilo era como um livro da Aghata Christie, mas ela não era Hercule Poirot. Assim que ela entrou na cozinha, deixou a arma do crime ao lado do pedaço de vidro. Era a maior faca do jogo que havia ali.

Pela noite, Jennifer decidiu começar o interrogatório por quem parecia menos abalado. David ouvia música em seus fones de ouvido, sentado no sofá e encarando o nada. Ela arrancou o acessório dos ouvidos dele e fez um pedido.

–Entre no meu quarto, David. Vamos ter uma conversa.

–Eu não fiz nada.

–É o que veremos.

Um tanto assustado, ele subiu as escadas e foi seguido por Jennifer. Quando eles entraram no cômodo, ela trancou a porta e a sacada, fechou as janelas e acendeu a luz.

–O que vai fazer? — O rapaz perguntou, com medo.

–Fique tranquilo. São só perguntas que podem te inocentar.

–Mas eu sou inocente. — Ele disse, seguro.

–É... então só me dê explicações. Quando foi a última vez que você viu Hillary?

–Antes dela se trancar no quarto depois de dar aquele chilique na garagem.

–Qual a última coisa que vocês dois fizeram juntos?

–Bem... — Ele hesitou e engoliu em seco – Brigamos.

–Conte-me mais. Como foi essa briga? — Jennifer parecia calma, o que deixou David seguro para confessar.

–Eu só disse pra ela que ela estava acabando com o clima do ano-novo e ela foi super grossa comigo.

–Grossa?

–Sim. Ela disse que se eu reclamasse de novo ela ia... — Uma nova hesitação, típica de mentiras. — Me bater.

–Meu sensor de mentiras está enlouquecendo. — Jennifer disse. — Fale a verdade.

–Não estou mentindo. — Ele insistiu.

–David Turner, você não vai sair daqui enquanto não contar o que aconteceu naquela noite.

–Ela acertou um tapa na minha cara, disse que se eu reclamasse de novo ela ia me acertar com algo num faqueiro, eu perguntei do que ela estava falando e ela disse que tinha um faqueiro na cozinha, mas depois ela foi embora e eu juro pela minha vida que tudo acabou aí. — Ele falou, tão rápido que Jennifer quase não entendeu.

–Por acaso... a faca do crime foi retirada de um faqueiro. Vocês podem ter brigado... ela tentou cumprir com o que falou, mas você retirou a faca da mão dela e a acertou. É uma hipótese plausível.

–É uma hipótese mentirosa. Eu não tinha motivos para matar ela. Talvez para não gostar dela, mas não para matá-la. Eu nunca faria algo assim e você sabe disso, Jennifer.

–Acontece, amiguinho... que ninguém aqui faria algo assim.

–Poderia ter sido você. Todo mundo sabe que você é afim do Henry, mas a Hillary era o único obstáculo que impedia o amor de vocês. Você poderia matá-la e depois pagar de detetive, para ninguém suspeitar.- David disse, revelando uma inteligência que nunca demonstrara. — É tão plausível quanto a sua acusação.

–Realmente, é uma ótima hipótese. — Jennifer concordou. — Mas eu também afirmo que é falsa.

–Você tem mais perguntas?

–Hillary fez algo antes de você ir reclamar dela?

–Ela vomitou tudo o que comeu em toda sua vida. Parecia assustada quando entrou no banheiro, mas poderia ser só efeito da náusea.

–É... poderia. Bem, por enquanto é isso, David. Estarei de olho em você.

–Eu te digo o mesmo.

Ela abriu a porta do quarto e ele saiu do cômodo, em seguida, ela gritou para que Thomas e Katherine subissem, mas Lily respondeu por eles, dizendo que Kath ainda estava chocada e Thom estava tomando banho. Só então, Jenn parou para pensar que ela ainda não havia se banhado desde a noite anterior. Ela entrou no banheiro de seu quarto e se despiu, a fim de se lavar rapidamente, mas o chuveiro não ligou.

Vestiu suas roupas desleixadamente e pegou sua toalha. Desceu as escadas e entrou no banheiro social, de onde o rapaz havia acabado de sair, trêmulo. Apesar de odiar banheiros recém-usados, Jennifer entrou no cômodo e retirou as roupas novamente. Enquanto se banhava rapidamente, ela sentiu alguma coisa cutucar o seu pé.

Ela olhou para baixo e viu dois pequenos pontos brancos boiando perto de seu dedão. Ela se abaixou para ver o que era aquilo e reconheceu como papel molhado. O outro pedaço desceu para o ralo, assim como o que ela havia pego. Aquilo era com certeza muito estranho.

–Papel... — Ela murmurava – O que papel faria num banheiro? Se fosse higiênico, teria se desmanchado...

Ela concluiu o banho e se enxugou, mas ainda estranhava aquilo. Assim que saiu do banheiro, foi até a sala e perguntou para Lily, a única pessoa ali ainda.

–Alguém tomou banho antes de mim, além do Thom?

–Ajudei Darla a tomar banho hoje, eu também tomei... e acho que Albert e Henry também. Mas por que todas essas perguntas estranhas?

–Por nada. Pura neurose. — Jennifer tentou sorrir, calma, mas não era hora de sorrir. — Por que Darla não tomou banho sozinha?

Lily olhou para os lados, encarou o quarto dela, onde Darla provavelmente estava. Ficou em pé e silenciosamente se dirigiu até Jennifer. Antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, Jenn reagiu.

–Se vai contar um segredo, vamos para meu quarto. Farei algumas perguntas para você.

Lily estremeceu, mas seguiu Jennifer pelas escadas. Elas entraram no quarto da garota e ela fez o mesmo procedimento de fechamento de portas e janelas. Suspirou e encarou a outra, a sua frente.

–Então... diga agora.

–Hoje de manhã, eu acordei... eram umas cinco horas. Darla estava do meu lado, tremendo muito. Eu achei que estava tendo ilusões, por causa da ressaca, mas eu tenho certeza que eu a ouvi murmurar algo que havia sido feito contra ela.

–O que? Não esconda nada, Lily O'connor. — Jennifer disse, autoritária.

–”Isso foi um estupro, Henry”.

O coração de Jennifer gelou naquele exato momento. Ela havia ficado mais nervosa do que quando ela encontrou o cadáver de Hillary naquela manhã. Tentando não perder a autoridade, ela pediu mais informações, mas sua voz era falha.

–O que... hã, você viu mais alguém ali nessa hora?

–Ela estava falando sozinha, como um delírio. Mas quando eu acordei hoje de manhã, eu vi que ela estava completamente desidratada. Parecia mais morta do que a Hillary... deve parecer.

–Por que hesitou para dizer o “deve parecer”? Já viu o corpo dela?

–Não! Claro que não! — Exclamou – Eu só... só estava escolhendo as palavras.

–Hesitou novamente.

–Você está ficando louca, Jennifer Walker!

–Talvez, mas... de qualquer forma, me responda algumas perguntas. Viu Hillary depois daquele escândalo na garagem?

–Não. — Ela respondeu, prontamente.

–Acha que Henry realmente estuprou Darla?

–Tenho certeza. Mas o que isso tem a ver com o assassinato?

–Pode ter muita coisa a ver. Por que tem tanta certeza?

–Quando nós namorávamos, Henry bebia e se tornava outra pessoa, diferente do que ele é, sóbrio. Por isso eu larguei ele.

–Tinha ciúmes dele por qual motivo?

–Ora! Bêbado ele pode ser um monstro, mas sóbrio ele é tão fofo que até você se apaixonou.

Jennifer enrusbeceu após ouvir aquilo pela segunda vez. Ela não sabia que havia dado tanta bandeira assim a respeito de sua paixão secreta. Será que ele sabia daquilo?

–Você gostava da Hillary?

–Obviamente, nem um pouco. Mas isso não significa que eu mataria ela.

–Com certeza não. — Jennifer concordou. — Bem, se você fosse investigar, de quem suspeitaria?

–Com certeza, do Peter. Eu nunca tinha visto ele com tanta raiva. Mas eu também poderia dizer que foi o Henry... ou um dos dois que estavam com ela no quarto.

–Por que os dois?

–Ora, eles sabem que seriam os menos suspeitos. Era só convencê-la a ir para fora e então, um a segurava enquanto outro a esfaqueava. Muito simples.

–Que motivos eles teriam para isso?

–Você que é a detetive por aqui, descubra sozinha.

–Obrigada. — Jennifer disse. — Me ajudou muito.

Lily saiu do quarto e Jennifer chamou o casal de amigos de Hillary novamente, dizendo que Katherine poderia vir como estivesse, assim como Thomas. Depois de alguns minutos, eles apareceram, pálidos como se fossem fantasmas. Assim que entraram no quarto de Jennifer, ambos começaram a chorar novamente.

–Vocês foram as últimas pessoas que viram a Hillary. — Jennifer afirmou – Eu só preciso que me contem exatamente tudo o que aconteceu, em detalhes.

–Fomos para o quarto, para tentar acalmá-la. — Thomas disse, com voz chorosa. — Ela estava escrevendo alguma coisa num diário, mas ela fechou na hora que entramos.

Ele coçou a região pélvica, involuntariamente, deixando Jenn um pouco encabulada.

–Então nós dois abraçamos ela... assim que ela passou a chorar, nós a consolamos. — Katherine falou, com a voz trêmula.

–Tentamos convencê-la a tomar algum remédio, mas ela recusou. — Thom concluiu. — Então, nós fomos dormir.

–A que horas?

Mais uma vez, Thom coçou aquela mesma região.

–3h42min. Eu olhei no meu celular. — Katherine afirmou.

–Por que acordaram tão tarde? Os gritos do Albert acordaram a todos.

–Nós dois não ouvimos. Nosso sono foi mais profundo.

–Isso é estranho, porque vocês acordam cedo.

Os dois balançaram a cabeça positivamente, concordando.

–O que Hillary disse? Ela deu sinais de que havia sido ameçada?

–Não, mas ela ameaçou todo mundo. — Katherine confessou – Disse que se vingaria do Henry.

Mais uma vez, o coração de Jennifer gelou. Ela queria afastar qualquer possibilidade de Henry ser um assassino, mas a todo momento, as evidências apontavam para ele.

–Não ouviram ninguém entrar no quarto?

–Nós simplesmente dormimos e acordamos. Nada além disso. — Thom concluiu, levando as mãos mais uma vez até onde havia coçado anteriormente.

–Por favor, será que dá pra parar de coçar o seu coleguinha na frente de duas garotas? — Jennifer falou, irritada.

–Me desculpe, eu acho que o sol fez algo aqui... — Thom tentou justificar – Mas eu prometo que vou me controlar.

–Não precisa mais. Estão dispensados.

Então o casal saiu do quarto, deixando ali apenas uma Jennifer que tentava juntar as evidências e temendo a que resultado chegaria.