Ingleses também matam

7 Interrogatório - Parte II


Notas iniciais
E aí? Suspeitas?

Naquela noite, todos foram mais cedo para suas camas. Na realidade, ninguém queria dormir, mas não havia mais nada a ser feito. Não foi uma madrugada tranquila. Darla acordou tendo pesadelos com o que vivera e gritando o nome de Henry com raiva. O rapaz ouvia a garota no andar de baixo, mas tentava ignorar. Seu psicológico estava totalmente destruído com tudo o que aconteceu e ele não falava, não comia e não bebia nada além do que era necessário para se manter vivo.

Jennifer se mexia toda hora em sua cama, assim como seu irmão. Nenhum dos três ali naquele quarto estava realmente dormindo, mas todos se recusavam a conversar. Já era tarde quando finalmente Albert adormeceu, sendo acompanhado pelos seus dois amigos. Thom passou a noite com Katherine, tentando a acalmar. Lily fazia o mesmo com Darla. Só Peter e David pareciam não ter tantos motivos para perderem o sono.

…

A manhã chegou logo para todo mundo. Mal o sol entrou pelas janelas dos quartos, todos já estavam em pé. O primeiro a levantar, como sempre, havia sido o dono da casa. O resto das pessoas levantou logo em seguida e quase ao mesmo tempo. Apesar da falta de apetite, ninguém podia ficar sem café da manhã. Mesmo Darla – que até então não havia comido nada sólido – estava implorando por comida.

–Jennifer, não podemos ficar sem comida. Eu vou comprar mais.

–Eu acho que você não entendeu que ninguém sai dessa casa até segunda ordem. — Ela repreendeu.

–E eu acho que você não entendeu que essa casa é minha e se você tentar me impedir de sair, eu vou te pôr pra fora e chamar a polícia.

Jennifer mordeu o lábio inferior e semicerrou os olhos, contrariada. Acabou permitindo que o irmão saísse de casa para buscar comida, mas o fez prometer que voltaria em meia hora. O rapaz cumpriu com o que disse e voltou com apenas duas sacolas. Em uma delas, havia pão francês e fatias de queijo. Na outra, caixinhas de achocolatado e alguma coisa que Jennifer só identificou quando pegou na mão.

–Leite fermentado? — Ela perguntou. — Sabor morango e com estampa do Bob Esponja?

–Eu gosto do Bob Esponja, de morango e de leite fermentado. Não vejo problemas. — Albert retrucou.

–Parece inadequado.

–Não é. — Ele disse, retirando mais daquelas caixinhas. — É saudável e gostoso, principalmente para quem está desidratando. Trouxe um monte e deixarei na geladeira.

Ele pegou uma daquelas caixinhas e colocou um canudo nela, tomando o líquido em poucos segundos. Subiu para seu quarto logo em seguida, como se tivesse algum compromisso lá. Thomas e Katherine pareciam bem melhores do que no dia anterior, quando acordaram. Nada como uma noite de sono para amenizar um choque como aquele. Peter e David pareciam quase normais. Os que estavam em pior situação eram Henry e Darla.

–Darla... — Jennifer falou, se dirigindo à sala, onde a garota estava, encarando o nada. — Será que você pode ir para o meu quarto? Preciso de algumas respostas.

–Não, eu não posso.

–Ok, acho que me expressei de forma equivocada. — Jenn suspirou – Darla, suba para o meu quarto, preciso de respostas.

A autoridade que Jennifer impora sobre sua voz foi o suficiente para fazer a morena revirar os olhos... o que demonstrava que aos poucos, o trauma dela estava sendo diminuído, mas mesmo assim, ela estava visivelmente assustada e alterada. Assim que as duas se fecharam no quarto, seguindo o mesmo esquema dos outros interrogatórios, Jennifer começou a perguntar.

–O que você fez com o Henry?

–Nada. — Ela disse. — Ele fez comigo.

–Seja mais específica.

–Você não tem que ficar sabendo da minha vida.

–Vai por mim, minha querida... eu sei de segredos piores sobre a sua vida. Então... não tem nada que vá me deixar chocada. Ah, e eu sei que Albert também tem segredinhos que seria uma pena se fossem expostos.

A palavra “exposto” causou um calafrio em Darla. Será que tinha como ela se sentir ainda mais exposta do que estava? Ainda mais violada e deprimida? Ela não queria saber a resposta, assim como não tinha nenhuma garantia de que Jenn estava blefando. Milhares de argumentos se revoltaram em sua mente para tentar desviar o foco da garota loura, mas no fundo, Darla sabia que sua interrogadora podia ser muito má quando quisesse.

–Bem, eu vi que ele estava meio bêbado... e homens bêbados sempre topam qualquer coisa. Eu estava um pouco bêbada também e... acabei convencendo ele a ir para a cama comigo. Mas nós nos esquecemos de fechar a porta e a Hillary viu a cena. Ela saiu com raiva e eu vi que o clima tinha acabado, mas quando eu tentei sair do quarto, o Henry me prendeu na cama com os braços. Disse que eu pagaria pelo que eu fiz ele passar. Eu tentei fugir pela sacada, mas ele fechou a porta na minha mão. — Ela parou a história para mostrar a Jenn as marcas roxas em seus dedos. — Depois disso, ele... ele...

Darla engoliu em seco e um nó se formou na sua garganta. Ela não continuaria aquela história, nem que Jennifer ameaçasse matá-la. Não queria se lembrar do que aconteceu naquela noite e de como Henry acabou com a vida dela e tudo o que ela tinha de dignidade.

–Entendi. — Jennifer respondeu, para o alívio da garota. — Você viu Hillary depois disso?

–Não.

–Você estava em plena consciência do que aconteceu, depois do... — Jennifer hesitou.

–Não totalmente. Quando o Henry me chutou para fora do quarto, eu estava com dor e tontura e tentava me guiar pelo que já conhecia da casa. Eu entrei no meu quarto e fiquei na minha cama. Tentei dormir, mas aquela sensação... aquela sensação não saía da minha mente. Eu fiquei em um mundo de ilusão e... no fim, eu mereci aquilo.

Darla parou novamente e começou a chorar. Jennifer se compadeceu um pouco da garota e prometeu para si mesma que pegaria mais leve na próxima pergunta.

–De quem você suspeitaria?

–Obviamente, do Henry. — Darla respondeu. — Uma pessoa que é capaz de fazer o que ele fez comigo, é capaz de qualquer coisa. Mesmo que a culpa tenha sido minha.

–Darla, a culpa não foi sua, tampouco você mereceu. O Henry provavelmente nem sabia o que estava fazendo, você foi só uma... vítima. Mas não se culpe por isso, é um crime e eu prometo pra você, que apesar de tudo, quando eu descobrir quem matou a Hillary... eu vou denunciar o Henry.

Jennifer não sabia se cumpriria com aquilo. Se metade dela ainda estava perdidamente apaixonada, a outra metade o repudiava com todas as forças. Jennifer não podia entrar num conflito interno, não naquele momento. Sua prioridade era descobrir quem matou a ex-namorada de Henry e ela só se ocuparia com aquilo. Assim que Darla saiu, ela gritou para que Henry subisse.

Ela não quis demonstrar nenhuma reação quando viu o rapaz barbudo entrar no quarto. Infelizmente, não foi possível controlar, uma espécie de soluço angustiado e uma intensa vontade de chorar. Ela pediu que ele se sentasse.

–Henry, você fez mesmo isso com a Darla? — Ela perguntou, procurando disfarçar a voz chorosa.

–Fora de mim, mas fiz. Claro que me arrependo, mas eu sei que não adianta mentir para você. Eu confesso... eu fiz. Só que isso não teve nada a ver com...

–Eu tiro as conclusões por aqui. — Ela estava com mais raiva dessa vez, falando com seriedade. — Por que você descontou na Darla o que era culpa da Hillary?

–Eu estava bêbado e ela estava tentando... dar pra mim! Na hora que eu fiquei com raiva, eu não ia sair daquele jeito do meu quarto.

–Quanto tempo você levou para se arrepender, depois de chutar ela?

–Ela quem?

–A Darla. — Jennifer quis rir, apesar de estranhar o fato.

–Ah, poucos minutos. Mas já era tarde demais.

–É assim que define? “Tarde demais”? Ela vai ter sequelas psicológicas o resto da vida!

–Não precisa jogar na minha cara.

–Precisa sim! — Jennifer quase gritou. — Não dá pra acreditar que você fez isso no mesmo dia em que disse que não se bate numa mulher nem com uma flor.

–Eu já disse que estava bêbado!

–Isso não é justificativa, Henry Smith! — Jennifer falou mais alto ainda. — Quando sairmos dessa casa, você vai pra cadeia!

–Eu sei! — Ele gritou e imediatamente começou a chorar. — Mas a garota que namorou comigo por quase cinco anos acabou de morrer assassinada e a última coisa que eu fiz para ela foi dar desgosto. Será que não tem como dar prioridade a isso, pelo menos?

–Você é o principal suspeito. — Ela respondeu. — Mas eu não tenho mais nada para perguntar pra você. Saia desse quarto e chame Peter.

Henry fez o que ela pediu e assim que o outro garoto entrou, ela limpou algumas lágrimas, respirou fundo e estufou o peito.

–Bem... vamos lá, Peter... qual foi a última vez que viu Hillary? — Ela disse, como se não aguentasse mais perguntar aquilo.

–Quando eu pedi pra ficar com ela e a filha da puta recusou.

–”A filha da puta”. — Jennifer repetiu – É assim que se refere à Hillary?

–Qual é, meu? Eu nunca gostei daquela mina, ela me chutou um monte de vezes por causa do cara que meteu chifre nela.

–Nunca gostou dela porque ela te rejeitou? Comportamento comum... de psicopatas.

–Eu não matei a guria. — Ele negou. — Mas eu também não tô triste, porque não tá fazendo falta.

–Acha que mais alguém não está sentindo a falta dela?

–Pô, a Darla, o David e a Lily. Nenhum deles curtia a Hillary.

–Mas nenhum deles tem o perfil pra ter matado alguém.

–Não mesmo, mas ninguém aqui tem. Só você. Paga de detetive, mas no fim... é a assassina.

Jennifer já tinha ouvido tanto aquela hipótese que já estava quase a aceitando como verdade. Ela tentou não ficar vermelha ou demonstrar-se contrariada. Dispensou o rapaz depois disso e abriu as janelas de seu quarto novamente.

…

Pela noite, era hora do jantar e Jennifer ainda não tinha nenhuma conclusão sólida sobre o assassinato de Hillary. Temia que o corpo começasse a apodrecer antes de ela descobrir a verdade, então ela seria obrigada a chamar a polícia. Katherine não tinha ânimo para cozinhar, mas ninguém mais ali conseguia fazer comida.

–Katherine, você poderia pegar algumas sobras na geladeira e fazer... um risoto? É só misturar. Se quiser, eu te ajudo.

–Claro. — Apesar de triste, ela não deixava de ajudar. — Mas acho que vou precisar de um auxílio...

–Eu vou! — Thomas disse, tão prontamente que todos estranharam. — Não vou te deixar sozinha, amiga.

–Bem, então pegue o que achar que serve para um risoto. — Pela primeira vez, ela sorriu fraco.

Os dois foram para a cozinha, preparar o jantar, enquanto aquele clima de silêncio continuava na casa. Todos queriam mexer em seus celulares para evitar o constrangimento, mas Jennifer também os confiscou na manhã do assassinato.

Em alguns minutos, o cheiro de comida abriu um pouco o apetite de todos. Tão logo, Thom apareceu na sala, com os pratos já prontos. Jennifer achou fofo ele se preocupar em poupar trabalho e servir a comida de todos. A última pessoa a receber um prato foi Henry. Nem todo mundo quis comer a gororoba.

–O tempero está forte. — David comentou. — Parece... sintético.

–Me desculpem, eu estou muito abalada ainda... — Katherine tentou justificar.

–Não se preocupe! — David tranquilizou. — Está ótimo.

–Eu não quero comer. — Darla disse, levando seu prato para a cozinha.

–Darla... precisa se alimentar direito. — Lily advertiu, seguindo a garota. — Essa não é a solução.

–É, meu problema não tem solução. — Darla respondeu, fungando em seguida. — Vou para o meu quarto.

Então ela se retirou da sala. Todos os presentes ali terminaram suas refeições. Conforme o tédio foi aumentando, o sono veio chegando quase coletivamente. Após seu terceiro bocejo, Peter anunciou que iria dormir cedo. David o acompanhou, deixando apenas seis pessoas ali. Jennifer estava ensonada também, por causa daquela monotonia. Aos poucos, todos foram se retirando, até só sobrar ela e Henry na sala.

–Não vai dormir? — Ela perguntou, fingindo indiferença.

–Não estou com todo esse sono.

–Bem, o problema é todo seu.

Jennifer subiu as escadas e entrou em seu quarto. Não demorou menos do que alguns minutos para dormir, e então não se lembrar de mais nada.

…

Naquela madrugada, só Henry ainda se sentia agitado. Andou de um lado para o outro, ligou a TV, leu rótulos de produtos de limpeza, pensou em tudo o que se podia pensar, mas não sentia sono. Lembrou-se da dica de Jennifer, no primeiro dia da viagem. Ele foi para o telhado, tentar se entediar escutando o som do mar.

Passou quase meia hora lá, até ouvir alguém se aproximando muito rápido, mexendo nas telhas. Ele mal teve tempo de olhar quem era... um pano cobriu sua boca e sua visão escureceu imediatamente. A última coisa que ele sentiu foi uma mão forte pressionar os seus lábios. Então ele dormiu, para nunca mais acordar de novo.

Notas finais
Sim, isso que você acabou de ler realmente aconteceu.