Infância

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Separado em pequenos trechos, cada qual com seu nome e título especifico.

Prólogo

A vida passa rápido demais.

E essa é a história de como me tornei o homem que eu sou…

Mas que diabos de frase?!

Muito piegas!

Vou tentar reproduzir de forma fiel como tudo aconteceu, como de fato foi a melhor e também a pior fase de minha vida, porém, fica um aviso: Eu sonho acordado.

Eu tinha aproximadamente dez anos de idade, estava na quarta série e era o último ano antes de ingressar na quinta, que era em outra escola. O governo havia separado de “1º a 4º e de 5º a 8º”. Isso tudo no ano de 1996. Na escola Professor Luiz Quirino Scarpa. E eu, bem… Com certeza era o mais popular e amado pelas garotas;

Só que não.

Entrei na terceira série e nunca foi popular, passava a maior parte do tempo sozinho. Era conhecido como o estranho da sala, o Extraterrestre e aquele que não deveria ser tocado. Curioso eu TOCAR nesse assunto. Dois anos depois me lembro de estar numa sala de aula, conversando com algumas pessoas. Uma garota um ano mais velha que todos entra na sala e cumprimentava cada indivíduo com um beijo no rosto. Quando chegou a mim, ela beija a minha cabeça – “Okay, né!” – Ela ainda disse – “Tem que cumprimentar, né?” – Bom, devaneios a parte.

No Scarpa eu conversava apenas com uma pessoa… garota e seu nome era Lígia. Comecei a conversar com ela, pois sempre fui mal em matemática e nosso professor incumbiu ela a me ensinar; Fora da escola, claro, assim eu deveria ir em sua casa, ter aulas particulares na cozinha, sob o olhar do vigia de sua mãe – “Como se eu fosse ter a intenção de fazer algo”.

— “Olha Ian, assim não está certo!” – Dizia ela, mas o que eu poderia fazer, eu odiava. Odeio! Matemática – Mas pelo menos essas aulas me fizeram tornar-me um aluno mediano.

Vocês devem estar pensando, “Nossa cara, você a amava!”, porém, nessa época não havia desenvolvido o amor; ainda não.

— I –

Abrigo

O lugar que eu mais gostava no mundo, era o bunker, meu abrigo antibombas. Não que fosse ser bombardeado – Com bombas talvez não – Encontrei no começo do ano letivo, era um ótimo esconderijo contra bullys indesejáveis e a prova de ruídos. No início ninguém entendia a estranha elevação de concreto e quadrada com um ‘E’ no topo.

Teve um dia em que fui até aquele o local e dando voltas ao redor da estranha edificação, encontrei indícios do que deveria ser uma entrada e batendo sobre ela, percebi ser oco por dentro e mais atrás dessa “porta”, havia um buraco. Do tamanho certo para que uma criança de dez anos passasse. Dentro tinha poucas coisas, uma escrivaninha e uma cadeira empoeiradas, um velho colchonete e uma lâmpada quebrada. Ao fundo existia a pequena janelinha por onde entrava o ar. Demorou um bocado até limpar tudo, porém, eu consegui. Durante dias eu levei coisas de casa (escondido de meus pais) para o meu bunker; um novo colchonete, lápis, folhas e uma lâmpada nova. Além, claro de materiais de limpeza.

Sempre gostei de escrever, não sei se sou bom, mas me sentia bem ao fazê-lo. Passava a maior parte do tempo criando histórias e falando da minha vida para aquele ser branco, e o enchendo com a tinta das minhas veias.

Existe algo que com certeza vocês não sabem. Eu era sozinho e não tinha amigos. Nessa época a escola passava por sérios problemas de falta de professor. Quase sempre em aula vaga e sem ninguém para brincar; “E como todos adoravam isso”. Várias crianças e pré-adolescentes enfeitavam o pátio com suas brincadeiras, conversas e foi quando os romances começaram a surgir.

Era nessas oportunidades que eu ia para o meu abrigo. Levava fotos, brinquedos. Ganhei minha primeira máquina fotográfica neste ano e tirava muitas fotos, a maioria de paisagens e de algumas pessoas sem perceberem que estavam sendo fotografadas. Consegui pedir uma foto para a Lígia…

Lígia Valdez por assim dizer a minha melhor amiga. E ah! Era… L-Í-G-I-A com acento no primeiro í! – Como já citei, tinha aulas particulares de matemática com essa linda professora. Até poderia dizer que foi meu primeiro amor, mas isso seria mentira.

Teve um dia que eu me mostrei pela primeira vez. Algumas pessoas em sala falavam o mínimo comigo (como sempre, o esquisito da turma), coisas da matéria e tal. Foi quando nosso professor passou um trabalho e teve a brilhante ideia de fazermos duplas e cada um conhecer melhor o outro, seus anseios, sonhos e vontades. Como eu queria ter caído com a Lígia. Poderia confiar apenas nela, mas as duplas foram sorteadas. Caí com o repetente da sala, um rapaz careca, com gesso no braço. Ele era o perfeito bully da escola.

Não me recordo de seu nome; Mas ele só queria saber de brincadeiras. Não fazia o trabalho e começou a mexer comigo. Não apenas no dia que começamos, como todos os dias.

— II –

Alma Suicida

Eu não podia contar aos meus pais, pois meu irmão já tinha problemas o suficiente… Ele era adolescente. Não tinha amigos e a minha arma secreta foi brincar com o bully. No dia da apresentação, paguei na mesma moeda. Preguei a maior peça de todas e o garoto, claro, não gostou. Essa foi uma péssima ideia, uma das piores que já tive em toda a minha vida.

Com a chegada da próxima aula, que a propósito era vaga, tive de correr para o bunker, mas o bully havia se antecipado. Ele me prensou na parede usando seu braço engessado, dando-me uma tapa na cara, gritou palavras que eu nunca tinha ouvido falar e por fim disse que eu não merecia viver.

Saí chorando e corri para o bunker para me esconder. Chorei ainda mais e assim como ele havia me dito, eu não queria mais viver e naquele momento quase tirei minha própria vida. Era o plano perfeito, ninguém além de mim conhecia aquele lugar, eu me enforcaria na tubulação que ali passava e NINGUÉM me encontraria. Talvez depois, com o tempo sentissem o cheiro de cadáver podre e chamariam os meus… pais…

Meus pais… Eles com certeza morreriam se soubessem que eu havia cometido suicídio. Então pensei neles e na tristeza absoluta que sentiriam. Pensei no meu irmão mais velho e também na Lígia. O fato de ter me apegado a essas pessoas foi a força que faltava para eu não cometer esse ato… Um amor, uma família e uma vida… Eu poderia ser o perfeito nerd que sofreu na pré-adolescência, mas sempre tive muita vontade de viver e esse dia foi quando percebi isso.

— III –

Redenção

Essa parte é um pouco diferente das demais. Aqui que eu mudo a minha vida. Passei de um garoto tímido para um pouco mais comunicativo.

O bully passou a me perseguir. Ele pedia meu dinheiro, fazia brincadeiras de mau gosto, pegava meu material sem pedir. Os professores nada faziam e como sempre eu não poderia contar aos meus pais, mas um menino da sala veio falar comigo. Disse para que eu enfrentasse os meus medos. Ele era outro repetente, só que mais legal.

Naquele mesmo dia quando o bully apareceu e me prensou novamente na parede, eu me forçava para sair e quanto mais eu tentava, mais ele me apertava. Então foi nessa hora que eu chutei o seu saco. Ele então vacilou e usando toda a minha força soquei a cara do pior garoto da escola. Foi então que todos pararam. Ele ficou caído, sentindo a dor, maior que o meu chute, mas isso não importava, pois eu realmente havia acabado com todo o seu reinado – Mas Aquilo não tinha um sabor bom e então, vi a Lídia passando por mim…

Eu não lembro exatamente o que ocorreu depois disso, apenas que estava correndo para o bunker. Lá dentro, de novo chorei. Aquele não era eu! Eu não queria machucar ninguém. Fiquei ali dentro por horas, acabei matando as outras aulas, pois queria ficar sozinho.

No outro dia alguns me deram os parabéns, outros, amigos do repetente, me fitavam mais nada faziam, pois aquele mesmo amigo que dera o conselho, passou a ser meu amigo e também a me proteger.

Mas eu não queria nada daquilo. Eu era apenas um garoto solitário, que terminaria aquele dia na escola e iria para casa, escrever, comer e assistir tevê. Coisas simples da minha vida que me deixavam feliz. Na época, não pensava em um futuro glorioso para mim. Queria somente que o dia nunca acabasse, porque eu amava ser criança.

— IV –

Baile das Desilusões

Muitas outras pessoas vieram falar comigo. Até bola eu jogava com eles. Mariana também se tornou minha amiga e Lígia passou a se sentar perto de mim, olhava minhas lições e me ajudava. Eu não queria tudo aquilo, mas acabei gostando.

Quando o baile da primavera chegou, todos os meninos tinham que chamar uma acompanhante e pela primeira vez eu queria ir. Chamaria a Lígia. Era a minha melhor amiga e comecei a ensaiar como a convidaria. Não a amava, mas de todas era a que mais me cativava.

As minhas palavras estavam prontas para ela, Cheguei, falei…

— “Lígia, quer ir ao baile comigo?” – Olhei para ela, que estava de cabeça baixa e encabulada. Será que fiz algo de errado? – “Nos conhecemos há muito tempo. Você é minha melhor amiga e…”.

Suas amigas começaram a rir, os meninos ali perto começaram a brincar, não como o bully fazia, mas era ruim também. Percebi que nada havia mudado que me tornei amigo deles e eles se sentiram na obrigação de brincar comigo por causa disso. Eu não gostei e então corri dali.

Quando cheguei ao meu abrigo, alguém estava lá. Era Mariana, que me parou e me abraçou e então depois de me acalmar ela conversou comigo.

— “Eu achei que a Lígia era minha melhor amiga!” – Disse para Mariana, que agora me abraçava, mas foi então que percebi que o que eu queria era amá-la. E foi então que pela primeira vez amei alguém.

Mariana ficou muito tempo comigo. Dizia que eu poderia confiar acabei por ir ao baile com ela… De fato e verdadeiramente a pessoa que me confortava e fazia com que eu me sentisse… Bem.

— V –

Quem realmente se importou comigo

Para um garoto de quase onze anos de idade, foi um ótimo baile. Lembro-me de cada detalhe, cada música tocada e cada sorriso de Mariana. Mas não era como a Lígia, que eu amava, a idealização de um amor ideal; Mari era verdadeiramente minha amiga. E foi naquele dia que eu mostrei o meu abrigo para ela. Na qual eu não havia mostrado para mais ninguém.

— “Então era aqui que você sempre esteve o tempo todo?” – Perguntou-me, como se soubesse.

— “Sim. Porque da pergunta?” – Falei para ela, com certa curiosidade.

— “Eu sempre estive te observando. Você acreditava que não era notado. Mas eu notava você” – Dizia isso com ternura, como alguém que realmente se importava comigo – “Você é mais do que imagina, olha para você…”.

Então ela se aproximou de mim, e com suas pequenas mãos infantis, acariciou meu rosto também infantil e me beijou. Um beijo simples, rápido e sem malícia.

Quando afastei o meu rosto do dela, começou a rir e estranhamente eu também. Rimos por alguns segundos até que eu quebrei o gelo – “Estranho, como que meu irmão gosta disso?”

— “Eu não sei, talvez possamos entender mais quando crescermos” – Disse-me ela. E me olhou com seus olhares infantis e tocou em meu braço agora correndo e dizendo – “Te peguei! Você não me pega!”

E corri em sua direção, tentava pegar ela e ela se desvencilhava de mim. E continuamos nessa brincadeira por muito tempo.

As outras crianças lá em cima no baile tinham pressa de crescer, mas eu e Mariana não! – Tínhamos 10 anos de idade e estávamos numa época em que nunca imaginamos o que viria pela frente, então deveríamos aproveitar mais a oportunidade de brincar pois o futuro demora para chegar, mas quando chega; Chega com tudo e quando você vê, perde uma vida…

Notas finais
Autorais | Contos ??“ Infância: Trilogia Sonhando Acordado | D. R. C. Dias
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!