Infringente
3 Capítulo três
Notas iniciais
TOBIAS
Ela me olhou em estado de choque, como se não estivesse acreditando no que via. Eu com toda a certeza estava da mesma forma.
– Tobias, é você?- ela murmurou incerta.
Essa frase me trouxe de volta para a realidade. Ela ali, tão fraca e indefesa, era de partir meu coração. Não aguentava mais de saudade. Eu achando que ela estava morta e esse tempo todo estava presa na sede do governo sendo torturada pelo meu próprio pai.
A olhei. Tinha uma expressão esperançosa, com lágrimas nos olhos. Respondi a única coisa que consegui.
– Sim.
Nos encaramos e logo em seguida corremos um na direção do outro, como um metal sendo atraído por um imã. A força com que nossos corpos se chocaram para um abraço apertado e cheio de saudade a teria feito cair se não estivesse segurando.
– Tris você está viva!- sussurrei enrolado pela emoção.- Eu achei que tinha te perdido pra sempre!
Encostei minha testa na sua, sentindo sua respiração contra o meu rosto. Coloquei os braços em volta de sua cintura e ela fez o mesmo em meus ombros. Queria me certificar que era real.
– Eu não vou te largar tão facilmente.- ela deu um leve sorriso, provavelmente cansada demais para conseguir esboçar um maior. Não tem problema, aquilo pra mim era o suficiente.
– Eu te amo Tris. Te amo muito!- murmurei apaixonado.
– Eu também te amo muito Tobias.
Era tudo o que eu precisava ouvir para encurtar a pouca distância entre nós. Demos um beijo sôfrego e cheio de saudade. Como era bom sentir aqueles lábios macios e doces novamente. Achei que passaria uma vida sem eles mas neste exato momento estão aqui, junto dos meus. Agora percebo que a saudade que eu sentia era muito maior do que eu pensava. Eu não aguentaria mais um minuto sem ela.
Encerramos o beijo somente quando nossos pulmões gritaram por ar. Mesmo assim continuamos na mesma posição de antes.
– Você não sabe por quanto tempo desejei fazer isso mais uma vez.- lhe disse.
– Tobias eu senti tanto a sua falta. Tentei de todas as formas fugir daqui mas não havia como. Queria te encontrar, te explicar o que aconteceu mas...-ela chorava e a cada palavra tremia mais.
Fiquei preocupado com a sua saúde.
– Shiu...- eu a interrompi.- Você vai ter tempo para me explicar tudo. Agora nós precisamos sair daqui.
– Eu não consigo.
– Como não consegue?- perguntei confuso.
– Eu estou muito fraca. Seu pai me testa com simulações e soro todas as noites. Não consigo mais aguentar. Tobias, eu acho que eu vou...- e desmaiou em meus braços.
O soro deve estar dando algum tipo de efeito colateral em Tris. Meu sangue ferveu. Marcus iria me pagar por isso. Por tudo.
A ajeitei em meus braços da mesma forma que eu fiz quando ela foi atacada por Peter, Drew e Albert na Audácia, há tantos anos atrás. Parecia tão machucada e cansada quanto daquela vez. O monstro em meu peito rugiu mais. O fato dela estar assim se deve a mente doentia de Marcus. Aquele maldito! Ele vai ter o que merece se depender de mim.
Corri pelos corredores desertos da sede em direção a porta. Porém ela estava trancada e Peter não havia me dado a chave. A única forma de sair seria pela janela do segundo andar, e mesmo assim não era tão baixa. Já entrava em pânico.
– Vamos Tobias, sem medo agora.- disse para mim mesmo.
Fiz o que pensei e cheguei a janela do segundo andar. Olhei para baixo. A distância dava pra pular mas mesmo assim a ideia não me agradava.
Olhei para Tris, tão indefesa em meus braços. Ela confiava que a tiraria dali, ela precisava de mim e eu não podia decepcioná-la. A segurei mais firme. Era leve como uma pluma e tinha que tomar cuidado para não deixá-la cair durante a queda.
Saltei de olhos fechados. Aterrizei no chão de forma desequilibrada mas logo me mantive firme. Ufa! Tinha conseguido. Agora bastava correr de volta para minha casa. Foi o que fiz. Não era tão longe e eu tinha que sair da rua. Logo iria clarear e não correria o risco de alguém ver a Tris antes da hora.
O único problema era que ela ainda estava desacordada e eu não sabia como cuidar disso. Se eu a levasse para o meu quarto ela não receberia os cuidados necessários para se recuperar por completo. Qual era a solução?
Pensei muito até que me lembrei. No prédio ao lado do meu vivia uma senhora chamada Yulla. Era gorda, com os cabelos cinzas combinando com suas vestes e tinha olhos castanhos claros. Nasceu na amizade mas quis ser transferida para a Abnegação a muito tempo atrás. Sempre foi muito educada comigo e com todos que conhecia. Bom, ela tinha uma aparência confiável e dado as circunstâncias atuais, era minha única chance. Fui em direção a sua casa e logo em seguida bati na porta.
– Por Deus, quem vem a casa de uma senhora a essa hora?- resmungou e logo depois me viu.- Quatro?
Sim ela me chamava de Quatro. Gostava que poucos soubessem o meu verdadeiro nome, por isso não o espalhava por aí.
– Preciso de ajuda.- indiquei Tris em meus braços.
– Oh, claro entre!
O fiz e ela assim que fechou a porta a tocou no rosto.
– Está desmaiada a quanto tempo mais ou menos?- me perguntou.
– Há alguns minutos. Ela vem sofrendo o efeito de soros e simulações durante aproximadamente três anos.
– A coloque aqui.- ela me apontou uma cama.- Pronto. Agora me fale exatamente o que aconteceu com esta moça.
Sentei em uma cadeira ao lado da cabeceira e esperei. Não sabia se era seguro mesmo lhe contar toda a verdade. Ela deve ter lido minha expressão.
– Só vou poder ajudá-la se souber exatamente o ocorrido.- ela sorriu, bondosamente.
Suspirei e lhe contei toda a história, incluindo a parte que achei que Tris estava morta. Yulla cuidava dela enquanto ouvia, lhe dava uns chás e outras coisas assim. No final, arregalou os olhos e disse:
– Menino, desculpa mas o seu pai é um monstro! Nunca pensei que Marcus fosse capaz de algo assim.
– Eu sei.- assenti.
– Essa é a filha de Nathalie e Andrew Prior?
Concordei.
– Eu era uma das vizinhas dela. Vi essa menina crescer! Gostava muito de seus pais. É um milagre ela estar viva depois de tudo que passou.
Olhei seu corpo pequeno na cama. Esbocei um sorriso apaixonado.
– A Tris é muito forte.
Yulla olhou de mim pra ela e novamente para mim, com um ar travesso.
– Bom, pelo visto não é só isso que você acha que ela é.
Eu dei uma tímida risada.
– Fico feliz que a menina que você gosta está viva. Assim você será mais alegre que o Quatro sério que eu conheço. Não se preocupe, ela ficará bem e amanhã já vai acordar.- se levantou.
Me senti aliviado mas estranhei.
– A senhora não vai lhe injetar alguma coisa, nem lhe dar algum remédio ou algo assim?
Me olhou, riu e falou:
– Meu querido, nada é melhor que o bom e velho remédio caseiro. Você vai ver.- e se virou para voltar ao seu quarto.
– Espera. Eu posso...eu posso...
Não sabia como falar. Já tinha pedido demais por uma noite mas queria muito ficar lá. Estaria além da minha capacidade me afastar de Tris nem que sejam por algumas horas. Precisava estar ao seu lado quando acordasse.
– Pode o que?- ela interrompeu meus pensamentos.- Ficar aqui? Mas é claro que sim! Nunca ia te pedir para deixá-la aqui sozinha. Ela precisa de você. O Amor também cura!
Dizendo isso me deixou sozinho com Tris. Eu sorri, talvez Yulla tivesse razão.
Olhei minha garota mais uma vez. Nunca pensei que ficaria tão aliviado de vê-la assim. Podia estar cansada e machucada, mas estava viva e comigo. Sorri mais uma vez e beijei sua testa.
– Te amo minha baixinha.- sussurrei.
Parece que ela ouviu, pois sua expressão se suavizou. Peguei sua mão e encostei a cabeça no canto superior do colchão, ao lado de seu travesseiro. Agora que ela estava segura em meus braços eu finalmente poderia descansar sossegado.
Dormi tão bem quanto não dormia há três anos.
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