Infravermelho
1 O Primeiro Passo (pt. 1)
A cidade ao longe parecia ser feita de pedra e cacos de vidro reluzente. Torres e mais torres espremidas uma ao lado das outras, formando um padrão diferente a cada ângulo visto. O outro lado da cidade parecia ser mais convidativo, mais agradável de viver. Era o que Myranda pensava.
Todas as noites ia para o terraço do orfanato onde fora criada para observar as luzes da cidade. De pé do lado de fora ela se sentia melhor, mais poderosa. Mas é claro, estando em um lugar alto e com um teto de estrelas diminutas a cobrindo fazia o lado vermelho parecer melhor. Nós temos algo que eles não têm, pensou. O lado vermelho nunca teve nada para se vangloriar. O vento agitava os seus cabelos brancos, como um lençol em volta de si. Mesmo estando a temperaturas de bater o queixo ela não sentia frio. Seus poderes a impediam de senti-lo. Era uma das poucas vantagens do seu dom, poder ver o calor das coisas, vê-lo mesmo através da parede mais espessa. Era algo sem utilidade, pensava. Comparado a outros Infravermelhos ela era nada menos do que uma aberração de pequeno porte.Myranda sentou na mureta do terraço, sentindo a pulsação aumentar. Jogou as pernas para o lado de fora e estabilizou o corpo abrindo a palma das mãos no tijolo áspero. Balançou as pernas ao vento, observando a água do rio se adiantar na sua frente. Era uma visão linda e tranquilizadora, desejou poder tirar uma foto desse momento, mas não tinha ideia de como usar uma câmera. Fechou os olhos tentando gravar a imagem na mente. O topo dos arranhas céus como agulhas, o rio todo negro refletindo o brilho difuso das luzes e a lua do outro lado, como uma coroa prateada. Ela abriu os olhos. A imagem não havia mudado, mas o silêncio foi cortado como uma guilhotina. Um grito de dor. O susto a fez se precipitar para frente. Retesou os músculos do braço e agarrou a borda com mais força. Precisava se esconder. Voltou-se para o terraço, temendo se estatelar na rua abaixo de si. Adiantou-se para um canto e abaixou, ocultando-se do campo de visão da rua. Isso era comum no lado vermelho, todas as noites a polícia Ultravioleta patrulhava entre as ruas da Zona Vermelha, caçando quem ainda estivesse do lado de fora. Myranda nunca os viu enquanto estava no terraço e temeu que o dia tivesse chegado.Os gritos vinham de baixo. Abafados, secos e abruptos, como se alguém estivesse sendo esmurrado. Myranda espiou pela borda, olhando para o outro lado. Havia a cerca de sempre, dividindo a rua do rio, e o portão de acesso à ponte que ficava no fim do quarteirão. Nada acontecia, estava tudo parado como antes, nada se movendo. Sua respiração desregulada fazia barulho demais e ela se esforçou para estabilizá-la. Quase achou que alguém tinha a visto lá no alto. Se isso acontecesse, era morte na certa, ou quase isso. A polícia não matava quem desobedecesse as regras, mas os mandariam para a prisão, algo considerado por muito a morte, já que você nunca voltaria. A garota se levantou e foi em direção as escadas que levavam ao interior do prédio, mas os seus poderes se manifestaram e, antes de se virar completamente, viu o calor do outro lado da cerca, às margens do rio. Duas formas vermelhas e pulsantes se movendo, se esmurrando, um tentando afogar o outro na água. Não era a polícia, eram dois Infravermelhos.
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