Notas iniciais
Esse foi um desafio de férias e existem mais três Lyras. Aguardo o dia em que elas possam estar reunidas juntas.

A luz vinda do sol inundava o cômodo de longas paredes, as cortinas verdes esmeralda estufavam lentamente com a brisa que entrava pela janela aberta. A senhora encarava fixamente a imagem do exterior, claro, emoldurado na tonalidade verde que adquiriu sua sala. Estava de pé, uma mão sobre a grande poltrona marrom de couro, a aliança dourada contrapondo o estofado abaixo do seu dedo. Os cabelos curtos e inteiramente brancos também receberam um pequeno afago da brisa como as cortinas. Os olhos firmes agora navegam até sua estante, uma seleção de fotos está disposta em uma serie de porta retratos na prateleira, logo abaixo de um grande espelho que ia quase até o teto. Algumas em preto e branco, outras coloridas, grandes e pequenas. Rostos que ela sabia que nunca mais veria: celebridades, amores e amigos do passado, sua exposição particular de memórias construídas ao longo dos anos. É seu próprio rosto que recebe a atenção agora, as marcas de idade são bastante evidentes, nunca fez questão de escondê-las, envelhecer chega a todos. Mas, o laranja claro do seu xale deu alguma luz a seu rosto, uma luz que não via fazia tempos, luz que não a pertencia mais. E não porque não era mais jovem, mas porque a felicidade é quem geralmente traz esse tipo de luz as pessoas, esta não a pertencia fazia tempos. Um longo suspiro, chegou mais perto das fotos. Os dedos delicados navegaram e sentiram cada irregularidade dos porta-retratos, apenas se movendo na ânsia de descobrir algo que aquelas fotos já não a tenham dito. Uma vida tentando ser recontada e mostrada sobre um simples pedaço de madeira era impossível. Ela sabia que haveriam fatos que nunca poderiam ser registrados, seriam seus e somente seus se optasse por nunca mostra-los, seja por suas histórias ou suas pinturas. E então o mundo começava a se descascar ao seu redor, como a tinta de uma pintura envelhecida, as lascas se descolam da realidade e um campo, com uma grama longa e uma casa de madeira ao fundo surge. Uma garotinha com latas de tinta está bem à frente de uma casa.

Lyra conheceu as tintas pela primeira vez aos 8 anos. Morava no sitio dos seus tios no interior, órfã de pai e mãe, neste dia em particular se lembrava de estar furiosa porque as flores se recusavam a aparecer em um dia tão ensolarado. Não adiantava nenhuma explicação de sua tia de que as flores ainda não estavam prontas pelo inverno ter acabado a pouco, ela queria as flores hoje, precisava delas para ter um pouco de alegria. Parecia que todas as vezes nessa mesma época as pessoas em sua casa estavam tristes. Aproveitou que o tio estava na plantação e se enfiou dentro do armazém dele que continha diversos materiais para manutenção, máquinas quebradas e de reserva. Até que durante sua rápida busca o cheiro forte das tintas a atraiu. Imediatamente se dirigiu a elas, sabia que ali havia algo diferente, algo que poderia ajudar com a ausência das flores. Encontrou alguns baldes de tintas, umas de amarelo cujas latas pareciam bem antigas e enferrujadas, não lembrava de conhecer um lugar pintado com aquela cor. Já com o rosa e o vermelho foi diferente, eram conhecidas de seu quarto e os tijolinhos que compunham a lareira. Com muito esforço levou os pesados baldes para o lado de fora, esforço tal que iria valer a pena. Lembrou de pegar também uma caixa de madeira, usada para guardar as verduras, usou esta como banquinho para alcançar uma área maior da parede lateral do armazém, onde iria posicionar todos os materiais. Ainda faltavam os pincéis, fez mais uma visita ao lado de dentro e encontrou um grosso pincel com cerdas negras. Começou, o deslizar do pincel que dava forma ao seu desejo naquela parede. Um céu azul escuro, a única tinta que se assemelhava a tonalidade do original, começava a cobrir a superfície marrom das vigas de madeira. Ela demorou um tempo até completar uma área conforme tinha imaginado, queria que sua primeira criação tomasse um espaço relativamente grande. Continuou empenhada, agora era vez do amarelo, completando um círculo na cor da madeira que não foi preenchido no canto superior esquerdo. Era necessário demonstrar os raios daquele sol que nasceu, eles precisavam aquecer a grama, mas aconteceu um pequeno problema, o azul e o amarelo criaram raios de sol esverdeados, nada que uma jovem mente criativa não pudesse relevar. Agora descobriu como pintar a grama sem ter encontrado nenhum verde. Pegou a tampa da lata do amarelo e a deixou no chão virada para cima e em seguida adicionou o azul. O verde havia nascido e começara a dar vida a uma grama alta, assim como a que a cercava. Lyra teve que fazer a mistura muitas vezes até cobrir toda a parte destinada a grama, mas já estava quase acabando, agora faltavam somente suas amadas flores. O pincel estava sujo, as flores não podiam sofrer da mesma metamorfose que os raios de sol, a solução foi limpar as cerdas na própria calça. Agora o rosa começava a se juntar as outras cores da composição, esferas ligeiramente deformadas começavam a brotar em determinados pontos do jardim verde, elas eram as flores que ainda não haviam desabrochado. O vermelho estava simbolizando as rosas que tinham acabado de acordar, o desenho era diferente, o círculo era maior e as pinceladas tentavam replicar todas as pétalas da flor. Em poucos minutos seu jardim estava pronto, lá estavam suas tão desejadas flores aleatoriamente distribuídas. Mas ainda faltava algo, Lyra havia visto que era possível reproduzir as coisas a seu redor, exceto por algumas fotos, era a primeira vez que presenciava aquele tipo de coisa. Seus olhos estavam maravilhados, brilhavam e refletiam o trabalho recém-criado, mas ainda queria sentir o cheiro daquelas flores, queria sentir a grama quente por causa do sol. Vagarosamente estendeu os dedos da mão direita em direção a pintura, o desejo de sentir algo parecia reverberar por cada poro da sua pele, o mesmo foi atendido. A mão alcançou a flor criada, ela agora tinha volume, era aveludada, o formato igual ao desenhado, somente um borrão, mas o perfume estava lá. Ela não acreditava no que estava acontecendo, maravilhada e assustada ao mesmo tempo, o gramado estava agora ao seu redor, era exatamente como havia desenhado, mas podia senti-lo encostando em sua pele e em suas roupas, a pintura havia se materializado ao seu redor estendendo o gramado infinitamente no chão. Num susto ela olhou para o céu procurando algum traço da familiar da fazenda. Somente encontrou o céu azul escuro que prendeu sua atenção automaticamente. Ele continha um sol que brilhava forte, com raios verdes que dançavam ao seu redor. Algo que talvez até hoje ela só conseguisse associar a aurora boreal que veria muitos anos depois. Eles eram poderosos, linhas retas igual havia traçado, mas haviam assumido a transparência da luz, dançavam sob a sua cabeça em volta do sol mais amarelo que já havia visto em sua curta vida. E então tudo se desfez, no segundo seguinte estava de volta a sua fazenda, o céu na tonalidade normal. Olhou para a sua mão e a rosa se transformou em tinta velha, não havia mais volume. Virou a palma da mão e deixou que a tinta caísse seca, fragmento por fragmento, foram flutuando lentamente da sua mão ao chão. O grande painel tomou a aparência de um quadro antigo, todo craquelado, como se trezentos anos houvessem passado desde que ele havia sido desenhado. Aquela foi a vez em que Lyra descobriu que podia dar vida às suas pinturas.

Essa era uma das memórias que mais gostava, apesar do pequeno sorriso que surgiu em sua face ao relembrar, os olhos firmes ainda estavam lá. Aproveitou para tentar se lembrar como chegou aquele ponto, já que todo mundo tem uma história e dizem que ela passa na sua frente antes de você morrer, talvez esteja no momento de revisita-la. A senhora caminhava agora lentamente até um corredor, as paredes estavam adornadas com grandes quadros, quatro deles, dois de cada lado e iam do teto ao chão. Ela adorava pintar em telas grandes, assim como aquele dia na fazenda, onde toda lateral do celeiro pode ser sua tela. Seus dedos tocavam a moldura do primeiro quadro do lado esquerdo e logo depois pularam para o lado oposto, sem encostar na tela, ela não ousava, agia como se pudesse destruir tudo com aquele toque. Novas paredes de tijolos subiam atrás dela, a rua de pedras ovais receberam os passos rápidos de uma Lyra adolescente, tinha 16 anos agora. Os cabelos loiros e encaracolados balançam seguindo seus passos, seu rosto alerta assume a preocupação de estar sendo seguida. Andava vagarosamente, passo a passo, olhando para os dois lados da rua até chegar a parede de tijolos industriais. Retirou algumas latas de spray de uma bolsa que estava carregando e começou a esboçar o que queria desenhar. A parede recebeu manchas coloridas, contrastando com o branco no centro feito anteriormente que parecia ser uma palavra.

– Você não deveria estar fazendo isso, eles podem te pegar. – Uma voz calma surgiu atrás dela. O susto foi tamanho que a lata ao invés de cair, ficou paralisada em sua mão que agora apertavam o objeto com força enquanto ela pulava girando para ver quem era o dono da voz.

– Calma, calma, desculpe. – Um garoto rapidamente se desculpava balançando os braços sinalizando que ele não queria fazer nada com ela. – Por favor continue.

Teve que analisar rapidamente se ele era uma ameaça, reparou primeiro nos cabelos castanhos e um pouco compridos, depois em suas roupas que pareciam farrapos de tão surradas, mas ainda resistentes. Foi a águia na sua jaqueta de couro, que se destacava por estar limpa, que a acalmou um pouco. Ele aparentemente era um rebelde.

– Não me atrapalhe então, isto é importante. – Ela falou brava.

Lyra continuara, o fundo totalmente preenchido e colorido era hora do contorno. Fechou os olhos por um segundo e começou, somente a frase e as pombas que saiam dela precisavam do acabamento. Minutos depois a palavra “paz” ficou completamente legível. Era um desenho grande e no estilo de arte de rua, colorido demais para chamar atenção, ondas manchas rosas e laranjas saiam de trás da palavra a ressaltando ainda mais.

– Parabéns, você tem talento! – Gritou o garoto do outro lado da rua. Apesar de admirado pela composição ainda achava muito infantil e principalmente tolo para a época em que estavam passando.

– Você ainda não viu nada... – Lyra sorriu e falou baixinho para si mesmo e então tocou com o indicador no desenho. As pombas saíram voando fazendo tanto barulho e tão rapidamente que pareciam pequenas bombas detonadas. A palavra paz começou a flutuar na frente de Lyra, ela precisou dar alguns passos para trás. As ondas de luzes ganharam vida e agora dançavam iluminado a tudo como uma festa. Mais uma mensagem bem feita, pensou. O garoto olhava totalmente hipnotizado para aquilo que surgira na sua frente, era tão bonito e como diabos aquela garota conseguia fazer aquilo? Até que tão surpreendente quanto à mensagem veio um grito de “parados” no fim da rua, homens com cassetetes correram na direção deles. Por impulso ele puxou Lyra pelo braço e os dois começaram a correr freneticamente, entravam e saiam de ruas e vielas tentando despistar o par de soldados. Começaram quase que uma dança, onde os passos eram cadenciados pelos conhecimentos de qual rua entrar, onde hora um determinava o caminho hora o outro. Por fim terminaram em um beco, precisavam tentar se esconder porque os passos logo começaram a ser ouvidos. O casaco ajudou a escondê-los na penumbra, sendo envolto em Lyra e a forçando contra o peito ofegante daquele garoto. As respirações fortes recuperando o folego se misturaram, os olhos se encontraram e talvez a descarga de adrenalina acabou criando um desejo mutuo de sentirem o gosto do lábio um do outro. O beijo surgiu e os escondeu mais ainda no breu enquanto os perseguidores seguiam pela rua passando pelo beco sem notá-los. Aquele foi o primeiro beijo de Lyra, estranho, corrido e talvez o que mais carregue sentimentos até hoje. Por mais que fossem bem diferente de amor ou excitação, ainda sim eram marcantes.

O garoto se chamava Goeth Borgue, tinha 19 anos na época e se apaixonou imediatamente por Lyra e seu dom. Aquela foi a primeira vez que realmente acreditou que talvez o mundo pudesse ser diferente, ser algo mais que somente a dor e mentiras que estava habituado. Goeth foi morto três anos após ser capturado e torturado. O primeiro sentido que o tiraram foi a visão e a última imagem na sua cabeça foi a palavra paz brilhando como nunca havia visto na vida, seguido da sua criadora sorrindo para ele.

Ela retornara ao mundo do presente, percebeu que estava descendo as escadas até o subsolo da casa onde ficava seu ateliê. O escuro, que parecia conflitar com a única luz acessa da escada e tentando tomar tudo, ainda a assustava. Fora seu companheiro por muitos anos, ainda causava os mesmos calafrios só de lembrar das salas frias e úmidas que frequentava. Lyra ainda precisava lutar contra alguma coisa dentro dela mesma para conseguir encarar, por mais distante que estivesse, a visão da ausência de luz. Era sobrevivente da “Guerra dos tolos”, resultado de uma tensão política vivida desde que ela era criança. O motivo até hoje não é claro, alguns analistas especulam que uma falta repentina de comida levou um grupo de países a invadir o outro na busca de terras, mas a verdade nunca vira a tona porque foi enterrada junto com todos os lideres políticos daquela época. Duas coisas quase morreram neste período, a sanidade e o dom de Lyra. As lembranças mais fortes vêm da época em que foi mantida refém pelo governo, seu dom havia sido descoberto e o sistema falido queria se aproveitar dele para construir armas a partir de sua imaginação. O problema era que as obras que pintava só ficavam “vivas” por alguns segundos, cerca de quinze segundos na verdade como um guarda contará uma vez. Ela então era treinada, diziam que era para conseguir mais resistência e manter as armas vivas, porém o treinamento consistia em manter Lyra por dias acordada, jogando baldes de água fria a forçando a desenhar e dar vida a suas criações durante esse período. Achavam que a força de vontade dela poderia influenciar em quanto tempo conseguia manter uma pintura se movendo. Seus desenhos eram feitos somente com um lápis negro. Deu formas a morcegos deformados, círculos que deveriam ser esferas, claves, adagas. Houve uma vez que se recusou a cooperar, sua recompensa foi o corte de seus cachos loiros por um maquina velha que quase os arrancava pela raiz. Lyra aprendeu a desenhar todas as armas existentes, AK47s, Colts, Magnums, foi forçada inclusive a fazer algumas bombas. Copiava de modelos reais, se especializou em replicar a textura fria do metal que compunham os objetos. Somente com o grafite reproduzia tão perfeitamente a luz e as imperfeições que parecia não ser necessário o seu dom. Tentativa após tentativa ela sabia que seu tempo estava se esgotando, a cada nova falha a cada nova figura, que após ser levantada nas mãos de um soldado se desfazia em milhões de fragmentos de grafite, a morte parecia estar mais perto, como se dividisse a cela com ela agora. Não havia motivo em mantê-la viva, de gastar recursos alimentando-a, de ter que prestar atenção numa simples mulher enquanto as bombas eram ouvidas cada vez mais próximas da cidade. Até que uma fagulha de esperança se materializou, aquela fagulha onde você precisa alimenta-la lentamente para que se transforme em fogo e não se apague.

Em uma noite eles a retiraram de sua cela, a lavaram, ofereceram um banquete relativamente generoso para o que costumava comer. Deram-lhe um vestido preto, com bolinhas brancas e prenderam uma fita azul em seus cabelos que ainda eram muito curtos. Ela achou que finalmente chegara seu fim, teria o descanso eterno para desfrutar e descansar as chagas da alma. Eles lhe explicaram que hoje teria que apresentar seu dom aos generais que estavam em uma festa, iria se tornar um macaco de circo. Montou rapidamente um plano em sua cabeça, se não a dariam o direito de morrer, então mataria a todos e a si mesmo. Sabia que podia fazer isso a partir de suas criações, a cicatriz que ocupava quase todo o braço direito a lembrava disso. Foi adquirida quando estava reproduzindo uma faca e acidentalmente esbarrou com o braço nela. A imagem ganhou volume, a lâmina havia sido imaginada tão pesada e tão afiada que desceu e cortou sua carne como papel. Agora a mesma lâmina iria lhe salvar, ela e suas irmãs. O desenho seria um globo composto por várias dessas facas, tantas quantas pudesse desenhar. Lyra teria que usar de ilusão de ótica para reproduzir todas a tempo. A redoma iria simbolizar o mundo e assim que a desse vida, havia imaginado um mecanismo que ficaria no meio e explodiria lançando as facas em todas as direções, ferindo a sua plateia e a si mesmo. Lyra só não sabia ainda que a esperança não viria na forma de morte e sim na forma de um homem. Ele se destacará na plateia observando ela, seus olhos se cruzaram quase que imediatamente. Ele era atraente, os cabelos bem penteado para o lado com uma espécie de goma, o uniforme era fundo para várias medalhas e marcas de patentes. Ficaram se entreolhando por diversos segundos, até alguém pigarrear e fazer um movimento para que ela começasse. Ela avançou em passos tímidos ao centro do placo, o solado de madeira improvisado rangia a cada novo passo. As cortinas velhas usadas para adornar o fundo exalavam o cheiro de guardado misturado à naftalina. Um sentimento começou a brotar de dentro do seu ser, há muito ela não se sentia assim. Antigamente sempre antes que ia começar algum desenho um sentimento a tomava, era difícil descrever, às vezes era medo com ansiedade outras a calma com a alegria de estar construindo algo. Nesse momento alguma coisa a disse para esquecer o que ai fazer, fechar os olhos e reproduzir aquilo que fosse surgindo em sua mente. Aos olhos atentos daquele homem Lyra desenhou três querubins, cada um apontando para um lado diferente da plateia. Eram cinza, a habilidade de reproduzir o metal agora se mostrava na forma de textura. Aquelas eram estatuas pesadas de um metal escuro que poderia ser facilmente o chumbo. Estavam apoiados em uma pequena base, todos com as feições de criança, o manto cobrindo seus corpos e as bocas em formato de bico como se estivessem assoprando. E então o toque, as estatuas caíram no chão fazendo um grande barulho, as três em pé. Imediatamente uma brisa morna começou a jorrar em todas as direções. O vestido preto dela balançou, de olhos fechados ela sentia o aroma doce das rosas do campo, aquelas que há tanto tempo não sentia o cheiro. A plateia estava incrédula atrás dela, olhos arregalados, virando em todas as direções tentando descobrir como aquilo era possível. Exceto uma pessoa que olhava fixamente para Lyra que estava com lagrimas nos olhos. Segundos depois o vento cessou, o perfume sumiu e o silêncio imperou, até o surgimento das palmas.

O homem que olhava Lyra era Llamar Slot, general de alta patente do exército. Ele usou de seus conhecimentos internos e pagou uma verdadeira fortuna para liberar Lyra e a fazer sua esposa. A aliança grossa de ouro ainda girava no dedo no presente de Lyra, porém junto vinha a repulsa. Llamar a mantinha praticamente em cárcere privado, naquela mesma casa em que agora ela está. Poderia continuar pintando desde que nunca expusesse sua obra em publico e isso incluía sua própria casa, deveria se limitar ao seu atelier no subsolo. Era um homem sem escrúpulos, ordenara diversas execuções de grupos de refugiados, muitas das vezes alegando que a comida estava acabando. Lyra nada podia fazer, seja por não ter forças, seja por dever sua vida aquele homem. Os anos que se seguiram foram miseráveis, Lyra desejava ter morrido na sua antiga cela. Começara a sofrer uma pressão interna de suas convicções e suas ações. Passou a frequentar a sociedade militar, esnobes que tinham privilégios e gozavam da miséria em que a época passava. Banquetes luxuosos, eventos desportivos a beira dos rios que ainda não estavam totalmente poluídos e descaso com o resto. Ela ficou conhecida pela a acidez que logo se desenvolveu como forma de se proteger de tudo aquilo, um privilégio por ser mulher de uma pessoa do alto escalão. Se tornou uma pessoa fria, solitária, uma sobrevivente de si mesmo. As decepções passaram a crescer, ficara grávida do monstro que a todos devorava. Era inconcebível ter um filho com aquela pessoa, continuar aquela linhagem podre, saber que um filho seu poderia crescer e se tornar tão esdrúxulo quanto aquele homem. Se odiava por isso, pobre da criança, não merecia aquele tipo de pais, viver naquele tipo de ambiente, ter sua pele tocada pelos mesmos dedos dos generais que apertavam botões que lançavam bombas e matavam milhões, aumentando a carnificina que já era quase diária. As brigas aumentaram com o tempo, ela não se sentia mais intimidada pelo marido, a gritaria e o barulho de objetos se quebrando era frequente, seu casamento estava chegando ao fim, a guerra estava chegando ao fim.

Ainda se lembra da noite em que os rebeldes invadiram sua casa, o barulho dos tiros viajando do lado de fora. O grito daqueles homens que levaram seu marido como prisioneiro de guerra. Ela e seu filho não foram levados, mas um guarda foi deixado para que os dois não fugissem. A paz pareceu ter sido reestabelecida, um novo governo foi criado mundialmente e seus presos foram julgados. Lyra fora convidada a depor no julgamento do marido, ela não o absolveu de nenhum de seus inúmeros crimes, porém contou a todos a sua história e como aquele homem a havia salvado. Llamar não foi condenado a morte, mas teve a prisão perpetua decretada. Ela havia pago sua dívida, uma vida pela outra, não tinha mais nenhuma pendência com aquele homem. Llamar morreu em seu sitio alguns anos atrás, não foi solicitado necropsia, a causa foi tida como desconhecia.

No presente, Lyra chegara ao seu ateliê, as mãos rápidas apertaram o interruptor. As lâmpadas começaram a iluminar o lugar uma a uma, se pareciam com holofotes, precisavam ter força para iluminar o vasto cômodo. O cheiro de tinta era forte, apesar do sistema de exaustão industrial que enchia o teto de dutos metálicos. As obras de Lyra, tanto completas quanto as em construção, pareciam estar todas dispostas ao redor de um grande painel que ia até o teto. Uma tela amarelada devido ao tempo de cerca de cinco metros, continha um simples desenho negro e bem centralizado, fora concebido durante a época em que estava presa. Ela nunca tivera coragem de toca-lo, foi uma teoria que teve que criar nas tentativas de justificar seus esforços para manter uma tela viva por mais que alguns segundos. Não foi necessário trazê-lo a vida porque Llamar a tirara de lá antes, mas a ideia era simples. O desenho era o símbolo do infinito interrompido em dois pontos, no primeiro a linha tinha uma ponta fina que fora desenhada para redesenhar a linhas, renovando a tinta. Na outra parte uma ponta arredondada iria descartar a tinta antiga como uma espátula. As duas deveriam se movimentar juntas renovando o desenho e percorrendo o traçado do infinito. Lyra se prometeu a tentar dar a vida a obra quando a hora fosse a certa, porem a tempos desistiu da ideia, mas a mesma continuava ali para fazê-la não esquecer do que já passara. Os demais quadros se distribuíam ao redor, alguns grandes painéis que se destacavam, poucos coloridos, a maioria nos tons de chumbo que eram a marca da Dama de ferro. Um pequeno canto era destinado ao trabalho atual que estava fazendo, o chão era cheio de manchas de cores diferentes nessa área, havia um painel em um cavalete.

Agora estava em um jato, lá fora o sol começava a se pôr e a luz amarelo ouro inundava a aeronave. Seu filho, Levi Vannit Slot estava deitado em seu colo. Ela lembra bem da textura dos cabelos lisos e negros do filho enquanto os afagava. Ele estava com dez anos agora e a acompanhava em todas as suas viagens. Lyra não iria abandona-lo nunca fora pelo amor que sentia por ele, fora pelo medo que o levassem. As guerras se vão, mas os traumas ficam. Para ela era como se a qualquer momento tudo pudesse retornar, vivia agora numa linha tênue entre a sanidade e o pânico de retornar aquela cela escura. Pesadelos, barulhos altos, qualquer coisa podia ser um estopim para libertar a prisioneira de guerra que estava contida com ajuda de remédios. Não tinha uma crise há alguns anos, mas passou a ficar alerta contra si mesma. Na outra mão um livro, estava lendo um romance, algo que nunca havia feito na vida. A única literatura que tinha disponível por muitos anos foram os antigos livros de selo verde. Eram basicamente manuais militares e livros que exaltavam a guerra, os únicos permitidos de leitura. Por esse motivo Lyra nunca havia se aproximado daquele habito que se tornou seu grande amor, aquele era seu quinto livro em dois meses. O mundo estava sendo redescoberto por muitos nestes últimos anos e ela se tornara o símbolo desta redescoberta. Lyra virou uma celebridade, sua história veio átona naquele tribunal trazendo também a superfície de um mundo novo seu dom. A primeira pintora de sucesso da nova era. Seus quadros começaram a ser expostos nas diversas galerias que foram surgindo ao redor do mundo, mas eram suas performances ao vivo que realmente fascinavam o público. Era quase como um show, Lyra trazia a vida algumas pinturas para um grupo de convidados. Com o passar do tempo os convidados foram ficando cada vez mais seletos e os shows mais procurados. A arte estava voltando à vida pelas mãos de Lyra. A Dama de Ferro. Recebeu o apelido depois de uma performance onde um famoso jornalista estava presente. As obras dela eram muitas das vezes representação de homens, animais, seres que ela se lembrava de ter ouvido na infância, como os querubins que a salvaram aquela noite, todos feito de metais. Porém não eram rígidos, quando ganhavam vida era como se a textura firme do metal amolecesse e ganhasse movimento.

Em uma performance Lyra apagou todas as luzes de um antigo barracão deixando somente um feixe largo iluminando o centro, no teto existia a figura de uma águia extremamente fiel ao animal, porem com as cores do aço reluzente. Após o toque de Lyra o animal se desgrudou do papel e bateu as asas com força fazendo redemoinhos de ventos nos espectadores ao redor. Com uma feição de quem estava pronto para atacar pousou sobre o solo e deu um ganido metálico que pode ser ouvido do lado de fora. Antes que pudesse haver qualquer reação o pássaro se dividiu em milhares de outras pequenas águias que voaram sobre a plateia tomando quase que completamente o local. Com o tempo ela aprendeu que poderia fazer praticamente tudo com suas pinturas, era o que imaginava enquanto pintava que definia como a peça ia se comportar. A Dama de Ferro atingira seu ápice. Como as obras geralmente tinham essa textura dar o apelido não foi difícil aquele Jornalista. Lyra se tornara o símbolo de uma nova era, liderou movimentos que buscavam a liberdade de expressão dos seres humanos assim como a igualdade, já que muitas famílias foram dilaceradas por causa da guerra. Era convidada frequentemente a participar de programas na TV, geralmente entrevistas para compartilhar seu ponto de vista. O apelido também lhe caiu como uma luva devido à outra característica, Lyra não perdera o jeito duro de falar o que pensava, doesse a quem doer. As opiniões acidas e os relatos de sofrimento eram características de suas falas. Ela sempre retornava na questão de que as pessoas não deveriam esquecer o que havia acontecido e que a humanidade provavelmente seria a culpada pelo a própria extinção se as coisas não mudassem. A guerra podia ter acabado, mas a ganância de todos os homens sempre residiria em seus corações. A liberdade estava trazendo um tipo diferente de terror e ela o estaria provando novamente em breve.

Em uma noite, enquanto passeava pela cidade, viu um cartaz a frente de uma pequena casa. Ele trazia imagem de um objeto metálico triangular, no meio tinha o que pareciam ser cordas de diversos tamanhos, dispostas em ordem, esticadas da base superior até o braço direito. Em baixo a mensagem “Show: Doce Lira”. Era a primeira vez que vira aquele instrumento, a música também retornará aos poucos, ficou mais surpresa ainda por ver o nome que parecia com o seu. Imediatamente perguntou para um rapaz que estava na porta do que se tratava aquilo. O mesmo logo lhe explicou que ela estava na frente do Grande Teatro das Cordas, ou pelo menos que um dia seria grande, e que hoje estavam exibindo uma apresentação do instrumento que segundo ele, seria uma das coisas mais doces que ela jamais ouviria em sua vida. Lyra comprou um ingresso e rapidamente sentou um pouco afastado do palco amador que fora montado. A casa não ficou muito cheia e logo o mesmo rapaz que estava a porta veio apresentar o início do show, que hoje seria estrelado pela grande Madame Titi. (Grande parecia ser um adjetivo atrelado a tudo naquele lugar). O instrumento foi levado até o centro do palco, era bem maior do que Lyra imaginava, junto com um banco. Madame Titi entrou em seguida, era uma jovem de pele escura e cabelos longos e negros. Seus olhos azuis só puderam ser admirados uma vez porque logo eles se fecharam e só se abririam ao fim da apresentação. Conforme os dedos de Titi acariciavam as cordas do instrumento uma melodia fina e clama reverberava por todo o espaço. Era algo tão doce e delicado que Lyra ficou hipnotizava, mesmo as notas mais graves tocavam em seus ouvidos como uma trovoada abafada por nuvens. Ela fechou os olhos assim como fazia quando ia pintar e se deixou guiar pelo som, acabou pensando em algo que percebera não ter o privilégio de sonhar até hoje, seus pais. Será que eles ouviram este instrumento alguma vez e por isso este era seu nome? Será que um dos dois pode ter tocado aquilo e deliciado a outras pessoas assim como Titi fazia agora? Lyra não teve tempo de conhecê-los, seus tios lhe contaram desde criança que os dois foram fazer um trabalho em outro país, mas retornariam dentro de alguns anos. Porém não haviam cartas e nem sinal de qualquer contato. Como Lyra escutara essa história desde criança era como se os dois não existissem, não havia afeto por eles. Sua tia tentava deixar a lembrança dos dois vivas através de histórias, de como os dois se conheceram, de como a mãe dela era fascinada por amoras (Fruta que também só sentiu o gosto a poucos anos). Mas era inútil, os dois não passavam de personagens distantes. Ela se deixou tomar pela emoção, lagrimas delicadas lhe escoriam o rosto, pela primeira vez em muitos anos queria ter conhecido mais daquelas duas figuras que eram intitulada de seus pais. Agora que era mãe não conseguia imaginar a dor de viver sem seu filho que foi segundo a habitar seus pensamentos. Levi já era crescido, havia se casado com uma linda jovem chamada Mirania, moravam na mesa cidade ainda e se tornara um homem de caráter indiscutível e para a felicidade de Lyra bem diferente do Pai. Mas as imagens que viam a mente eram de Levi mais novo, algumas dele ainda criança com um chapéu de cowboy bradando que ia salvar a mãe do bandido de cara preta. Outras dele já adolescente, quando acabavam discutindo por um motivo bobo de um jovem que começava a pegar o gosto da liberdade. O que assustava nesses momentos era o olhar sombrio do pai que infelizmente ele herdara completamente, era como se Llamar estivesse olhando para ela novamente. Outros de quando já adulto, do afeto que recebia de um homem que estava começando sua vida e sempre a mãe quando podia. A vez em que invadiu uma entrevista porque estava cansado após um voo de doze horas e queria dormir no seu colo. A imagem foi reproduzida em diversos lugares como a prova de um afeto genuíno. Aniversários, doenças, alegrias e tristezas. O filho foi seu principal companheiro na maioria dos momentos da sua vida, o homem que ela nunca teve para segurar sua mãe e lhe dar forças, mesmo muitas das vezes não sabendo que estava fazendo isso. A musica cessara, Lyra aplaudiu de pé a artista a congratulou rapidamente antes de sair correndo para ver o filho, o coração estava apertado. Ela reproduziu aquele momento em um quadro. O fundo mal iluminado do Grande Teatro de Cordas estava lá, o instrumento estava no centro do palco, Titi era apenas um vulto. O corpo da lira era vermelho ao invés de marrom. Gotículas pingavam dos braços do instrumento manchando o chão. O nome do quadro era “Doce Lira de sangue”. Outra criação que ela nunca ousou dar vida, só sabia que iria escutar a música daquela noite se fizesse isso.

Levi Vannit Slot morreu vítima de um assalto na frente de sua casa naquela noite. Sua mãe foi a primeira a encontrar o corpo. Levi deixou uma esposa grávida de duas semanas.

Lyra no presente estava agora a frente do último quadro que estava pintando, sua despedida do mundo. Era uma figura humanoide de sua altura, tinha quatro lados, apenas três representados na tela. As feições femininas no rosto, cada um com uma face de ódio, deformada em uma careta. Olhos com Iris de um vermelho intenso contrastando com a pele metálica da aparente besta. Um véu cobre cada uma das cabeças. Lyra havia feito um esforço grande para detalhar especialmente na região do rosto, tentando dar o máximo de realismo a cena. As texturas metálicas estavam presentes como sempre, mas essa obra era diferente, parecia genuinamente estar sofrendo. O corpo ainda não estava concluído, havia apenas um esboço traçado de lápis. Os braços femininos, porém fortes, seguravam cada um uma foice, era a parte em que ela estava pintando agora. Não havia base, a besta iria estar descalça e com os pés no chão, iria girar em volta do próprio eixo. Uma pincelada de cinza e a foice ganhava uma lamina afiada, quatro delas uma para cada face. A intenção era que quando estivesse pronta a peça iria destruir todas as obras dela incluindo a própria criadora. Ela entrara em depressão profunda após a morte do filho, cancelou as exposições, raramente aparecia em público agora. Desistiu de pintar e tentou simplesmente sobreviver. Contava com seções de um psiquiatra particular que Mirania fez questões de contratar, ela só não a visitava mais porque no início Lyra se quer conseguia responder a nora. Amigos próximos também tentaram no início, mas aos poucos eles também foram desistindo. Lyra estava só, não tinha mais nenhum motivo para continuar isso que as pessoas chamavam de vida, essa sucessão de sofrimentos como ela agora o chamava. Os anos foram se passando, para poder sustentar um pouco da sobrevida que ainda lhe restava teve que voltar a se comunicar com o mundo aos poucos, ia até a esquina para comprar alimentos e há pouco tempo decidiu a voltar a pintar, foi quando iniciou a obra monstruosa que estava na sua frente agora. Assim como se lembrava que sua vida começou com aquela pintura de um campo florido, ela iria terminar nas mãos de uma criação sua, não havia mais motivos para continuar ali. Iria partir sem ressentimentos, acreditava que conseguiu fazer tudo o que estava em suas mãos para ter uma vida feliz e correta. Havia compensado os anos de silêncio, sem se impor, durante a guerra sendo a voz para uma nova sociedade que havia emergido. Conseguira fornecer momentos lúdicos aqueles que sofreram, um pequeno alivio para a alma e material para a imaginação através de sua arte. Torcia apenas para que a humanidade não se perdesse mais uma vez depois de sua ida, que outras pessoas como ela pudesse transpassar humildade e respeito as outras gerações. Para que o erro de gerações passadas não voltassem a acontecer. Que elas pudessem ser capazes de perceber que não fomos feitos para viver isolados, somente com a cooperação um do outros, a genuína consideração pelo próximo, sobreviveríamos. Ao contrário a ganância e o falso poder dado somente a alguns que faria com que milhões de outras Lyras fossem presas, torturadas e consequentemente mortas, assassinadas como seu filho. Tirando assim o direito do mundo de ver as maravilhas que algumas pessoas podem fazer. Não que elas teriam o mesmo dom dela, mas cada uma a sua maneira. Seja como a Titi e sua música ou o repórter que deu ao mundo um símbolo criado através da sua capacidade de associar ou até o jovem Goeth e seu coração aprisionado.

Lyra acelerava o ritmo do trabalho, as lagrimas a impulsionavam a terminar logo a obra, o dorso estava agora praticamente pronto, as pinceladas intensas e rápidas, o cinza num tom mais escuro estava se espalhando quando alguma coisa cutucou a perna dela. Sobressaltada se virou rapidamente e avistou uma criança. O pânico só aumentava, percebeu que a menininha loira tinha os seus olhos, intensos e concentrados nela junto com um sorriso angelical. Estava tendo alucinações por causa dos remédios? Estava vendo a si mesma quando criança? Não era possível, não havia explicação aparente que a tirasse da paralisia. Até que duas coisas aconteceram, avistou Mirania logo na frente da escada da entrada, estava diferente da última imagem que tinha da nora na cabeça, as feições estavam com traços de mais idade. A garotinha com uma voz bem baixa disse a palavra vovó.

– Qual o seu nome minha linda? – Lyra perguntara com a voz embargada.

– Eu me chamo Yvi, vovó.

A garotinha procurou algo no bolso de traz e com as mãos pequenas estendeu uma folha de papel. – Toma, para você. Lyra pegou o papel retangular e nele tinha uma flor, somente com o contorno desenhado e colorido. Deveria ser uma rosa porque a parte superior era arredondada e vermelha, no caule havia uma única folhinha. Lagrimas diferentes agora brotavam do rosto dela, não pareciam ser mais de tristeza. A garotinha, afobada a chamava para chegar mais perto do seu rosto. – Espera, não terminou. Lyra esticou o desenho para a neta e o indicador da mesma tocou a ponta do caule da rosa desenhada, rapidamente a flor começou a ganhar volume e uma rosa, transparente e somente com um contorno grosso estava na mão dela que olhava maravilhada para criação da neta. – Viu vovó, trouxe para você, mamãe me contou que você gostava de flores. Assim como a águia naquela apresentação Lyra desabou, de joelhos abraçou forte a neta, soluçava por não conseguir conter mais o choro. Yvi mesmo sem entender deixou que a avó a abraçasse e somente depois de algum tempo perguntou se ela não tinha gostado. Lyra a beijou diversas vezes e com um largo sorriso falou que aquele era o presente mais lindo que ela já tinha recebido. Perguntou se ela não queria lhe ajudar com um projeto especial. A menininha logo deu um sonoro grito que sim enquanto socava o ar. Limpando o que restava das lagrimas e segurando a mão da neta a Dama de Ferro começou a se dirigir ao centro do ateliê. As duas ficaram à frente do grande painel no centro do ateliê. Pediu para a neta esticar bem forte a ponta do dedo, mas ainda não tocar a tela, precisavam fazer juntas e ela mesmo também assumiu a posição. No “já” as duas tocaram a tinta envelhecida e negra, a pintura começou a se mover. Uma parte pintando um seguimento novo do infinito, a outra retirando o antigo e numa dança compassada a obra ganhou vida. Ela e a neta se sentaram no chão bem à frente da tela e passaram horas admirando sua mais nova criação se destruir e se renovar.

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