Infinito

1 Capítulo único


Sombras nem sempre são o mal, assim como a luz nem sempre é o bem.

Algumas coisas são resultados, consequências, nada com o que possamos lidar na verdade. Fatos são o que movem o mundo afinal, e neste momento ele está morto. Escolha de terceiros, é claro, mas ainda assim sua realidade é essa: está morto, nada mudará isso. Sua alma olhava sem entender nada do mundo ao seu redor. Por quê sentia-se tão… infinito? Onde estavam os limites? Seus braços, suas pernas, “seu cérebro pensante”, nada estava definido. Ele tinha mil olhos e tudo observava em um ângulo aberto, nada parecido com o limitado campo de visão que experimentara em vida. Ele então soltou um suspiro – ou o correspondente sem pulmões disso— e tentou se lembrar dos últimos momentos antes de se tornar a imensidão.

Era apenas mais um fato naquele mar de descobertas pós-morte: seu corpo estava ensanguentado em algum lugar no beco por onde passava para voltar do colégio, sua alma não estava perto do local mas sim acima do colégio observando-a. A moça de olhos castanhos não era a mais bonita do mundo, nem a mais inteligente, era apenas a pessoa que conquistara seu coração que até alguns minutos batia. Ela sorria para o grupo de amigas de forma inocente e ele sentiu sua alma sorrir também. Parecia tão pura… Ele cuidaria de sua namorada mesmo que fosse do além. E além dela, no meio do grupo, estava a outra. A que de fato era a mais bonita e mais inteligente de seu mundo, ela que era também a mais perversa que ele conhecia. A rejeitara algumas vezes antes e sabia que ela não entendera que alguém pudesse amar outra pessoa a ponto de rejeitar o prazer físico, mas também sabia que no fundo a moça sentiu inveja de Kate, sua namorada.

Abella era o sonho de todos os garotos do curso de Biologia da faculdade. Ela não apenas era um gênio, mas também era linda como nenhuma outra menina com seu cabelo ruivo encaracolado e seus olhos verdes penetrantes. Estava acostumada a conseguir o que queria e não levou muito na esportiva o não que recebeu, principalmente por que o motivo era uma menina franzina de pouco mais de um metro e meio, cabelos castanhos lisos e olhos cor de terra. Kate era completamente sem graça, ela diria, comparado com o tamanho de seus seios e a largura de seus quadris, e mesmo assim fora suficiente para Mathew lhe dizer não.

Mathew percebeu que o sorriso de Abella estava diferente naquele dia. Um pouco sádico, como se soubesse um segredo enorme que ninguém mais imaginava existir e se divertisse com a ignorância dos outros. Não era comum que a beldade andasse com Kate e isso alertou o espírito de Mathew como se ele de repente juntasse dois mais dois. Aqueles homens no beco não lhe roubaram nada, só começaram a bater e não pararam até que o corpo do menino ficasse vazio, como uma casca. Ele percebeu que eram pessoas enviadas exatamente para lhe matar, e vendo o sorriso de Abella já imaginava por quem.

Ele viu o grupo se dispersar e Abella tomar o caminho de sempre, voltando com um sorriso enorme para a terceira aula do dia enquanto Kate saía do campus. Ela não costumava perder aulas mas parecia apressada, talvez tivesse esquecido algo pelo modo como mexia insistentemente na mochila enquanto andava. E Abella olhava para trás as vezes a procura da moça. Mathew desceu sua consciência para perto de Kate e começou a gritar para que ela voltasse ao campus e não tomasse a rua deserta que levava ao apartamento minúsculo que ela chamava de lar. Sem voz, pois sua garganta jazia cortada em algum lugar, ele não era notado pela moça que continuava a caminhar, e foi com desespero que ele reconheceu o grupo que o abordara no beco. Eles vinham diretamente para Kate com a ferocidade de quem desejava sangue e ela não levantava os olhos da mochila. O espírito continuou tentando alertá-la, implorando que olhasse ao redor e fugisse enquanto tinha tempo, mas ela não o ouvia e em poucos minutos era tarde demais. O homem grande de moicano que parecia ser o líder levantou sua mão calejada e agarrou o ombro de Kate, que se assustou e deixou a mochila cair. De lá de dentro caiu um pacote pardo que um dos outros homens do bando apanhou.

— Já foi feito.— Sussurrou o homem de moicano enquanto passava a mochila de volta para Kate discretamente. O outro, que pegara o pacote, o abriu e acenou para os outros.

— Tudo certo então. Sumam. — Kate sussurrou de volta apanhando a mochila e seguindo seu caminho.

E então, com sua visão quase completa da cena dada pela falta de olhos limitadores, ele viu uma grande quantia de dinheiro dentro do pacote que o homem pegara de Kate. Foi aí que tudo ficou claro.. Sua namorada, a baixinha com quem dividira não apenas o apartamento mas os últimos dois anos de sua vida, acabara de pagar aos homens que lhe mataram uma quantia absurda que só podia ter sido acordada para uma coisa: sua morte.

Ele então compreendeu que vivera e morrera por Kate, seu amor, a razão de ter resolvido ser alguém. E ela nem sequer sentiria sua falta.

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