Infinite
4 Os mortos têm endereço?
Notas iniciais
Juliet,
Feliz mortiversário de duas semanas. Peguei pesado demais? Talvez, mas não importa, estou de mau humor hoje. Sendo sincera, estou constantemente de mau humor, mas ninguém percebe. Isso porque finjo ser você, e pelo que me recordo, você sempre estava sorrindo, não importava o que acontecesse.
Esse é o segundo final de semana que estou na casa do papai. O primeiro, foi logo após a missa do sétimo dia. De qualquer forma, ainda continua sendo um saco completamente tedioso. Ás vezes, não é tão tedioso assim, tipo quando Natalie começa a cantar certos hinos da igreja toda desafinada – Rará! Ela tinha que ser ruim em pelo menos alguma coisa, né?! – ou quando o Colin faz maratona de corrida e de um jeito bem infantil toca as campainhas e saí correndo. Juro que já vi ele se escondendo detrás dos arbustos da Sra. Rosie possivelmente com medo da carranca do Sr. McLean.
Acho esses tipos de brincadeiras um pouco ultrapassadas para a idade dele, pois segundo Natalie ele tem vinte anos, se bem que não é algo tão ‘uau’ assim. Não que eu tenha perguntado, foi ela quem o viu e começou a tagarelar sobre ele. O engraçado é que ela falou muitas coisas, mas não absorvi metade delas. Não sei nada sobre ele além do nome e idade, para falar a verdade. E você, sabe de alguma coisa? Como o conheceu? Ele é legal, ou é só aparência? Só falei com ele uma única vez, semana passada, e foi um desastre completo.
De qualquer forma, as aulas irão voltar amanhã. E isso é um saco. Tudo é um completo saco. Mayne e Anne chegaram na sexta, e isso é um completo saco. Elas são um completo saco. Percebi que uma das razões para esse meu mau humor está relacionado á elas. Claro que é legal da parte delas me tratarem como se nada demais tivesse acontecido, enquanto todos estão na minha cola observando cada ato meu, porém elas realmente acreditam que está tudo bem. Mas não está, Juliet, nada está bem.
Mamãe não tem saído do trabalho, são plantões e mais plantões sem parar. Quase não a vejo mais em casa, e isso pode até ser difícil de confessar, mas papai tem se tornado uma companhia mais presente que ela. Esse é o problema da coisa toda, não quero que papai se aproxime, não quero que tudo volte a ficar tão bem entre nós, pois seria como fingir que nada aconteceu.
Mas muita coisa aconteceu.Essa coisa toda que ainda me perturba.
Amanhã, vou usar aquela sua blusa do Pink Floyd colorida, e talvez os seus coturnos também. Não são roupas do seu closet, são roupas que ainda estavam no cesto de roupa suja. Nem mamãe e muito menos eu entramos no seu quarto ainda, é bem provável que tenha alguma coisa morta lá dentro em processo de decomposição, afinal, já fazem duas semanas.
É legal usar suas roupas. É legal usar suas coisas. É legal sorrir, andar, falar e agir como você. Mamãe nunca percebe, e papai muito menos; isso é mais legal ainda. Não estou querendo substituir você, Juliet, longe disso. É só que assim a sua falta se torna mais suportável.
Tá, estou indo. Não estou acostumada a escrever tanto assim. Seria mais bacana se eu simplesmente escrevesse uma mensagem de texto, né? Mas você tinha que dificultar as coisas.
Se Mayne e Anne continuarem um saco na segunda, vou cortar a cabeça das duas e te mandar pelo correio. Qual é o seu novo endereço, gatinha?
V.
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