Infinite
18 A primeira vez.
Notas iniciais
Juliet,
Você se lembra qual era o nosso filme de desenho favorito? Não era nenhum ligado a princesas e príncipes encantados, não, era de monstros. Mais especificamente, monstros que trabalham em uma empresa para assustar criancinhas. Isso, Juliet, isso mesmo. Monstros S.A
Nossa, você lembra o quão obcecada eu era com a Boo? E como, por mais chato e impertinente que fosse, o Mike era meu personagem favorito? Nossa, lembro disso como se estivesse acontecido ontem, não anos atrás.
Lembro que na primeira vez que assistimos, corremos para debaixo da cama enquanto papai fingia ser um monstro que vinha para nos assustar. E nós gritávamos e sorriamos todas as vezes. Então, com o tempo, papai foi esquecendo-se de fazer essa brincadeira e você já não fazia mais tamanha questão disso. Mas eu fazia, Juliet. Eu sempre fiz questão á tudo. E eu continuei correndo para debaixo da cama, esperando o papai vir me assustar e depois sorrir e me puxar da cama, para um abraço caloroso e apertado. Então eu cresci. A nossa beliche amarela com estrelas azuis foi trocada por uma cama única, cada uma de nós em nossos respectivos quartos. E não havia mais necessidade de brincar, de correr para debaixo da cama na expectativa de esperar o “Gatinho”.
Então, papai e mamãe se separaram. E eles brigavam tanto, Juliet. E você chorava tanto. E nós estávamos escondidas no sótão, ouvindo toda a gritaria e barulho que parecia estar em todos os cantos da casa. E tinha um quadro-negro esquecido na parede, cheio de números, de quando ainda estávamos na creche e aprendemos os primeiros números. Então eu comecei a citá-los, e depois contá-los, e eu não conseguia parar. E você chorava ainda mais. E nossos pais gritavam ainda mais. E eu contava ainda mais. Então o barulho cessou, papai saiu de casa, você correu para o nosso antigo cantinho da escrita no escritório, mamãe ficou na sala, ainda com a boca aberta, gritando blasfêmias e eu fui para o quarto.
Sentei-me na cama e respirei fundo. Então, lentamente, fui escorregando até o chão, até enfim deitar-se, até não ter mais nada para contar. Já havia contado e recontado as estrelas no meu teto, então olhei para debaixo da cama, para as molas, e comecei a contá-las. E eu não parava de contá-las, e tudo parecia tão infinito, e eu recontava-as, e não parava. E isso foi se repetindo cada vez mais, Juliet, pois não havia outra coisa ao qual eu pudesse me concentrar.
Então tudo passou, lentamente, mais passou. Eu já não fazia mais isso, já não me escondia debaixo da cama.
Mas tudo que é bom dura pouco, não é?
Era um dia quente de verão. Eu estava tão animada por ter conseguido concluir mais uma história no xx.Fanfiction sem nenhuma pausa e cheia de comentários inspiradores. Você estava em casa naquele dia, havíamos combinado de fazer maratona de friends com pipoca e chocolate. E, naquela tarde, a mãe de Aaron ganhou um vale em sacolão próximo a nossa casa e havia gastado boa parte deles com limões, então ela nos chamou para fazer uma limonada. Mas você disse que não queria ir, que estava cansada demais, até Aaron insistir e dizer que depois iríamos para a casinha da árvore. Então você e Aaron foram limpá-la, enquanto eu e a mãe dele fazíamos a limonada. Eu sorria tanto! A mãe de Aaron, tia Susie, não parava de falar dele, em como estava orgulhosa do filho, em como esperava que ele conseguisse passar na faculdade e desistisse da idéia de ser um fuzileiro naval. E eu assentia, concordava, e esperava que ela fosse falar algo de mim, alguma coisa ligada a Aaron e eu. Mas não, Juliet, ela falava de vocês dois, em como estavam próximos e não parava de repetir “Será que vai dar namoro?” e eu tentava ignorar a pontada que sentia a cada vez que ela dizia isso.
Pois bem, Juliet, a limonada estava pronta antes mesmo que eu me desse conta. Tia Susie gritou por vocês pela janela, mas não obteve nenhuma resposta. Me dispus a ir chamá-los, e quando subi as escadas, lá estava vocês dois, suas mãos sobre as pernas dele, as mãos dele ao redor das suas costas, as bocas coladas uma na outra. Seria até engraçado, porque vocês estavam de joelhos, e nos filmes a mocinha sempre está com as mãos ao redor do pescoço do rapaz e o rapaz sempre está com as mãos ao redor do rosto da mocinha, mas não foi engraçado, foi cômico. E eu engoli tanto ar ao ver essa cena que comecei a tossir desesperadamente. E vocês se separaram, ambos com os olhos arregalados. Aaron começou a pedir desculpas enquanto você meio que corria, rolava ou simplesmente tombava em minha direção. Mas eu apenas dei de ombros, você lembra? Lembra que eu forcei um sorriso de rasgar o rosto e dei de ombros, dizendo “Eu sabia!”.
Tomamos a limonada como se nada estivesse acontecido e no fim da tarde, nenhum dos dois tinha mais um olhar culpado, pois aparentemente, tudo estava bem. Mas, Juliet, nada estava bem. Naquela noite, fui para debaixo da cama. Naquela noite, contei tanto que perdi a voz. Naquela noite, fiquei obcecada pelo infinito e o quão ilusório ele é. Naquela noite,meu coração simplesmente se partiu em milhões de pedaços. Naquela noite, surgiu uma dúvida que permanece até hoje:
“Por que eu não sou como Juliet?”
Eis que agora tenho a resposta:
“Porque eu nem sequer sei como eu sou.”
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