Infinita Highway
1 Capítulo 1
– Eu quero... outra — gagueja Gregório, já bêbado demais para se lembrar como falar corretamente.
– Rapaz, beber que nem um condenado não vai fazer sua mulher voltar.
Ele apenas bufou, fazendo o barman revirar os olhos e preparar para ele outra caneca de chopp.
Lúcia, Lúcia, Lúcia. Esse nome se repetia a cada gole de bebida. Ele tentava tomar mais rápido na esperança de esquecer que ela sequer existiu.
A verdade era mais simples que o seu sofrimento: ele estava tão deprimido por perde-la pelo fato de ela ter sido a única vida que ele realmente conheceu.
Além de sair de Rondônia para São Paulo — o que, diga-se de passagem, foi uma grande mudança — Gregório não havia viajado mais canto nenhum. Nem tinha vontade. Ele era um rapaz que se divertia por ali mesmo, apenas cuidando de seu emprego, de seus estudos e de sua... não mais sua, Lúcia.
Basicamente, Gregório era como qualquer outro ser humano acomodado. Uma pessoa que conhecia um mundo escrito em livros, visto em documentários e jornais. Apenas aquilo. Talvez sua falta de curiosidade houvesse vindo de seus pais. Seu Edilson e dona Layde nunca saíram da pequena capital de Rondônia, nem sequer para o interior. Eram pessoas que sempre apreciaram o pouco que tiveram e nunca pediram por mais. Parando para pensar um pouco, Gregório teve uma das piores infâncias que alguém pode ter, com exceção das vezes que visitava seus tios, sua vida era bem triste.
Terminou seu copo de chopp e pensou por alguns instantes. Talvez fosse o álcool que afetava os pensamentos dele, mas a verdade é que ele não imaginava um futuro agora. Não via nada além de escuridão e dor.
Deixou todo o dinheiro que tinha na carteira em cima do balcão e saiu do bar aos tropeços.
Olhou para o lado e viu sua moto. Uma bela Yamaha azul escura que ele havia comprado há dois anos. Ele a chamava de Phillipa.
Chegou perto da moto e acariciou seu guidom, depois seguiu em direção a BR a pé e deitou-se no chão.
Alguns minutos se passaram com ele olhando para a lua. Ela estava cheia aquele dia e parecia que sua luz iluminava a cada segundo que passava.
De repente ele ouviu várias motos vindo e fechou os olhos. Ele já podia sentir sua alma sair de seu corpo. Então sua visão clareou com os faróis e...
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Naomi estava atrás da porta ouvindo Matias e Ceará conversarem sobre o futuro do rapaz que fora atropelado ontem.
"Ela quer leva-lo conosco, Matias", "Isso é impossível, nós nem conhecemos o cara! Não é tão simples assim...", "Mas pode ser um ótimo jeito de ela se recuperar dos problemas que aconteceram nos últimos tempos", "é, bem, Naomi é... muito bisbilhoteira"... ela demorou um pouco a entender, então a porta se abriu, fazendo-a cair no chão. Quando a menina levantou o olhar, Matias a estava observando com os braços cruzados.
– eu só estava...
– ouvindo atrás da porta? — perguntou ele, arqueando a sobrancelha
A garota levantou-se e colocou as mãos na cintura
– em minha defesa, vocês já estavam falando bem alto, eu apenas me aproximei para... ter certeza do que estavam falando — falou e limpou a garganta.
Matias revirou os olhos.
– Alguém deveria te ensinar a mentir melhor.
Naomi deu uma risada sem graça e respirou fundo.
– Ele estava tentando se matar, não acho que seja um cara perigoso, pai.
– é — falou Olivia, se aproximando dos outros — e ele é gato também.
Os três olharam para ela com repreensão e a menina se encolheu.
– foi só um comentário.
Assim que ela falou, Gregório se mexeu na cama, sentando-se e passando a mão no cabelo bagunçado.
Sua visão estava embaçada e sua cabeça parecia estar sendo esmagada por quilos e mais quilos de concreto.
Verificou seus braços e pernas. Estava vivo e inteiro e não conseguia saber se isso era bom ou ruim.
– Você está no hospital local. — Falou uma voz suave. Ele não conseguia ver quem era, mas podia visualizar cabelos longos e negros.
– Você é enfermeira?
– Não, não. Eu sou a garota que quase te atropelou porque você estava tentando se matar que nem um idiota.
– Se você sabe que eu estava tentando me matar porque caralho você me trouxe pro hospital?
A garota respirou fundo. Naomi podia dar um soco nele se ele não estivesse internado.
– Primeiro porque eu acho que você estava fazendo merda e segundo porque eu não queria ser presa por homicídio, então...
Gregório pensou por alguns segundos e percebeu que seu plano havia sido bem idiota.
– Certo... Não importa. Eu já vou indo — falou ele e começou a se levantar.
– Não senhor. Você vai ficar aí e relaxar. Meu pai quer falar com você.
O rapaz apenas sentou-se novamente, encarando a moça com o olhar confuso.
– Seu pai?
Ele pensou em um cafetão grande, gordo, com aqueles chapéus verdes e um paletó de oncinha. Só quando o homem entrou no quarto que ele percebeu que ela estava falando do pai dela de verdade.
O homem que entrou tinha feições de um quarentão, cavanhaque bem aparado, um olhar feroz, um pouco malhado, mas só o suficiente para não ser magrelo ou gordo.
Ele se sentou na frente de Gregório. Na porta tinha um homem gordo, alto, careca e com uma cara de quem já fez muita coisa errada na vida.
– Certo. Eu pesquisei um pouco sobre você enquanto Naomi estava aqui dentro. Era noivo até um mês atrás, nascido em 14 de abril de 1988, veio de Porto Velho, Rondônia. Seu pai é dono de um restaurante e sua mãe de uma pequena loja de presentes. Veio para cá fazer faculdade de letras, porém parou há um mês atrás, provavelmente porque sua mulher de deixou.
– Ok... — foi a única coisa que ele conseguiu falar. Alguns minutos depois conseguiria se tocar de que um cara que ele nem sabia o nome tinha sua ficha inteira na mão, porém, enquanto isso, não conseguia parar de pensar que deveria estar morto agora.
– Naomi quer te levar para viajar conosco. Te dou três dias para decidir. Aqui está uma lista de coisas que você pode precisar, aqui está um manual sobre como as coisas acontecem e aqui está um dinheiro para você tirar seu aluguel do atraso e comprar um capacete.
O homem saiu pela porta com o amigo. Antes de todos irem embora, Naomi sentou ao lado dele sem falar nada, depois beijou seu rosto e foi embora com o resto.
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