Infinita Highway
2 Capítulo 2
Nas folhas do "contrato" dizia que ele deveria arrumar suas malas com duas camisas de frio pesadas, quatro camisas leves, três calças jeans, bermuda, cuecas, além de seus pertences de higiene e todo o dinheiro que ele pudesse tirar do banco. Dizia também, basicamente, que sua vida iria mudar para sempre.
Ele não gostava de mudanças. Aquelas pessoas eram loucas! Ele não iria para canto nenhum e não faria merda nenhuma.
Sentou-se na frente do computador e plugou seu pen drive. O nome "Lúcia" apareceu na tela. Eram as fotos que ele havia tirado dela durante todo o namoro. Fotos das coisas mais importantes... que não importavam a ela agora.
Lúcia sempre reclamava que ele não saia de casa nunca. Faculdade, trabalho, casa. Isso era sua vida. Eles só se conheceram porque um dia ele pegou um ônibus e, por alguma brincadeira do destino, o carro dela havia quebrado e ele pode então conhece-la.
Começou a passar as fotos só para sentir seu coração arder. A cada clique na seta da direita, um suspiro se projetava para fora de seu corpo, cortando o silêncio que morava com ele.
A campainha tocou, tirando-o a concentração. Gregório se recompôs, levantou e foi atender a porta. Era a louca que o havia atropelado.
– O que você quer? — perguntou, abrindo a porta.
A menina já entrou sem nem mesmo pedir e sentou-se no sofá.
– Quero saber se já arrumou suas coisas.
– Não.
– Porque?
– Porque eu não vou.
Ela apenas revirou os olhos e jogou o cabelo para trás. Por um minuto Gregório apreciou a ideia de viajar ao lado daquela garota. Ela era como o sol, fornecendo luz aos lugares mais obscuros.
Naomi levantou-se e começou a xeretar as coisas. Mexeu nos livros da prateleira, abriu o guarda roupa e o encarou por alguns segundos, enfim fechando-o. Pegou a câmera que se encontrava em cima da cama e ligou-a, mexendo nos botões até encontrar as fotos tiradas.
– Você é fotógrafo?
Ele deu de ombros.
– Não, só gosto de tirar fotos.
Ela sorriu de canto e disse:
– você sabe fazer essas coisas. Já deve ter tirado foto de tudo por aqui.
– Não há muito o que ver aqui depois de um tempo.
Ela o olhou intensamente por alguns segundos e depois tirou uma foto dele, fazendo-o fechar os olhos por causa do flash.
– Certo. Essa era a única coisa que faltava tirar foto aqui. Agora, você bem que poderia considerar viajar conosco e tirar fotos de outros lugares, não acha?
Ele cruzou os braços.
– Eu vou ter muito tempo para isso.
Ela riu um pouco e piscou para ele.
– Não há tempo nenhum. E se amanhã você morrer?
– Eu não vou morrer amanhã.
– Bem, você poderia ter morrido ontem, se não fosse por mim. Naquele instante que decidiu que queria se matar, pensou em quantas fotos deixaria de tirar?
Ele não respondeu. Nem pensou na resposta, na verdade. Só virou a cara, decidiu que não queria ouvir mais sermões.
– Se já terminou de tentar me convencer, gostaria que saísse. Estou ocupado.
A menina fechou a cara e falou algo que ele não conseguiu entender direito. Ela tinha um sotaque estranho, parecia australiano ou algo do tipo. Falar em Português não parecia ser o forte da moça, mas ela não era ruim naquilo.
– Deixa eu te pagar uma cerveja, pelo menos. — insistiu Naomi.
– Não quero.
– Então eu vou comprar e vou voltar para cá, beber tudo e depois vou começar a jogar pedras na sua janela até quebrar e te fazer ser expulso do prédio.
Ele a encarou por alguns segundos. Não acreditava que ela fosse capaz, mas viu ali uma chance de tira-la de seu pé e beber de graça, então se levantou, pegou seu casaco e abriu a porta para ela.
–
– Não queria beber e já está na quinta garrafa, imagina se quisesse... — Naomi falou, fazendo Gregório abrir um sorriso.
A verdade é que, depois de alguns anos, Gregório demorava demais para sentir o efeito do álcool, por isso bebia demais.
Depois da sua segunda garrafa, uma loira chamada Olivia se juntou a Naomi para beber com eles.
– Então, vocês são irmãs? — perguntou ele, brincando com seu copo.
– Sim, sim. Naomi é adotada, mas as vezes parece amar mais meus pais que eu mesma — brincou a loira, tomando uma golada de um drink que ela havia pedido.
– De onde você é?
– Eu? — indagou Naomi — sou grega. Sou de uma pequena ilha da Grécia chamada Creta. Já deve ter ouvido falar, lá costuma encher de turistas.
– Sim, mas nunca tive interesse em visitar.
Ela riu.
– Não me surpreende. Você nunca quis ir a lugar nenhum, pelo visto.
Ele limpou a garganta e terminou o seu copo. A grega havia jogado indiretas para ele sobre a viagem a tarde inteira e isso estava começando a deixa-lo irritado.
– É que eu nunca precisei ir a lugar nenhum. Estou muito bem aqui, me sinto confortável.
Naomi não respondeu, apenas pediu ao barman outra garrafa.
– Então tá. Eu tenho uma lista de sete motivos para você viajar conosco.
Ele sorriu para ela e se ajeitou para que a olhasse nos olhos.
– Então me diga quais são.
– Certo. Número um: você vai poder tirar fotografias do que quiser, podendo até, quem sabe, ganhar um prêmio de melhor fotografia! Número dois: viajar é um jeito bom de esquecer as coisas que te deixaram e ir para as coisas que te esperam.
Ela esperou para ver a reação dele, porém ele continuava a encara-la como antes,
– Número três: você vai poder usar aquele monte de roupa de frio legal que tem no seu armário que você não pode usar aqui. Número quatro: quando você voltar, daremos um jeito de que você tenha um emprego melhor. Número cinco: você vai viajar ao lado de uma grega gostosa e uma francesa linda. Número seis: depois disso, você não vai ter mais insegurança e sua vida vai melhorar bastante e, número sete: se você vier, deixo você escrever sobre tudo isso.
Ele levantou a sobrancelha e riu um pouco.
– Como sabe que eu escrevo?
– primeiro porque papai pesquisou a sua vida inteira e você faz letras e depois porque, quando mexia no seu quarto, vi que tinha um livro lá sem nome, provavelmente algum manuscrito seu.
– Ou é só um livro que não tem o nome do lado.
– Mas eu conheço aquele caderno. Tenho um igual. — ela sorriu e piscou para ele.
Ele entornou a cerveja e sorriu para ela.
– Ainda não me convenceu.
– Ah, sai dessa! — ela falou, emburrada.
Após mais algumas cervejas e papo furado, ele decidiu pagar metade da conta e ir para casa. Ao chegar no apartamento, o encontrou com a porta entreaberta.
Terminou de abri-la com cuidado, pronto para atacar qualquer ladrão que se encontrasse ali, porém não foi exatamente um ladrão que ele encontrou.
– Oi, Greg. — falou ela, com a voz que as vezes o lembrava de uma tempestade — você não mudou as fechaduras...
Ele limpou a garganta. Talvez tivesse bebido mais do que pensava.
– Não. Estava esperando que você aparecesse.
Ele fechou a porta e foi sentar ao lado dela, tomando cuidado para que ela não se assustasse.
– Você está com cheiro de cerveja. — ela comentou.
– Eu estava bebendo.
– hm... soube que estava no hospital ontem. Você está melhor?
Gregório forçou um sorriso para ela e limpou a garganta.
– então... O que veio fazer aqui?
Ela respirou fundo e mexeu nas chaves que estavam em sua mão.
– Eu vim... pegar minhas coisas, mas eu posso vir amanhã.
– Não... está tudo bem. Suas coisas... Eu ainda não as empacotei.
– Certo. Eu venho amanhã a tarde, ok?!
Ele assentiu. Ela o beijou no rosto e ele pode sentir o cheiro do perfume favorito dela. Merda, ele sonharia com esse cheiro.
Mais uma vez ela saiu pela porta, deixando-o sozinho na cama, o silêncio da casa tomando conta de sua mente por completo.
Foi até sua gaveta de bebidas e puxou de lá uma garrafa pequena que continha wisky e água misturados. Tomou-a inteira e então ligou para Naomi.
– Oi! Mudou de ideia sobre a viagem? — ela perguntou, animada.
– Sim. Quando saímos?
– Só um instante.
Ele ouviu ela conversar com alguém por alguns segundos e então colocar o ouvido no aparelho novamente.
– Se já está decidido, poderemos partir amanhã antes do almoço.
– Ótimo. Eu só preciso de ajuda com as malas. Pode vir aqui?
– Claro. Estou chegando.
Ele não precisava de ajuda com as malas, afinal, tudo o que deveria colocar na bolsa estava no "contrato", mas a ideia de ficar sozinho nessa noite o assustava.
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