Infindável
12 Capítulo 11
— Não acho que seja uma boa ideia fazer isso, Elena. – Bonnie comunicou pela terceira vez.
Revirei os olhos diante sua “alerta” e preferi ignorar. Eu estava decida a fazer isso e nada mudaria minha mente. Não importava quantas vezes Bonnie tentasse me fazer mudar de ideia. Eu sabia ser teimosa quando queria.
E eu iria para casa de Damon Salvatore atrás de respostas.
Tinha me mantido afastada porque estava confusa com tudo que estava acontecendo, com sua volta e sua mudança. Mas depois do beijo que ele me deu no colégio já não conseguia me manter nas sombras.
Eu já tinha chorado demais. Mantendo-me a espera que ele fosse superar seja lá o que estivesse passando e voltasse a ser o Damon de três anos atrás. Achando que eu era a única vítima, a única sofrendo. Quando na verdade não era e nunca tinha sido. Estava na hora de agir. Ficar parada lamentando não iria mudar nada.
Apenas depois do beijo que me deu, finalmente percebi que o Damon ainda estava ali. Ele só tinha passado por muitas coisas. Coisas que eu não fazia ideia do que fosse, mas tinha certeza de que eram horríveis, dado o modo como voltou.
Tinha ouvido meu pai comentando com minha mãe que a partir de segunda-feira as sessões do Damon com tio Alaric começariam. Então era o momento perfeito para procurar pistas em seu quarto. Sabia que ele não deixaria algo exposto em seu quarto, ainda mais quando ele tanto queria manter segredo, mas eu tinha que verificar. Qualquer coisa serviria no momento.
— Eu também não acho uma boa ideia Elena. – Dessa vez foi Caroline.
Torci meu nariz em direção das duas, deixando claro que não mudaria de ideia.
Elas se entreolharam até parecer chegar a uma decisão mútua, da qual eu não fazia parte. Obviamente com razão. Mas fiquei irritada por ser deixada de fora.
— O que? – chiei quando me olharam de modo estranho.
— OK, Elena. Vamos parar de dizer o quão errada é essa sua ideia e que ainda vai dar merda. Mas queremos um plano completo e sem falhas. – Caroline me olhou triunfante. A garota sabia que eu não tinha um plano e tava usando isso contra mim.
Eu não tinha nada o que dizer e fiquei calada e elas tomaram isso como uma afirmação.
— Não vou perguntar como vai entrar na casa porque sei que tem acesso livre naquela mansão. Então quero saber o que vai fazer quando estiver no quarto do Damon.
— Vou procurar alguma coisa. – respondi com firmeza.
— Que “coisa”? Precisa nos dizer mais do que isso, Elena.
— Não sei. – minha voz saiu em um sussurro baixo porque eu realmente não sabia o que ia procurar quando chegasse lá.
— OK. Deixa eu ver se entendi. Então você vai invadir um quarto de um garoto que agora é um estranho para nós, para procurar alguma coisa, mas não o que? – Caroline continuou me atacando e comecei a ficar insegura. Minhas mãos tremendo. – O que vai fazer se ele tiver em casa? Ou pior ainda, o que vai fazer se ele chegar e pega-lá em seu quarto? Já pensou nisso? Ele pode ficar furioso e fazer você se encrencar muito. Ou pode fazer muito pior. Ele brigou com o Enzo, Elena. Pelo amor de Deus, não sabemos o que ele pode fazer agora.
Ele não me machucaria! Eu queria gritar isso para ela, mas senti minha garganta seca. Querendo ou não admitir, Caroline conseguiu me atingir e toda minha confiança foi pro ralo.
Bonnie segurou minhas mãos que estavam em punho pra deter a tremedeira e me fez relaxar e afrouxar o aperto. Olhei para ela e encontrei o sorriso terno nos lábios.
— Tudo bem Caroline, acho que ela já entendeu seu ponto. – ela disse quando Caroline abria a boca novamente. – O que a Car. quer dizer é que estamos preocupadas, Elena. Ele não é mais o Damon que conhecíamos e provavelmente você está cansada de ouvir isso, mas é a verdade. Tem muitas falhas nessa loucura que você quer fazer e pode dar muito errado. Apenas vamos com calma, tudo bem? Logo a férias estão chegando e nós ajudamos você com o que quiser fazer em relação ao Damon, mas esqueça do plano de invadir.
— Vocês... Vocês fariam isso? – perguntei com a voz embargada.
— Você esquece que nós também éramos amigas do Damon, Elena. Também ficamos surpresas quão o quanto ele mudou, mas também ficamos felizes que ele está vivo. Então é claro que ajudaríamos você. Nós queremos também aquele Damon de volta.
Olhei para Caroline para ver se ela pensava o mesmo e a peguei revirando os olhos para mim.
— Claro que penso e me sinto do mesmo modo. Não gosto do Damon de agora e suas atitudes me desagradam bastante, mas não sabemos de nada. Não queremos julga-lo, mas não sabemos mais o que ele pode fazer. Vamos ajuda-la no que puder.
Soltei um gritinho e pulei em ambas, abraçando-as bem forte e agradecendo sem parar.
Elas eram minhas melhores amigas.
E tanto quanto tinha que me lembrar disso, também devia que não era a única que me importava com o Damon. Ou sobre como ele tinha mudado.
O Damon de treze anos era apaixonado por mim e eu era e sempre seria apaixonada por ele. Mas esse mesmo Damon de treze anos era cheio de amigos leais e que sentiam sua falta. Seus amigos estavam ali apenas esperando uma chance de se aproximar, principalmente seu irmão. Eu só devia fazê-lo perceber isso antes que fosse tarde demais.
~✿~
O fungar no quarto não cessava por nada.
Embalagens de chocolate, salgadinhos e balas enchiam o cômodo. Assim como alguns lencinhos.
Eu, Bonnie e até mesmo Caroline tentamos de tudo para não chorar quando Landon descobriu que Jamie estava morrendo e foi atrás de seu pai. Mas a essa cena do filme ao som de Dare You To Move de Switchfoot destruiu qualquer barreira que mantinha o choro cessado.
Cada cena a partir daí me causava mais lágrimas e no final do filme já tínhamos acabado com todos os lencinhos que tinha no quarto da Caroline, assim como toda reserva de lágrimas.
Não importava quantas vezes eu assistia a esse filme, eu sempre chorava.
Não conseguia evitar. Um Amor Pra Recordar me abalava completamente.
— OK, agora vamos ver Marley & Eu. – Caroline anunciou entre um fungar e outro.
Isso era realmente estranho vindo de Caroline. Ela odiava filmes tristes. Tipo, ódio mesmo. Olhei para Bonnie e vi que ela pensava o mesmo.
— Caroline, chega de filmes tristes hoje, por favor. – pedi enquanto ela já colocava o DVD no aparelho.
— Como assim? Vocês adoram filmes tristes.
— Exatamente, nós adoramos, não você.
Ela fez uma careta e sentou-se, mas não disse nada. Ao invés, deu play no filme como se não estivéssemos olhando interrogativamente para ela.
Quando chegou na parte em que o Marley estava crescendo, eu não aguentei mais o silêncio e dei pausa no filme. Olhei para Caroline esperando que ela me olhasse de volta e quando ela não fez comecei a ficar irritada.
— O que está acontecendo, Caroline?
— Nada. – ela ainda não me olhava e tive que me segurar para não gritar com ela.
— Como assim nada? Alguma coisa aconteceu pra você estar agindo assim.
— Já disse que não é nada! – ela praticamente gritou pra mim e senti minha raiva aumentar ainda mais.
Já estava abrindo a boca pra gritar com ela, quando peguei pelo canto do olho Bonnie balançando a cabeça negativamente pra mim.
— Tudo bem, Caroline. Se não quer falar não fale, amiga. – enfatizei bastante a palavra “amiga”, só pra não ter duvidas do que eu queria dizer. Quando ela estremeceu e vi que ela entendeu bem.
Eu confiei nela ao contar tudo sobre o Damon, mas ela não podia confiar em nós para dizer o que claramente estava a incomodando. Talvez eu estivesse sendo ridícula, mas não mudava o fato de que tinha me magoado.
— Car. porque não nos conta o que está acontecendo? Talvez ajude. – Bonnie perguntou com sua voz doce e calma invejável.
Ela ficou tanto tempo em silêncio que eu já tinha desistido e já estava me levantando para ir embora. Eu tinha vindo passar o final de semana de meninas e conversar sobre coisas aleatórias e sem preocupação, ao invés disso discutimos sobre Damon e agora estava irritada com uma das minhas melhores amigas.
— O Klaus vai embora. – ela soltou de repente.
Tudo bem, eu tinha dito para ela me contar o que estava acontecendo. Mas a maneira como ela soltou isso deixou tanto eu quanto Bonnie meio no ar. Demoramos alguns minutinhos para redigir a notícia e quando o fizemos foi meio barulhento.
— O QUE?! – eu gritei.
— COMO ASSIM? – Bonnie também gritou, não tão alto como eu, mas gritou.
— Parem de gritar! – Caroline gemeu e esfregou a testa.
— Desculpe Car., você apenas soltou isso e ficamos meio chocadas. Nos diga o que está acontecendo. – Bonnie se desculpou e eu assenti olhando para nossa amiga loira que estava agora mostrando sinais de angústia nos olhos.
— Nós estávamos conversando bastante essas últimas semanas, estávamos mais próximos. E então ele me contou coisas de si que apenas sua família sabe.
— Que coisas Car.? – perguntei em um sussurro.
— O Sr. Mikaelson não é seu verdadeiro pai.
— C-Como assim não é seu pai?
— Ele não entrou em detalhes. Disse que era um assunto que ele não gostava muito de compartilhar com ninguém e eu respeitei isso. Eu não sei se foi por causa de toda nossa conversa ou que, mas de repente estávamos nos beijando e apesar de ter gostado eu entrei em pânico quando ele me pediu para namora-lo. Ele já tinha pedido outras vezes, mas eu nunca tinha o beijado e sem pensar eu disse que não podia. Klaus pareceu bastante desapontado, mas disse que entendia. Depois disso ele não disse mais nada a respeito de namora-lo ou sobre o beijo ou sobre qualquer coisa que ele vivia dizendo para mim. Se afastou de mim. – ela sussurrou e puxou suas pernas até o peito e as abraçou.
— Mas ele estava te abraçando como todos os outros dias. Como pode ter se afastado? – Bonnie perguntou confusa. Eu também não estava entendendo.
— Sim, é verdade que ele estava. Mas não é como antes. Ele sempre parece tenso quando me abraça, não toca mais do que seus braços em mim. E eu tenho a impressão de que ele só faz isso porque era o que ele fazia antes de nos beijarmos. Eu, na verdade, não tinha notado que ele estava distante de mim até que veio me contar que vai embora. Não sei a história toda, mas seu pai biológico entrou em contato e o chamou para ir morar com ele. Klaus vai passar duas semanas das férias aqui e depois vai para Nova Orleans, onde seu pai está, e vai passar o resto das férias lá com ele. Depois vão para Inglaterra.
“Quando perguntei o porquê dele ir embora, ele disse que era melhor assim. Falou que as coisas em casa não estavam agradáveis e viver com seu verdadeiro pai seria melhor. Mas acima de tudo que ele não podia mais ficar nessa situação confusa comigo. Que a última vez que ele pediu pra me namorar o machucou mais do que as outras vezes que eu o rejeitei. E depois disso ele foi embora.”
— Você não pediu para ele ficar Car.? – perguntei em um sussurro.
— E porque eu deveria? Quando perguntei quando ele ia voltar, me disse que não pensava em voltar mais. E depois eu o machuquei, não tinha qualquer direito de pedi-lo para ficar.
Eu queria dizer que ela tinha todo direito de pedir para ele ficar. Ela era apaixonada por ele, mas tinha medo. Ela só tinha que explicar isso para ele, mas eu tinha a impressão de que ele sabia disso. E que apesar de poder esperar por ela, Caroline nunca deu nenhuma certeza de que existiria mais do que amizade entre eles. Eu não podia simplesmente dizer que um deles estava errado, porque não estavam.
Sem nada pra dizer fui em minha amiga e a abracei e logo Bonnie também se juntou. Não podíamos dizer nada para ajudar ou melhorar a situação, mas podíamos ser amigas e ficar com Caroline o tempo que ela precisasse.
Quando fomos deitar eu ainda pensava nos meus dois amigos. Caroline realmente gostava do Klaus, mas tinha medo da inexperiência, mas mais do que isso: tinha medo de sair machucada de um possível relacionamento com Niklaus Mikaelson. E Klaus que também era apaixonado pela Caroline, mas que vinha sendo constantemente rejeitado, até que se cansou e ferido resolveu seguir em frente.
E então eu entendi.
Klaus não estava desistindo de Caroline ou tentando puni-la por rejeita-lo constantemente ou ainda deixando de ama-la. Não. Não era nada disso. Ele estava se escolhendo. Escolhendo amar a si próprio. Amar alguém nem sempre é o suficiente, nem sempre cura e nem sempre trás felicidade. E no caso do Klaus não era suficiente.
Ele ia seguindo em frente porque estava finalmente amando mais a si mesmo do que a amando. E por vezes era a escolha que alguns de nós tinha de fazer.
~✿~
— Elena? – Caroline me chamou de repente e me virei para encara-la – O que exatamente está acontecendo entre você e o Stefan?
Eu gemi internamente sabendo que esse momento ia chegar. Ainda mais quando pedi que Car. me deixasse na casa de Stefan antes de ir para o colégio com a desculpa de que queria acertar as coisas com ele. Mas foi a única desculpa que encontrei para que Caroline e Bonnie me deixassem ir para a casa dos Salvatore.
Eu realmente queria conversar com Stefan e resolver toda a história do beijo para que pudéssemos voltar a nossa amizade, mas essa não era a principal razão. Eu ainda estava com a ideia de entrar no quarto do Damon e procurar alguma pista sobre o que estava acontecendo. Eu confiava nas minhas amigas quando disseram que me ajudariam em relação a ele, mas ainda assim não conseguia me impedir de ir a sua casa, não importando as consequências.
— É complicado. – disse sem querer contar a verdade.
— Desembucha Elena. Ontem você ficou toda irritada quando eu não queria contar sobre o Klaus.
Soltei um grande suspiro sabendo que ela estava certa.
— Eu e o Stefan nos beijamos. – senti meu rosto esquentar vergonhosamente e de repente a visão da janela era maravilhosa.
— VOCÊS O QUE?! – Caroline berrou dentro do carro e olhou para mim com os olhos arregalados.
— Pelo amor de Deus, Caroline. Olhe para frente enquanto está dirigindo!
— Bom, você de repente solta isso. Eu fiquei surpresa.
Eu resmunguei, mas não respondia a isso.
— Então?
— Então o que? – eu realmente não queria conversar sobre isso.
— Porque você se beijaram?
— Não sei realmente. Estávamos conversando sobre o Damon e antes que eu percebesse estávamos nos beijando. – Ok, isso não era totalmente verdade, mas nós estávamos conversando sobre o Damon em um momento.
Caroline abriu a boca e depois fechou, hesitante. Tive um pressentimento de aquilo não algo bom.
— OK, fale Caroline.
— Você o ama?
— Claro que amo! – respondi imediatamente. Eu amava o Stefan.
— Não, Elena. Você o ama? – ela perguntou novamente e então percebi que ela não estava falando de um amor entre amigos.
— Eu amo o Damon e não consigo ver isso mudando. O beijo entre Stefan e eu não deveria ter acontecido. Acho que fomos pegos pelo momento e toda essa história e confusão pela volta do Damon e quero corrigir isso antes de estragar nossa amizade.
Caroline assentiu, mas não disse nada. Fomos o resto do caminho todo até a casa dos Salvatore em um silêncio pesado e desconfortável. Eu preferia a Caroline gritando comigo do que esse silêncio maldito.
Quando finalmente chegamos na mansão dos Salvatore eu soltei um suspiro. Estava aliviada de ter chegado logo. Mas, aparentemente, Caroline tinha coisas para dizer e senti seu olhar em mim, mas não olhei de volta.
— Elena eu entendo que está tudo confuso e vocês podem ter sidos pegos pelo momento, mas você não ama o Stefan. Não como ele merece. Eu não sei tudo sobre ele porque ele odeia conversar sobre sua família e seus sentimentos. Mas eu sei que ele está terrivelmente sozinho e está sofrendo. Eu o amo, Elena. Realmente amo. E aquele menino está ferido de uma forma que é impossível de compreender. Ele perdeu a mãe, o pai e o irmão. Toda sua família. A última coisa que precisa é de outra pessoa o magoando. Entenda isso e corrija essa bagunça estúpida. – senti uma apunhalada com tudo que ela disse e apenas assenti e saí do carro.
As palavras dela foram como um choque me trazendo para a realidade. Tudo o que ela disse era verdade e me senti culpada por só pensar em mim mesma. E parecia que eu vinha fazendo isso constantemente.
Eu com certeza iria resolver isso tudo com o Stefan.
Teríamos nossa amizade intacta novamente.
Com certeza.
Com uma falsa segurança fui até a porta dos Salvatore e bati. Não demorou muito e a porta foi aberta.
— Sim? – Lucy, a governanta, disse antes mesmo de ver em era. – Oh, pequena Elena?
— Sim. – respondi com um sorriso. Acho que Lucy nunca pararia de me chamar assim.
Ela me puxou para um abraço apertado e me seu sorriso aumentou ainda mais. Lucy vinha trabalhando nessa casa acho que desde sempre. Eu e os meninos vivíamos furtando os cookies com gota de chocolate que ela fazia.
— Oh, minha menina. Como você cresceu e se tornou uma bela moça. Você nunca mais apareceu por aqui.
— Os estudos andam corridos, Lucy – não era uma total mentira.
— Estudos, sei menina. Mas então o que você veio fazer aqui tão cedo? Não que eu esteja reclamando, mas você não tem aula?
— Tenho sim, mas ainda não está na hora. — fiz uma pausa. Não podia simplesmente perguntar se Damon estava em casa. Olhei para ela e vi que ainda esperava o resto da minha resposta. – Hum, quem está em casa Lucy?
Ela me olhou como se eu fosse uma criança que estava prestes a aprontar, mas respondeu, para o meu alívio.
— Só o menino Stefan. Quer que eu o chame?
— Não, não precisa! – respondi rápido demais e ela levantou uma sobrancelha. – Eu vou subir para conversar com ele, tudo bem?
— Claro, menina. O café da manhã está quase pronto, então não demore.
Assim que ela falou eu praticamente corri escada acima. O Damon provavelmente estaria em uma sessão com tio Ric e era uma oportunidade que eu não podia perder. Eu só tinha que passar pelo caminho sem cruzar com Stefan. Essa hora ele deveria estar se arrumando para o colégio.
Quando cheguei na porta do quarto do Damon não pude conter um suspiro de alívio. Entrei apressadamente no cômodo antes que minha sorte acabasse e me peguei apreciando o interior.
Era tudo tão Damon. Cada móvel, cada enfeite, tudo parecia ter um pedaço dele.
Então eu vi as prateleiras com as miniaturas que eu lhe dei, assim como o projetor e senti meu coração bater desesperadamente. Ele tinha pegado cada um dos presentes e os colocado ordenadamente. Aquilo deveria significar alguma coisa, certo? Porque meu peito parecia pronto para explodir de esperança.
Cheguei perto da sua mesa de estudo e vi um único porta-retratos ali. Quando vi a foto, eu queria chorar de felicidade que ele ainda mantinha aquela fotografia. Stefan estava usando uma bermuda verde e uma camisa branca de manga, com meias até joelho e um sorriso tímido. Eu usava um vestido da Minnie e uma tiara preta nos cabelos e tinha as mãos grudadas na do Damon. Que por sinal estava lindo. Ele estava com jeans pretos, botas pretas, camiseta azul escuro e uma jaqueta preta por cima. Não pude deixar de sorrir: ele era um menino rebelde desde pequeno.
Eu me lembrava tanto do momento que tiramos essa foto que peito doía da lembrança. Estávamos indo para um passeio para Disney com nossos pais e eles queriam uma foto de nós limpos e comportados. Na hora em que a tia Mirella nos disse para sorrir o Damon pegou minha mão e apertou na dele e meu sorriso veio instantaneamente. Lembro que só andamos de mãos dadas no parque e eu não queria larga-lo nem para dormir.
Levei minha mão até o quadro com nostalgia. O Damon tinha um sorriso tão lindo. Seu sorriso de lado com pura arrogância que alcançava até os olhos. Deus, como eu sentia falta desse sorriso! Eu faria de tudo para vê-lo. Para ver aquele menino feliz novamente.
Eu estava afastando minha mão do porta-retratos quando algo em sua mesa chamou minha atenção. Tinha algumas folhas cheias de nomes femininos e a maioria tinha o risco por cima. Devia ter cerca de cinquenta nomes ali ou mais. Peguei outras folhas e vi que estavam cheias de números e endereços. Não fazia nenhum sentido, não para mim.
E foi então que eu vi as fotos. Duas para ser exata. A primeira parecia ser um pé ferido de criança. Olhei mais atentamente para os pequenos círculos vermelhos e percebi que não feridas. Eram queimaduras. Queimaduras de cigarro em um pé de criança. Senti meu estômago embrulhar de horror e larguei a foto, não aguentando ver mais.
Quando peguei a segunda foto minhas mãos tremiam. E demorei a perceber o que estava ali. Olhando rapidamente eu não pude dizer que parte do corpo era, se fosse parte de um corpo. E então vi o círculo rosa e se não fosse por isso eu nunca saberia. A foto era um seio com uma mancha familiar e uma pequena linha de sangue.
Prendi minha respiração e larguei a foto junto da outra.
Eu conhecia aquela mancha muito bem.
E para piorar tudo, peguei a pequena nota amarela que estava junto das fotos.
Que dizia muito com poucas palavras:
Lembranças de A & K.
Antes que eu pudesse pensar em tudo que tinha visto ali, uma voz fria e nervosa me assustou.
— Que porra você está fazendo no meu quarto?
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