Infindável
6 Capítulo 05
Não há nada mais deprimente e irritante do que seus pais serem chamados, em uma sexta-feira, para uma pequena reunião com o diretor. Que pirraçava em dizer que eu sempre fui uma boa aluna, mas que agora estava desandando.
Aparentemente na ultima semana eu estava sendo rebelde, como disse o diretor. Disse para meus pais que eu estava faltando algumas aulas, não estava fazendo as tarefas que eram propostas em classe e que não estava prestando atenção em qualquer aula. Deixando claro que todos os professores estavam reclamando das minhas atitudes durante a ultima semana. Chegou a dizer que talvez fosse o caso de um psicólogo para saber o que estava acontecendo comigo.
Meus pais não se pronunciaram ou tentaram me defender nenhuma vez. Ouviram tudo com expressões neutras, mas atentamente. Eu não sabia o que era pior. O máximo que eles fariam, seria me colocar de castigo e cortar minha mesada, mas eu sabia que estava desapontando meus pais mais uma vez.
Eu não podia nem tentar dizer algo, porque sabia que tudo que o diretor disse era verdade. Minha cabeça estava tão cheia de Damon que eu não conseguia me concentrar em nenhuma explicação e nem queria. Faltei diversas aulas para tentar pensar em um meio de me aproximar novamente do Damon. Não me veio nada. E agora estava recebendo as consequências dos meus atos impensáveis.
— Eu sei que o Damon, que estava desaparecido por muito tempo, voltou. E realmente fico feliz por isso. Aquele garoto sempre fui um orgulho do colégio. Também entendo que vocês, Gilbert e Salvatore, sempre foram muito próximos, mas não deixe que isso afete o desenvolvimento da Elena. – a voz do Sr. Evans soou como agulhas em meu ouvindo. Senti minha raiva crescer e uma resposta na ponta da língua. Quando abri a boca pra dizer umas para ele, meus pais se levantaram.
— Entendemos perfeitamente, Sr. Evans. Vamos conversar com ela e resolver tudo. Agora se nós da licença, estamos com pressa. – meu pai soou firme e percebi que não gostou das palavras do Sr. Evans. – Elena.
Saímos da sala do diretor sem dizer nada e mesmo quando entramos no carro, ninguém se pronunciou. Mamãe parecia a mesma de sempre, mas meu pai estava visivelmente nervoso. Talvez fosse por tido chamado lá, mas eu desconfiava que tinha mais haver com o que o Sr. Evans disse sobre o Damon.
Eu não julgava meu pai e duvidava que alguém poderia. Papai e o tio Giuseppe eram amigos desde que se conheciam por gente. Cresceram juntos, estudaram juntos e resolveram entrar no ramo empresarial juntos. Amigos de infância e melhores amigos.
Meu pai mais do que ninguém sabia das dificuldades que o tio Giuseppe passou. Seus pais não eram presentes e nem se importavam com ele. Seu pai era a hierarquia da casa e vivia surrando-o, noite após noite. Tinha dias que ele nem ia ao colégio de tão marcado e dolorido que ficava. Eu não sabia mais detalhes, mas podia apostar que não parava por ai. Afinal eu descobri tudo isso, ouvindo atrás da porta.
Mas tinha algo que eu sabia com toda certeza. Damon foi o primeiro filho de Giuseppe Salvatore. Primeiro filho do melhor amigo do meu pai. Eu podia não saber de coisas do passado do meu pai e do tio Giuseppe, mas eu sabia que no momento em que Damon nasceu ele virou o “queridinho” de ambas as famílias. Todos os momentos dele estavam gravados. Vídeos dele chorando e rindo. Vídeos do meu pai e do tio Giuseppe lhe dando banho. Vídeos do meu pai brincando com ele. Mas tinha dois que eu achava mais lindo do que qualquer outro: o tio Giuseppe embalando um Damon choroso e cantarolando uma musica de ninar até ele finalmente parar do chorar; e o outro se tratava de um Damon dando seus primeiros passos desengonçados e cambaleantes em direção ao seu pai, que por sua vez sorria como um bobo.
Olhei para frente no exato momento em que vi minha mãe tocar o braço do meu pai, em um gesto carinhoso. Sr. Grayson relaxou de uma maneira surpreendente e virou o rosto apenas para lhe sorrir e voltou sua atenção para estrada. Olhando para eles percebi que o que eu mais queria era ter uma relação como a deles quando me casasse. Não era um casal perfeito, coisa que eu duvidava que existisse, mas se encaixavam de uma forma surpreendente. Eles brigavam como todo casal, mas suas brigas eram por coisas fúteis e logo esquecidas. Como pais eram maravilhosos. Estavam sempre presente na minha vida e do Jer. Papai tinha uma única regra em casa: Ele nunca trabalharia em final de semana, a não ser que fosse uma emergência no hospital. Nos finais de semana ele era todo nosso e sempre pensando em algo para fazermos ao ar livre.
Deixei minha mente vagar e todas as bagunças que fazíamos quando estávamos juntos. Meu pai sempre foi um homem sério, mas quando chegava o final de semana ele se transformava completamente. De terno sob medida e sapatos engraxados brilhosamente para bermuda e chinelos de couro. E foi pensando em meu pai, que sempre trabalhou seriamente para termos de tudo, que sempre depois de chegar cansado do hospital ia ao meu quarto e do Jer. para saber como foi nosso dia e se estávamos bem, que eu percebi que estava errada e queria mais do que tudo me desculpar.
Mas quando pensei em fazê-lo, o carro parou e vi que já estávamos em casa. Olhei para meu pai, que apenas saiu do carro e entrou em casa junto da mamãe, e me senti triste por ter desapontando e ter feito meu pai ter tal comportamento frio comigo.
Quando finalmente entrei em casa, minha mãe estava na cozinha e meu pai fora de vista. Fiquei um bom tempo na entrada da cozinha olhando para meus pés, envergonhada. Mas quando olhei para minha mãe, ela arqueou uma sobrancelha e abriu os braços para mim.
Não pensei duas vezes antes de me jogar em seus braços e sussurrar chorosamente:
— Desculpa... Desculpa mamãe... Sinto muito... – eu a abraçava fortemente enquanto ela apenas passava a mão em meus cabelos.
Quando finalmente me acalmei, ela me afastou e me puxou para sentar em uma cadeira. Ela puxou uma cadeira e sentou na minha frente, tomando minhas mãos na sua e eu apenas olhava nossas mãos juntas.
— Elena, querida? O que está acontecendo? – sua voz era calma e não tinha sinais de que estava nervosa por ter sido chamada no colégio. Mas hesitei em contar tudo que se passava em minha cabeça. Porque tudo que se repetia era: Damon, Damon e Damon. Tudo estava relacionado ao Damon! Senti minha mãe apertar minha mão e olhei para ela. – Querida, sabe que pode me contar tudo, certo? Só estou preocupada com você, meu bem. – ela ficou hesitou por um momento antes de continuar e acertar: – Tem algo haver com o Damon?
Sem dar conta de manter somente para mim, despejei tudo em cima da minha mãe:
— O Damon está diferente, mamãe. Quando Stefan me contou que ele estava em casa fiquei tão, mais tão feliz. Tudo que eu pensava era que iria rever o meu Damon novamente. Mas quando finalmente o revi? Foi completamente diferente do que eu repeti e repeti em minha cabeça durante três anos. Ele mal me olhou e quando o fez não vi nenhum sentimento de compaixão, carinho ou saudade neles. – meus olhos arderam e sem dar conta de segurar mais, deixei que as lágrimas molhassem meu rosto – Eu amo o Damon, mamãe...
Minha voz ficou rouca e senti os braços carinhosos da minha mãe em minha volta, enquanto eu chorava desesperadamente por alguém que não ligava a mínima para mim. Chorei pelo garoto que eu amava ter voltado. Chorei pelo garoto que não se importava mais comigo. Chorei por não ter conseguido pensar em qualquer coisa para me aproximar dele. Chorei por ter desapontado meu pai. E chorei porque era tudo que eu podia e conseguia fazer no momento.
Não sei quanto tempo ficamos na cozinha, mas quando minha mãe me afastou meu rosto estava seco e eu podia sentir a trilha das lágrimas. Ela passou as mãos em meu rosto e sorriu amorosamente para mim.
— O Damon parece ter passado por muita coisa, Elena. Talvez ele só esteja com medo. Ele não quis dizer de modo algum onde esteve durante três anos e pode ser que ele esteja traumatizado. Quando ele desapareceu, só tinha treze anos e agora já vai completar dezessete. Ele era um garotinho quando desapareceu e agora já é um homem. Vamos dar tempo ao tempo, tudo bem? Por enquanto, tudo que podemos fazer é mostrar que ele é muito amado por nós. – ela me olhou esperando por uma resposta, mas apenas assenti. – Agora, vá falar com seu pai.
Hesitei, porque ao contrario da minha mãe, ele podia estar realmente nervoso com tudo.
— Será que ele está muito bravo comigo, mãe? – sussurrei.
— Ele não está bravo, querida. Chateado sim, mas não bravo. Ele está muito preocupado com você, Elena. Apenas converse com ele e tudo ficará bem. – dizendo isso, minha mãe beijo minha testa e voltou para os afazeres da cozinha, cantarolando.
Fiquei algum tempo pensando no que minha mãe disse. E como sempre ela estava certa. Talvez eu devesse mesmo dar tempo ao tempo, mas algum sentimento me impedia de agir assim. Dar tempo ao tempo? Eu já vinha dando tempo ao tempo durante três anos, poderia agora esperar mais não sei quanto tempo? Parecia impossível. Sinceramente: minha mente estava uma bagunça!
Quando resolvi subir as escadas para ir falar com meu pai, minha mente ainda estava uma bagunça e decidi tomar um banho primeiro. Passei em frente à porta do escritório e estava fechada, o que significava que meu pai estava trancado lá dentro pesando em alguma coisa. Suspirei pesadamente e passei direto, indo para meu quarto.
Meu quarto não tinha nada de interessante, era apenas um cômodo simples demais para uma garota de quinze anos. Nada de pôsteres ou cores chamativas, nada de objetos espalhafatosos e muito menos de “princesinha”. O cômodo se resumia a nada mais do que três cores: laranja, amarelo e cobre. Onde as cortinas das janelas eram laranja com branco, combinando perfeitamente com o amarelo bebê das paredes. Do lado direito do cômodo ficava uma prateleira embutida, cheias de livros e alguns quadros de fotografia antiga. Ao lado um bidê com abajur e uma cadeira de balanço velha. Um enorme e rústico quadro de cavalo estava pendurado acima da cama. Só tinha duas coisas no meu quarto que eu achava melhor do que qualquer outra coisa: O amado banquinho – que na verdade era mais uma pequena cômoda estofada – de parede de estofamento branco que ficava abaixo de uma das janelas; E o outro era a iluminação natural que sempre adentrava o quarto, devido às três janelas do quarto. E para mim esse sempre foi o melhor cômodo da casa.
Sentei na cama e peguei o ursinho de pelúcia que ganhei do meu pai quando tinha cinco anos. Estava bem velhinho e desgastado, mas era algo que eu não abria mão. Meu pai tinha me dado ele quando eu estava triste por Jeremy estar “roubando” toda a atenção deles para mim. Apesar de ter sido há muito tempo, lembro com exatidão daquele momento.
Eu estava emburrada no meu quarto enquanto conversava com minhas bonecas e dizia todo tipo de besteira, como: “Odeio aquele menino”, “Não gosto do papai e da mamãe mais” e o mais comum “vou embora e não vou voltar mais”. Meu pai entrou deu uma batidinha na porta e entrou. Aparentemente ele tinha ouvido todas as minhas lamurias infantis e ficou todo sentido, quando na verdade eu era que estava sendo dramática.
— Elena, porque você não gosta mais do papai? – ele questionou enquanto sentava na cama.
E eu sem hesitar um momento disse de cara emburrada:
— Porque você e a mamãe só ama aquele chorão!
— Não é verdade, Elena. Sua mãe e eu te amamos muito.
— Tá mentindo! Não são papais da Elena! – e sem pensar muito, peguei uma boneca a atirei em meu pai, acertando suas pernas.
Quando levantou e se aproximou de mim, ainda estava com um enorme bico. Mesmo quando ele se abaixou e me aninhou em seu colo minha carranca infantil não se desfez.
— Elena... Onde aprendeu coisas assim? – perguntou enquanto me ajeitava em seu colo, me fazendo olha-lo. – É claro que somos seus pais, meu bem.
— Verdade?
— Sim, meu amor.
— Verdade verdadeira? – apertei meus pequenos dedinhos em sua camisa.
Meu pai riu antes de concordar novamente e beijar minha testa.
— Então... O papai comprou um presente para uma linda garotinha de cabelos marrom. Mas parece que essa garotinha não ama mais seu papai...
Meus olhos se arregalaram antes de eu começar a gritar afobadamente que amava meu pai, que por sua vez jogou a cabeça para trás e gargalhou.
— Me dá o meu presente papai!
— Tudo bem, querida. – ele me carregou até o lado de fora do quarto e se abaixou pegando um lindo ursinho de pelúcia com um vestido vermelho com bolinhas brancas e um laço perto da orelha direita. – Você gostou?
— Sim! É linda papai. – a ursinha, na verdade, era fofinha e macia.
— Elena? Você ama o papai de verdade?
Olhei para meu pai com a cabeça pendendo para o lado direito. Estava diferente e para mim na minha infantilidade, era impossível perceber que minhas palavras de criança magoaram meu pai de verdade.
— Elena ama o papai de verdade! Muitão! – passei meus pequenos braços em seu pescoço o abraçando com o máximo de força que uma criança de cinco poderia ter.
Parando pra pensar hoje, vejo que na minha cabeçinha de criança eu não podia aceitar que meus pais ainda me amavam mesmo tendo outro filho. Pensar naquela época me fez perceber o quão difícil deixei a situação dos meus pais que faziam de tudo para me mostrar o quanto eu era amada.
Sorri pensando na minha alegria naquele dia. Meu pai sempre fazendo de tudo para me mostrar o quanto era amada.
Pensar naquela lembrança me deu coragem para ir falar com ele. Tinha desapontado meu pai e precisa me desculpar sinceramente.
Deixando o banho para depois, fui até o seu escritório em passos lentos e quando bati na porta, ele demorou tanto pra responder que já ia me virando pra voltar para meu quarto com coração na mão.
— Entra. – sua voz estava firme e por um momento pensei que não deveria ter ido. Mas então quando?
O escritório não era extravagante – acho que nenhum cômodo da casa era, na verdade –, mas passava um ar reconfortante. Meu pai não decidiu ter um escritório em casa para que passasse medo em seus filhos, também não era um lugar terminantemente proibido. Era apenas mais um cômodo qualquer da casa e tudo que tínhamos que fazer era bater antes entrar.
A mesa amadeirada com um simples computador, algumas folhas espalhadas e dois quadros com fotos minha e do Jer. Uma simples cadeira de couro – nada de poltrona – atrás da mesa. E o melhor de tudo: várias estantes com prateleiras em fileiras na parede. Cheias de livros. De todos os gêneros. Dos mais antigos aos mais novos.
Meu pai estava sentando na cadeira de couro, olhando um livro ou foi o que pensei, porque quando me aproximei vi que na verdade era um álbum de fotografias. Na pagina tinha quatro fotos e em todas elas estavam eu e os irmãos Salvatore. Em uma das fotos eu estava com as mãos cobertas de tinta correndo atrás de um Damon todo limpinho e um Stefan com as mãos na barriga rindo. “Malandrinha” estava escrito abaixo da foto.
— Você sempre foi uma menina levada. Pelo menos até seus nove, dez anos. Adorava fazer brincadeiras que me deixavam com o coração na mão. Nesse dia, enquanto os meninos estavam todos limpos, você queria porque queria marcar tudo com suas mãozinhas cheias de tinta. Você dizia que estava marcando território como os cachorros faziam. – Eu ri com o que meu pai disse. Realmente, eu parecia um molequinho nas fotos. – Venha, sente aqui para ver as outras fotografias.
Dei a volta na mesa e sentei no braço da cadeira. Na mesa tinha na verdade quatro álbuns, contando com o que meu pai estava vendo.
— Nunca parei para ver esses álbuns. Na verdade, nem sabia da existência deles – Comentei. Porque eu realmente nunca tinha visto nenhum deles.
— Já imaginava. Todos estavam bem guardados, sem contar que ainda tem muito mais. – ele passou mais uma pagina do álbum e tinha mais quatro fotografias. Em uma delas estava eu, a Caroline e o Damon. Eu e a Car. parecíamos disputar um Damon, que estava sendo puxando por nós. Uma de cada lado. – Nesse tempo você e a Caroline viviam disputando a atenção do Damon.
— Sério? Eu não me lembro.
— Bom, você não parece se lembrar de muitas coisas, Elena. – olhei para ele quando disse isso. Pelo seu tom, parecia que ele queria dizer outra coisa.
— Como o que?
Ele finalmente me olhou, mas então voltou para as fotos.
— Nada.
Caímos em um silencio constrangedor. Lembrei que estava ali para me desculpar, mas de algum modo o clima ficou tenso para falar qualquer coisa. Meu pai não parecia nervoso, mas sim cansado.
— Eu me lembro de algo muito importante. Aconteceu há muito tempo, mas eu ainda me lembro.
Ele ficou em silencio por algum tempo, até que me olhou de modo questionador, mas nada disse. Então, continuei:
— Eu tinha cinco anos e estava toda emburrada por ciúmes de vocês com o Jeremy. Lembra? Você veio e conversou comigo. Disse que eu era sua filha e que você me amava muito. – olhei para ele e despejei tudo antes de ficar com medo – Tudo que eu disse naquele tempo era verdade, bem, a maior parte. Eu te amo muito, papai! E sinto muito por tudo que ouviu do diretor hoje. Não queria desaponta-lo.
Meu pai nada disse, ao invés disso, ele me abraçou. Fiquei com a cabeça deitada em seu ombro enquanto chorava e pedia desculpas constantemente.
— Shh... Querida, não chore. Você nunca me desapontou, Elena. Não me importo com o que o diretor disse, porque sei que você está passando por algo difícil. Estou triste, porque você não confia o bastante em seus pais, em mim, para contar o que tanto lhe deixa angustiada. Sou seu pai, meu bem. Tudo que quero é seu bem. – Com sua voz doce e seu abraço reconfortante, meu pai baniu todo meu medo e insegurança.
Ficamos em um silencio agradável até eu me acalmar e me afasta do meu pai. Quando o olhei, vi que estava sendo uma tola por não confiar em meus pais e dizer tudo que estava acontecendo. Meus pais eram as primeiras pessoas que eu mais podia confiar.
— É sobre o Damon e o Stefan, papai. Faz uma semana que o Stefan não vai para o colégio. Ele não atende meus telefonemas. E pra completar nem a Caroline está indo também. – meu pai segurou minha mão, enquanto olhava os álbuns e me escutava.
— As coisas na casa do Giu, não estão muito boas Elena. Desde que o Damon descobriu que sua mãe faleceu, se trancou em seu quarto e não sai para nada. Bom, até ele perceber que duas pessoas alem do seu e irmão, estavam vivendo ali. Ele não aceitou que a Liz morasse ali e que estivesse em um relacionamento com seu pai. Ela entendeu que para o Damon, era difícil chegar em casa e encontrar outra mulher, ao invés de sua mãe. Ela voltou para sua casa, mas Caroline foi ficar com o pai por alguns dias. – e então ele me olhou. Seus olhos cheios de tristeza. – Você tem que entender minha filha, que o Giu é um homem com muito dinheiro. Ele é um homem conhecido por ser um grande CEO. Quando o Damon desapareceu, varias reportagens dele saiu. E agora que ele voltou à mídia está em cima, inventando todo o tipo de historia sobre um garoto que sumiu por três anos. Por isso, Stefan não está indo ao colégio, pelo menos até as coisas se acalmarem. Enquanto o Damon, bom, ele já é mais complicado. Giu está com dificuldades de lidar com ele e veio me pedir ajuda. Damon está descontrolado e precisa de ajuda profissional. Recomendei o Alaric que é um ótimo psicólogo e é confiável.
— Ele vai fazer tratamento com o tio Ric? – não podia acreditar nisso. E não achava que o Damon aceitaria.
— É o que podemos tentar agora. Giu está hesitante em leva-lo em um psiquiatra, ele acha que talvez um psicólogo seja melhor para o Damon. Na verdade, ele só está com medo de levar o Damon para falar com um estranho e eu não o julgo. Damon desapareceu por três anos e voltou todo machucado. Eu como pai também ficaria com medo de deixar qualquer pessoa estranha perto do meu filho.
— Psiquiatra, papai? – Damon não era louco. Não precisava de ajuda psiquiátrica.
— Elena, não seja ignorante! – brigou. – Sabe muito bem que procurar ajuda com um psiquiatra não significa necessariamente que a pessoa é louca.
— Mas papai, não acho que o Damon precise de um tratamento tão radical!
— Elena, por favor, não seja tão intransigente. Você acha que aquilo teria acontecido com a Mel, se ela tivesse procurado ajuda? – questionou sobre a tia Mirella.
Eu não disse nada, porque contra aquilo eu não podia nem ao menos tentar argumentar. Por que eu achava sim, que se ela tivesse procurado ajuda ainda estaria viva.
— Filha, não é o fim do mundo. E depois, o Damon vai se consultar com um psicólogo. Só quero que entenda que se for o caso, sim, teremos que aceitar que o Damon vai precisar de ajuda mais especializada em seu caso. Vou pesquisar as melhores clinicas especializada em pedopsiquiatria, se for a caso.
— Desculpa papai. É que é estranho ver o Damon passar por tudo isso, se quando era criança era tão feliz. Só queria que tudo isso acabasse logo.
— Eu sei, querida. Mas por agora, vamos apenas pensar no melhor. O Damon voltou. O resto nós vamos resolver com calma. – ele fez menção de que ia levantar, então me afastei da cadeira. Meu pai pegou um dos alguns e me entregou o que estava intitulado: Damon e Elena. – Agora, vá para seu quarto e descanse, querida. Hoje à noite o Giu virá jantar aqui, assim como o Alaric e a Jenna.
Olhei para ele quando disse isso.
— Tia Jenna? – ele apenas assentiu e meu sorriso foi de orelha a orelha. Tia Jenna era a melhor tia que eu tinha, bem, na verdade era a única. Sempre que nos víamos, ela tinha que falar sobre garotos. Era como uma de minhas amigas do colégio.
Dei um beijo na bochecha do meu pai e sai correndo para meu quarto, com o álbum em meus braços. Tia Jenna me entenderia e teria a solução perfeita em relação ao Damon. Era o que eu tinha no momento.
Descobri porque o Stefan não estava indo para o colégio, mas não ajudou muito. Nunca pensei que sentiria tanta falta de um garoto irritante como ele, mas senti e muito. E eu não queria admitir, mas parte das minhas faltas era por não ter Stefan comigo. Eu queria muito vê-lo e rezava para que ele viesse jantar aqui em casa também. Mas não colocava muita certeza nisso, já que o papai só mencionou o tio Giuseppe.
Suspirei exageradamente. Eu precisava sair e me divertir com meus amigos, como em tempos eu não fazia.
Deitei na cama e larguei o álbum lá. Ainda não me sentia preparada para ver fotos minhas com o Damon. Vê-las só me faria pensar ainda mais no que tínhamos e que agora estava acabado. De algum modo, eu sabia que se vesse as fotos eu acabaria me machucando ainda mais. Então, ao invés de ver as fotografias, fechei meus olhos e tentei não pensar em nada. Limpar a mente.
Consegui, por alguns segundos. Porque me veio em mente o que meu pai tinha dito sobre as reportagens sobre o desaparecimento do Damon. Eu já tinha lido varias delas, quando o Damon desapareceu. Mas não tinha parado nem pensado para ver as atuais.
Peguei meu notebook e digitei no Google: Damon Salvatore. Não me surpreendi quando varias paginas apareceram. Não era novidade que o Damon fosse um assunto que a mídia adorava. O garoto primogênito dos Salvatore. As antigas reportagens se resumiam apenas nisso. Então, procurei ler algumas mais atuais.
Fuga ou sequestro?
“Damon Salvatore, o herdeiro e primogênito da aclamada família Salvatore, que ”desapareceu” um pouco depois de completar treze (13) anos, reapareceu na porta do casarão dos Salvatore depois de três anos sem ter qualquer noticia. A policia afirmou que não teve qualquer pista verdadeira sobre o onde o garoto poderia estar. Então onde um garoto de treze anos poderia estar? Essa foi à pergunta frequente durante três anos. E agora Damon Salvatore voltou. Então ficamos nos perguntando: O garoto foi sequestrado ou fugiu? Acreditamos na segunda opção. Vamos ser consciente. Durante três anos o Sr. e Sra. Salvatore não receberam qualquer negociação e não tiveram rastros sobre o filho. Acreditamos fielmente que o “sequestro” do herdeiro multimilionário não passou de um plano para chamar atenção. Essas crianças ricas não tem limites!”
Aquilo só podia ser brincadeira, certo? Não podia acreditar. Damon voltou para casa todo acabado e machucado. Suspeitava que tivesse sido torturado, porque os cortes em suas costas eram horríveis e desumanos. E essas pessoas que não tinham nada para fazer, além de inventar todo tipo de asneira, estavam insinuando idiotices sobre ele. Damon podia ter voltado diferente, mas eu podia afirmar com toda certeza que ele não do tipo que faria algo assim.
Raiva queimava em meio peito e eu queria gritar pra Deus e mundo que meu Damon era incapaz de fazer algo tão horrível. Queria poder saber a pessoa que fez uma postagem tão cruel para poder xingar e até mesmo agredi-la o máximo que pudesse.
Todas as outras reportagens seguiam o mesmo modo de pensar. Todas acusavam o menino rico de ter armado tudo apenas para chamar atenção. Meu Deus, Damon tinha apenas treze anos quando desapareceu! Ele nunca faria isso com seus pais e irmão.
Não consegui ler mais nenhuma ignorância daquelas pessoas e fechei o notebook com tanta força que corria o risco de ter quebrado a tela.
Deitei na cama e fechei meus olhos. Estava cansada demais para qualquer coisa, precisava dormir pra esquecer tudo. Não sonhar com nada, apenas um mar negro. Era disso que eu precisava no momento.Com um enorme bocejo e uma posição maravilhosa eu adormeci.
Quando acordei levei um susto por ter dormido tanto. Já era quase 19h00 e eu ainda não tinha nem me arrumado. Praticamente entrei em coma! Sinal de que estava muito cansada.
Fui correndo para o banheiro e pela primeira vez fiquei menos de vinte minutos no banho. Só me lavei e sai, sem curtir a água quente e relaxante.
Escolhi um vestido azul floral bem simples que batia um pouco acima dos joelhos. Pensei em usar um salto de tira vermelha, mas achei muito exagerado para um jantar em casa e optei por uma sandália baixa, mas de tira vermelha e fina. Não passei nenhuma maquiagem e só penteei o cabelo em um rabo de cavalo. Não estava com disposição de ficar bem arrumada.
Quando desci para a sala, meus pais já estavam lá conversando animadamente, enquanto Jer. estava com seu vicio: um PSP. Nem ao menos notou quando sentei ao lado dele!
— Descansou bastante, dorminhoca? – meu pai perguntou com um sorriso.
— Não o bastante. – respondi emburrada.
— Aposto que quando chegar a hora de dormir, você ainda vai dormir como se tivesse passado dias em claro. – dessa vez foi minha mãe pegando no meu pé.
— Vou mesmo e ainda vou aproveitar o final de semana pra dormir mais ainda.
Meus pais riram e balançaram a cabeça. Não sei do que estavam rindo, não tinha nada melhor que dormir!
A campainha tocou uma vez e antes que alguém pudesse chegar a porta, ela foi aberta abruptamente e um Stefan afobado entrou correndo em minha direção. Não pensei: soltei um gritinho alto e levantei toda atrapalhada para me jogar em seus braços.
Percebi naquele momento que senti mais falta do Stefan do que pensei. E apertei com tanta força que ele riu, gemendo palavras incoerentes.
Quando Stefan finalmente me soltou, percebi um figura que eu não esperava ali.
Diferente do Stefan que vestia uma calça jeans, uma blusa de botão verde dobrada até o cotovelo e calçava um mocassim; a pessoa na minha frente estava vestida toda de preto.
Damon olhou para nós com seus olhos gélidos sem expressão. Nenhum sorriso irônico, nem uma piada de mau gosto. Mas seus olhos não desgrudavam de nós e inconscientemente me afastei de seu irmão. E aqueles olhos cinza só se moveram de nós quando meu pai falou ele.
— Damon, que bom que você veio. – meu pai levantou e esperou que Damon a pegasse para um aperto educado.
Ele o fez, mas quando abriu a boca percebi que aquele jantar seria mais longo e difícil do que pensei.
— Guarde sua educação para outro, Sr. Grayson. Não estou aqui por livre e espontânea vontade. – E o sorriso que dei falta, apareceu.
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