Darcy Williamson nunca sonhou com casamento. Mas jurou, desde pequeno, que não se submeteria a um casamento por conveniência. E não pretendia que acontecesse, mas então Charlotte se envolveu com Diogo Uirapuru, e nessas horas há sempre um bom chantagista por perto.

Ainda não sabia como Susana ficou sabendo sobre o envolvimento de sua irmã com Uirapuru. Sabia apenas que estava na Inglaterra resolvendo negócios, e ao regressar ao Brasil a proposta da sócia de Julieta foi colocada na mesa: ou Darcy casava-se com ela, ou a notícia chegaria à Inglaterra tão rápido quanto se espalharia pelo Brasil.

E não havia nada que Darcy não fizesse por Charlotte, especialmente para preservar a honra da irmã e evitar tais humilhações. Casou-se, então, e agora vivia os piores três meses de sua vida. Não era apenas que não amava Susana. Sequer gostava dela. O irritava com qualquer comentário.

Passava a maior parte do dia fora de casa, e voltava tão tarde quanto conseguisse. Evitava qualquer refeição ao lado da esposa. Se havia algo de sorte em sua vida, era Susana não ter qualquer outro interesse nele que não fosse o financeiro. Não conseguiria imaginar qualquer contato físico com um ser humano tão desprezível.

E nessas estadias fora de casa, encontrara um lugar cativo no bar do Manuel, um português com um estabelecimento pequeno, mas honesto. E era dali que Darcy a observava passar, quase todos os dias, quase no mesmo horário. Vinha sempre com um sorriso tranquilo, cumprimentava quem estava no bar. As vezes parava para uma conversa rápida com Ernesto, um dos garçons.

Darcy aos poucos foi sabendo mais sobre a moça. Seu nome era Elisabeta, e era colunista de um dos grandes jornais da cidade. Suas colunas costumavam falar sobre grandes figuras femininas. Morava no cortiço ao final da rua com a irmã, Jane, e segundo Seu Manuel, era a mais velha de cinco irmãs.

Estava ali mais uma vez, a observando enquanto conversava com Ernesto sobre um jantar especial. Vestia seus costumeiros tons de vermelho, e Darcy tinha certeza de que, não fosse seu casamento com Susana, se apresentaria à ela de forma oficial, talvez a convidasse para um jantar ou um café.

Elisabeta Benedito sentiu-se observada, e não precisava de esforço para saber de onde vinha o olhar. A primeira vez que o viu foi um par de meses antes, e não pode deixar de observar aquele homem alto, forte, com olhos gentis. Mas ele tinha uma aliança na mão esquerda, e por isso, não trocava mais do que sorrisos de cumprimento.

Ernesto sabia pouco sobre ele. Seu nome era Darcy, era um inglês, filho de mãe brasileira, que cuidava dos negócios da família no Brasil. Ernesto não sabia que tipo de negócios, apenas que eram diversos. Nunca falava da esposa, nunca bebia demais, e a maior parte dos dias usava a mesa do bar como escritório.

Tinha curiosidade de saber mais sobre ele, o que o levava a trabalhar justo ali, e não em casa. Perguntava-se sobre a esposa dele, uma vez que era quase sempre o último cliente a ir embora, quando o bar estava prestes a fechar. E talvez o homem, Darcy, também sentisse curiosidade em relação à ela, pois sentia que ele a observava todas as vezes em que se encontravam.

Combinou os detalhes com Ernesto, e ao sair do bar ainda trocou um último olhar com Darcy, que sorriu gentilmente ao vê-la partir. Não esperava encontra-lo ali ainda um par de horas depois, quando retornou para o jantar, ao lado de Jane, Ema, Ludmila e Januário. Mas foi recebida com o mesmo sorriso.

A diferença daquela noite, para todos os outros dias, foi que, ao chegar, o grupo interrompeu a conversa de Darcy e Ernesto. E o italiano, que nunca perdia uma boa conversa, convidou Darcy para unir-se a eles. Depois de uma semana turbulenta em casa, Darcy apenas não encontrou motivos para recusar.

— Acredito que já conheça a todos de vista. Estes são Januário, Ludmila, Jane, minha noiva Ema, e por fim, Elisabeta.

Darcy cumprimentou a todos a medida em que era apresentado. Trocou um rápido aperto de mão com Elisabeta, pela primeira vez, e o breve contato foi suficiente para os dois sentirem a eletricidade entre seus corpos.

A conversa fluiu entre o grupo, e Darcy sentiu-se aliviado pela primeira vez em meses. Há tempos não ria de piadas bobas, ou tinha conversas banais. Aos poucos ficou sabendo sobre as vidas daquele grupo de amigos, suas motivações. Ouviu falar sobre o Vale do Café, e não demorou para fazer a conexão entre Jane e seu amigo Camilo, que surgiu sorridente mais tarde.

— E o senhor, senhor Darcy? Vejo que usa uma aliança, o que o senhor nos conta sobre sua vida? – Ema perguntou, indiscretamente.

E isso atraiu a atenção de Elisabeta, que trocava olhares furtivos com Darcy vez ou outra, que se divertia com os comentários inteligentes e sagazes, mas sem dúvidas não possuía a coragem necessária para abordar tal assunto, ainda que se corroesse pela curiosidade.

— A história de Darcy é uma tragédia. – Camilo disse, antes que Darcy pudesse começar, já um pouco alterado pelo álcool.

E porque ele, Darcy, também havia bebido um pouco mais do que o habitual, e sentia-se confortável diante daquelas pessoas, foi tomado pela vontade de contar a verdade.

— Como vê, senhorita Ema, sou casado. Administro os negócios de minha família, enquanto tento adiar ao máximo meu retorno para casa. – ele disse, arrancando olhares de curiosidade.

— O que Darcy é polido demais para dizer é que foi chantageado para casar-se. – Camilo explicou.

— E como podem imaginar, a chantagem de minha esposa impediu que eu desenvolvesse um afeto apropriado. – ele tentou sorrir.

— É por isso que você faz o bar de escritório? – Elisabeta perguntou, antes que pudesse conter-se.

— Culpado. – Darcy levantou os braços, divertido.

Outros continuaram a conversa, mas Elisabeta permaneceu pensativa. De repente notou que sentia pena de Darcy, e ao espiá-lo novamente, os olhos dele também a observavam com atenção. Aos poucos, como de costume, os amigos foram se espalhando pelo bar, os casais trocavam carinhos, e Darcy e Elisabeta viram-se sozinhos perto da saída do estabelecimento.

— Ernesto me disse que a senhorita é colunista no jornal local. – ele comentou, parando ao lado dela, que observava as estrelas. – Tenho lido suas colunas.

Elisabeta virou o rosto para ele, espantada.

— E o que tem achado?

— Gosto de sua visão de mundo, senhorita. – ele sorriu, encontrando os olhos dela, antes de virar-se novamente para as estrelas.

Ela quase deixou escapar a pergunta que queria fazer desde cedo, mas conteve-se no último segundo, não a tempo de impedir que Darcy percebesse sua intenção.

— A senhorita pode perguntar. – ele manteve o sorriso tranquilo. – Eu não prometo responder.

— Pois bem, me pergunto o que de tão forte sua esposa tem contra o senhor, a ponto de convencê-lo a casar-se. – Elisabeta não quis soar rude, apenas curiosa.

— Contra mim? Nada. – Darcy virou-se para ela, encontrando novamente seu olhar. – Mas possui informações sobre minha irmã, e não haveria nada que eu não faça para proteger Charlotte.

Elisabeta calou-se, e os dois continuaram observando o céu por mais algum tempo. Quando se despediram, Elisabeta viu nascer em seu coração uma ponta de admiração.

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E a admiração cresceu a medida que os dias passavam, e novos encontros aconteciam naquele mesmo bar. Agora cumprimentavam um ao outro e trocavam algumas palavras. Vez ou outra Darcy a convidara para tomar um café enquanto aguardava Ernesto, e todos os dias havia alguma opinião sobre a mais nova publicação de Elisabeta no jornal.

Os cafés se tornaram naturalmente diários, e suas discussões sobre o mundo se prolongavam por alguns minutos, e então uma hora inteira, e em seguida mais do que isso. Crescia neles um sentimento poderoso, e não viam o tempo passar quando estavam juntos.

Elisabeta ouviu os conselhos de Ernesto, Ema e de cada um de seus amigos. Mas a verdade é que não conseguia ver Darcy como um homem casado, principalmente agora que conhecia sua rotina e seus motivos para assinar aquele documento. E embora nenhum dos dois falasse sobre isso, estava transparente em seus olhares, no cuidado que tinham um com o outro e no sorriso que levavam após cada encontro.

Darcy evitava qualquer contato com Susana, e a mantinha feliz desde que tivesse acesso aos vestidos, jóias e bens materiais que a fortuna dos Williamson poderia oferecer. Chegava em casa na madrugada, e saia antes do sol nascer, e aos poucos as poucas horas de sono começaram a refletir em sua concentração.

Foi Ernesto quem sugeriu, em tom de brincadeira, que Darcy alugasse um quarto no cortiço. E embora pudesse pagar por um hotel, ou até mesmo uma segunda casa, foi ali, entre seus novos amigos e perto de Elisabeta que sentiu-se a vontade. Nos primeiros dias dormia por algumas horas, voltando para casa, apenas para sair de novo.

Mas, com o passar das semanas, suas visitas à mansão eram cada vez mais raras, e o pequeno quarto do cortiço passou a ser seu lar. Sua rotina com Elisabeta agora não envolvia apenas cafés ao entardecer. Darcy a acompanhava ao trabalho todas as manhãs, e antes que pudesse evitar, estava profundamente apaixonado por Elisabeta e tudo o que a envolvia.

— Ei. – ele ouviu a voz dela, em uma noite estrelada, no dia em que seu casamento completava seis meses.

Darcy tentou sorrir ao encontrar os olhos dela, enquanto ela o observava do alto da escada.

— Tudo bem? – Elisa o questionou, ao observar seu semblante cansado.

Darcy balançou a cabeça afirmativamente, mas havia algo em sua postura, os ombros tensos, as roupas desalinhadas. Elisabeta desceu as escadas, e os olhos aflitos dele encontraram os dela. Ela aproximou-se para abraça-lo, como sempre faziam, quando fingiam que tinham sentimentos fraternos um pelo outro. Mas Darcy deu um passo atrás.

— Elisa, não. Não hoje. – sua voz saiu entrecortada.

— O que aconteceu? – ela perguntou, o sentimento de rejeição mortificando seu coração.

— Não, meu Deus, não. – ele suspirou, ao ver a sombra que passou pelos olhos dela. – É justamente o contrário.

As palavras dele não faziam sentido, mas seu olhar dizia tantas coisas, tantas coisas que eles evitavam dizer.

— Eu não tenho forças para resistir hoje. – Darcy tentou sorrir.

Elisabeta fechou os olhos, as palavras dele acariciando sua alma. Aqueles sentimentos tão claros, que diziam tantas vezes em seus olhares e gestos. Os pedidos silenciosos de desculpas, as vezes em que o abraço demorava mais do que o normal, apenas porque queriam sentir um ao outro.

Ela assentiu, porque respeitava o casamento de Darcy, ao menos o quanto conseguia. O amava, e não havia dúvida em seu coração que era correspondida, mas a barreira física nunca fora quebrada. E Darcy não o faria, porque não seria capaz de larga-la outra vez, e Elisabeta merecia mais, tão mais.

Elisabeta virou-se para retornar ao seu quarto, mas a voz dele a chamou, baixo, quase sussurrado.

— Fica. – Darcy pediu.

Ela virou-se para ele, mais do que nunca desejando tocá-lo, desejando arrancar aquele olhar perdido. E em um impulso, no pátio vazio do cortiço, o fez. Foram poucos passos, e sua mão tocou o rosto de Darcy, fazendo com que ele fechasse os olhos, prendendo a respiração. Elisabeta acariciou o rosto dele, e Darcy levou sua própria mão a dela, puxando sua palma para um beijo leve.

E era mais, muito mais do que qualquer toque. Porque Darcy parecia tão frágil, tão a ponto de quebrar aquela barreira, mas a dignidade o impedia. A dele, a dela. Mas o beijo dele em sua mão quebrou qualquer restrição que ela pudesse sentir. Darcy apenas sentiu quando os lábios de Elisabeta tocaram os seus, de leve.

Elisabeta deu um passo para trás, surpresa, e ao mesmo tempo completamente certa do que queria. E queria aquele inglês capaz de sacrificar sua felicidade pela honra da irmã, e que mesmo abominando a mulher com quem estava casado, era incapaz de um ato de infidelidade.

Mas Elisabeta mal teve tempo de apoiar-se antes que os olhos dele se abrissem, e onde antes havia angústia, agora havia fogo. E o enlace dele em sua cintura, fazendo seus corpos se chocarem, fez com que prendesse a respiração. Mas os olhos dele faziam as perguntas, e pediam as desculpas, e apesar de sua dificuldade de raciocinar, os dela foram capazes de responder.

De repente os últimos três meses explodiram. Seus olhares, toques roubados, todas as vezes em que evitaram aquele momento. A boca de Darcy capturou a dela em um beijo urgente, molhado, apaixonado. E Elisabeta o correspondeu com entrega, mordidas e amor.

O toque inseguro dela se tornou mais corajoso a medida que o beijo fazia seus corpos esquentarem, perderem a noção do tempo, da realidade. Nada poderia pará-los naquela noite, naquele beijo. Nada poderia fazê-los voltar atrás, porque não havia dúvida entre eles que jamais esqueceriam aquele momento.

No beijo de Darcy, Elisabeta percebeu que tê-lo era mais importante do que qualquer papel. Que não se importava com o casamento, a esposa de mentira, desde que Darcy voltasse para ela todos os dias. E ele já o fazia, muito antes daquele beijo. Nos pães doces pela manhã, nas leituras de seus rascunhos, ao pedir sua opinião quanto ao trabalho. Voltava para ela quando a abraçava e beijava sua testa antes de ir para seu quarto, e na forma como mencionava todas as vezes em que encontrava Susana.

Darcy era dela, desde o primeiro olhar, desde o primeiro sorriso gentil. E agora era em seu toque firme, seu beijo possessivo. Quando Elisabeta se afastou, tentando buscar o ar, Darcy tentou pedir desculpas. Queria pedir desculpas, mas não era capaz de formar as palavras. Era incapaz de fingir arrependimento pela única coisa que parecia certa em meio a confusão que Susana transformara sua vida.

Por isso segurou a mão de Elisabeta, e a guiou para o quarto que alugava no cortiço, onde passava quase todas as noites sozinho, mas pensando nela. Ele fechou a porta com cuidado, e sorriu para Elisabeta, que sorriu de volta, se aproximando para beijá-lo novamente. Mas Darcy deu um passo atrás, pediu um segundo de espera. E tocou profundamente o coração de Elisabeta quando Darcy retirou sua aliança, jogando-a no fundo de uma gaveta.

— Eu queria oferecer mais, Elisabeta. – ele voltou a se aproximar, a puxando para seus braços. – Mas por enquanto eu só posso oferecer o meu amor.

— É tudo o que eu preciso, Darcy. – ela sorriu, beijando-o de leve. – Você é tudo o que eu preciso.

Seus lábios se encontraram novamente, em um beijo lento, sensual, exigente, que aos poucos incendiou suas almas, e naquele quarto deixaram suas respirações ofegantes, os toques urgentes, as juras de amor sussurradas em meio a gemidos de prazer. Darcy sorriu ao leva-la ao prazer e segui-la naquela noite, tantas vezes quanto seus corpos aguentaram.

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